Brigar faz bem à equipe


Um novo livro prega a discórdia nas empresas, contesta a ideia de que uma equipe unida é responsável por gerar bons resultados e afirma que a competição não é o oposto da colaboração.

Revista Época negócios por - Ariane Aballah

A discórdia leva à harmonia. A colaboração nasce de disputas. Nada melhor do que um prazo e um adversário para despertar a criatividade. é o que apontam algumas pesquisas apresentadas no livro Top Dog: The Science of Winning and Losing (algo como: "Favorito: a ciência de ganhar e perder"), de Po  Bronson e Ashely Merryman, lançado nos Estados unidos pela Editora Twelve, em fevereiro deste ano. Bronson é autor de outros seis livros - um deles, em parceria com Ashley - e fundador da San Francisco Writer"s Grotto, uma cooperativa de escritores e cineastras. Ashley é formada em belas-artes pela universidade do Sul da Califórnia e por quase 15 anos dirigiu uma ong para crianças carentes. Ela falou a Negócios por tlefone sobre como a competitividade pode ajudar as pessoas e empresas a ser mais produtivas.

Época Negócios - Em que circunstâncias pode m ser produtivas as discórdias dentro de um grupo?

Ashely Merryman - As pessoas costumam pensar que a boa relação de uma equipe promove bons resultados. Mas as pesquisas mostram que é o contrário: o resultado é que leva a uma relação de time. Em uma equipe, todos devem ter liberdade para discordar e opinar sobre a melhor forma de conduzir o trabalho. Idealmen­te, entenderiam que não é pessoal. É preciso se preocupar com ambientes em que se evitam confrontos profissionais apenas com o intuito de manter relações cordiais. O professor de psicologia Richard Hackman, de Harvard, viajou o mundo estudando as melhores orquestras e descobriu que quanto mais sofisticados os músicos eram no palco, mais choradeira e frustração aconteciam nos bastidores. Às vezes, a melhor pessoa da equipe é a reativa, que combate a complacência. Quando todos estão sendo levados por uma ideia, fica brava e diz: "O que estão fazendo? Acordem!".

Época Negócios - O que deve ser levado em conta na hora de montar uma equipe?

Ashely Merryman - É melhor ter um time pequeno e ocupado do que com um monte de pessoas extras que têm tempo de reclamar.

Época Negócios - Quando a equipe tem alguém que se destaca pelo talento, como o gestor deveria tratá-lo?

Ashely Merryman - Há uma ideia romântica de que todos na equipe devem ser iguais. Não devem. Se tem alguém espetacular, todos entendem que ele é a estrela e deve liderar o time. Isso fará com que todo mundo trabalhe melhor.

Época Negócios - E quando essa estrela não se dá bem com a equipe?

Ashely Merryman - Por que não? Será que é porque é ótimo e isso inco­moda os outros? Há muita competição nos times. O problema com as estrelas é que normalmente elas querem brilhar sozinhas. Ficam preocupadas que os colegas levem o crédito pelo seu trabalho. O caminho é convencê-Ias de que podem fazer mais dentro de um grupo do que sozinhas.

Época Negócios - De que forma as pesquisas relacionam a competitividade e a colaboração?

Ashely Merryman - Os hormônios que levam a competir são os mesmos que levam a colaborar. São só diferentes padrões e conexões sociais. Competir motiva as pessoas a trabalhar mais. Se há dois fina­listas para o trabalho com um cliente, ambos traba­lharão muito para fazer o melhor que puderem. É uma forma de inspiração. Outro exemplo: eu posso fazer exercícios físicos no meu apartamento e achar que estou progredindo. Mas só quando vou para uma academia é que realmente percebo o nível em que estou. Competição desafia você a não ser conformista e a aprender com os outros.

Época Negócios - O livro estabelece uma ligação entre a criatividade e a competitividade. Em que aspectos elas se encontram?

Ashely Merryman - A competição é um incentivo concreto para a criatividade. Quer criar algo novo? Encontre uma competição ou, se for um escritor, ache alguém tão bom ou um pouco melhor que você e veja quantos livros ele está lançando. Você vai querer escrever um também. Algumas das obras de arte mais importantes do mundo vieram da competição. Por exemplo, estava no contrato de Michelangelo que se a Pietà não fosse a melhor de Roma ele não seria pago pelo trabalho.

Época Negócios - Algumas pesquisas mostraram que os homens são mais autoconfiantes que as mulheres. Por quê?

Ashely Merryman - Na maioria das vezes, os homens pensam: "Eu posso fazer isso". As mulheres pensam que o desempenho delas provavelmente não é tão bom quanto o do concorrente. Preocupam-se em não decepcionar os outros, enquanto os homens se preocupam em não serem abatidos pelo adversário. A questão é que elas são muito boas em identificar as probabilidades de ganhar ou perder - e se recusam a competir quando as chances de derrota são maiores. Já os homens são bons em ignorar as probabilidades e, por isso, às vezes se saem melhor.

Época Negócios  - Qual a origem dessa diferença?

Ashely Merryman - Parte disso pode ser biológico, e parte é como as crianças são criadas. A psicóloga Joyce Benenson, outra pesq quisadora de Harvard, descobriu que, em geral, os meninos crescem brincando em grupos, e as meninas, em dupla. Em um grupo, alguém vai ganhar e alguém vai perder, mas não importa, porque no dia se­guinte tem futebol outra vez. O grupo ensina que a competição não afeta a amizade. Já as garotas aprendem que não se deve competir nem discutir porque isso pode acabar com a amizade.

Época Negócios - Se as mulheres calculam os riscos e os homens ignoram as probabilidades podemos dizer, então que não faz sentido o rótulo de que elas são mais emocionais, e eles, mais racionais...

Ashely Merryman -  A ciência diz que as mulheres são melhores para registrar a emoção dos outros - e não em se tornar emotivas. Já os homens são melhores em se desligar da emoção alheia. Por exemplo, um pai descobre que vai trabalhar no domingo e não poderá ir ao futebol com o filho. O estresse de ter de trabalhar diminui a atuação da parte do cérebro que é sensível à decepção do filho. Isso vai ajudá-lo a ficar mais focado na tarefa. O cérebro de uma mulher na mesma situação é melhor em registrar que o filho ficou chateado.

Época Negócios - É possível treinar o cérebro para lidar melhor com as competições?

Ashely Merryman - Sim. Durante muitos anos fomos alertados de que o estresse faz muito mal e que, portan­to, deveríamos nos acalmar. Mas isso é mentira. O que faz mal é o estresse crônico. Um pouco de estresse, quando alguma coisa negativa acontece, não é ruim. Significa que você se importa. Então, para lidar com momentos de pressão, em vez de ficar falando para si mesmo "Eu tenho de me acalmar!" ­ o que só vai deixá-lo mais nervoso -, é melhor dizer "Estou estressado, mas não distraído nem chateado. Estou animado". Quando estamos animados, as veias se dilatam para que o ritmo cardíaco aumente. Consequentemente, temos mais energia.

Época Negócios - Isso não vai contra outras pesquisas recentes, que mostram que o hábito de autoafirmar nossas qualidades pode aumentar a frustação?

Ashely Merryman - Dizer "estou animado" não é dizer "eu já venci". O que as pesquisas mostram que funciona é pensar nas coisas positivas que estão por vir, mas, no passo seguin­te, pensar nos obstáculos. Superá-Ios se torna parte do objetivo.

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