Bendita dúvida


Fixar a mente em uma meta única pode ser contraproducente; com certeza, traçar objetivos é importante, mas quetioná-los pode ser decisivo para obter sucesso.

Revista Scientific American - por Wray Herbert *

Manter o foco para atingir obje­tivos. Essa é uma das orienta­ções que mais se ouvem nos cursos de treinamento de profissionais das mais diversas áreas e se leem em
livros de gestão empresarial e até nos manuais de autoajuda. É preciso estabelecer metas claras, mas, princi­palmente, é fundamental ter força de vontade. Este último conceito, aliás, é bastante enfatizado nos programas de recuperação de dependentes químicos, nos quais as pessoas de­vem se comprometer com o desejo de se manter afastadas da adicção. Ou seja: é preciso estar disposto a se recuperar - e focar nesse ponto.

Mas agora talvez a ciência possa ajudar. O psicólogo Ibrahim Senay, da Universidade de IIlinois em Ur­bana-Champaign, descobriu uma forma intrigante de criar em laboratório uma versão de obstinação e disposição - e explorar possíveis conexões com a intenção, motiva­ção e estabelecimento de metas. Ele identificou algumas características necessárias não só para abstinência de longo prazo, mas também para atingir qualquer objetivo pessoal, desde perder peso até aprender a tocar violão.

Senay conseguiu esse resultado explorando a "autoconversação". A acepção do termo é exatamente essa: trata-se daquela voz interna que articula aquilo que você está pensando, expondo em detalhes opções, intenções, esperanças, medos etc. O pesquisador acredita que a forma e o sentido dessa conversa consigo mesmo expressos na estrutura da fra­se podem ter grande importância na formulação de planos e ações. Além disso, a autoconversação deve ser uma ferramenta para revelar inten­ções e reafirmar o que desejamos.

Senay testou esse conceito com um grupo de voluntários que tra­balhavam com anagramas - por exemplo, mudando a palavra "prosa", para "sopra, ou "fala" para "alfa". Mas, antes de começar a tarefa, metade dos voluntários era instruída a pon­derar se de fato queria e achava que cumpriria a tarefa, enquanto a outra parte simplesmente era informada de que ia trabalhar nos anagramas em alguns minutos. A diferença é sutil, mas marcante, pois ao começarem a atividade os primeiros voltavam seu pensamento à curiosidade (não só em relação à tarefa, mas também à própria disposição em realizá-Ia); já os integrantes do segundo grupo basicamente se predispunham a cumprir o que Ihes seria pedido. Seria a mesma diferença entre se perguntar "será que vou fazer isso?" e afirmar "eu vou fazer isso".

Os resultados foram intrigan­tes. As pessoas que antes haviam se questionado sobre o desejo de participar do trabalho se mantiveram mais criativas, motivadas e interessadas nele, completando um número significativamente maior de anagramas, em comparação ao dos voluntários que apenas foram instru­ídos a cumprir a atividade. Por que as intenções de pessoas tão deter­minadas - e sem muito espaço para questionamentos - sabotam metas preestabelecidas em vez de favore­cê-Ias? "Talvez porque as perguntas, por sua própria natureza, transmitem a ideia de possibilidade e liberdade de escolha, e meditar sobre elas pode estimular sentimentos de autonomia e motivação intrínseca, criando uma mentalidade que favorece o sucesso", sugere Senay. Ou seja: saber que não somos "obrigados" a algo nos coloca numa posição de maior responsabi­lidades sobre nossos atos.

Senay elaborou outro experimen­to para analisar a questão de forma diferente: recrutou voluntários sob o pretexto de que estavam sendo convocados para um estudo sobre caligrafia. Alguns deveriam escrever as palavras "Eu quero" várias vezes; e outros, "Será que eu quero?".

Depois de preparar os voluntá­rios com essa falsa tarefa de caligra­fia, Senay pediu que trabalhassem nos anagramas. E, exatamente como no caso anterior, os participantes mais determinados (que haviam es­crito a frase afirmativa) tiveram pior desempenho que aqueles que tinham redigido a sentença interrogativa.

Pouco depois, Senay realizou mais uma versão desse experimento, mas dessa vez claramente relaciona­do a hábitos de vida saudável. Em vez de propor o uso de anagramas, avaliou a intenção dos voluntários de iniciar e manter um programa de exercícios físicos. Nesse cenário real ele obteve o mesmo resultado básico: aqueles que escreveram a frase interrogativa "Será que eu que­ro?" mostraram comprometimento muito maior com a prática regular de exercícios do que os que escreveram no início do teste a frase afirmativa "Eu quero.".

Além disso, quando foi pergun­tado aos voluntários se achavam que estariam mais motivados a ir à academia com maior frequência, os que foram preparados com a frase in­terrogativa justificaram declarando, por exemplo: "Quero cuidar mais de minha saúde". Aqueles que escreve­ram a frase afirmativa deram expli­cações como: "Porque me sentiria culpado ou envergonhado de mim mesmo se não o fizesse", mostrando­-se mais perseguidos e culpados do que realmente comprometidos.

Esta última descoberta é crucial: indica que pessoas mais flexíveis, com menor receio de rever os próprios conceitos, estavam mais intimamente motivadas, buscando uma inspiração positiva interior - e não tentando prender-se a um pa­drão rígido, autoimposto em algum momento. Essa inspiração interna faltou aos aparentem mente "mais de­cididos", o que explica, pelo menos em parte, a fraca determinação para futuras mudanças, ainda que vanta­josas a médio prazo. Considerando a recuperação de dependentes quí­micos e o auto aperfeiçoamento, em geral, aqueles que declaravam sua força de vontade sem contestações estavam, na verdade, fechando a mente e estreitando sua visão de futuro. Aqueles que se perguntavam sobre os rumos a seguir e conjectu­ravam possibilidades reafirmavam sua escolha - e se comprometiam com ela.

*WRAY HERBERT é diretor da Associação Americana de Ciências Psicológicas.

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