Burnout, o estresse além dos limites


Tipo insidioso é de origem laboral e acomete milhões de executivos a cada ano.

Jornal Gazeta Mercantil - por Alexandre Staut

Falta de prazer no trabalho, dores nas costas, no pescoço e na coluna. Deterioração no ambiente corporativo, sensação de perseguição, alergias, picos de hipertensão. E ainda: sensação de pane, exaustão física e emocional, agressividade, irritação.

Você pode ser vítima da síndrome de burnout, ou combustão completa, quadro comumente confundido com estresse, mas muito mais insidioso. Não se assuste. Há tratamentos hoje para o mal que tem acometido muitos executivos - conforme Danielli Haddad, a coordenadora do check up focado para o público corporativo do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

Burnout é uma doença relativamente nova, que se caracteriza pelo esgotamento físico e mental, sendo que está intimamente ligada à vida profissional. Em geral, faz suas vítimas entre aquelas pessoas com idealismo elevado e rigidez - ou seja, os perfeccionistas de uma forma geral.

Teria sido estudada pela primeira vez por Herbert Fregenbauer, psicólogo da American Psychological Association, na década de 70. Foi ele quem aplicou este termo ao perceber que seus pacientes apresentavam aspecto de esgotamento, como se estivessem "queimados" em toda sua energia vital.

"Enquanto o estresse é algo relativamente passageiro, o burnout é uma patologia na qual o indivíduo se vê numa aflição contínua, que acaba por passar tal sentimento aos clientes ou colegas. Se o estresse interfere na vida da pessoa, o burnout acaba afetando mesmo as relações de trabalho", diz a médica.

"Esta doença tem acometido muitos executivos, pois, não é novidade, o estresse é intrínseco ao alto escalão. É lugar comum, mas a maioria não trabalha para viver, vive para trabalhar. Não saem do Blackberry, não têm limites, trabalham de madrugada", destaca a especialista. "E ainda põem a culpa na empresa, sem perceberem que perpetuam a infelicidade".

Se acomete principalmente executivos, observa Danielli, é justamente este grupo que poderá lidar melhor com a doença - de uma forma realmente objetiva. "Executivos sabem lidar com o estresse. Afinal, estamos falando de pessoas que não "amarelam" nem costumam chorar em situações-limite", observa.

Para Mário Eduardo Pereira, coordenador do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, a melhor forma de lidar com o burnout é saber administrar o tempo. "Hoje, culturalmente, um executivo está inserido numa máquina que exige muito dele", diz. "Mas há formas de ser objetivo. É preciso encarar compromissos com otimismo", aconselha. 

As manifestações podem aparecer, de acordo com Pereira, relacionadas a fadiga crônica, insônia, úlceras digestivas, hipertensão arterial, lapsos de memória, baixa tolerância, frustração, Ímpeto de abandono do trabalho, comportamento paranóico. O indivíduo acaba consumindo mais álcool, café e remédios. Falta no trabalho, tem baixo rendimento, impaciência e sentimento de onipotência.

Danielli diz que a cura deve começar pela revisão de atitudes estressantes no trabalho. Ela cita o exemplo de seus pacientes. "A maioria faz reuniões intermináveis, que poderiam ser resolvidas em curto espaço de tempo. Essas reuniões muitas vezes são o grande mal da vida destes profissionais, que deviam resumi-las de alguma forma", sugere ela.

Ela conta que aos primeiros sinais de burnout, é preciso procurar um psicólogo. Afinal, não há humilhação em ir atrás de um profissional. Sessões em grupo e treinamentos podem ajudar também, assim como relaxamento, ginástica e aulas de consciência corporal, caso do yoga. Alguns pacientes precisarão de medicamentos com antidepressivos, para moderação da ansiedade e da tensão.

A síndrome de burnout pode ser prevenida por meio de cuidados contínuos. Para tanto, é preciso que o executivo fique atento aos seus limites pessoais. "Equilíbrio é a palavra-chave. É preciso ter equilíbrio entre vida no trabalho e vida pessoal, espiritual e familiar", aconselha Danielli.

Estudos mostraram que mais de 10% dos executivos norte-americanos sofrem da síndrome. Na Europa, o número é parecido. No Brasil não há dados concretos, mas Danielli aponta que o número de pessoas atingidas cresce a cada ano.

Nos Estados Unidos, o estresse em suas mais variadas formas tiram cerca de US$ 150 bilhões por ano das organizações. Entre as conseqüências que justificam a cifra monstruosa estão o absenteísmo e as contratações fugazes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera o burnout uma das principais doenças dos americanos, ao lado de diabetes e das doenças cardiovasculares.

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