Autogerenciamento: arte de viver e a filosofia


Para o professor francês Pierre Hadot, professor de Michel Focault, a Filosofia Antiga pode ser compreendida como uma terapia que deve livrar a humanidade de seus temores mais arcaicos como a morte e a solidão.

Revista Scientific American - por Joep Dohmen

Vinte anos após sua morte, o influente defensor francês da arte de viver, o filósofo Michel Foucault (1926-1984), encon­trou um seguidor - e não foi qualquer um, e sim seu próprio professor Pierre Hadot, morto em 2010, aos 88 anos.
O acadêmico trocou, no fim da carreira, o conforto da "torre de marfim" das ciências pela arena pública de teorias que pregam que o que vale mesmo é buscar a sabedoria, dar mais valor ao que realmente importa nesta vida e, assim, ser mais feliz.

Durante décadas, ele lutou contra o preconceito de que a filosofia da An­tiguidade clássica não teria sido nada além de um desenvolvimento teórico e seria, em grande parte, urna fuga da rea­lidade. Combateu pressupostos de que Epicuro teria se enfiado no jardim com seus amigos para gozar a vida, Platão, se refugiado em seu mundo de ideias e o estoicismo, pregado a submissão ao destino. Mas então chegou Foucault e difundiu - com sucesso - a filosofia antiga como projeto estético: caberia a cada pessoa transformar-se em uma obra de arte. Não, Hadot "filósofo e filólogo clássico" não reconhece nenhuma arte no modo de vida do homem comum moderno. A maioria das pessoas apenas corre atrás da satisfação de suas necessi­dades, sem contato com a natureza e o meio ambiente. Por esse motivo, não é de admirar que Hadot, em idade avançada, ainda protestasse. E graças à sua "filoso­fia como modo de vida", ele próprio se tornou um autor de best-sellers.

Mas, afinal, o que é filo­sofia? Aos olhos de muitos, simplesmente uma coleção de textos cheios de ideias, reflexões e teorias, em parte sistematicamente ordena­dos. Há quem defenda que a filosofia da Antiguidade parece não se diferenciar substancialmente da me­dieval ou moderna. Essa vi­são, porém, é insustentável para Hadot. Ele reconhece na filosofia clássica uma "forma de existência que deve ser vivida em cada momento e modificar toda a existência". Segundo ele, o amor pelo saber era originalmente uma arte "tanto no que diz respeito ao exercício e esforço para alcançare saber quanto ao seu objetivo: saberem si. A sabedoria, aliás, não apenas guarda conhecimento, mas leva a um novo modo de ser.

Segundo essa visão, o filósofo da Antiguidade tinha uma postura radicalmente diferente da de sea colega moderno: não estava a serviço de uma ou outra política cultural, da ciência ou da econo­mia. Não era um colecionador incansável de tudo o que vale a pena saber - tampouco um esteta. A filosofia ocupava outro lugar bem diferente do de hoje - quando frequentemente aparece ligada à indústria do entretenimento e à mídia, como se o interesse por assuntos filosóficos fosse apenas mais um atributo. Outro dia, por exemplo, deparei com o seguinte anúncio: "Procuro homem abasta­do, sem filhos, não fumante e com afinidades com a filosofia". Em tempos passados, a filosofia for­mava a essência da existência humana, "atenção e presença de espírito constantes, uma consciência de si mesmo permanentemente alerta". O filósofo clássico ansiava pela sabedoria prática, vivida, graças à qual ele era capaz de estar no "agora" do modo correto. A filosofia antiga, portanto, era instrumentalizada apenas em um ponto: estava a serviço da vida!

• Aula de morrer

Hadot compreende a filosofia antiga como uma espécie de terapia que deve livrar a humanidade de seus temores. Um dos medos mais comuns é o da morte, outros temem a pobreza, o anonimato, e há aque­les que se apavoram
com a perspectiva da solidão. A filosofia clássica se propunha eliminar esses temo­res ao ensinar todo indivíduo a ser senhor de si. Hadot diz a res­peito: "Com o método as pessoas podiam obter independência e liberdade interior (autarkeia). Esse motivo aparece em Sócrates e nos cínicos, além de Aristóteles, para o qual a vida contemplativa garante a independência, assim como em Epicuro e nos estoicos. Em todas as escolas filosóficas é possível atingir, por vários meios, a consciência de que o ser humano é capaz de se livrar de tudo o que lhe seja alheio".

O fortalecimento espiritual do homem, tão vulnerável em seu percurso através da existência marca a linha condutora de toda a filosofia antiga. Nesse sentido, ela era, acima de tudo, prática. A arte, neste caso, consiste especialmente em não se amedrontar, não se sobrecarregar com a dor relacionada a falhas no passado ou com preocupações pelo futuro e possíveis golpes do destino iminentes. O homem sábio (sophos) é capaz de viver com consciência, equilíbrio e liberdade; ele aprendeu a existir no presente "sem se deixar assombrar pelo passado e sem se inquietar com o futuro incerto".

A maioria das escolas filosóficas clássicas, aliás, tinha clareza de que nunca houve um único "sábio" como esse - rnesmo que Sócrates e Epicuro tenham se aproxirnado muitó do ideal. "As pessoas sabiam que não seria possível realizar a sabedoria em si mesma como estado permanente e definitivo, mas tinham a esperança de conseguir alcançá-la pelo menos em alguns momentos especiais; ela formava a norma transcendental que guiava ações", diz Hadot. E justamente porque não há nenhuma garantia de sucesso, os filósofos da Antiguidade desenvolveram uma série de técnicas espirituais.

Na opinião desse filósofo, a prática faz o mestre. Em um de seus textos mais importantes, Exercices spirituels et philosophie antique > (1987), ele demonstra que todas as escolas clássicas de pensadores desenvolveram práticas para estimular a sabedoria. Ao retomar as instruções tradicionais para o treinamento físico, dietas e tratamentos e os inúmeros treinamentos de abstinência e resis­tência, Hadot reconhece pelo menos três tipos de exercício espiritual: meditações, aprimoramento intelectual e desenvolvimento de hábitos saudá­veis e habilidades (como leitura e escrita).

Por meditações ele entende, por exemplo, a ca­pacidade de calar e ouvir, atenção e contemplação. Um importante exercício de concentração consiste na orientação para o agora, exclusivamente para aquilo que importa à ação presente. Práticas inte­lectuais incluem memorização, aprendizado da fantasia, assim como filtragem das ideias: de onde elas vêm, que importância têm, o que se pode fazer com elas. Outras habilidades diziam respeito à linguagem: exercícios de leitura, escrita e oratória. As pessoas levavam consigo cadernos para anotar alguma coisa, para repetir e se lembrar daquilo que era considerado importante. A essência do diálogo consistia em conversar não com o outro, e não para se opor a ele - e isso exigia que a pessoa aprendesse a assumir diversos pontos de vista.

Os exercícios práticos incluíam o controle de emoções como raiva, curiosidade e inveja. Havia também aulas de morrer, nas quais se chegava mesmo a treinar o suicídio. Algumas vezes, as pessoas saíam para observar a natureza, e assim lembrar-se de que o homem, como ser natural, é integrante do cosmo. Não seria exagero dizer que cultivar a arte de viver era, na Antiguidade clássica, uma espécie de ciência da vida. De maneira geral, os exercícios eram voltados ao autorreconheci­mento, para ensinar a si mesmo e aos outros como manter a neutralidade diante de tudo o que é irrelevante e como controlar aquilo que realmente podemos influenciar. Os seguidores dessa linha concentravam-se, assim, em viver mais intensa­mente o aqui e agora.

• Ordem interna

O imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C) é considerado por Hadot um filósofo exem­plar. A tese excepcional do acadêmico afirma que o ensaio Caminhos para si desse seguidor da filosofia estoica não representa um diário pesso­al, mas um tratado sobre exercícios espirituais. As admoestações de Marco Aurélio serviam à memorização ativa de verdades próprias com o objetivo de criar uma ordem interna: "As pessoas procuram lugares nos quais possam se isolar, no campo, no mar ou nas montanhas. E tu também te acostumaste a ansiar por isso com todo o coração. Mas isso é realmente uma tolice sob qualquer ponto de vista, já que a ti é possível recolher-te dentro de ti mesmo quando quiseres. Pois não existe lugar mais calmo e despreocupado no qual uma pessoa possa se recolher do que a própria alma, principalmente quando a pessoa tem dentro de si algo em que possa imergir para, dessa forma, encontrar-se em equilíbrio perfeito. Por "equilíbrio" eu entendo nada mais do que "ordem interna". Assim, cria ininterruptamente essa possibilidade do recolhimento e recupera-te. Porém, devem ser princípios curtos e elementares que te bastem, no momento em que te ocorrerem, para eliminar qualquer dor e manter-te livre da irritação com aquelas coisas às quais tu deves voltar-te afinal".

Para os estoicos existe uma correlação entre a ordem interna e o todo, organizado pelos ciclos do universo. Hadot dá grande valor a essa ideia estoica da consciência cósmica. Para ele, representaria "o resultado de um exercício espiritual que consistia em conscientizar-se da posição da existência individual no grande curso da vida, na perspectiva do todo".

• Atenção ao momento

Dois importantes aspectos são inerentes a essa dimensão cósmica e à experiência mís­tica que a designa: tempo e eternidade - ou finitude e infinitude por um lado, assim como individualidade e totalidade por outro. Sobre a questão do tempo, Hadot afirma: "Estoicos e epicuristas reconhecem unanimemente o infinito valor de cada momento: para eles, a sabedoria realizada em um instante é tão completa e perfeita quanto aquela que dura uma eternidade; o momento é exatamente tão valioso quanto um período infinito; a totalida­de do cosmo está contida em cada instante".

Isso significa o fim da indiferença: todo instan­te da vida humana vale o esforço e merece toda a atenção. Além disso, a consciência cósmica tem influência decisiva sobre o sentido da existência. Segundo Hadot, a clássica arte de viver não era uma cultura do self- em oposição ao que Michel Foucault afirmou em sua obra de 1984 O cuidado de si. Foucault tomou emprestada da filosofia clássica a ideia de que as pessoas podem guiar a si mesmas de formas variadas. Naturalmente, a sociedade atual se diferencia muito da antiga. No entanto, a concepção clássica da autogovernança é compatível com o moderno conceito da autor­realização e de liberdade individual.

Em relação a isso, Hadot, porém, reconhece uma interpretação contemporânea imprópria. A filosofia do eu. O último objetivo da sabedoria prática clássica não era a imanência (impossibi­lidade de separação do ser, independentemente das condições externas). "Não se trata de uma construção do eu no sentido de uma obra de arte mas, pelo contrário, de uma superação de si mesmo, ou pelo menos de um exercício com cuja ajuda o eu se estabelece na totalidade, sentindo-se como parte do todo." Mais uma vez, encontra-se na obra de Hadot, como mote de vida, um dito do estadista, poeta e estoico romano Sêneca (cerca de 4 a.C.-65 d.C): "Toti se inserens mundo", "mergulhar na totalidade do mundo".

Para Hadot, a dimensão universal é o fundamento da arte de viver, e a ideia de uma vida que se reduz com o passar do tempo o deixava horrorizado. Ele considerava que sua missão era reavivar a arte cósmica de viver de forma que pudéssemos voltar a vivenciar to­dos os dias de maneira renovada e a observar imparcialmente nossa existência pessoal. Para ele, a própria vida humana neste mundo é um milagre impronunciável. Porém, por mais impressionante que possa parecer essa visão de Hadot, ainda restam objeções. Sua perspectiva do pensamento cl uja ajuda o eu se estabelece na totalidade, sentindo-se como parte do todo." Mais uma vez, encontra-se na obra de Hadot, como mote de vida, um dito do estadista, poeta e estoico romano Sêneca (cerca de 4 a.C.-65 d.C): "Toti se inserens mundo", "mergulhar na totalidade do mundo".

Para Hadot, a dimensão universal é o fundamento da arte de viver, e a ideia de uma vida que se reduz com o passar do tempo o deixava horrorizado. Ele considerava que sua missão era reavivar a arte cósmica de viver de forma que pudéssemos voltar a vivenciar to­dos os dias de maneira renovada e a observar imparcialmente nossa existência pessoal. Para ele, a própria vida humana neste mundo é um milagre impronunciável. Porém, por mais impressionante que possa parecer essa visão de Hadot, ainda restam objeções. Sua perspectiva do pensamento clássico é limitada, pois não­ pode ser totalmente reduzida à filosofia prática e já seria suficiente destacar o antigo signifi­cado do lado prático. Além disso, Hadot não conseguiu controlar sua tendência a reduzir toda a filosofia da Antiguidade ao estoicismo - como se a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, não representasse também um exemplo importante de uma prática contextualizada de aprimoramento dó caráter. Também desperta críticas a defesa apaixonada pela transcendên­cia, com a qual o católico Hadot revela uma queda para o misticismo.

É conveniente ressaltar, porém, que Friedrich Nietzsche e Michel Foucault merecem prioridade em relação a Marco Aurélio, pois mostraram ter uma melhor visão da relação problemática entre o sujeito da modernidade e as regras hoje válidas: os homens contemporâneos estão condenados a sempre renegociar sua relação com as regras dominantes dentro de contextos em constante alteração. A subjetividade humana não está ancorada em uma natureza externa, mas em constante transformação.

Devido ao destaque que confere aos exercí­cios espirituais, a obra de Pierre Hadot revela­-se, justamente nesse ponto, extremamente importante. Sem dúvida, as circunstâncias da vida moderna, tanto do ponto de vista social quanto cultural, são completamente diferentes do que há 2 mil anos. Mas nem por isso o homem é menos vulnerável, o que contradiz o mito da autonomia dos dias de hoje. Falamos muito sobre "normas e valores", mas mal somos capazes de formular nossas convicções mais profundas - que dirá viver de acordo com elas! Talvez o maior mérito de Pierre Hadot esteja no fato de chamar nossa atenção para uma forma de autoeducação que já caiu no esquecimento e que, no nosso tempo, pode ser moldada sob medida para qualquer pessoa.

• Satisfação à moda antiga

ESTOICISMO (300 a.C):

Escola filosófica fundada por Zenon de Cítio, batizada segundo o local onde era ensinada, a Stoa Poikile (pórtico colorido) em Atenas. Segundo a ética estoica, a verdadeira felicidade (eudaimonia) resulta de uma vida em harmonia com a natureza e com a razão humana. Virtudes como justiça, coragem e autocontrole são consideradas fundamentais. A ética estoica estava em constante conflito com a doutrina do prazer dos epicuristas.

EPICURISTAS (321-271 a.C):

Epicuro fundou em Atenas, em seu próprio jardim, uma escola filosófica cujo objetivo principal era refletir como aproveitar a vida da melhor maneira possível. Segundo ele, a mais alta felicidade consiste em uma vida plena de prazer e alegria, sem dor, medo ou inquietação.

SEGUIDORES DE ARISTÓTELES (384-322 a.C):

O filósofo era discípulo de Platão. Em sua obra mais famosa, Ética a Nicõmaco, descreveu a felicidade como a concretização de virtudes racionais: diferentemente do que ocorre com outros bens, o homem anseia pela felicidade por ela mesma. Para ele, o objetivo de toda ação deveria ser uma vida em conformidade com as virtudes da razão - e, portanto, o bem-estar não seria um estado de espírito, mas uma atitude.

CíNICOS (400 a.C):

Embora o termo "cinismo" tenha chegado aos dias de hoje de forma desvirtuada, caracterizando de maneira pejorativa as pessoas indiferentes ao sofrimento alheio, esta escola filosófica pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos, a autossuficiência e a ausência radical de ideais. O grupo foi criado por Antístenes e se reunia no ginásio Cinosarge, no subúrbio de Atenas.

• Em defesa da ciência prática

Pierre Hadot foi professor de história do pensamento helenista e romano no College de France, em Paris. Em 1991, ao deixar a instituição, último local onde lecionou, despediu-se com a frase: "Afinal, praticamente não há palavras para aquilo que é mais importante". Entre seus vários livros e artigos nas áreas da filosofia e teologia, Filosofia como forma de vida (Alpha Decay, 2009) é uma das obras mais conhecidas. O título é também seu lema de vida. A questão da filosofia aplicada permeia toda a sua obra, tomando como base pensadores clássicos e medievais. Para o autor, o amor pela reflexão precisa ser reavivado, segundo o caminho já indicado por Sócrates: "A filosofia não é uma coleção de proposições a serem repassadas por professores a seus alunos. Trata-se, verdade, de um modo de vida a ser alcançado por meio do diálogo". Aos poucos, porém, a filosofia como arte de viver foi perdendo terreno, embora tenhamos alguns expoentes contemporâneos. Hadot cita René Descartes, Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e Ludwiz Wittgenstein como exemplos de pensadores que compreendiam a filosofia, antes de mais nada, como uma ciência prática.

Para saber mais 

Filosofia como forma de vida. Pierre Hadot. Alpha Decay, 2009.
O véu de Ísis. Pierre Hadot. Loyola, 2006.
O que é a filosofia antiga. Pierre Hadot. Loyola, 1999.
A alma em Aristóteles. Marco Antônio de Ávila Zingado. Coleção Mente e Cérebro e Filosofia nº 1, págs. 52·57.

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