Bebida em excesso modifica o cérebro


Novas drogas combatem a recaída de ex-dependentes, cujas conexões cerebrais foram alteradas pelo consumo de álcool.

Jornal Folha São Paulo - por Daniela Falcão

"Meu pai bebe e exagera um pouco. Gostaria de ajudá-lo a cortar esse mal pela raiz - com uma simpatia, com qualquer coisa que o faça parar de beber". O pedido, enviado por uma leitora de São Joaaquim da Barra (interior de SP) à seção "Pergunte Aqui", do Equilíbrio, ilustra a falta de informação sobre maneiras de ajudar quem bebe compulsivamente.

Apesar de a Organização Mundial da Saúde reconhecer o alcoolismo como doença desde 1967, muita gente ainda acredita que parar de beber é, sobretudo, questão de força de vontade. Avanços recentes nas técnicas de imagem cerebral, entretanto, comprovaram que a dificuldade de se livrar do vício é muito mais resultado de falhas do cérebro do que de falta de determinação.

Tomografias e ressonâncias magnéticas mostram que o excesso de bebida "reesculpe" conexões cerebrais, destruindo a capacidade de a pessoa sentir prazer sem beber e de agir conscientemente. Não é à toa que, a cada ano, 500 mil pessoas se internam em clínicas de desintoxicação nos EUA e outro 1 milhão procura o Alcoólicos Anônimos (AA).

No Brasil, levantamento do Hospital das Clínicas (SP) aponta que 15% da população abusa de álcool.

As alterações que a bebida provoca no cérebro ajudam a entender por que mesmo os métodos mais eficientes de combate ao vício, como o do quase septuagenário AA, apresentam taxas de sucesso que não ultrapassam 50%. "As pesquisas feitas a partir de imagens do cérebro de alcoólatras corroboraram o que a gente já sabia pela observação. Os pacientes bebem compulsivamente porque o excesso de álcool provoca alterações cerebrais, e não por serem sem-vergonhas", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp.

Após cair na corrente sanguínea, o álcool segue para uma região do cérebro conhecida como núcleo accumbens, onde ocorre um aumento de concentração de dopamina - nerotransissor ligado à sensação de prazer. O consumo abundante e repetido da bebida faz com que a ligação entre álcool e prazer fique registrada no córtex frontal. É essa memória que cria a obsessão pelo álcool, transformando o beber social em compulsão.

Estudos recentes com animais em laboratório indicam que a bebida também modifica a estrutura dos gânglios basais, causando danos semelhantes aos observados em portadores de transtorno obsessivo-compulsivo.

O cérebro reprogramado pelo álcool passa a demandar martinis, uísques e vodcas com frequência e em quantidades cada vez maiores. Uma imagem do drinque é suficiente para detonar o desejo incontrolável de beber, como demonstram imagens do cérebro de alcoólatras em recuperação.

  • MedicamentosAlém de derrubar de vez o mito de que o alcoólatra não abandona o vício porque não quer ou porque é fraco, os avanços nas técnicas de neuroimagem estão ajudando também no desenvolvimento de medicamentos que aumentam as chances de cura. É o caso do acamprosato, disponível no mercado brasileiro há menos de seis meses e que alivia os sintomas da síndrome de abstinência e, assim, ajuda a evitar recaídas. A prescrição para indivíduos com insuficiência hepática ou renal é sua única contra-indicação.

    Há cerca de dois anos no mercado, o naltrexone também diminui a compulsão e ajuda o alcoólatra a permanecer abstinente. Antes desse medicamento, a única droga aprovada nos EUA para tratar a dependência do álcool era o dissulfiramo. O remédio impede que o álcool ingerido seja metabolizado e causa náuseas, aumento da pressão arterial, rubor facial e grande desconforto em quem bebe. "Ele funciona como um breque psicológico e ajuda o paciente a mudar de hábito, mas não diminui o desejo", explica Ronaldo Laranjeira.

    Os dois principais centros públicos de combate ao alcoolismo de São Paulo usam os dois novos remédios para aumentar as chances de sucesso do tratamento, mas o paciente tem de arcar com os custos (R$ l50,00 por mês), pois o goverrno federal não os distribui gratuitamente.

    "Estamos lutando para que isso aconteça. A rede pública do Rio saiu na frente e comprou por conta própria, enquanto o governo federal não se decide", diz Arthur Guerra, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool de Drogas do HC.

    Os novos remédios aumentam as chances de sucesso, mas não são panacéia e só surtem efeito quando combinados a tratamentos tradicionais, como terapia cognitiva (em que o paciente discute o que o leva a beber e aprende estratégias para se afastar do vício) e aconselhamento grupal. "Não podemos esperar benefícios milagrosos. Ainda não sabemos quais os pacientes que mais se beneficiam da medicação", diz Laranjeira. "Elas são muito importantes, mas o alcoólatra não pode achar que vai tomar a droga, ficar curado e poder beber socialmente. Isso é ingenuidade", completa Guerra.

  • Jovem sofre mais os danosComeçar a beber na adolescência faz mais estragos ao sistema nervoso do que o volume de álcool consumido ou o tempo de duração do vício. Até dez anos atrás, acreditava-se que os ferimentos no cérebro resultassem de décadas de abuso do álcool. Pesquisas realizadas nos últimos dois anos, com a ajuda de novos equipamentos de neuroimagem, derrubaram essa crença.

    Ao comparar tomografias computadorizadas de cérebros de jovens alcoólatras aos de adolescentes não-dependentes da bebida, pesquisadores do Cent tro Médico da Universidade de Pittsburgh (EUA) constataram que os jovens que bebem têm hipocammpos (área relacionada à memória) 10% menores. O estudo será foi publicado no The American Journal of Psychiatry.

    Pesquisa da Universidaade da Califórnia em San Diego chegou a resultado semelhante ao identificar problemas de raciocínio em 33 adolescentes de 15 e 16 anos que bebiam pesado. Os jovens decoraram uma lista de nomes para ser repetida em 20 minutos. Enquanto os que não bebiam lembraram 95% dos nomes, os alcoólatras acertaram 85%.

    Estudo da Unifesp que mediu como o cérebro de alcoólatras respondia a estímulos auditivos também constatou que aqueles que começavam a beber na adolescência sofriam maiores danos. Dos 17 piores exames, 14 (82%) eram de pacientes que haviam começado a beber antes dos 18 anos. "A precocidade no consumo de álcool é o maior fator de risco de dano cerebral, à frente do tempo do vício e da quantidade de álcol ingerido por dia", afirma o neurocirurgião Roberto Augusto Campos, coordenador da pesquisa.

    Impedir que adolescenntes bebam compulsivamente após experimentar os primeiros goles pode não ser fácil, já que de 50% a 60% dos alcoólatras têm predisposição genética para o vício. Embora ainda não se saiba exatamennte como a herança passa de pai para filho, pesquisadores acreditam que o cérebro dos herdeiros produza menos dopamina (neurotransmissor ligado à sensação de prazer) do que o normal. Por isso, para eles, o primeiro drinque se transforma numa enxurrada de prazer nunca sentida antes e repetir a experiência vira quase uma necessidade.

    Outra herança recebida é a alta concentração de uma enzima no fígado que ajuda a metabolizar o álcool graças à presença dessa enzima, jovens com predisposição genética conseguem beber muito mais do que seus colegas antes de passar mal, o que também facilita o vício.

  • Cérebro, e não o fígado, é o órgão mais atingidoEmbora a maioria das pessoas aponte o fígado como a principal vítima da bebida, é o cérebro quem mais sofre com o excessso de álcool.

    "Entre 50% e 70% dos alcoólatras apresentam problemas no sistema nervoso. No fígado, são 30%", afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unifesp. Leia abaixo os principais efeitos.

    No cérebro: o álcool age diretamente nas células cerebrais, provocando diminuição na memória, capacidade de raciocínio complexo e no julgamento de situações. Apesar de boa parte dos estragos desaparecer após semanas de abstinência, 10% dos alcoólatras têm danos irreversíveis e correm o risco de sofrer demência alcoólica. A bebida também provoca danos ao hipocampo, região ligada ao aprendizado e à memória. No Brasil, um estudo da atividade elétrica cerebral coordenado pelo neurocirurgião Roberto Augusto Campos, da Unifesp, mostra que o funcionamento do cérebro fica prejudicado de maneira crônica pelo uso do álcool. Após verificar como os cérebros de 32 alcoólatras de 30 a 50 anos que bebiam 1,5 litros de aguardente por dia respondiam a estímulos auditivos, a equipe se surpreendeu com a intensidade dos danos. "Em 70% dos casos não detectamos nenhum tipo de resposta cerebral ao estímulo", conta Campos.

    No fígado: os principais males causados pelo álcool nesse órgão são fígado gorduroso (o paciente fica com a pele e as mucosas amareladas porque o álcool gera um depósito de gordura nas células hepáticas), hepatite alcoólica (a toxicidade do álcool mata as células hepáticas, e os sintomas mais comuns são aumento do fígado e dor abdominal) e cirrose (fase terminal do alcoolismo, em que o fígado se enche de cicatrizes por causa da morte das células e tem sua função muito reduzida). Outra doença gastrointestinal comum é a pancreatite crônica (75% dos portadores desse mal abusam do álcool). O sintoma mais comum é uma dor abdominal, que se irradia para as costas, não é aliviada por antiácidos e dura vários dias. O paciente perde peso e pode se tornar diabético.

    No coração: beber em excesso pode resultar em cardiomiopatia alcoólica, uma infiltração gordurosa no músculo cardíaco que dilata o coração e diminui sua capacidade de impulsionar sangue. Hipertensão, trombose, infartos e arritmias cardíacas também podem ser detonados pelo abuso do álcool.

  • Como o álcool "reescuple" o cérebroAo ser ingerido e cair na corrente sariguínea,o álcool vai para o núcleo accumbens (área do cérebro ligada a emoções, especialmente de prazer e de recompensa), aumentando a concentração de dopamina (neurotransmissor ligado à sensação de prazer). Como o homem tende a repetir ações que lhe são prazerosas, ele volta a beber.

    O uso prolongado do álcool reduz o número de receptores de dopamina. Com isso, boa parte da dopamina produzida pelo organismo deixa de ser aproveitada. Resultado: a quantidade de álcool necessária para causar prazer passa a ser cada vez maior. Além disso, a redução de receptores elimina a sensação de prazer proveniente do sexo ou de uma boa refeição, por exemplo.

    O uso contínuo e prolongado do álcool modifica o córtex frontal (área ligada ao aprendizado, à memória e à capacidade de controlar impulsos), "criando" uma memória que equipara prazer a bebida.

    A amígdala (área cerebral ligada à memória e ao combate ao estresse) tem sua atividade reduzida pelo álcool causando falsa sensação de relaxamento. O uso contínuo altera a química cerebral, imprimindo a memória de que ákool é relaxamento.

    Após um período de abstinência, os receptores de dopamina voltam, aos poucos, aos níveis normais, mas o desejo compulsivo de beber não diminui porque a memória que associa prazer ao álcool continua impressa no córtex frontal. Por isso as recaídas são tão frequentes.

    Testes com animais mostram que o álcool causa danos aos gânglios basais (grupos de neurônios que ajudam a controlar movimentos e tarefas repetitivas) semelhantes aos existentes em portadores de transtornos obsessivo-compulsivos. Isso faz o cérebro "exigir" álcool compulsivamente.

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