Benefícios da raiva


Benefícios da raiva.

Revista Mente & Cérebro por Thomas Hülshoff.

“Ora, não se irrite!” Pois é, falar é fácil.., mas, na hora do descontrole, quem consegue seguir esse Conselho? As explosões, porém, não são totalmente nocivas: têm utilidade, basta aprender a lidar com elas.

O que engarrafamentos, falcatruas de políticos, televisores quebrados e pisar em sujeira de cachorro na rua têm em comum? A resposta é a raiva que nos despertam. A maioria de nós se incomoda com tudo isso. Costumamos sentir raiva quando não conseguimos atingir um objetivo, satisfazer um desejo ou quando sentimos que nossa autoestima é atacada. A irritação é uma emoção hostil contra determinada causa. Ainda que o primeiro impulso dure apenas uns poucos segundos, esse estado pode perdurar por mais tempo e reavivar a emoção a qualquer momento. Mas, embora a percebamos como desagradável, ela também pode trazer benefícios.

Essa emoção básica tem muitas facetas — em português, a palavra “irritação” provém do latim irritar, que significa “incitar, estimular, provocar”. Mas no âmbito psicológico tem desdobramentos. Quando envolve propriedade, ela se chama inveja. Transforma-se em ciúme quando se trata da — suposta — posse de outra pessoa, seja cônjuge, irmão ou irmã. Também o desejo de vingança surge quando a irritação se vincula a uma ofensa da honra — podendo esse desejo, portanto, ser consequência direta da inveja ou do ciúme.

Por raiva entendemos uma emoção mais densa, explosiva, em que a irritação desencadeia uma reação imediata, e a energia represada descarrega-se em um acesso de raiva. Quando raiva e irritação se voltam para determinado alvo por um período de tempo maior, falamos em ódio. Por fim, a ira vincula irritação à confrontação e à justificação intelectuais, fazendo, então, da “raiva dos injustiçados” a “ira dos justos” — que pode perdurar por anos.

Todas as culturas conhecem a irritação, a raiva e a ira. Mas o valor ou explicação que têm para esses sentimentos é algo que depende do contexto cultural. A chamada patologia humoral (a “doutrina dos humores”), por exemplo, predominante desde a Antiguidade até a Idade Média, partia do princípio de que um desequilíbrio entre os “humores corporais” conduzia aos quatro principais temperamentos humanos. O excesso de bile (em grego, khok) determinaria a violência do temperamento e da expressão da raiva, isto é, o tipo colérico. Ainda hoje, diante de uma irritação, ficamos “verdes” (a cor da bile) de raiva. E talvez não seja por acaso que essa tonalidade tinge a pele do Hulk, na ficção. No final da Idade Média e durante o Renascimento passou-se a acreditar que a irritação não contida traria desgraça não apenas àquele contra o qual o sentimento se dirigia mas também ao próprio enfurecido. A ira e a inveja foram até incluídas entre os sete pecados capitais.

Irritação e raiva são emoções bastante intensas, vinculadas a fortes reações corporais. Quando dizemos, por exemplo, em “ódio visceral”, há mais coisas nesse nosso modo de falar do que comporta a expressão idiomática. Ela se manifesta em diferentes planos, todos sujeitos ao controle direto do cérebro: por meio de alterações somáticas típicas como aumento da pressão arterial e tensionamento dos músculos, reações motoras e mímica dos gestos.

Universo cultural à parte, todos os seres humanos têm “posturas básicas” geneticamente determinadas frente à irritação e à raiva. Elas conduzem aos mesmos processos no sistema nervoso e, além disso, a expressões gestuais semelhantes. Contudo, isso pode ser alterado por influências culturais e por outras formas de aprendizado. Mas o que a irritação provoca no cérebro? Numa concepção simplificada, o órgão é composto de três partes:

1) O “cérebro reptiliano” compreende tronco cerebral e porções do diencéfalo. “Moram” aí reflexos e instintos. Essa área é a base onde estão nossos sentimentos. E aí que se funda nosso estado geral de excitação. Ele dá a medida de quanto vamos nos irritar.
2) No plano do sistema límbico vivemos emoções como a irritação sob a forma de estados de espírito inconscientes que exercem forte influência sobre nosso comportamento. De especial importância, há aí uma estrutura chamada amígdala. Em cobaias, ao serem estimuladas certas regiões da amígdala, observa-se uma reação agressiva acompanhada de gestos de irritação, O sistema límbico envia sinais ao cérebro reptiliano, em especial ao hipotálamo. Essa estrutura cerebral possui íntima vinculação com a hipófise e controla o nível hormonal. Desse modo, ao experimentar a emoção da raiva, o corpo é de imediato “acionado para o ataque”. Ele libera hormônios do stress, como a adrenalina, os folículos pilosos se eriçam (filogeneticamente, como gesto primordial da sensação de ameaça, que, no homem, se manifesta pela pele arrepiada) e aumentam a pressão arterial e os batimentos cardíacos, melhorando a irrigação dos órgãos. Com isso, nosso metabolismo se adapta à situação causadora da irritação. Paralelamente, o sistema límbico cuida para que nosso modo de expressão se conduza de acordo com a emoção vivida: o sentimento se manifesta tanto no tom de voz como na mímica e nos gestos.
3) No plano superior desse nosso modelo cerebral simplificado está o córtex. Em termos gerais essa ár rea controla os movimentos voluntários, processa conscientemente os estímulos sensoriais e é a responsável por processos cognitivos complexos, tais como o pensamento ou a fala. Vivemos as emoções conscientes sobretudo por meio do lobo frontal — a porção anterior do córtex. Assim, em vez de relegá-las à periferia da consciência como sensações indistintas, podemos voltar nossa atenção para elas, analisá-las e nomeá-las. É isso que, de acordo com o contexto, transforma a irritação em inveja, vingança ou decepção.

Graças ao córtex, podemos moderar e comandar nossas reações emocionais. Se reagimos a uma ofensa com irritação ou raiva estamos à mercê da resposta do sistema límbico. Depois, com o auxílio do córtex, analisamos o custo-benefício e definimos como vamos lidar com esse sentimento. A reação de irritação não tem a ver com circuitos neuronais fixos e definidos operando nas já mencionadas regiões cerebrais. Tampouco existe um "centro da raiva" específico no cérebro, único responsável por esse sentimento. A irritação surge da interação de várias estruturas cerebrais bem diferentes e que controlam o nível de excitação no sistema nervoso e os processos somáticos automáticos; identificam e processam sentimentos; efetuam, com a ajuda da memória, uma comparação da situação presente com o passado.

Além disso, pesquisas recentes demonstram que a própria conexão neuronal pode se alterar quando fortes impressões emocionais se repetem constantemente. Exames de diagnóstico por imagem mostraram as modificações em vítimas de eventos traumáticos. Assim como não existe um “centro da raiva” tampouco há um hormônio específico que seja responsável pela irritação. Em vez disso, toda uma série de hormônios e neurotransmissores está relacionada a essa emoção, como a adrenalina, a noradrenalina, a dopamina e a testosterona.

A adrenalina, hormônio do stress, é liberada em caso de perigo e põe o corpo em estado de alerta: a respiração, o processamento dos estímulos cerebrais, as funções cardíaca e circulatória e outras passam a operar no máximo, a fim de possibilitar pronta reação. Nesse contexto, fala-se de uma flight-or-fight reaction (reação de fuga ou luta), na qual todas as reservas de energia são postas a serviço de uma excitação e atividade corporal elevadas. Em linhas gerais, a noradrenalina atua de modo semelhante à adrenalina, acelerando os batimentos cardíacos. No cérebro, assim como a dopamina, ela influencia sobretudo o grau de vigilância e de excitação.

O sistema límbico governa a expressão facial, capaz de denunciar involuntariamente nosso estado emocional. A expressão típica da irritação é franzir o rosto, uma ruga de ira ou raiva na fronte e a contração dos músculos da testa. Esses gestos fazem com que os olhos se apertem, protegendo-os da incidência excessiva de luz. E assim que nos encapsulamos, isolando-nos da causa da ira. Também no plano mental usamos proteção ocular, tornando- nos cegos para uma possível solução do conflito. Os gestos e a postura do corpo emitem outros sinais de nossa irritação — o punho cerrado, por exemplo, ou um tensionamento da musculatura. O tom da voz também se altera e ela pode passar a ser estridente ou abafada.

A expressão gestual, a postura do corpo e o tom de voz são, em princípio, resultado de nossos sentimentos. Ao mesmo tempo, comunicam algo. É muito importante para nós, bem como para todos os outros animais que vivem em sociedade, descobrir em que estado de espírito se encontram aqueles que nos circundam, a fim de nos prepararmos. Se um indivíduo demonstra irritação os outros podem se manter distantes até que a irritação “desapareça”, o que diminui a possibilidade de agressão ou conflito. Esse sentimento tem uma função de advertência e pode, dessa forma, nos proteger.

Se estamos irritados e identificamos o mesmo nos outros, podemos enviar-lhes sinais apaziguadores. Um tom de voz mais dócil e conciliador, gestos tranquilizadores, uma postura corporal mais humilde ou um sorriso cordial são sinais que podem suavizar a irritação alheia. Se lidamos de forma apropriada com a irritação ela pode ser muito útil na regulação dos relacionamentos sociais: por meio dela, podemos nos distanciar dos outros, discutir ou nos proteger.

Mas torna-se difícil reagir de forma apropriada à irritação quando ela só se mostra velada, reprimida pelo desejo de simpatia e empatia, pelo medo da punição ou pelo sentimento de culpa. Isso conduz a comentários ácidos como: “Você já não parece tão gordo como antes!” ou: “Puxa, desta vez você almoçou bem, não é?”. Mesmo que a escolha das palavras não seja tão ambígua quanto essa pode-se identificar com nitidez a irritação velada pela comunicação não verbal em especial, pela expressão gestual. Mal-entendidos e perturbações podem vir daí. E, a longo prazo, provocar ainda mais raiva e irritação.

“Quem se deixa ficar irritado acredita que a vida ainda pode mudar. Quem não se permite já não acredita nisso”, assim descreve a psicoterapeuta Verena Kast, professora do C. G. Jung Institut, de Zurique, Suíça e presidente da Asssociação Internacional de Psicologia Profunda. Outra função importante da irritação é que ela nos mostra que algo não vai bem e nos ajuda a modificar relações que julgamos insuportáveis. A raiva e a irritação nos dão a energia necessária para efetuar essas modificações e uma das formas de isso ocorrer é por meio da agressão. A violência revela o interesse do agressor em causar dano ao oponente.

Em princípio, porém, o comportamento agressivo e a irritação não são a mesma coisa. Nos animais, essa confusão até se justifica: não podemos perguntar sobre seu ânimo só podemos depreender de seu comportamento e das emoções que porventura sentem — admitindo-se que as sintam. Nos seres humanos, entretanto, a situação é diferente, principalmente pela capacidade de controlar os próprios sentimentos com a ajuda da razão: a irritação não conduz, portanto, necessariamente à agressão. Por outro lado se apresenta associada a sentimentos de raiva. Ainda assim, há certa conexão entre agressão e irritação: um estado de ânimo irritadiço-raivoso há de conduzir a um comportamento agressi ão. A violência revela o interesse do agressor em causar dano ao oponente.

Em princípio, porém, o comportamento agressivo e a irritação não são a mesma coisa. Nos animais, essa confusão até se justifica: não podemos perguntar sobre seu ânimo só podemos depreender de seu comportamento e das emoções que porventura sentem — admitindo-se que as sintam. Nos seres humanos, entretanto, a situação é diferente, principalmente pela capacidade de controlar os próprios sentimentos com a ajuda da razão: a irritação não conduz, portanto, necessariamente à agressão. Por outro lado se apresenta associada a sentimentos de raiva. Ainda assim, há certa conexão entre agressão e irritação: um estado de ânimo irritadiço-raivoso há de conduzir a um comportamento agressivo.

Mas essa dissociação parcial entre raiva e irritação, por um lado, e agressão, por outro, não ocorre apenas no ser humano. Muitos animais limitam seu comportamento agressivo a gestos ameaçadores que não são acompanhados de ações de luta efetiva. Todo aquele que só deseja demonstrar com credibilidade sua posição hierárquica e sua disposição para a defesa ou o ataque poupa energia e tem nas mãos o caminho da evolução. Para tanto, porém, foi necessário criar mecanismos para comunicar a disposição para a luta.

O desenvolvimento desses mecanismos pode, em última análise, ter conduzido à dissociação ao menos parcial entre nossos sentimentos de irritação e raiva e o comportamento agressivo. A fala auxilia os humanos a tomarem o caminho da discussão irritada, em lugar das vias de fato. Mas quando a irritação efetivamente conduz à agressão, ela pode estar a serviço da imposição da própria vontade, da aquisição de poder ou do restabelecimento da autoestima ferida por vingança.

Por fim, uma forma particular da raiva serve à sondagem dos próprios limites. Crianças pequenas na fase em que começam a querer impor a própria vontade, e jovens na puberdade, tomam consciência da própria vitalidade em explosões de raiva, de que se valem para sondar os limites de sua ação agressiva. Se o mundo ao redor não reage da forma como se deseja isso é com frequência interpretado como fraqueza ou falta de interesse. Raiva e agressão podem, então, se intensificar. Pouco importa se nosso filho de 3 anos começa a espernear diante dos doces no supermercado ou se um jovem resolve pichar o muro da nossa casa — em ambos os casos é necessário que mostremos os limites do comportamento aceitável. E podemos fazê-lo deixando clara a nossa irritação.

. Reações Agressivas

Em geral, somos capazes de conter a irritação, seja por medo de vingança ou em decorrência de sentimentos de culpa. Se não conseguimos fazê-lo, uma reação raivosa exagerada pode facilmente conduzir à agressão destrutiva e ao emprego da violência — relacionamentos têm, então, seu fim precipitado ou danos são causados a nosso semelhante. Explosões de violência surgem em situações de stress social — o encurralado acredita que somente o ataque pode salvar sua autoestima.

É frequente que crianças e jovens ostentando reações agressivas impróprias e incapazes de controlar a própria raiva tenham sofrido um longo período de carência afetiva e sido privados de carinho e proteção. Reiteradas experiências com a violência também podem provocar o comportamento agressivo, o que, por sua vez, dificulta a construção de novas relações sociais. Nesse caso, é possível que, com tal comportamento, se busque inconscientemente evitar novas decepções e rompimentos.

Outros problemas podem surgir quando reprimimos ou não minoramos irritação e raiva. Ambas ativam o sistema nervoso simpático e põem o corpo em estado de alerta, Se, em decorrência de stress prolongado no ambiente de trabalho não tentamos atenuá-las, medidas automáticas do sistema nervoso e processos hormonais são ativados, com graves consequências: passamos a sofrer de um estado de tensão e de distúrbios cardiovasculares crônicos — sobretudo hipertensão arterial —, e nosso sistema imunológico se enfraquece.

Como lidar melhor, então, com esses sentimentos? Eles são parte do equipamento emocional básico dos seres humanos e, assim sendo, não podemos bani-los. Pelo contrário: sua presença indica um conflito ou um perigo, razão pela qual devemos dar atenção a essa presença e levá-la a sério. Graças a esses sentimentos, refletimos sobre nossos próprios limites, rechaçamos — se necessário — quem se aproxima deles e nos protegemos de intrusões indevidas. A energia que a irritação põe à disposição afasta o medo e a sensação de impotência. As emoções voltam nossa atenção para o problema a ser resolvido. Assim, em vez de “Ora, não se irrite!”, deveríamos dizer: “Trate de se irritar, sim, mas com moderação”.

Para lidar de forma apropriada com esses sentimentos devemos, antes de mais nada, tomar consciência de nossa irritação, com todos os seus indicadores físicos e emocionais. O passo seguinte é dar expressão consciente ao sentimento: as palavras nos permitem manifestar a irritação sem ter de recorrer à violência física. Não podemos nos esquecer, porém, de que as palavras e os gestos também podem ferir muito, em particular quando manifestam irritação velada. Nesse sentido, seria salutar que todos aprendêssemos e exercitássemos desde pequenos como evitar e minorar a irritação também nesse plano, da mesma forma como aprendemos a nos comunicar e a cultivar relacionamentos.

Por fim, devemos ainda ter clareza de que está em nossas mãos irritar ou não nossos semelhantes. Também somos responsáveis, portanto, pela irritação e pela raiva ao nosso redor, e devemos levá-las a sério. isso pode nos ajudar a impor respeito, limite e a articular nossos interesses. Ao mesmo tempo, porém, cabe-nos respeitar a integridade alheia.

Da próxima vez que você se irritar porque alguém quer passar à sua frente na fila, basta que você expresse essa irritação. Mas sinalize também ao outro sua disposição conciliatória. Se fizer isso, terá boas chances de esclarecer de forma sensata o conflito e de resolvê-lo. A irritação, é de se supor, vai desaparecer — ela já terá cumprido sua função.

. Testosterona e agressivade

A testosterona

    Administração do Tempo

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