Atletas. E também inteligentes


A ciência ajuda a quebrar preconceitos ao revelar que aptidão para esportes não é incompatível com habilidade cognitiva: hoje se sabe que atividade física é fundamental para aumentar os níveis das proteínas que constituem a infraestrutura neural necessária para a aprendizagem.

Revista Scientific American - por Steve Ayan

Durante muito tempo persistiu a ideia de que o mundo se dividia entre os esportistas - que malhavam o corpo e negligenciavam a mente - e os intelectualmente privilegiados - em geral avessos aos treinos. Ape­sar dos frequentes relatos de que exercícios regulares são benéficos para o cérebro adulto, a ideia de que quem se destaca na atividade física tem menos inclinação para atividades intelectuais ainda permanece entre pais e até entre educadores. O artilheiro do time da escola é visto quase como contra ponto do campeão da olimpíada de matemática, como se aptidão física se opusesse a cognição (e vice-versa). Para muitos adultos, deixar as crianças correr ou jogar bola pode parecer uma espécie de alienação ao mundo do aprendizado ou, na melhor das hipóteses, mera diversão.

É comum que desde a pré-escola os professores estimulem as crianças a ficar sentadas em vez de se movimentar - aliás, quanto mais quietos e "comportados" forem os pequenos, mais fácil parece ser controlá-Ios. Muitas escolas chegaram a eliminar aulas de educação física para dar mais espaço para áreas básicas do ensino fundamental como leitura, escrita e matemática. E quando as notas dos alunos em provas padronizadas (como Fuvest e Enem) são supervalorizadas pelos pais e pelas instituições, educadores podem se sentir pressionados a incentivar os alunos para atividades intelectuais - afastando-os das práticas esportivas.

Pesquisas sugerem, no entanto, que essa for­ma de pensar é equivocada. O tempo gasto em passeios ao ar livre, corrida ou participação em esportes coletivos ajuda as crianças a se concen­trar e melhora seu desempenho em sala de aula. Estudos recentes relacionaram o desempenho cognitivo dos alunos com parâmetros de ativida­des físicas como capacidade aeróbica (cardíaca, pulmonar e dos vasos sanguíneos), de responder a exercícios físicos intensivos e com o índice de massa corporal (IMC), que associa peso a altura. E o mais importante: envolver as crianças em programas de exercícios parece ajudá-Ias a se sair bem na escola, já que os treinos físicos expandem habilidades mentais, estimulando a formação de novas conexões entre as células cerebrais.

• Da agilidade à competência

Em adultos, exercícios aeróbicos regulares estão associados à melhoria da capacidade intelectual e, com o passar do tempo, a uma taxa mais baixa de declínio cognitivo - e até mesmo à redução no risco de demência. Também há muito tempo a psicologia do desenvolvimento sugere que entre 2 e 5 anos existe forte correlação entre crescimento físico e mental. Nessa idade é importante incentivar a habilidade de manusear brinquedos e objetos do cotidiano. Nessa faixa etária é desenvolvida a base para o conhecimento do mundo real. Ao montarem blocos ou mani­pularem ferramentas as crianças aprendem leis básicas da física: quando a pilha de peças está torta, por exemplo, a torre desaba; se deixar cair um martelo no pé ou prender o dedo na gaveta a pessoa sentirá dor.

Embora os benefícios cognitivos dessa manipulação sejam bem conhecidos, somente na última década os cientistas começaram a perceber correlação mais estreita entre atividade física mais vigorosa e habilidades intelectuais em crianças. a psicólogo Charles H. Hillman, da Universidade de Illinois, e seus colegas examina­ram resultados de pesquisas sobre exercícios e cognição, tomando por base estudos publicados desde a década de 90. O trabalho incluiu 12 inves­tigações sobre crianças e adolescentes, a maioria mostrando que altos níveis de aptidão física (mas não de força muscular ou flexibilidade) estavam vinculados ao melhor desempenho escolar. Em outras palavras, quanto mais fisicamente apto o jovem, maior a probabilidade de ele obter boas notas - uma relação que vale desde a pré-escola até a universidade.

O grupo liderado pela pesquisadora da área da educação Daria M. Castelli, na época também da Universidade de IlIinois, avaliou a aptidão física de 259 alunos da 3ª à 5ª série pelo IMC e solicitou a cada um que realizasse uma prova de corrida e um teste de força muscular. Os pesqui­sadores observaram que o desempenho médio nos testes de matemática e de leitura estava diretamente relacionado à capacidade aeróbica dos pequenos voluntários, isto é, à distância que conseguiam correr.

O grupo liderado pelo neurocientista Hans Georg Kuhn, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, descobriu recentemente a relação entre capacidade aeróbica e coeficiente de inteligência (QI) em adolescentes. Em estudo publicado em novembro de 2009, os cientistas analisaram o desempenho de mais de 1 milhão de jovens do sexo masculino em testes de aptidão física e de inteligência realizados quando se alistaram no serviço militar, aos 18 anos. Mais uma vez, os resultados indicaram que, de maneira geral, a capacidade cardiovascular (mas não a força muscular) estava vinculada à inteligência. E depois de explorar outras bases de dados na Suécia, os pesquisadores descobriram que uma boa condição física aos 18 anos estava relacionada a um alto nível de erudiç& ão no decorrer da vida.

Em 2010, o psicólogo Christian Roberts, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e seus colaboradores reforçaram a ideia de que o condicionamento físico e o sucesso escolar andam juntos. Os pesquisadores testaram a competência atlética de 1.989 alunos da 5ª, 7ª e 9ª séries de escolas da Califórnia medindo a velocidade com que conseguiam correr (ou caminhar) 1,5 km e seu IMC. Inter-relacionando essas variáveis de aptidão física com as notas dos alunos em provas padronizadas, os pesqui­sadores constataram que os estudantes mais lentos, cujos tempos de corrida/caminhada foram superiores aos padrões da Califórnia - ou que apresentavam IMCs acima das diretrizes nacionais -, tiraram notas mais baixas nas pro­vas de matemática, leitura e linguagem que os alunos com níveis de aptidão física mais altos, mesmo entre crianças cujos pais tinham nível de escolaridade similar.

• Linguagem e futebol 

Pesquisadores alertam, porém, que embora as correlações entre exercício e desempenho escolar sejam fortes, elas não significam necessariamen­te que a atividade física leva ao aprimoramento cognitivo: elas podem simplesmente indicar que os pais que estimulam os filhos a praticar esportes são também aqueles que exigem deles melhor desempenho escolar. Mais que serem atletas, ter pais comprometidos pode explicar o desempenho escolar dos filhos.

Para determinar se os exercícios físicos provocam um efeito direto na capacidade de raciocínio, foram realizados estudos de inter­venção nos quais os pesquisadores adicionaram práticas esportivas às atividades diárias das crianças e avaliaram seu impacto na aprendiza­gem, memória e capacidade de concentração. Várias dessas pesquisas revelaram que um condicionamento físico adicional pode melhorar as notas nas provas e o desempenho escolar em geral. Em 2008, o cinesiologista (especialista na análise dos movimentos do corpo humano) Phillip D. Tomporowski, da Universidade da Geórgia, analisou resultados de 12 grupos de pesquisa que inscreveram crianças em programas de exercícios que duravam de 20 dias a seis meses. Tomporowksi concluiu que aumentar a movimentação das crianças pode estimular a inteligência, melhorar a criatividade e habilidades de planejamento e aperfeiçoar o desempenho em matemática e leitura (com base em medidas-padrão desses caracteres e habilidades).

Num trabalho de revisão de 17 estudos (7 deles envolviam maior participação de meninos e meninas em exercícios), os pesquisadores da área da saúde François Trudeau, da Universidade de Québec, e Roy J. Shephard, da Universidade de Toronto, ambas no Canadá, concluíram que incluir até uma hora de atividades físicas por dia na grade curricular não prejudica as metas escolares. Ao contrário: o aumento de exercícios muitas vezes melhora o desempenho escolar, apesar do tempo descontado das aulas de leitura, linguagem e matemática.

Alguns pesquisadores sugerem que exercícios físicos podem ser benéficos para o desempenho escolar, basicamente, por estimular um conjunto específico de funções cognitivas. Muitas delas en­contram-se sob a denominação geral de funções executivas - capacidade de planejar e conduzir ações. No âmbito da sala de aula, habilidades executivas ajudam os alunos a prestar atenção, decidir quando tomar nota ou fazer perguntas e organizar o dever de casa. Acredita-se também que participar de atividades físicas expande a memória de trabalho (capacidade de gravar itens como números e palavras durante um período suficiente para manipulá-Ios mentalmente). Es­tudos têm mostrado que os exercícios produzem um efeito menor - ou em alguns casos absolu­tamente nenhum - em habilidades perceptivas como reconhecimento de objetos, fluência em idiomas e capacidade de visualizar e manipular mentalmente objetos ou espaços.

Porém, as crianças precisam ultrapassar um limite mínimo de esforço para poder aproveitar as vantagens dos exercícios físicos. A psicóloga Catherine L. Davis, pesquisadora da Universida­de da Geórgia, juntamente com Tomporowski e colegas inscreveram aleatoriamente 94 meninos e meninas acima do peso entre 7 e 11 anos num programa de atividade por períodos de 20 ou 40 minutos de exercícios aeróbicos como correr e pular corda, cinco vezes por semana. Antes e depois de 15 semanas do programa, os voluntários realizaram uma prova padronizada que media sua capacidade de planejar, prestar atenção e processar informação. As crianças que estavam no programa de 40 minutos melhoraram significativamente no item plane­jamento, mas as inscritas no programa de 20 minutos - como aquelas que não se envolveram em nenhuma atividade - não melhoraram em nenhum item avaliado.

• Arquitetura da memória

Os cientistas ainda não sabem exatamente quanto e que tipo de exercício aeróbico - esportes em grupo, corridas ou andar de bicicleta - afeta mais o desenvolvimento intelectual. Os estudos diferem muito nos tipos de ati­vidade física que medem ou solicitam, e pode ser que qualquer tipo de atividade que estimule o coração seja válido. Apa­rentemente, exercícios que envolvem esportes organizados, prática de jogos em equipe e de estratégias de jogo podem ser responsáveis por alguns efeitos em funções executivas. Em geral, crianças na extremidade inferior da escala de desem­penho tanto físico quanto cognitivo têm maior probabilidade de se beneficiar da prática de exercícios que aquelas que são razoavelmente competentes em sala de aula e na quadra.

Além dos exercícios regulares, curtos períodos de movimentação podem me­lhorar a concentração das crianças. Há alguns anos, o pesquisador em educação MatthewT. Mahar, da Universidade da Ca­rolina do Norte, relatou ter concedido a 243 alunos de 3ª e 4ª séries uma pausa de 10 a 20 minutos durante o período de aulas. Os professores pediram às crianças que se levantassem e praticassem atividades agitadas como bater palmas, saltar, bater os pés e fa­zer outros movimentos. A prática foi mantida por um período médio de seis semanas. Avaliadores treinados observaram os pequenos antes, durante e depois medindo seu comportamento durante atividades escolares como concentrar-se nas instruções do professor e participar de discussões em classe. Os pesquisadores descobriram que a participação no programa tornou os estudantes em média 8% mais atentos &agr tos períodos de movimentação podem me­lhorar a concentração das crianças. Há alguns anos, o pesquisador em educação MatthewT. Mahar, da Universidade da Ca­rolina do Norte, relatou ter concedido a 243 alunos de 3ª e 4ª séries uma pausa de 10 a 20 minutos durante o período de aulas. Os professores pediram às crianças que se levantassem e praticassem atividades agitadas como bater palmas, saltar, bater os pés e fa­zer outros movimentos. A prática foi mantida por um período médio de seis semanas. Avaliadores treinados observaram os pequenos antes, durante e depois medindo seu comportamento durante atividades escolares como concentrar-se nas instruções do professor e participar de discussões em classe. Os pesquisadores descobriram que a participação no programa tornou os estudantes em média 8% mais atentos às tarefas durante as explicações. Alunos mais distraídos melhoraram os períodos de atenção em 20%. Assim, não só mudanças permanentes na aptidão física favorece­ram o desempenho, mas simplesmente o fato de dar às crianças a oportunidade de se movimentar durante o período de aulas melhorou sua capaci­dade de aprendizagem.

Embora os cientistas ainda não saibam exa­tamente por que os exercícios físicos beneficiam o cérebro, estudos com animais sugerem que a atividade física pode estimular o crescimento de neurônios em regiões do cérebro importantes para memória e funções executivas. Investiga­ções realizadas nos anos 70 mostraram que ratos criados em gaiolas espaçosas dotadas de brinquedos, galhos para escalar e outros objetos para estimulá-Ios física e mental­mente desenvolveram um córtex cerebral mais espesso. Essa é justamente a área do cérebro que controla raciocínios mais ela­borados e tomadas de decisão (entre várias outras funções). Ratos que apresentaram essas mudanças cerebrais tiveram melhor desempenho em tarefas de memorização que outros roedores, criados em gaiolas me­nores e vazias. Os animais desses estudos foram beneficiados tanto pelo esforço físico como pelo estímulo mental. No entanto, não há evidências sobre qual desses fatores contribuiu (ou se ambos contribuíram) para as mudanças cognitivas.

Nos últimos anos, os cientistas vêm des­cobrindo substâncias químicas específicas no cérebro que podem melhorar a aptidão mental. Entre outros grupos de pesquisa, o da neurocien­tista Henriette van Praag, do Instituto Nacional
do Envelhecimento em Baltimore, descobriu que os exercícios físicos aumentam a quantidade de proteínas específicas que ajudam a construir a infraestrutura do cérebro para aprendizagem e memória em camundongos. Essas moléculas incluem o fator de crescimento endotelial (VEGF, na sigla em inglês), que provê o crescimento dos vasos sanguíneos, e o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF, na sigla em inglês), que faci­lita o desenvolvimento de longos filamentos dos neurônios chamados axônios, que ligam uma célula à outra. Essa carpintaria biológica pode criar ou fortalecer grandes redes do cérebro que processam informação.

Especificamente, a atividade física pode induzir essa construção numa parte do hi­pocampo conhecida como giro denteado. O hipocampo geralmente está ligado a um painel de comando no cérebro que funciona em ope­rações de memória, mantendo a unidade dos pensamentos para retê-Ios na mente. Num es­tudo publicado em 2008, o neurobiólogo Shu-jie Lou e seus colegas da Universidade de Xangai treinaram ratos de 5 semanas, considerados jovens, para correr numa roda de exercícios na gaiola. (Um animal saudável pode correr facilmente vários quilômetros por dia.) Depois de uma semana, as células cerebrais no girodenteado desses ratos continham níveis mais altos de VEG F e BDN F e de outras moléculas que promovem o crescimento dos neurônios que células de áreas comparáveis do cérebro de ratos que não tinham corrido. Contudo, correr em excesso pode ser contraproducente: depois de correr na roda de exercício várias horas por dia durante uma semana, a concentração de fatores de crescimento neural no hipocampo diminuiu. Por isso, cargas extremas de exercícios podem ser menos estimulantes intelectualmen­te que atividade física mais moderada.

Algumas evidências sugerem que, também em humanos, os fatores de crescimento neural aumentam depois de exercícios aeróbicos. A psiquiatra Cindy Law, da Universidade de Hong Kong, e colaboradores descobriram que subir escadas durante apenas 15 minutos aumen­tava os níveis de BDNF no soro sanguíneo de 16 voluntários. (Esses níveis normalmente são reduzidos em síndromes psiquiátricas como de­pressão, nas quais o crescimento e a reconstru­ção neural também são retardados, sugerindo que níveis no soro correspondem a níveis no cérebro.) Evidências indicam ainda que, exata­mente como acontece com ratos, altas cargas de exercícios pesados podem ter o efeito oposto. Em outro estudo menos abrangente, realizado em 2008, a equipe do epidemiologista Shuzo Kumagai, da Universidade Kyushu, no Japão, observou uma diminuição na concentração de BDN F em 12 homens após praticarem ativi­dades físicas, como corrida de longa distância ou partidas de tênis, por mais de 16 horas por semana durante mais de três anos, em relação a 14 homens sedentários.

Naturalmente, nem todas as crianças po­dem ser estrelas do esporte, e para ser bem­ sucedidas na escola precisam fazer os deveres de casa em vez de correr por horas seguidas. Mas estimulá-Ias a brincar, saltar e correr, principalmente quando estão com a agenda mais lotada, pode ser muito produtivo. Além de mais divertido.

Para saber mais

Mentes em movimento. Steve Ayan. Mente e Cérebro n° 211, págs, 36-45, agosto de 2010.
Exercise and the brain: something to chew on. H. van Praag, em Trends in Neuro­science, vol. 32, n° 5, págs. 283-290, 2009.
Exercise and children"s in­telligence, cognition, and academic achievement. P. D. Tomporowski et al., em Edu­cational Psychology Review, vol. 20, n? 2, págs. 111-131, junho de 2008.
Be smart, exercise your heart: exercise effects on brain and cognition. C. H. Hillman, K.I. Erickson e A. F. Kramer, em Nature Reviews Neuroscience, vol. 9, n° 1, págs. 58-65, janeiro de 2008.

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