Cara a cara com quem decide


Cada vez mais top executivos têm acompanhado de perto o processo seletivo dos trainees. Saiba o que eles estão observando.

Revista você S/A - por Vanessa Vieira

Você já pensou em como reagiria ao sa­ber que está sendo observado pelo presi­dente da empresa em que pretende trabalhar? Ou descobrir que está sendo questionado direta­mente por ele na apresentação de um painel de negócios? Se você acha que os altos executivos de uma organiza­ção dificilmente deixariam suas atividades para se envolver na avaliação de alguns jovens, prepare-se, pois pode ser que você se surpreenda. Isso tem sido cada vez mais frequente.

Felipe Guimarães, superintenden­te comercial da América Latina Lo­gística (ALL) , passou por essa situ­ação quando ainda era candidato a trainee da companhia. "Nas seletivas, fui entrevistado pelo atual presiden­te da ALL, Paulo Basilio", diz Felipe. "O programa de trainee é conside­rado um mapa de sucessão da dire­toria da organização", afirma Melissa Werneck, diretora de gente e quali­dade da empresa. A maior prova disso é que até o presidente é egres­so de um dos programas de trainee
da ALL. "A escolha dos jovens é uma decisão compartilhada do comitê da diretoria", diz Melissa.

Os altos executivos da ALL assis­tem às etapas presenciais da seleção. É uma forma de mostrar aos trainees o alto grau de comprometimento com o programa. Desde o primeiro ano na organização, o trainee da ALL tem metas individuais a entregar. E os desafios por lá são grandes mesmo, já que, ao fim do programa, o jovem pode comandar equipes de até 200 pessoas. Para escolher os candidatos mais adequados, os diretores avaliam questões específicas e que estão re­lacionadas ao jeito de fazer as coisas na organização. "Observamos o po­tencial de liderança, a capacidade de analisar e solucionar problemas. Mas, principalmente, se é uma pessoa que sonha grande", diz Melissa.

Transparência

Para Manoela Costa, gerente da con­sultoria Page Talent, especializada em recrutamento de trainees, a par­ticipação de altos executivos permi­te aos candidatos vislumbrar com maior clareza quais são as expecta­tivas sobre o trabalho deles, qual a cultura e como será o dia a dia na empresa. "Muitos desistem ali mes­mo, durante o processo, ao perceber que não se identificam de verdade com aquele grupo", diz Manoela. Por outro lado, para os candidatos que decidem permanecer na disputa por uma vaga, o grau de conhecimento sobre a companhia e seus executivos ganha muito mais peso. "Há pessoas que mostram que vieram participar do nosso processo porque ficaram encantadas com nosso estilo de tra­balho. Chama atenção aquele candi­dato bem informado, que conhece a história da empresa", diz Marcelo Alecrim, presidente do grupo Ale, de combustíveis. Para ele, a presença da diretoria na seleção dos trainees cumpre a missão de fazer com que a organização, mesmo em constante crescimento, não perca a essência que garantiu seu sucesso até agora. "Precisamos encontrar pessoas que, além de competentes e talentosas, tenham o nosso DNA", diz ele. "Ob­servamos a capacidade de inovação, a flexibilidade diante das mudanças, a sociabilidade e a disponibilidade para pedir ajuda", explica Marcelo.

Quem demonstra um profundo grau de conhecimento sobre a em­presa também ganha pontos nos processos de trainees da Usiminas. "Avalíarnos na fala dos candidatos se eles estudaram a Usiminas, se esta­mos no projeto de carreira e de vida deles ou se é apenas mais um processo seletivo", diz Vanderlei Schiller, vice-presidente de RH e desenvolvimento organizacional. Para ele, são esses os jovens que demonstrarão a perseverança necessária diante da possibilidade de serem transferidos para cidades pequenas, no interior do país, ou da necessidade de traba­lhar a cada semana em turnos alter­nados, inclusive à noite. "Nós vamos observar se o candidato está confor­tável com isso ou se remexeu na ca­deira quando falamos dessas hipóte­ses, por exemplo", diz Vanderlei.

Bagagem pessoal

Ter uma história de vida e perfil em sintonia com os valores que a empre­sa cultiva ou quer desenvolver tam­bém são pontos avaliados pelos exe­cutivos. "Se destaca quem tem um misto de conhecimento sólido, von­tade de abraçar os desafios e uma bagagem de vida interessante. Temos na empresa pessoas que escalaram o Himalaia ou que fizeram trabalho voluntário na África. Essas experi­ências, que mostram o grau de per­severança e doação, podem ser o diferencial de um candidato", diz
Alexandre Mafra, diretor de RH da Totvs, do setor de TI.

De acordo com Manoela Costa, da Page Talent, por estarem profunda­mente integrados à cultura da orga­nização os altos executivos identifi­cam instintivamente os candidatos mais alinhados ao perfil que estão buscando. "Eles batem o olho e veern alguém que se parece muito com um gestor da companhia ou com eles mesmos, e daí está criada a empatia", diz a recrutadora Manoela. "Obser­vamos se o candidato está ensaiado e dá respostas padronizadas, ou se é autêntico e se o que verbaliza é coerente com as atitudes e decisões que tomou ao longo da vida. Busca­mos pessoas que acreditam no que dizem", afirma Sônía Marques, dire­tora de RH da Johnson & Johnson, onde o programa de trainee entra na pauta do planejamento estratégico da organização e conta com a parti­cipação de profissionais sêniores já nas etapas iniciais, como os jogos presenciais e as dinâmicas a que os candidatos devem participar.

&bull l; Para impressionar

O que fará os altos executivos prestarem atenção em você

- SEJA AUTÊNTICO: evite as respostas ensaiadas. Verbalize o que é coerente com as decisões que tomou ao longo da vida e com sua experiência profissional.

- EXIBA SUA VONTADE: demonstre que está no processo porque realmente quer fazer parte da companhia, e não está lá apenas para cumprir tabela. Antes, é preciso estudar o que faz a empresa e como é trabalhar nela.

- CONTE DAS SUAS EXPERIÊNCIAS PESSOAIS: aquela viagem a um lugar exótico ou a ação de voluntariado que você faz aos sábados conta muito dos seus valores e de qualidades como capacidade de doação, liderança e perseverança.

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