Benefícios do Tempo


Pesquisas comprovam que pessoas mais velhas não têm necessariamente pior desempenho. muitas tarefas são realizadas com mais eficiência pelos idosos.

Revista Scientific American - por Michael Falkenstein e Sacha Sommer

Eles são muito lentos, esquecidos, inflexíveis. Quando submetidos a pressão, cometem mais erros, desconhecem o trabalho em equipe e ignoram as novas técnicas. Essa é a opinião corrente sobre os profissionais mais velhos. Com frequência, os supeeriores decidem em favor de candidatos na faixa dos 30 anos. Pesquisas recentes, entretanto, mostram que, com o avanço da idade, algumas capacidades cognitivas são fortalecidas. Muitas vezes isso ocorre como resultado de um mecanismo que procura compensar a menor velocidade de trabalho em outras funções. Nos últimos anos, estudos realizados com técnicas de imageamento revelaram que, com o transcorrer do tempo, as redes neurais são reestruturadas e o sistema nervoso central simplesmente passa a ativar diferentes áreas cerebrais. Como a expectativa de vida aumentou, a idade de ingresso na aposentadoria é cada vez maior e muitas pessoas retornam ao mercado de trabalho; cresceu também o contingente de pessoas que pemanecem profissionalmente ativas por mais tempo. Algumas áreas já apresentam um quadro paradoxal: enquanto os profissionais com mais de 40 anos têm muita dificuldade de se empregar; as organizações reclamam da falta de candidatos qualificados. Minguam os trabalhadores mais jovens e bem formados. Faz-se necessária uma mudança de modelos, pois considerar inadequado um candidato com mais de 45 anos em decorrência da idade corresponde a desqualificar sua experiência e seus valiosos recursos.

Pesquisas gerontológicas mostram que, quando comparadas entre si, as pessoas mais velhas apresentam diferenças de desempenho notáveis em muitas tarefas consideradas críticas. Tal fato contradiz a opinião generalizada de que ao envelhecer todo ser humano necessariamente desenvolve deficiências. Os estudos comprovam ainda mais: só alguns processos cerebrais são afetados pelo envelhecimento. Hoje; nenhum especialista crê na idéia de que as funções cognitivas são prejudicadas em sua totalidade com o passar do tempo.

O pesquisador Cheryl Grady,! do Insstirúto de Pesquisa em Toronto, Canadá, demonstrou que, nos indivíduos mais velhos, outras regiões do córtex cerebral, diferentes das utilizadas pelos jovens, são responsáveis pelo reconhecimento fisionômico, por exemplo. Na Universidade Duke, Carolina do Norte, Roberto Cabreza encontrou provas de que as pessoas com mais idade e pior desempenho de memória tinham ativadas as mesmas regiões cerebrais que os jovens. Já os mais velhos com boa performance apresentavam um padrão de ativação neurológica diverso. Ficou claro que a reestruturação neural pode compensar eventuais déficits de rendimento. Aparentemente, porém, nem todas as pessoas com idade avançada apresentam essa capacidade.

• Vantagem pela experiência

De qualquer maneira, os idosos possuem uma vantagem muito nítida sobre os principiantes: o conhecimento constituído por meio da experiência, a que os pesquisadores chamam "inteligência cristalizada". Esta abrange os conhecimentos gerais e o vocabulário dominado pela pessoa. Além disso, os mais velhos frequentemente apresentam competência social muito superior à dos jovens. Tal fato é crescentemente reconhecido pelos empregadores, que preferem os mais experientes para as tarefas de assessoria e relacionamento com o cliente. Com o avanço da idade, o rendimento da inteligência cristalizada se mantém constante ou até aumenta em indivíduos saudáveis.

Todavia, cada vez menos o mundo do trabalho moderno faz uso das competências dessa habilidade. O que conta em todas as profissões é rapidez e flexibilidade. Motoristas de caminhão têm rotinas de trabalho muito dinâmicas e precisam se orientar com agilidade em ambientes desconhecidos. A realização dessas tarefas fica a cargo da chamada "inteligência fluida", responsável pelo bom desempenho quando é necessário mudar rapidamente de uma tarefa para outra ou em ocasiões em que é preciso direcionar o foco de atenção e selecionar informações relevantes.

Nesse âmbito os mais velhos ficam em pior atuação. A psicóloga Jutta Kray, da Universidade de Saarbrücken, Alemanha, comprovou que as dificuldades são especialmente grandes quando é necessário coordenar duas tarefas simultâneas. A pesquisadora expôs pessoas de diferentes idades a figuras coloridas ou em preto-e-branco nas quais estava representado um retângulo ou um triângulo. Elas tinham de informar se viam cores ou formas - no caso, um triângulo ou um retângulo. A informação deveria vir intercalada: duas vezes seguidas era preciso identificar a cor da figura e nas duas vezes subsequentes, o formato; depois novamente a cor, e assim por diante.

Ficou demonstrado que os mais velhos sempre apresentavam desempenho pior quando mudavam de tarefa. O custo da alteração cognitiva era, portanto, mais alto para eles. As capacidades basais do controle cognitivo pareciam afetadas: mesmo depois de transcorridos inúmeros testes, as dificuldades permaneciam e não era possível removê-Ias com treinamento.

Porém, nem todas as notícias são ruins. Algumas indicações relativizam a idéia da "idade inflexível", pois as falhas dependem bastante de condições marginais. As restrições podem ser plenamente compensadas quando as condições de trabalho são modificadas.

• Difícil decisão

Com o estudo mais detalhado das bases fisiológicas no cérebro, muitas restrições cognitivas adquirem novo significado. Recentemente, nosso grupo de trabalho associou-se a Juliana Yordanova e Vasil Kolev, da Academia Búlgara de Ciências, para estudar o motivo do atraso da reação em pessoas mais idosas expostas a estímulos que exigiam respostas diferenciadas.

Elaboramos um experimento no qual os participantes liam em um monitor ou ouviam em um fone uma das quatro vogais: A, E, I e O. A cada letra lida ou ouvida, deveriam pressionar uma tecla o mais rápido possível. A tecla correspondente a cada vogal deveria ser acionada com um dedo diferente (indicador ou médio da mão esquerda e da direita, respectivamente). Quando surgiam novos estímulos, as pessoas tinham, então, de decidir como reagir enquanto sua atividade cerebral era medida por meio de eletroencefalograma.

Nos processos cognitivos ou nas percepções sensoriais, ocorrem os chamados potenciais relacionados a eventos (event-related brain potentials - ERPs). Os componentes do ERP permitem interferir no funcionamento dos processos neurais. A porção inicial do sinal corresponde, no experimento das vogais, ao processamento do estímulo. As ondas seguintes representam o desenvolvimento do pensamento e da decisão de ação. Por fim, pouco antes da resposta motora, há um componente que representa a preparação do movimento do dedo. O tempo de reação dos mais velhos foi cerca de 60 milissegundos mais longo que o dos mais jovens, e a porcentagem de erro, mais baixa.

Como se produz o retardamento da reação? Esse experimento não mostrou em qual etapa os cérebros mais idosos perdiam mais tempo: se na percepção visual ou na auditiva, na decisão sobre qual dedo usar ou na execução da resposta motora. Para obter essa informação, foi feito um teste de controle, no qual os estímulos eram os mesmos que no primeiro experimento, mas a reação deveria ocorrer sempre com o mesmo dedo.

Essa tarefa simplificada era realizada com mais velocidade por todos, e as diferenças de desempenho entre jovens e velhos desapareciam. As faixas etárias apresentavam diferenças estatisticamente insignificantes. Seria possível concluir que o processo de decisão sobre qual dedo usar era responsável pelo retardamento da reação nas pessoas mais velhas.

Contudo, como se apresentava o quadro quando os potenciais relacionados a eventos desse teste eram analisados? Surpreendentemente, os potenciais responsáveis pelo reconhecimento do estímulo eram bem mais altos nos indivíduos mais idosos que nos jovens. Assim, seu cérebro parecia compensar algo, ou seja, despendia maior esforço para chegar ao mesmo resultado.

Além disso, os ERPs relativos à percepção visual dos mais velhos eram retardados por alguns milissegundos, o que não acontecia com os estímulos acústicos. Isso mostra que o processamento visual é um pouco menos eficiente nos mais velhos, embora a diferença com relação aos moços seja muito pequena. Todavia, não explica por que os primeiros demoravam mais a decidir entre as teclas no experimento em que era necessário determinar qual dedo usar, e por que esse retardo era igualmente longo em estímulos visuais e acústicos, apesar de a percepção visual ser um pouco mais lenta que a sonora.

A explicação foi encontrada na porção do ERP que espelha o preparo da resposta. Quando determinado dedo é mobilizado, há aumento substancial de atividade na área cerebral correspondente a esse dedo. O chamado potencial lateralizado de prontidão (lateralized readiness potential - LRP) indica quão inntensamente o cérebro se prepara para determinada ação.

O sinal elétrico do potencial de prontidão era iniciado sem demora nos mais velhos. Porém era bem mais intenso que nos jovens. E até que a reação fosse desencadeada, passava-se mais tempo. O real motivo do atraso não é então a demanda de tempo maior para a tomada de decisão, mas reside muito mais no tempo necessário para os preparativos da resposta motora.

• Elogio à lentidão

Pode ser que o centro motor do cérebro mais velho seja menos sensível. Isso é pouco provável, já que o teste-controle evidenciaria diferenças entre pessoas jovens e velhas, o que não ocorreu. Estamos convencidos de que se trata de uma segunda alternativa: o limiar de reação parece aumentado nas pessoas mais velhas por motivos estratégicos: para reagir com mais cautela e diminuir as possibilidades de erro. Essa hipótese está em conformidade com os resultados corroborados pela análise de muitos outros potenciais. Parece que cérebros mais velhos "gostam" de trabalhar mais devagar, porém o fazem com maior precisão. A conclusão do estudo é que as pessoas com mais idade não possuem audição prejudicada em comparação com os mais jovens e, apesar de processarem a informação visual de modo levemente piorado, seu cérebro é capaz de tomar decisões com relação a respostas motoras com a mesma rapidez dos jovens. Apenas o seu limiar motor é mais alto.

As consequências para o cotidiano profissional são grandes. As atividades de controle de qualidade, por exemplo, requerem decisões frequentes e habilidades de seleção rápida. Como mostra nosso estudo, os processos cognitivos inerentes a essas tarefas não ficam prejudicados com o passar dos anos. Mesmo quando diminui a velocidade de sua execução por causa da ligeira elevação do limiar de reação, não há motivos práticos para não delegar tais tarefas aos funcionários mais velhos. Pelo contrário, pode haver evidentes vantagens em fazê-lo, pois é certo que as atividades de controle de qualidade dependem de uma baixa taxa de erro, tal como é observada nos mais experientes.

Outros estudos demonstraram que indivíduos mais velhos muitas vezes cometem menos erros que os moços, em especial nas tarefas que exigem capacidade de concentração. Os resultados causaram surpresa, pois em geral considera-se que as pessoas de mais idade são mais suscetíveis a distração. Pensava-se que desviavam a atenção de um interIocutor com mais facilidade quando, por exemplo, houvesse pessoas conversando em volta.

Nossa equipe trabalhou com estímulos visuais desenvolvidos pelo neuropsicólogo Bruno Knopp, da Universidade de Braunschweig, Alemanha. As pessoas deveriam reagir ao aparecimento de setas luminosas no centro de um pequeno monitor pressionando uma tecla, usando a mão para a qual a seta apontasse.

Procuramos distrair as pessoas pouco antes do aparecimento do estímulo, usando outras setas próximas à principal, na parte superior ou inferior do monitor. Em metade dos casos, as setas marginais apontavam na mesma direção da seta no centro da tela - congruentes; na outra metade, apontavam na direção oposta - i resa, pois em geral considera-se que as pessoas de mais idade são mais suscetíveis a distração. Pensava-se que desviavam a atenção de um interIocutor com mais facilidade quando, por exemplo, houvesse pessoas conversando em volta.

Nossa equipe trabalhou com estímulos visuais desenvolvidos pelo neuropsicólogo Bruno Knopp, da Universidade de Braunschweig, Alemanha. As pessoas deveriam reagir ao aparecimento de setas luminosas no centro de um pequeno monitor pressionando uma tecla, usando a mão para a qual a seta apontasse.

Procuramos distrair as pessoas pouco antes do aparecimento do estímulo, usando outras setas próximas à principal, na parte superior ou inferior do monitor. Em metade dos casos, as setas marginais apontavam na mesma direção da seta no centro da tela - congruentes; na outra metade, apontavam na direção oposta - incongruentes.

• Distração? Não, obrigado!

Quando ocorria a interferência de estímulos que apontavam na direção oposta, os tempos de reação eram mais longos, independentemente da idade. Todas as pessoas apresentavam maior taxa de erro. O potencial lateralizado de prontidão ratificou essa observação: de início, sua curva era ascendente, indicando uma reação incorreta. Nesse caso, a mão errada estava sendo preparada para agir. Apenas depois disso a curva era descendente, indicando a ativação da mão correta.

Os mais velhos são tão suscetíveis quanto os mais jovens a estímulos de distração, o que se espelha no pico positivo da curva. Além disso, a reação correta, refletida no vale da curva, demora mais a ser desencadeada. Apesar disso, os idosos cometem apenas metade da quantidade de erros dos moços. Qual a causa disso?

Notamos que os LRPs dos mais jovens eram iniciados antes, o que significa que reagiam com mais rapidez aos estímulos falsos (as setas incongruentes), de modo que não era possível evitar a resposta incorreta: eles pressionavam a tecla errada. Nas pessoas com mais idade, a ativação da resposta demora mais, o que evitava os equívocos. Os supostamente mais vagarosos possuem, portanto, enorme vantagem conferida por esse mecanismo de retardamento.

Situações como essas podem ocorrer, por exemplo, no trânsito, em que há frequente alteração dos estímulos. Em um cruzamento com inúmeros semáforos, os jovens podem errar com mais facilidade, reagindo precocemente a um sinal verde que talvez não seja o correto para a faixa em que se encontram.

A propensão ao erro depende, todavia, do tipo de tarefa. Os mais velhos não apresentam desempenho tão bom se submetidos a pressão temporal, sobretudo quando necessitam encontrar algo com rapidez usando a visão. Desenvolvemos um experimennto para demonstrar tal dificuldade. A tarefa consistia em encontrar no monitor, um sinal luminoso específico: um anel aberto de um dos lados. Apenas metade dos mostradores possuía tal característica, à qual os indivíduos deveriam reagir pressionando uma tecla. Seu tempo de busca era de 15 segundos, intervalo aproximado para a reação em um cruzamento viário.

As pessoas mais velhas apresentavam porcentagem de erro maior, e a resolução da tarefa era invariavelmennte mais demorada quando comparada à dos jovens. Além disso, os sujeitos com mais idade consideravam o teste muito cansativo, o que se refletia em seu padrão de ondas cerebrais. Antes do aparecimento do sinal luminoso na tela, uma onda especial de preparação, a chamada "variação contingente negativa", surgia na região frontal do cérebro. Essa onda era visivelmente aumentada nas pessoas mais idosas. Seu cérebro parecia se preparar muiito mais para a execução da tarefa. Concluímos que se trata de um mecanismo de compensação, cujo esforço adicional levava a um grande cansaço, embora neste caso não fosse registrado melhor desempenho.

Tais tarefas de busca visual realizadas sob pressão constituem uma dificuldade para os trabalhadores mais velhos. Enntretanto, na execução de uma atividade profissional, o problema seria solucionado com facilidade. Os motoristas de caminhão poderiam dispor de um sistema computadorizado de navegação por estímulos sonoros. É claro que tal sistema não deveria distrair o condutor.

Deficiências relacionadas à idade aparecem apenas em determinadas ocupações. Como os profissionais mais experientes apresentam melhor performance em muitas outras tarefas, sua classificação genérica como menos eficientes não se justifica. Muitos dos eventuais déficits podem ser compensados pela reorganização dos locais de trabalho. Os métodos neurofisiológicos hoje permitem encontrar com precisão as causas de deficiências de desempenho, abrindo a possibilidade da reestruturação de tarefas.

Para conhecer mais

Envelhecimento, polítcas públicas e novas tecnologias. Clarice E. Peixoto e Françoise Clavairolie. Editora FGV, 2005.
Corpo, tempo e Envelhecimenlto. Delia Catullo Goldfarb. Casa do Psicólogo, 1998.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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