Cabeça Global


O Brasil nunca foi tão global: multi­nacionais verde-amarelas, estrangeiros procurando empregos aqui, pro­fissíonais que têm chefes e clientes lá fora. Veja quais são as competências que você precisa desenvolver para fazer uma carreira de sucesso num mercado de trabalho globalizado.

Revista Você S/A - por Elizza Tozzi

Pelo menos uma vez por mês, o paulistano Luiz Claudio Guerra, de 36 anos, gerente de TI da Nokia Siemens Networks para o Mercosul, acorda às 3 da manhã, toma banho, bebe café, coloca terno e gravata, senta-se em frente ao seu computador, conecta sua webcam e, de sua casa em São Paulo, participa de uma reunião com colegas chineses que já estão há pelo menos oito horas acordados. Desde 2007, Luiz tem superiores e subordinados espalhados por Argentina, Chile, Alemanha, Estados Unidos e países da Ásia - e aprendeu a se adaptar aos horários, costumes e línguas de cada local. "Para me relacionar com todos preciso de jogo de cintura em tempo integral", diz.

Situações como a descrita acima fazem parte do dia a dia de centenas de milhares de profissionais brasileiros, que, por meio das empresas em que trabalham, vão se conectando a um mercado de trabalho global. Nes­sas interações com chefes, colegas e clientes estrangeiros, os brasileiros conhecem culturas diferentes e mo­dos diversos de trabalhar e fazer ne­gócios. Essa troca, ao mesmo tempo que enriquece a experiência profis­sional, traz novos desafios à carreira. "Ninguém mais pode fugir da globalízação", diz o professor Sherban Leonardo Cretoiu, diretor de projetos de internacionalização na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, respon­sável pelo Ranking das Trasnacionais Brasileiras; pesquisa que mapeia a presença de companhias brasileiras no exterior. O estudo mostra quanto essas empresas de capital nacional e seus funcionários estão inseridos no contexto mundial. No ano passado, as transnacionais verde-amarelas contrataram 45.000 pessoas tanto aqui quanto lá fora, e o número de funcionários estrangeiros atuando nelas aumentou 7,6%. A globaliza­ção da mão de obra inclui também profissionais de pequenas empresas nacionais. O estudo da Fundação Dom Cabral mostra que pequenos negócios participam dessa inter­nacionalização ao lado de nomes como Vale e Odebrecht. Entre eles estão a gaúcha Artecola, fabricante de produtos químicos, e a carioca Spoleto, rede de restaurantes fast­food. "O porte deixou de ser um fator determinante para a expansão internacional", diz Sherban.

Ao mesmo tempo que as empresas brasileiras aumen­tam a presença no exterior, o mercado nacional vem abrin­.do suas portas para estrangeiros. A diferença em relação ao passado é que antigamente somente altos executivos eram enviados ao Bra­sil. Agora, profissionais de todas as patentes chegam ao país. O que explica esse desembarque é o bom momento da economia brasuca. Há muitas multinacionais enviando ao Brasil profissionais americanos, europeus e asiáticos que antes trabalhavam na matriz ou em filiais de países considerados ricos. Outro movimento que começa a tomar for­ma é o de empresas instaladas aqui procurando profissionais no exterior. De janeiro a junho deste ano, um em cada cinco processos de contra­tação feitos pela Hays, consultoria de recrutamento para alta e média gerência, selecionou profissionais de fora do país. "Os estrangeiros e os brasileiros que estão no exterior querem vir para um país repleto de oportunidades", avalia Gustavo Cos­ta, consultor da Hays.

Seja para se relacionar com profis­sionais no exterior, seja para lidar com estrangeiros trabalhando no Brasil, é bom você se preparar para aprender a lidar com a diversidade cultural e com as trocas globais. "Ter facilidade para entender o estrangeiro está se tornando uma competência essencial", afirma Carmen Migueles, antropóloga e professora da Funda­ção Dom Cabral. Mas como adquirir mentalidade global? A resposta é: desenvolvendo um conjunto de ha­bilidades específicas, presentes nos profissionais que fizeram carreiras internacionais de sucesso. O professor Mansour Javidan, da escola de negó­cios americana Thunderbird School of Global Management, orientou uma pesquisa com 5.000 gerentes de todo o mundo para entender o que é esse conjunto de habilidades, batizado de global mindset, ou mentalidade global. O professor descobriu que pessoas curiosas, com espírito de aventura e predisposição para o aprendizado, le­vam vantagem no jogo internacional. Esse conjunto de fatores permite ao profissional trabalhar - e ser bem-sucedido - em ambientes com os quais não tem muita familiaridade. A boa notíciaé que qualquer uma dessas habilidades pode ser fortaleci­da, seja com treinamento específico, seja com experiências práticas.

Vontade de aprender

A primeira das habilidades que compõem a mentalidade global é a vontade de aprender. Para enten­der diferentes culturas é necessário estar informado sobre os aspectos históricos, geográficos, culturais, econômicos e políticos dos países em que sua empresa opera. O pau.listano Luís Alcubierre, de 42 anos, diretor de comunicação corporativa da empresa de calI center Atento, que mora em Madri desde o começo deste ano, é um desses profissionais que precisam ficar ligados o tempo todo nas notícias dos 17 países que estão sob sua responsabilidade. "Se você não domina a cultura local, não consegue respeito de seus pares", diz. Antes de ser expatriado para a capital espanhola, em janeiro, Luís se informou incansavelmente sobre o mercado Iocal por meio de telefo­nemas a colegas nativos, pesquisa em sites de notícias e em livros de negóc cios. "Só.com muita informação se faz um bom trabalho lá fora", explica o diretor.

A capacidade e a von­tade de aprender formam o que o professor Mansour Javidan chama de capital intelectual, alicerce para o aperfeiçoamento-de uma mentalidade globalizada e, de acordo com o professor, a parte mais fácil de desenvolver: "É preciso de­dicação, mas há cursos e MBAs vol­tados para o preparo internacional". Foi o que fez a bióloga carioca Sheila Purim, de 30 anos, que mora perto de San Diego, na Califórnia, Estados Unidos, e é a responsável pela área de treinamento da Life Technologies, empresa americana de biotecnolo­gia. Em 2008, ela se matriculou no MBA de gestão empresarial da Fun­dação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro. No curso conseguiu obter mais informações técnicas sobre o funcionamento das corporações, as estratégias globais das empresas, e cultivou uma boa rede de contatos. Tudo isso lhe rendeu propostas in­ternacionais. "O curso de MBA foi fundamental para ampliar meus co­nhecimentos técnicos, já que não tive experiência empresarial na faculdade de biologia", conta Sheila.

Para suprir essa necessidade de conhecimento internacional, a FGV do Rio de Janeiro criou o curso Global MBA, que, em parceria com universi­dades do Reino Unido, tem o objetivo de fazer com que os alunos adquiram vivência executiva internacional por meio de workshops online com estu­dantes de Manchester, Miami, Dubai, Singapura, Caribe, Malásia, Hong Kong e Xangai. Com isso, os alunos do Global MBA conseguem entender as particularidades profissionais e pessoais de diferentes países e se adaptar ao trabalho virtual - uma realidade comum em empresas glo­bais. "O curso prepara para a vivên­cia internacional e se preocupa em habilitar os profissionais que vão trabalhar com estrangeiros no Bra­sil", explica Stavros Xanthopoylos,
coordenador do MBA.

Capacidade de comunicação

Sem comunicação, não se estabelece nenhum tipo de relação profissional. Por isso, por mais óbvio que pareça, ter proficiência em outras línguas é essencial para quem quer ser um cidadão do mundo. "O primeiro pas­so é aprender um segundo idioma", afirma o professor Mansour avidan, da Thunderbird. Nesse sentido, os brasileiros estão numa situação pe­culiar. Por um lado, o número de profissionais bilíngues ainda é baixo no país. Essa deficiência é hoje uma das maiores razões para a exclusão de executivos de processos de seleção. Por outro lado, aponta o professor Mansour, os brasileiros que apren­derem inglês rapidamente levarão vantagem sobre executivos que têm esse idioma como língua materna e apresentam grande desinteresse por aprender outros idiomas. Mas, em muitos casos, apenas o inglês não basta. A advogada paulistana Adriana Giannini, de 32 anos, con­sultora de comércio internacional do escritório Trench, Rossi e Watanabe, precisou se dedicar às gramáticas inglesa, francesa, alemã e espanhola para conseguir se comunicar bem com uma gama variada de clientes.

Ela percebeu o peso da proficiência em outras línguas quando trabalhava na Bélgica. "Só quando aprendi bem o francês consegui uma integração mais consistente com meus colegas e chefes", lembra Adriana.

• Paixão por diversidade

Mansour Javidan e uma equipe de oito cientistas descobriram, em sua pesquisa sobre mentalidade global, algo recorrente entre os profissio­nais mais bem avaliados: paixão por diversidade e espírito aventureiro. "Só quem tem predisposição para conhecer novidades se dá bem numa carreira internacional", diz o professor Mansour. Essas características fazem parte do que os experts batizaram de capital psicológico de uma mente global. "Essas habilidades são desen­volvidas ao longo de toda a vida", afirma o professor. Por isso, quem tem uma formação multicultural desde a infância tem mais probabilidades de estar aberto a novas experiências intemacionais. Victor Baez, diretor-geral para a América Latina da empresa de tecnologia Netgear, é um desses sor­tudos que têm a diversidade cultural no DNA: a mãe é especializada em relações internacionais e fala sete idio­mas, os irmãos moram nos Estados Unidos e ele foi criado no Brasil. "Sou um aficionado por intercâmbios", diz. A criação multicultural fez com que o executivo voltasse seu plano de carreira para o exterior. Mesmo morando hoje no Brasil, Victor se re­laciona com funcionários na América Latina e na Ásia. "Minha criação me ajudou a entender as diferenças en­tre as nacionalidades", diz. O maior desafio de Victor foi aprender a se relacionar com asiáticos, que são mais arredios a uma liderança estrangeira. "O importante é estar preparado para lidar com adversidades", explica.

Mas as pessoas que não tive­ram o benefí­cio de ter sido criadas numa família globa­lizada também podem desenvolver essa habilidade. "Conhecer ambientes diversos no próprio país é um cami­nho para a quebra de preconceitos", diz Cris Folí, diretora do Instituto de Desenvolvimento do Capital Hu­mano (Idecaph). Participar de feiras, palestras, workshops em cidades ou estados diferentes faz com que os pro­fissionais vivenciem novas realidades e comecem a ter mais vontade de co­nhecer diferentes povos. Essas ações podem não substituir uma expatria­ção, mas enriquecem a experiência profissional. As empresas têm um papel fundamental na dissemina­ção da diversidade. "Programas de coaching e assessment preparam os executivos para entender as diferen­ças globais", diz o professor Mansour. É o caso da Ericsson, fabricante de equipamentos de telecomunicação. Com 117 funcionários fora do Brasil, a empresa conduz, para quem tem interesse de ser expatriado, treina­mentos sobre condições políticas, cul­turais e econômicas de países como Estados Unidos e Chile. Além disso, mantém, na intranet, blogs nos quais os expatriados podem compartilhar suas experiências. "Essas práticas aumentam e estimulam a troca de informações", diz Alexandre Coelho, de 36 anos, diretor de consultoria e gerência de projetos da empresa.

Capacidade de adaptação

A palavra-chave para quem quer ser bem-sucedido em experiências inter­nacionais é flexibilidade. A capacidade de adaptação a situações novas e inusi­tadas é um atributo fundamental para uma carreira global quipamentos de telecomunicação. Com 117 funcionários fora do Brasil, a empresa conduz, para quem tem interesse de ser expatriado, treina­mentos sobre condições políticas, cul­turais e econômicas de países como Estados Unidos e Chile. Além disso, mantém, na intranet, blogs nos quais os expatriados podem compartilhar suas experiências. "Essas práticas aumentam e estimulam a troca de informações", diz Alexandre Coelho, de 36 anos, diretor de consultoria e gerência de projetos da empresa.

Capacidade de adaptação

A palavra-chave para quem quer ser bem-sucedido em experiências inter­nacionais é flexibilidade. A capacidade de adaptação a situações novas e inusi­tadas é um atributo fundamental para uma carreira global. "A pessoa deve estar disposta a se adequar ao desco­nhecido", explica Cris Foli, do Idecaph. O carioca Rafael Santa Rita, de 34 anos, vice-presidente de serviços globais da BRQ, empresa de serviços de tecnologia da informação, sentiu isso na pele. Há três anos teve de se mudar para Nova York para negociar fusões e, apesar de conhecer bem a cidade, precisou alterar alguns hábitos para se integrar à cultu­ra local e se relacionar melhor com os colegas americanos e estrangeiros que, como ele, escolheram a América para viver. "Quem vai aos Estados Unidos precisa compreender os americanos e uma gama de imigrantes", diz Alfre­do Behrens, professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), de São Paulo. "Nos Estados Unidos um em cada dez habitantes é estrangeiro", completa. Por isso, Rafael teve de lidar com americanos, paquistaneses e indianos num ambiente de trabalho internacional. "Com os americanos, aprendi a ser mais assertivo; com os indianos, a enfrentar situações adver­sas" conta Rafael.

Esta última característica, aliás, é inerente aos brasileiros. De acordo com o professor Sherban Leonardo, da Dom Cabral, por causa da econo­mia instável que o país viveu até os anos 90, os executivos made in Brasil desenvolveram sua carreira tendo de enfrentar condições de crise. Esse cenário ensinou os profissionais com idade por volta de 40 anos, que hoje estão em cargos de liderança, a saber como encarar crises. "Esses gestores já chegam lá fora em vantagem", diz Sherban. Os líderes mais jovens, que construíram a carreira numa fase de estabilidade econômica, têm de desenvolver jogo de cintura para lidar com situações difíceis. Quando a crise financeira internacional chegou por aqui, em meados de 2008, muitas companhias tiveram de chamar seus executivos mais experientes de volta, pois os mais jovens "espanaram" diante da pressão.

A capacidade de adaptação é neces­sária para o profissional no dia a dia do escritório e também para a empre­sa que precisa disseminar sua cultura corporativa no exterior. Com uma cultura baseada no cumprimento de metas rígidas e na meritocracia, a fabricante de cervejas AmBev passou por esse processo quando, em 2005, implantou uma fábrica de bebidas na República Domínicana. "Tivemos que colocar uma cor local na nossa gestão", diz Nelson José Jamel, diretor financeiro e de relações com investi­dores, um dos responsáveis pela ope­ração na América Central. "Mas nossa cultura se mostrou forte o bastante para ser adotada pelos funcionários locais", completa Nelson.

• Habilidade para engajar

Uma das competências mais com­plexas para o desenvolvimento da mentalidade global, que faz parte do capital social de uma cabeça internacional, é a aptidão para criar relacionamentos e vínculos com pessoas de outras nacionalidades. O professor Mansour Javidan explica a complexidade: "Não é fácil tentar ver o mundo pelos olhos dos outros". A conexão só acontece quando o profissional entende quase comple­tamente qual é a visão de mundo de um estrangeiro, habilidade que, infelizmente, não pode ser desen­volvida dentro das salas de aula ou auditórios de treinamento. "Esse tipo de conhecimento só se adquire na prática", garante Mansour. Por isso, quem almeja trabalhar com estrangeiros, precisa desde já apren­der a se colocar na pele de pessoas que têm interesses diferentes dos seus - isso pode ser feito sem sair do país. "Aprender a negociar com um gaúcho e depois com um mineiro amplia o horizonte dos executivos", explica Cris Foli, do Idecaph. E, uma vez que se está no meio do turbilhão internacional, o primeiro passo para estabelecer vínculos e engajar o es­trangeiro é ouvir muito o que ele tem a dizer. É o que faz Victor Baez, da Netgear. Toda vez que chega a um de­terminado país, ele tem o hábito de passar duas semanas só absorvendo informações sobre os negócios e a cultura. "Só assim me aproximo das pessoas com eficiência", conta Victor, Além disso, para quem lidera times multiculturais, fazer com que a nova equipe participe das decisões finais também ajuda na criação de laços de confiança. "Um traço comum no en­gajamento é a vontade de fazer parte de algo maior", afirma Mansour. É o que faz Luís Alcubierre, da Atento, que estabelece o trabalho colabo­rativo entre seus subordinados e pares. "A criação conjunta engaja a equipe", diz. Até pouco tempo, ser global era um luxo para poucos. Hoje, o mundo veio até você. É hora de conquístá-lo. .

• Você tem mente global?

Responda às perguntas abaixo e descubra se você está preparado para atuar internacionalmente.

Marque os numeras de acordo com a frequência das situações: 1 [Nunca], 2 [Raramente], 3 [Às vezes], 4 [Quase sempre] e 5 [Sempre]

- Capital intelectual

1. Você costuma se informar sobre as estratégias de expansão internacio­nal de sua empresa?

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2. Você estuda ou tem interesse por geografia, história e figuras públicas de outros países?

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3. Você procura saber como executar seu trabalho num pais com outra cul­tura, economia, polltica e outro sis­tema institucional?

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4. Você costuma discutir sobre eco­nomia e politica internacional com os seus amigos ou colegas de trabalho?

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- Capital psicológico

5. Você viaja para diferentes partes do mundo frequen

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