Atrasados e sonolentos


A puberdade retarda os ritmos biológicos, mas as escolas insistem em fazer os jovens acordar cedo. O impasse prejudica o aprendizado.

Revista Scientific American - por Fernando Mazzilli Louzada

Poucos sabem que as idéias do filósofo inglês John Locke (1632-1704), mais conhecido por suas obras sobre o direito natural do homem à liberdade e à propriedade, ainda estão presentes no pensamento pedagógico contemporâneo. No livro Algumas considerações sobre educação, de 1693, a parte dedicada ao sono é um alerta pioneiro para o fato de que o tema é de interesse não apenas médico, mas também pedagógico. Locke argumenta que não há nada mais importante para a saúde e o desenvolvimento que o sono, e faz recomendações para que se ensinem bons hábitos às crianças. Segundo o filósofo, elas deveriam ser acostumadas, desde pequenas, a dormir e acordar cedo, evitando permanecer despertas em momentos "insalubres e inseguros", isto é, depois das 8 horas da noite.

Mais de três séculos depois, a releitura dessa obra mostra que Locke estava parcialmente correto. Se por um lado ele reconhecia a importância do sono para o aprendizado - algo que a ciência começou a fazer apenas nas últimas décadas -, por outro estava equivocado em relação à forma de modificar os hábitos de dormir das crianças. O filósofo compreendia o cérebro como uma tábula rasa sobre a qual a experiência seria escrita. Assim, a imposição de horários de deitar e levantar não seria uma tarefa difícil, bastando boas doses de disciplina aplicadas pelos pais. Parece que não é bem assim. No livro Tábula rasa (Companhia das Letras, 2004), o psicólogo americano Steven Pinker mostra uma série de evidências que refutam a concepção de Locke e apontam características inatas do comportamento humano.

Pesquisas realizadas nos últimos 50 anos deixam claro que já nascemos com um sistema de temporização, ou relógios biológicos, que ordena inúmeras funções do organismo e diversos comportamentos, inclusive a alternância entre os estados de sono e vigília, ritmo biológico conhecido como ciclo vigília-sono.

Os ritmos biológicos passam por uma série de transformações ao longo da vida. E as alterações que se processam na puberdade, momento conturbado tanto do ponto de vista orgânico como psicológico, entram em conflito direto com a organização das escolas e com seu objetivo maior: o aprendizado. Não que os adolescentes precisem dormir mais; o que ocorre nesse período marcado por uma verdadeira revolução hormonal é um atraso dos ritmos biológicos, entre eles o ciclo vigília-sono, o que se expressa numa tendência do adolescente a dormir e acordar mais tarde. No entanto, como a primeira aula geralmente começa entre 7 e 8 horas da manhã, os estudantes sofrem privação parcial de sono nos dias letivos. John Locke diria que o problema é a falta de limites impostos aos adolescentes, e não raro ouvimos interpretações semelhantes atualmente. A questão, no entanto, é um pouco mais complexa.

  • Mudança hormonalAs dificuldades dos jovens para sair da cama começaram a ser estudadas na década de 80 pela psicóloga Mary Carskadon, que na época trabalhava no laboratório de William Dement, da Universidade Stanford - um dos centros pioneiros na pesquisa do sono. Juntos eles iniciaram uma série de estudos para avaliação do ciclo vigília-sono e da sonolência de adolescentes. Um deles, publicado em 1993, mostrou que o atraso nos horários de dormir era maior nos indivíduos em estágios mais adiantados da puberdade, também conhecidos como estágios Tanner.

    No mesmo ano, a bióloga brasileira Mirian Andrade apresentou resultados semelhantes na sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade de São Paulo (USP). Os trabalhos independentes de Carskadon, hoje na Universidade Brown, em Providence, e de Andrade, atualmente na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Assis, revelaram que as mudanças hormonais da puberdade alteram de forma significativa a expressão do ciclo vigília-sono, resultando no fenômeno hoje conhecido como síndrome da fase atrasada do sono ou simplesmente atraso de fase.

      Ritmos da Terra, ritmos da vida

      A alternância entre e dia e noite constitui um ciclo geofísico já existente muito antes do surgimento da vida na Terra. Logo, é razoável supor que os seres que sobreviveram nesse ambiente estão adaptados ao ciclo claro-escuro. Além disso, a previsibilidade da mudança permitiu que os organismos desenvolvessem mecanismos bioquímicos e fisiológicos que antecipam essa recorrência do ambiente algo de grande valor adaptativo que explica as origens da ritmicidade biológica.

      - Marcadores do tempo biológico

      O caráter endógeno dos ritmos biológicos pressupõe a existência de osciladores interrnos, mecanismos capazes de fazer a marcação temporal do organismo e passíveis de sincronização com eventos recorrentes do meio. Esses mecanismos de temporização são genericaamente conhecidos como relógios biológicos. Nos mamíferos, as principais estruturas reguladoras dos ritmos circadianos, isto é, dos ritmos que se repetem com periodicidade de cerca de 24 horas, são os núcleos supraquiasmáticos (NSQ). Consistem num par de aglomerados com cerca de 10 mil neurônios cada, situados na região anterior e ventral do hipotálamo, próximo ao quiasma óptico.

      - Sincronização e livre curso

      Em condições normais, ou seja, com o organismo (adulto) exposto ao ciclo claro-escuro ambiental, os ritmos circadianos se expressam com periodicidade de exatas 24 horas. Mas se isolarmos esse organismo num ambiente fechado com iluminação constante, , ele passará a expressar o chamado período endógeno, que pode ser ligeiramente maior ou menor que 24 horas, dependendo do indivíduo. Nessa situação de isolamento das pistas ambientais - que evidentemente só é possível em condições experimentais - diz-se que o ritmo está em livre curso. Uma vez exposto ao ciclo claro-escuro, os ritmos circadianos voltam a se sincronizar com o ambiente.

      Sabe-se que pessoas com períodos endógenos inferiores a 24 horas têm tendência a hábitos matutinos, ou seja, sentem-se melhor dormindo e acordando mais cedo. Ao contrário, aquelas com período endógeno superior a 24 horas preferem hábitos mais vespertinos, logo, deitam-se e levantam-se mais tarde. Essa variabilidade individual na alocação do sono, que remete ao período endógeno circadiano, parece ser determinada por fatores genéticos.

      - Possíveis causas causas do atraso de fase

      Ainda não se sabe o que faz o organismo atrasar seus ritmos circadianos durante a puberdade. Uma das hipóteses sugere uma alteração da sensibilidade dos relógios biológicos à luz, o que resultaria numa mudança da sincronização dos ritmos endógenos ao ciclo claro-escuro. Outra possibilidade seria um aumento do período endógeno dos ritmos circadianos nessa fase da vida, o que tornaria os jovens mais vespertinos, razão pela qual a hostilidade com o despertador é exacerbada. Essa idéia é compatível com as observações feitas durante as férias escolares. Sem a imposição de horários rígidos, os adolescentes tendem a expressar o ciclo vigília-sono com periodicidade ligeiramente superior a 24 horas, o que na prática significa pequenos atrasos todos os dias, até o ponto de trocar o dia pela noite, em muitos casos. Estímulos ambientais que incentivem a vigília, como interação social, televisão, computador, entre outros, intensificam a tendência.

  • Videogame e tvObviamente, não se pode descartar a influência de fatores socioculturais na expressão do atraso de fase da adolescência. De fato, pesquisas realizadas no Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos da USP mostram que adolescentes urbanos tendem a dormir e acordar mais tarde do que os que vivem em zonas rurais com energia elétrica. Estes, por sua vez, dormem e acordam mais tarde que os que moram em lugares aonde a invenção de Thomas Edison ainda não chegou.

    Esses resultados não contradizem o atraso de fase associado à puberdade; ao contrário, nos ajudam a compreender por que essa questão vem se tornando mais problemática para pais e educadores nas últimas décadas. As novas tecnologias de entretenimento, como a televisão, o computador e o videogame, estimulam o cérebro de forma muito eficiennte, prolongando a duração da vigília e reforçando a tendência já existente de atrasar o sono associada à maturação sexual do organismo. Mas qual seria o significado adaptativo do atraso de fase na adolescência para a evolução da espécie? Uma possível interpretação estaria relacionada ao início da vida reprodutiva. Modificar as fases de sono e vigília poderia ser uma estratégia dos mais jovens para evitar a competição com os adultos dominantes e assim aumentar suas chances de procriar.

      Definições de adolescência e puberdade

      A adolescência é um período de transição física, psicológica e social que separa a infância da idade adulta. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa etapa compreende a faixa dos 10 aos 19 anos, mas seus limites estão sujeitos a influências culturais e vêm sendo cada vez mais estendidos. Às transformações físicas relacionadas com a maturação sexual do organismo dá-se o nome de puberdade, um processo neuroendócrino que torna o organismo apto para a reprodução. A puberdade é dividida em cinco fases, chamadas estágios Tanner, em homenagem a James Mourilyan Tanner, pediatra britânico que criou a classificação na década de 60. Nas meninas, os estágios Tanner levam em conta o tamanho e o formato das mamas e a distribuição dos pêlos pubianos; nos meninos, são analisados tamanho e formato do pênis e do escroto e desenvolvimento dos pêlos pubianos.

  • DesempenhoIndependentemente de seu valor adaptativo para a evolução humana, o atraso de fase afeta negativamente o desempenho escolar dos adolescentes na medida em que colabora para a privação parcial de sono, que por sua vez compromete a aprendizagem de duas formas. De um lado, a sonolência diurna reduz os níveis de atenção, logo, diminui a prontidão para a aquisição de novos conhecimentos; de outro, o armazenamento do que foi aprendido também é prejudicado.

    São bem conhecidas as relações entre memória e sono, particularmente uma de suas fases, chamadas sono paradoxal ou REM. É nesse momento que ocorre a maior parte dos sonhos, essenciais para a consolidação das experiências da vigília. Estudos mais recentes mostram que também o sono de ondas lentas é importante para esse processo. Assim, parece sem sentido arrancar os jovens da cama tão cedo se as conseqüências disso os tornam menos aptos para aprender.

    Em alguns países, a contradição suscita discussões pedagógicas. Algumas escolas dos Estados Unidos e de Israel atrasaram o horário de início das aulas e observaram melhora no desempenho dos jovens. Entretanto, a medida, aparentemente simples, é alvo de resistência na comunidade escolar, a começar pelos pais, que reclamam da incompatibilidade com seus horários de trabalho. No Brasil, os professores também discordam porque a mudança prejudicaria suas atividades no turno da tarde. Outro argumento amplamente defendido é o de que não se deve "facilitar" a vida dos adolescentes, ao contrário, deveríamos impor limites mais rígidos, além de estabelecer punições para os atrasos, que por sinal são muito comuns nos regimentos das escolas, seguindo a lógica de Locke.

    Nas escolas brasileiras, onde o período integral não é a regra, a proposta de inversão dos turnos escolares é rejeitada até pelos alunos. No entanto, faria muito mais sentido que os mais novos estudassem de manhã e os mais velhos, já no início da puberdade, freqüentassem as aulas no período da tarde - exatamente o contrário do que acontece.

    Se não for possível inverter nem atrasar os horários, uma terceira alternativa, que provavelmente não resolverá o problema, mas pode amenizar suas conseqüências, é expor os alunos à luz matinal. O estímulo luminoso no iníci a dos adolescentes, ao contrário, deveríamos impor limites mais rígidos, além de estabelecer punições para os atrasos, que por sinal são muito comuns nos regimentos das escolas, seguindo a lógica de Locke.

    Nas escolas brasileiras, onde o período integral não é a regra, a proposta de inversão dos turnos escolares é rejeitada até pelos alunos. No entanto, faria muito mais sentido que os mais novos estudassem de manhã e os mais velhos, já no início da puberdade, freqüentassem as aulas no período da tarde - exatamente o contrário do que acontece.

    Se não for possível inverter nem atrasar os horários, uma terceira alternativa, que provavelmente não resolverá o problema, mas pode amenizar suas conseqüências, é expor os alunos à luz matinal. O estímulo luminoso no início da manhã promove o adiantamento dos ritmos biológicos, logo, atenuaria o atraso de fase. Isso seria particularmente útil no retorno das férias, quando o ajuste aos horários escolares é mais difícil.

      Simulação de possíveis futuros

      Autômatos feitos de células, passamos um terço da vida desligados... e dormindo longe do mundo presente nos ocupamos do passado. Durante a fase inicial do sono, pouca atividade endógena é gerada. O cérebro entra em sincronia lenta e reverbera memórias, sem vividez, mas persistentemente. É o sono sem sonhos ou sono de ondas lentas, um estado inconsciente em que pensamentos normais coexistem com a ausência de imagens sensoriais. Em contraste com este estado desprovido de luz e formas, o sono com sonhos, mais conhecido como REM, é marcado por alta ativação cerebral, o que causa reverberação mnemônica intensa. No sonho as imagens se sucedem formando narrativas complexas. O encadeamento entrecortado dos símbolos determina um tempo onírico caracterizado por lapsos, fragmentações, condensações e deslocamentos. A descontinuiidade na composição lógica dos sonhos coincide com a relativa desativação de regiões do córtex cerebral que atuam na tomada de decisões e na execução ordenada de planos.

      O sono desempenha papel importante na consolidação das memórias, modulando desde processos moleculares dentro dos neurônios até mudanças eletrofisiológicas em múltiplos circuitos neurais. A persistente reverberação mnemônica durante o sono de ondas lentas, propiciada pela ausência de interferência sensorial, explica o reforço das memórias mais relevantes dentre aquelas recém-adquiridas. Além disso, durante o sono REM, ocorre a expressão de genes que ajudam a perenizar conexões sinápticas recém-utilizadas. Mas sono REM e sonho não são a mesma coisa. Em certos pacientes com lesões em regiões cerebrais relacionadas à obtenção de recompensa, o sono REM ocorre sem a experiência subjetiva de sonhar.

      Se o sono com suas diferenntes fases claramente favorece a consolidação mnemônica, que podemos dizer da função cognitiva de sonhar? Haverá vantagem em sonhar? Será o bizarro e o arabesco dos sonhos apenas um acidente evolutivo, ou ao contrário, existem razões profundas para que assim seja? Sigmund Freud apontou para a existência de sentidos ocultos na narrativa onírica, intimamente ligados à experiência subjetiva do sonhador. Na contramão, Francis Crick propôs que sonhos são desprovidos de sentido por derivarem do bombardeio cortical aleatório que caracteriza o sono REM. Não serviriam para lembrar e sim para esquecer, pois a ativação aleatória do córtex diluiria as memórias recentes. Embora engenhoso, o conceito não resiste à evidência de que é possível ter sonhos recorrentes ao longo de várias noites. Pesadelos repetitivos, por exemplo, são comuns após situações adversas capazes de reforçar excessivamente memórias traumáticas. Considerando o gigantesco número de conexões sinápticas no cérebro, seria impossível ter sonhos repetitivos se sua gênese fosse completamente ao acaso.

      Uma posição mais sensata foi defendida por Jonathan Winson, pioneiro na investigação neurofisiológica da função onírica: "Os sonhos descrevem nosso estado presente". Em outras palavras, as probabilidades de ocorrência dos diferentes elementos do repertório onírico são determiinadas pela história do indivíduo. Ainda assim é concebível que os sonhos apenas reflitam o passado de forma imperfeita. Mas também é plausível que a função dos sonhos seja a simulação de futuros possíveis a partir dos fatos pretéritos, favorecendo a criação de estratégias comportamentais adaptativas. O sonho seria assim um oráculo probabilístico, não muito diferente do que se acreditava na Grécia antiga.

  • Ao ar livreNessa transição, muitos adolescentes precisam encarar a árdua missão de, em vez de ir para a cama com o sol nascendo, acordar por volta desse horário. Essa situação está sendo investigada por pesquisadores do Laboratório de Neurobiologia e Ritmicidade Biológica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Durante a primeira semana depois das férias, a primeira aula é dada ao ar livre. Os resultados deverão mostrar até que ponto a iluminação natural é capaz de adiantar o ciclo vigília-sono desses jovens e reduzir sua sonolência nas primeiras horas do dia. Pesquisadores de países distantes da linha do equador, onde as manhãs não são tão claras como em Natal, estão avaliando o efeito da exposição à luz artificial sobre o ciclo vigília-sono e a sonolência de estudantes adolescentes.

    Apesar dos avanços das pesquisas nessa área, a questão causa impasse nos meios educacionais brasileiros. O tema ainda é pouco discutido inclusive dentro da sala de aula. Os parâmetros curriculares nacionais (PCNs) do Ministério da Educação recomendam a inclusão dos ritmos biológicos no conteúdo programático dos ciclos finais do ensino fundamental. Se o conhecimento de temas como sexualidade, drogas e nutrição, por exemplo, conntribui para que o jovem adquira hábitos mais saudáveis, por que não incluir nessa lista os ritmos biológicos, os mecanismos, e os fenômenos relacionados ao ciclo vigília-sono? Se quisermos que os adolescentes durmam e aprendam o quanto necessitam, é preciso oferecer-lhes condições apropriadas para que isso aconteça. E as mudanças nos horários escolares parecem ser as mais compatíveis com o conhecimento científico atual e com o desenvolvimento saudável nessa etapa da vida marcada por tantas de

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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