Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças


Experiência mostra que é possivel manipular a memória para acabar com nossos temores.

Revista Galileu - por Daniela Schiller

Sentir medo é uma baita vantagem adaptativa. Ele nos ensina a lidar com o risco e nos faz escapar do perigo. Em casos extremos, no entanto, um momento traumático do passado pode afetar todo o resto de nossa existência. Quando isso acontece, o medo pode nos impedir de seguir o rumo que gostaríamos de tomar, nos atrapalhar na realização de nossos desejos e até mesmo nos impedir de atingir os objetivos que traçamos. Diante desse problema que atinge milhões de pessoas no mundo todo, nós, da equipe do Departamento de Psicologia e Centro de Neurociência da Universidade de Nova York (NYU), fizemos a seguinte pergunta: não seria interessante se conseguíssemos manipular a memória para que o sentimento de medo fosse apagado de nossas mentes? De certa forma, foi o que fizemos em uma experiência realizada em dezembro do ano passado.

Nossa pesquisa foi baseada numa descoberta feita por Joseph LeDoux, professor de neurociência e psicologia da NYU. Dez anos atrás, ele e seus colegas tiveram sucesso ao fazer com que ratos “esquecessem” o medo que sentiam. Ao tentar apagar um medo induzido em laboratório, os pesquisadores descobriram que deveriam, primeiro, lembrar os ratos daquilo que lhes trazia pavor e, depois, agir numa fase da memória chamada reconsolidação.

A reconsolidação é um processo no qual memórias antigas mantêm-se instáveis, podendo sofrer alterações até que sejam armazenadas novamente. Numa linguagem simplificada, podemos dizer que, nessa fase, as lembranças do passado ainda têm possibilidade de vir a ser atualizadas. Quando você lembra de um fato antigo, é na reconsolidação que pode atualizá-lo com novas informações que não estavam disponíveis naquele primeiro momento. Nós, especialistas, acreditamos que, se nessa etapa da memória for fornecida a informação certa, há grandes chances de conseguirmos apagar o sentimento de medo trazido por um fato ocorrido anteriormente.

Decidimos realizar uma pesquisa similar, desta vez com humanos. Recrutamos voluntários saudáveis e induzimos neles um medo ligeiramente leve. Para isso, foi usado um quadrado azul: toda vez que mostrávamos esse objeto, dávamos um pequeno choque elétrico nos pacientes. Depois de um tempo específico, constatamos que, sempre que viam o tal quadrado, nossos voluntários demonstravam medo, prevendo o choque vindouro.

Numa segunda fase, tentamos apagar o temor que instauramos propositadamente. Para isso, mostrávamos o mesmo quadrado, o que automaticamente fazia o medo ressurgir. Então, no que consideramos o momento de reconsolidação dessa memória, voltamos a mostrá-lo às mesmas pessoas inúmeras vezes, só que sem o choque. Ao fazer isso, fornecemos novas informações sobre o objeto, agora não mais tão ameaçador. Conseguimos assim prevenir o retorno do medo provocado por ele.

É importante frisar que, em nossa experiência, não apagamos a memória dos voluntários, que continuaram lembrando do quadrado e dos choques. O que fizemos foi prevenir a resposta emocional a essa lembrança. O medo que induzimos no laboratório foi embora — nesse sentido, foi “apagado”. Como consequência, tendemos a acreditar que nossa memória emocional é mais frágil e suscetível a interferências do que pensávamos antes.

Se isso se mostrar correto, podemos um dia tentar alterar memórias mais fortes e marcantes, como as do estresse pós-traumático. Ainda não sabemos se esses pequenos temores que induzimos em laboratório são similares aos medos mais fortes, mas estamos procurando investigar o fato. Se conseguirmos, no futuro, ajudar as pessoas a alterar memórias de medos profundos, será provavelmente uma das grandes contribuições da neurociência para o dia-a-dia dos individuos.

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