Caprichos da Memória


Neurociência - Jornalismo Científico - Revista Ciência&Vida

Como é possível lembrar-se com tamanha riqueza de detalhes de como foi seu dia em um longínquo período de sua infância e simplesmente esquecer o que almoçou ou a que horas acordou ontem? Por que é tão natural a prática de escrever uma dissertação, ou de montar uma planilha e, ao mesmo tempo, é tão difícil recordar a data do mês em que a tarefa deve ser entregue? Como estes esquecimentos, deixar de dar um recado a um amigo ou de tomar uma medicação a cada duas horas é a principal falha de memória no dia-a-dia e tem sido apresentada como tendo enorme relevância para um número significativo de pacientes psiquiátricos.

Recentes estudos têm investigado se a ativação dos hormônios glucocorticóides ligados ao estresse interfere na capacidade cognitiva, aumentando a consolidação da memória, enquanto níveis excessivamennte altos de glucocorticóides, ou algo que funciona da mesma maneira - infusões de competidores (agonistas) dos receptores destes hormônios - poderiam prejudicar os processos de retenção da memória. Interessados na questão, pesquisadores do departamento de Psicologia da University of Zurich, na Suíça, submeteram 20 homens adultos saudáveis a um teste de estresse psicossocial e a uma condição não-estressante com o objetivo de verificar de que maneira tais circunstâncias podem influenciar a memória prospectiva, relacionada à lembrança de afazeres cotidianos. O artigo sobre o estudo aguarda publicação na revista Neurobiology of Learning and Memory.

Os participantes foram submetidos a dois tipos de testes de memória prospectiva, um relacionado a um evento e outro, ao transcorrer do tempo. No primeiro, os indivíduos deveriam apertar uma chave-alvo a cada dois minutos e, no segundo caso, sempre que uma palavra específica aparecesse em uma tela. "Os resultados mostraram que os participantes executaram significativamente melhor uma tarefa de memória baseado no tempo em comparação à condição não-estressante. Não foi identificado, por outro lado, efeito do estresse sobre a memória prospectiva baseada em evento", afirmaram os autores no artigo. Ou seja: o tipo de memória em questão pode ser elevado(enhanced) quando indivíduos "são expostos a estresse prévio ao teste de memória e que este efeito está associado ao estresse relacionado aos efeitos dos glucocorticóides", pontuam.

  • Emoções vividas

É comum as pessoas acreditarem que experiências(ou mesmo objetos de natureza diversa), quando negativas, são mais vividamente lembradas do que aquelas que não trazem consigo alguma carga de emoção do tipo "para baixo". Entretanto, numerosas linhas de pesquisa têm sugerido que a memória não é realçada em todos os estímulos negativos. Antes, a memória para estes eventos poderia ser melhor descrita pela escolha de um dado determinado em detrimento de outro(trade-off). "Alguns aspectos de um evento são mais bem lembrados por causa de sua proeminência emocional, ao passo que outros aspectos são mais prováveis de ser esquecidos", afirmam pesquisadores do Boston College e de Harvard, ambos nos EUA, em artigo que aguarda publicação na revista Journal Memory and Language.

Os autores realizaram quatro experimentos diferentes, envolvendo 16 participantes cada, interessados em avaliar a memória para um ponto principal e a memória para detalhes visuais separados dos elementos centrais e periféricos de uma informação emocional em uma determinada cena. Em todos os quatro procedimentos, foram mostradas aos participantes diversas cenas desconexas com objetos centrais negativos(uma cobra, por exemplo) ou neutros(como um macaco) sobre planos de fundo neutros(um rio ou uma selva) durante dois ou cinco segundos. Os objetos centrais e os planos de fundo que compunham as cenas apresentadas haviam sido mostrados previamente aos participantes.

Durante os testes, tais elementos podiam ter ou não algumas características alteradas, e os indivíduos deveriam informar, após um curto intervalo de tempo(30 minutos, por exemplo), se estes eram idênticos, similares ou completamente diferentes. Além disso, durante e após a exibição de cada imagem, os pesquisadores poderiam solicitar aos participantes que criassem uma breve história sobre cada cena vista, incorporando todos os seus elementos, ou que descrevessem a cena a um pintor, que as reproduziria com base em suas informações. "O processo de trade-off relacionado à emoção foi eliminado apenas quando a tarefa de codificação exigiu que os participantes focassem nos detalhes visuais da cena(descrição desta a um pintor). Estes resultados sugerem que os participantes podem usar estratégias de codificação para superar os trade-offs induzidos pela emoção", concluíram os pesquisadores no texto.

De acordo com o artigo, os resultados do estudo indicam que os trade-offs dos participantes podem diferir caso o indivíduo esteja utilizando, principalmente, uma estratégia verbal ou uma visual para processar a cena. Em suma, os indivíduos podem mostrar um trade-off central ou periférico tanto para detalhes visuais quanto para pontos centrais de uma cena que inclua um objeto visualmente negativo. Segundo os autores, em todos os quatro experimentos, a memória para detalhes visuais de aspectos negativos de uma cena foi realçada, o que estaria em acordo com estudos anteriores.

  • Diferentes tipos de memória

Quanto à natureza:

Uma pessoa foi violentada por alguém na rua. O agressor em questão tem um determinado tom de voz. Ao entrarem uma sala qualquer, a vítima escuta uma voz semelh hante à do seu agressor e tem um ataque de pânico. Que tipo de relação é possível estabelecer com as atuais classificações da memória, segundo a literatura médica? "A reação está diretamente relacionada ao trauma que essa pessoa sofreu, mas ela não chega a reconhecer que aquela voz era semelhante à do agressor e não associa conscientemente o ataque de pânico à agressão sofrida. É um exemplo de memória implícita", exemplifica Sérgio Luís Schmidt, médico e psicólogo que atua em Neurologia Comportamental e Neuropsicologia, além de professor titular de Neurofisiologia e Neuropsicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Segundo ele, a memória implícita é aquela que armazena hábitos e procedimentos, sendo utilizada para executar atividades motoras em geral que não atingem a consciência, como andar de bicicleta. De acordo com Schmidt, a memória implícita "deve muito aos circuitos dos núcleos da base", deixando a essa localidade a função de armazená-la.

A memória explícita, por sua vez, é aquela encarregada de verbalizar determinado fato, tornando-o evocável e atingível pela consciência. "O principal exemplo desse tipo de memória seria a capacidade de construir narrativas autobiográficas, ou seja, o indivíduo é capaz de narrar fatos sobre si mesmo", explica Schmidt. Sua localização, segundo o pesquisador, é o hipocampo - situado nos lobos temporais do cérebro - para consolidação, e o córtex, para acesso.

A datação desse tipo de memória vem da década de 50, quando um paciente com epilepsia, tratado no Canadá, foi submetido à lesão bilateral do hipocampo por cirurgia. Aos 27 anos, o indivíduo perdeu, então, a capacidade de gravar informações de memória recente, podendo apenas manter uma conversa com alguém sem que fosse possível reter suas informações. No entanto, ele podia aprender xadrez e aprimorar seu desempenho em tal modalidade, assim como seria possível fazê-lo em qualquer outro esporte, já que a parte do cérebro responsável pela memória implícita não fora afetada.

Quanto ao tempo:

Memórias de curto e longo prazos foram estabelecidas no fluxo das ponderações do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), coordenado por Iván Izquierdo, professor titular da PUC-RS e pesquisador do Instituto de Pesquisas Biomédicas, vinculado à mesma instituição.

Segundo ele, a memória de curtíssimo prazo chama-se memória de trabalho e pode ser classificada como um gerenciador geral de informações. De acordo com Izquierdo, esse tipo de memória "processa informações online e não as retém além do estritamente necessário". Representa, dessa forma, o mecanismo de reconhecimento de palavras, ações e intenções ao longo de uma conversa ou da leitura de um texto e está localizada em várias áreas do córtex pré-frontal.

A memória de curto prazo propriamente dita também pode ser conceituada como recente ou de curta duração. De acordo com Iván Izquierdo, ela persiste apenas o tempo necessário para que se forme a memória de longa duração, consolidando-se então como lembrança ou sendo simplesmente descartada. É aquela que permite que se ache um carro no estacionamento, ou um documento em um determinado arquivo.

"Ambos os tipos de memória (curta e longa duração) são formadas no hipocampo, amígdala e córtex entorrinal - três estruturas do lobo temporal", explica. Segundo o pesquisador, a memória de longa duração - aquela que perdura por anos e se caracteriza como lembrança - é definida pela importância dada pela pessoa ao fato transformado em memória de curto prazo. "Simplesmente é isso. Algumas memórias vão, e outras não", pontua.

  • Instinto e aprendizado

Wilder Penfield, na década de 40, foi o primeiro a tentar responder todas essas perguntas sobre memória, fatos esquecidos ou lembrados. A partir de sua experiência com o pioneiro da neurofisiologia, Charles Sherrington. Penfield realizou uma espécie de mapeamento cerebral, utilizando estímulos elétricos. Foi através desse estudo que se descobriu, por exemplo, que esses estímulos eram capazes de produzir o que ele classificou como retrospecção: processo no qual o paciente descreve uma lembrança relativa a uma determinada experiência pela qual passou. A conclusão - fundamental para compreender pesquisas desenvolvidas atualmente - levou a cabo a idéia de que existem, de fato, áreas do cérebro relacionadas ao processamento de informações categorizado como memória. Compreender melhor sua fisiologia e conceituar suas funções foi apenas mais um passo.

Diferentes noções de memória têm sido abordadas ao longo dos anos a partir da perspectiva de diversas correntes científicas. Algumas se estabeleceram, como as classificações por natureza e quanto ao tempo, enquanto outras simplesmente não foram devidamente absorvidas. Para o grupo de pesquisa liderado pela professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Sylvia Beatriz Joffily e centrado em Neuropsicologia Cognitiva, o desenvolvimento de novas classificações para a memória pode permear concepções filogenéticas e ontogenéticas, seguindo conceitos propostos por Eric Kandel e Alexander Luria.

"Qualquer organismo de qualquer espécie já nasce com propensão a reagir a determinados estímulos que favorecem o seu desenvolvimento, em detrimento de outros. Essa programação é instintiva; não é opcional", explica a pesquisadora. De acordo com os estudos realizados por Sylvia, a memória filogenética estaria relacionada a essa necessidade orgânica de saber interagir com o mundo externo, definindo exatamente a espécie a qual o indivíduo pertence. Seria uma sorte de programação genética específica para cada espécie viva, sendo suprimida a partir do desenvolvimento da memória ontogenética. Ainda segundo a pesquisadora, a memória ontogenética é aquela que é desenvolvida conforme os anos de vida do indivíduo, do nascimento à morte, sendo, dessa forma, pessoal e intransferível.

  • Evento molecular

De acordo com artigo publicado na revista Trends in Neurosciences, o processo de consolidação da memória tem sid tiva; não é opcional", explica a pesquisadora. De acordo com os estudos realizados por Sylvia, a memória filogenética estaria relacionada a essa necessidade orgânica de saber interagir com o mundo externo, definindo exatamente a espécie a qual o indivíduo pertence. Seria uma sorte de programação genética específica para cada espécie viva, sendo suprimida a partir do desenvolvimento da memória ontogenética. Ainda segundo a pesquisadora, a memória ontogenética é aquela que é desenvolvida conforme os anos de vida do indivíduo, do nascimento à morte, sendo, dessa forma, pessoal e intransferível.

  • Evento molecular

De acordo com artigo publicado na revista Trends in Neurosciences, o processo de consolidação da memória tem sido modelado em estudos sobre o método one-trial avoidance learning, nos quais animais (ou seres humanos) estabelecem uma resposta condicionada por meio de aprendizado para evitar perigo.

Segundo o texto, uma das razões para que o método seja muito utilizado é a natureza breve(brief) do programa de treinamento, no qual é feita uma associação rápida e simples entre um movimento e um estímulo adverso. Eles citam como exemplo os modelos como roedores, em que os animais aprendem a escolher sempre um determinado caminho ao perceber que, ao tomarem um outro, recebem um pequeno choque elétrico. "Isso depende de eventos moleculares que acontecem na região intitulada CA1 do hipocampo que se assemelha àqueles envolvidos na potenciação de longo prazo do CA1 (LTP), e exigem que eventos equivalentes ocorram em diferentes tempos na amígdala basolateral e nos córtices cingulado, parietal e entorrinal", afirmam no texto Iván Izquierdo e colegas, pesquisadores da PUC-RS e da Universidade de Buenos Aires, autores do artigo internacional ainda inédito.

Segundo eles, muitos destes passos são modulados por caminhos químicos relacionados à percepção de(e à reação a) emoção, o que, no mínimo, explica por que a consolidação forte e resistente é típica de memórias carregadas de emoção. "Assim", dizem os autores, "a consolidação da memória envolve uma rede complexa de sistemas cerebrais e de eventos moleculares paralelos e seriados", tanto para tarefas simples quanto às desses estudos. E comparam: "nós propomos que estes eventos moleculares devem também estar envolvidos em muitos outros tipos de memórias em animais e humanos". "Gêmeos univitelinos nascem com a carga filo genética idêntica. Porém, o acervo de memórias ontogenéticas é diferente em função dos diferentes estímulos externos recebidos ao longo dos anos", diz.

Os estudos desenvolvidos pela pesquisadora permitem entender que a aprendizagem e a memória ontogenética possuem conceituações muito semelhantes, da mesma forma que engloba o entendimento desses tipos de memória à classificação quanto ao tempo. "Qualquer processo cognitivo envolve memória. Não existe memória sem memória ontogenética, sem aprendizagem. Todas as pesquisas implicam em memória, justifica.

Quem produz e onde

Da mesma forma que a conceituação da memória possui teorias bem fundamentadas e cientificamente aceitas, o funcionamento da memória e como determinados fatos se tornam lembranças possuem entendimento amplo, mesmo que certas especificidades ainda assumam caráter inconclusivo. Alterações químicas desencadeadas por impulsos elétricos fazem parte dessas certezas que dia após dia vêm sendo aprofundadas.

Elke Bromberg, pesquisadora e professora adjunta da Faculdade de Biociências da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), explica que a memória pode ser compreendida, sob o ponto de vista fisiológico, como resultado de uma série de alterações plásticas nos neurônios, desencadeadas por atividades sinápticas. Segundo ela, neurotransmissores, como o glutamato, exercem papel fundamental na realização desses processos químicos, interagindo com receptores de membrana específicos.

"As células do hipocampo ou do córtex entorrinal que formam a maior parte das memórias de curta(até 6 h) ou longa duração(dias, anos, décadas) recebem de 1.000 a 10.000 terminações nervosas de outras regiões, e fazem sinapse com elas. Emitem, por sua vez, de cem a mil axônios(prolongamentos) a outras células nervosas", elucida Iván Izquierdo, professor titular da PUC-RS e pesquisador do Instituto de Pesquisas Biomédicas vinculado à mesma instituição. O resultado dessa conexão ativa cascatas bioquímicas, que promovem tais modificações neuronais até que não haja mais receptores de glutamato. "Essas alterações podem durar uma janela temporal curta, ou podem acarretar alterações estruturais de duração mais longa, estas últimas diretamente ligadas às memórias que permanecem", diz Elke Bromberg.

Segundo Izquierdo, como resposta às cascatas bioquímicas, os neurônios em questão "acabam, pela ativação de genes, no núcleo celular, o que causa a síntese de proteínas constitutivas, ou associadas às sinapses desses neurônios, com os quais mudam sua estrutura e função". Para ele, tais processos são distintos dos da sensação e da percepção, e estão localizados em outras regiões cerebrais.

Tais eventos são verificados em partes específicas do cérebro, a partir de componentes fundamentais do sistema límbico. Essas localidades operam de forma a "dividir tarefas" na absorção de informações de qualquer natureza das quais haja necessidade de o indivíduo se lembrar posteriormente. Seguindo essa lógica, de acordo com o professor titular de Neurofisiologia e Neuropsicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Sérgio Luís Schmidt, "tudo o que se refere à consolidação diz respeito ao hipocampo". Ali, se dá uma primeira aquisição de informações, a partir da qual uma série de aspectos podem ser armazenados, sejam de natureza objetiva ou subjetiva.

Segundo Schmidt, a consolidação da memória depende também do envolvimento da região do córtex pré-frontal, chamado de executivo, que permite o raciocínio lógico na escolha de eventos a serem armazenados. Após o córtex pré-frontal, a informação pode ser classificada de natureza verbal ou de natureza viso-espacial - a segunda vai ser processad

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