Cérebro: abaixo o excesso de atividades


Intervalos curtos e irregualres permitem melhor aprendizado.

Revista Scietific American - Gary Stix

Professores do ensino médio e de facul­dade sempre recomendam aos alunos que evitem preencher demais o horário. Estudar aos poucos ao longo de um se­mestre é a solução. Uma pesquisa publi­cado on-line na revista Nature Neuro­science (do mesmo grupo de SCIENTIFIC AMERICAN) em dezembro passado parece demonstrar as bases biolóqicas desse truísmo pedagógico. Ela sugere ainda como otimizar os intervalos de estudo, percepção que poderia, em teoria, tra­duzir-se em estratégias para submeter à memória a estrutura molecular da mai­totoxina ou um ideograma chinês.

O estudo, liderado pelo neurobiólogo John H. Byme, da University of Texas Medical School em Houston, provocou uma reviravolta para um método de aprendizagem desenvolvido no labora­tório da Columbia University do Prêmio Nobel Eric R. Kandel. A técnica consistia em dar choques na cauda da lesma-do­-mar Apfysia californica a intervalos regu­lares e depois observar se havia reação exagerada do molusco ao receber uma descarga menor, sinal que lembraria muito bem a experiência prévia.

Byrne e sua equipe buscaram determi­nar se as reações químicas na base dessa resposta poderiam ser adaptadas para re­forçar o processo de aprendizagem. Em vez de usar uma lesma inteira, colocaram algumas células nervosas do animal (neu­rônios sensoriais e motores) em uma lâmi­na. Aplicaram cinco pulsos do neurotrans­missor serotonina (o equivalente a choques), cada pulso com 20 minutos de intervalo. A serotonina levou as enzimas dos neurônios a iniciar uma cascata bioquímica que, em última análise, reforça a queima de neurônios, sinais que equivalem a: "Eu me lembro, isso dói".

As duas enzimas envolviam trabalho em série. Usando esse conjunto de padrão de impulsos, uniformemente espaçados, as enzimas não atingem a ati­vação de pico no interior de uma célula ao mesmo tempo, pista de que o modo usual de fazer as coisas pode não ser o melhor caminho.

A equipe de Byrne usou um computador para modelar 10 mil intervalos distintos entre os pulsos. Cada série foi avaliada para determinar quais ocorreram quando ambas as enzimas foram total­mente ativadas. Verificou-se que o me­lhor protocolo de aprendizagem não era o usual, com espaçamentos uniformes, mas uma série de três pulsos de serotonia na emitidos com 10 minutos de intervalo, a em seguida outro, 5 minutos após, com uma descarga final após 30 minutos. Com esse esquema, a interação entre as duas enzimas aumentou em 50%, indicando que o processo de aprendizagem opera de forma mais eficiente.

Então deveríamos estudar as integrais de Riemann todos os dias durante duas semanas e depois tirar um mês de folga antes de voltar para elas? É cedo demais para afirmações como essa. O protocolo temporal que Byrne encon­trou pode ser a adaptação da lesma para fugir de um predador, ajudando-a a es­capar, por exemplo, das garras da lagos­ta. O estudo de cálculo integral pode ser um pouco diferente.

Mesmo assim, o trabalho de Byrne demonstra que a melhor maneira de aprender pode não ocorrer em espaços simples de tempo, o que oferece um conjunto substancial de novas questões para a pesquisa neurocientifica. Agora, Byrne e sua equipe usarão essas mesmas técnicas para tentar otimizar os outros aspectos do processo de formação da memória em lesmas-do-mar. Se bem­-sucedidas, as pesquisas poderão benefi­ciar seres humanos. É provável que o pri­meiro objetivo seja a habilidade motora: atirar uma bola, saltar em altura ou ajudar uma vítima de derrame a caminhar nova­mente, pois os pesquisadores sabem mais sobre circuitos cerebrais no cerebelo, en­volvidos no movimento, que no hipocam­po, local para o início do tipo de memórias factuais necessárias para a química orgânica. Por enquanto, a lição de casa de ciên­cias terá de esperar.

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