Cérebro e a Linguagem


Estruturas de medição coordenam atividades dos centros cerebrais. Alguns deles são especializados na elaboração dos conceitos; outros, na de palaras e frases.

Revista Scientific American - por António Damásio e Hanna Damásio

Os neuropsicólogos que estudam a linguagem tentam compreender como utilizamos e combinamos palavras (ou signos, no caso de linguagem gestual) para formar frases e transmitir os conceitos elaborados pelo cérebro. Investigam também como compreendemos palavras expressas por outros e de que forma o cérebro as transforma em conceitos.

A linguagem surgiu e se manteve ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação eficaz, sobretudo para conceitos abstratos. Ela nos auxilia a estruturar o mundo em conceitos e a reduzir a complexidade das estruturas abstratas a fim de apreendê-Ias: é a propriedade de "compreensão cognitiva".

O termo "chave de fenda", por exemplo, evoca várias representações dessa ferramenta: as descrições visuais de sua aparência e utilização, as condições específicas de seu emprego, a sensação que provoca seu manuseio ou o movimento da mão quando a utiliza. Da mesma forma, a palavra "democracia" é associada a diversas representações conceituais. A "economia cognitiva" que a linguagem autoriza ao reagrupar numerosas noções sob um mesmo símbolo permite-nos elaborar conceitos complexos e alcançar níveis de abstração elevados.

Na aurora da humanidade, a palavra não existia. A linguagem surgiu quando o homem, e talvez algumas espécies que o precederam, soube conceber e organizar ações, elaborar e classificar as representações mentais de indivíduos, fatos e relações. Da mesma forma, os bebês concebem e manipulam conceitos e organizam inúmeras ações bem antes de pronunciar as primeiras palavras e frases. Entretanto, nem sempre a maturação da linguagem depende da dos conceitos: algumas crianças têm deficiência dos sistemas conceituais, mas possuem sintaxe correta. Os centros neuronais que asseguram certas operações sintáticas parecem se desenvolver de forma autônoma.

• Associação de símbolos 

A linguagem surge como produção humana voltada para o mundo exterior (um conjunto de símbolos corretamente ordenados, difundido para fora do organismo) e como representação intracerebral desses símbolos e das regras para associá-Ios. Para o cérebro a linguagem e qualquer outro objeto são apresentados da mesma forma. Ao estudar as bases neuronais da representação de objetos, eventos e suas relações, os neurologistas esperam descobrir os mecanismos de linguagem.

O cérebro elabora a linguagem mediante a interação de três conjuntos de estruturas neuronais. O primeiro, composto de numerosos sistemas neuronais dos dois hemisférios, representa interações não linguísticas entre o corpo e seu meio - este percebido por diversos sistemas sensoriais e motores; o cérebro forja uma representação de tudo que uma pessoa faz, percebe, pensa ou sente. Além de decompor essas representações não linguísticas (forma, cor, sucessão no tempo ou importância emocional), o cérebro cria representações de nível superior, pelas quais gera os resultados dessa classificação. Assim ordenamos intelectualmente objetos, fatos e relações. Os níveis sucessivos de categorias e representações simbólicas produzidos pelo cérebro gerenciam nossa capacidade de abstração e de metáfora.

O segundo, um conjunto menor de estruturas neuronais, geralmente situadas no hemisfério esquerdo, representa fonemas, combinações e regras de ordenação em frases quando solicitados pelo cérebro, esses sistemas reúnem palavras em frases destinadas a ser ditas ou escritas; se demandados em reação a um estímulo linguístico externo (uma palavra ouvida ou um texto lido), asseguram os processamentos iniciais das construções verbais.

Enfim, o terceiro conjunto, também presente no hemisfério esquerdo, coordena os dois primeiros. Produz palavras a partir de um conceito ou conceitos a partir de palavras. Alguns trabalhos psicolinguísticos já haviam indagado a existência dessas estruturas mediadoras. Willem Levelt, do Instituto de Psicolinguística de Nimegue, HoIanda, sugeriu que as palavras e as frases são elaboradas com base em conceitos por um elemento mediador chamado "lema".

• Dizer as cores

A organização em três partes é bem ilustrada pelos conceitos e pelas palavras que representam cores. Mesmo quem sofre de déficit congênito de percepção das cores sabe que algumas delas são próximas, independentemente de sua luminosidade e saturação. Os conceitos de cor são universais ainda que, em certas línguas, não existam nomes que as designem. O processamento inicial dos sinais da cor é feito pela retina e pelo corpo geniculado lateral e então pelo córtex visual primário e por pelo menos duas outras áreas corticais, V2 e V4, os primeiros centros de processamento da percepção das cores.

Descobrimos que lesões nas regiões onde estão V2 e V4 provocam a perda da percepção das cores em pacientes antes normais: eles tornam-se incapazes de imaginar as cores e vêem o mundo em preto e branco. Quando pensam em uma imagem colorida, vêem formas, movimentos e texturas, mas nenhuma cor: um jardim, o sangue ou uma banana não os fazem pensar em verde, vermelho ou amarelo. Como nenhuma lesão em outras regiões cerebrais produz semelhante deficiência, os conceitos de cor parecem depender dessas zonas occipitais.

Pacientes com les& ão nos córtices temporal posterior e parietal inferior esquerdos conservam a capacidade de elaborar conceitos, mas pronunciam mal as palavras. Ainda que percebam corretamente uma cor e saibam seu nome, pronunciam-na mal, dizendo, por exemplo, "zul" em vez de "azul".

Outros, com lesão no segmento temporal da quinta circunvolução occipital esquerda, sofrem de anomia das cores, problema que não afeta nem os conceitos de cor nem a pronúncia dos nomes de cor: eles percebem cores normalmente (distinguem as diferentes tonalidades, classifiicam-nas corretamente segundo sua saturação e conhecem a cor dos objetos fotografados em preto-e-branco), mas não as nomeiam corretamente. Utilizam "azul" ou "vermelho" para designar verde ou amarelo, mas colocam corretamente uma ficha verde ao lado de uma foto em preto-e-branco de um vegetal, ou uma amarela ao lado da imagem de uma banana. Inversamente, quando Ihes dizemos o nome de uma cor, designam outra. Como pronunciam corretamente o nome - inexato - da cor que designam e como seu sistema de concepção da cor e de pronúncia estão intactos, sua deficiência resulta do sistema neuronal de mediação entre os dois sistemas de manipulação de conceitos e de palavras.

A mesma organização existe para outros conceitos. Sob que forma física eles são representados em nosso cérebro? Supomos que não exista representação "pictórica" permanente de objetos e pessoas, e sim que o cérebro conserve uma "impressão" da atividade neuronal exercida no córtex sensorial e motor durante a interação com um objeto. Essa impressão corresponde a um circuito de neurônios e sinapses cuja atividade recria aquela que caracterizou cada objeto ou evento memorizado. Ativada, uma impressão pode suscitar outras associadas. O cérebro registra não só os diversos aspectos da realidade exterior, mas o modo pelo qual o corpo explora o meio e reage a ele. Os sistemas neuronais que descrevem as interações entre uma pessoa e um objeto registram um encadeamento rápido de micropercepções e de microações quase simultâneas. Modificações ocorrem em várias regiões especializadas, cada uma subdividida em vários centros; a área visual, por exemplo, é composta de centros menores, especializados no processamento de cor, forma e movimento.

Onde são conservadas as impressões que ligam essas atividades fragmentadas? Em grupos de neurônios para os quais convergem axônios provenienntes de regiões mais externas, de onde partem axônios que enviam retroativamente os sinais para áreas mais internas. Uma reativação dessas zonas de convergência excita simultaneamente vários grupos de neurônios anatomicamente separados e dispersos, que reconstroem a atividade mental previamente registrada.

O cérebro armazena as informações relativas aos objetos e seus usos de forma que eventos e conceitos associados (formas, cores, trajetórias no espaço e no tempo, movimentos e reações corporais) possam ser reativados simultaneamente. Essas inforrmações são classificadas com a ajuda de outra impressão, situada numa zona de convergência diferente. As representações das principais propriedades dos objetos e dos eventos estão assim imbricadas: em relação à xícara, por exemplo, o cérebro registra dimensões, forma, matéria, estado sólido, deslocamento ao longo de uma trajetória precisa e a sensação que provoca nos lábios.

• Centros de mediação

A atividade dessas redes neuronais convergentes assegura a compreensão e a expressão da linguagem. Ativadas, essas redes reconstituem os conhecimentos para remetê-Ios à consciência, onde estimulam os centros de mediação entre conceitos e linguagem e onde permitem a formulação correta de palavras e estruturas sintáticas associadas aos conceitos. Como o cérebro registra simultaneamente aspectos variados das percepções e das ações, essas redes produzem também representações simbólicas como as metáforas.

As lesões nas regiões do cérebro correspondentes a essas redes provocam deficiências cognitivas associadas às diversas classes de conceitos processados pelo cérebro; a acromatopsia é um exemplo. Elisabeth Warrington, do Hospital de Doenças Nervosas de Londres, descobriu que certos pacientes são incapazes de reconhecer objetos de deterrminado tipo. Junto com Daniel Tranel, mostramos que sistemas neuronais específicos processam conceitos de certos tipos.

Um de nossos pacientes, por exemplo, não consegue manipular os conceitos ligados a entidades isoladas, como uma pessoa, um lugar ou um evento particular relacionados a pessoas, lugares ou fatos isolados, embora tenha conhecido todos eles antes de sua lesão cerebral. Ele perdeu ainda os conceitos referentes aos membros de categorias particulares: assim, vários animais se tornaram para ele completamente desconhecidos, embora soubesse tratar-se de seres vivos. Diante da imagem de um rato, ele disse que era um animal, mas não tinha idéia do seu tamanho, hábitat ou comportamento.

Curiosamente, as capacidades cognitivas desse paciente ainda permitiam que ele manipulasse conceitos associados a outra categorias contendo vários elementos. Ele reconhecia e sabia nomear ferramentas. Disspunha de conceitos de atributos de objetos: sabia, por exemplo, o que era uma coisa bela ou feia; reconhecia o sentido de idéias que exprimem um estado ou uma atividade, como estar apaixonado, saltar ou nadar, e compreendia relações abstratas entre entidades ou eventos. Em suma, se não podia mais manipular os conceitos relativos a entidades designadas por nomes comuns ou próprios, ele processava normalmente os conceitos referentes a atributos, estados, atividades e relações, definidos na linguagem por adjetivos, verbos, preposições ou conjunções; as estruturas gramaticais não lhe apresentavam nenhum problema, e a sintaxe de suas frases era impecável.

• Dominância verbal

Lesões semelhantes nas regiões anteriores e médias dos dois lóbulos temporais deterioram o sistema conceitual do cérebro. As lesões do hemisfério esquerdo, próximo à cissura de Sylvius, perturbam mais a formação de palavras e frases. Essa área é a mais estudada pelos especialistas em linguagem, desde que Paul Broca e Carl Wemicke descobriram, há mais de 150 anos, que as estruturas da linguagem aí se localizam. Broca e Wemicke comprovaram também o fenômeno da dominância cerebral: na maioria dos seres humanos - 99% dos destros e 30% dos canhootos - os centros da linguagem estão no hemisfério esquerdo.

O estudo de pacientes afásicos (que perderam parc resentavam nenhum problema, e a sintaxe de suas frases era impecável.

• Dominância verbal

Lesões semelhantes nas regiões anteriores e médias dos dois lóbulos temporais deterioram o sistema conceitual do cérebro. As lesões do hemisfério esquerdo, próximo à cissura de Sylvius, perturbam mais a formação de palavras e frases. Essa área é a mais estudada pelos especialistas em linguagem, desde que Paul Broca e Carl Wemicke descobriram, há mais de 150 anos, que as estruturas da linguagem aí se localizam. Broca e Wemicke comprovaram também o fenômeno da dominância cerebral: na maioria dos seres humanos - 99% dos destros e 30% dos canhootos - os centros da linguagem estão no hemisfério esquerdo.

O estudo de pacientes afásicos (que perderam parcial ou totalmente a capacidade do uso da palavra) confirma a importância de estruturas do hemisfério esquerdo na linguagem. Edward Klima, da Universidade de San Diego, e Ursula BeIlugi, do Instituto de Estudos Biológicos, em San Diego, mostraram que lesões nas estruturas cerebrais de formação das palavras são acompanhadas por afasias da linguagem gestual. Assim, alguns surdos que apresentam lesão cerebral do hemisfério esquerdo perdem a faculdade de compreender ou produzir os signos da linguagem gestual. Como o córtex visual deles está intacto, a deficiência não provém de má percepção visual dos signos, mas da incapacidade de interpretá-los.

Por outro lado, os surdos que apresentam lesões no hemisfério direito, longe das áreas da linguagem, tornam-se por vezes incapazes de ver os objetos situados na metade esquerda de seu campo visual ou de perceber as relações espaciais entre os objetos, embora conservem a capacidade de compreender e utilizar a linguagem gestual. Portanto, o hemisfério esquerdo contém os centros de processamento da linguagem, quaisquer que sejam as vias de transmissão dos signos linguísticos.

Alguns neurologistas mapearam os sistemas neuronais da linguagem ao localizar as lesões de pacientes afásicos; outros analisaram esses sistemas estimulando o córtex cerebral de pacientes epiléticos que passavam por cirurgia, registrando depois suas respostas eletrofisiológicas.

As lesões da região perisilviana posterior perturbam a composição dos fonemas em palavras e a seleção das palavras. Pacientes com essas lesões são incapazes de pronunciar corretamente certas palavras (dizem "felefante" em vez de "elefante", por exemplo) e substituem por vezes palavras que Ihes faltam por outras de sentido mais geral ("pessoa" em vez de "mulher") ou por uma cujo sentido se aproxima do conceito que querem exprimir ("chefe" em vez de "presidente"). Victoria Fromkin, da Universidade de Los Angeles, elucidou vários mecanismos linguísticos responsáveis por tais erros.

As lesões da região perisilviana posterior não perturbam o ritmo, a rapidez de elocução ou a sintaxe das frases desses pacientes, ainda que às vezes eles se enganem no emprego de pronomes e conjunções. Essas lesões alteram também o processamento dos sons ouvidos: eles têm dificuldade decompreender palavras e frases faladas. Esse problema não se deve, como se pensava, à degradação de um centro de armazenamento do sentido das palavras, que estaria presente no setor perisilviano posterior; decorre, sim, de uma interrupção na análise acústica das palavras ouvidas, desde as primeiras etapas de seu processamento.

Os sistemas neuronais da região perisilviana posterior registram as informações auditivas e cinestésicas relativas aos fonemas e às palavras. A descoberta de projeções neuronais recíprocas entre as diferentes zonas que memorizam essas informações revela a importância das interações entre essas zonas.

A região perisilviana posterior está conectada ao córtex motor e pré-motor, diretamente e por uma via subcortical que inclui os gânglios da base e da parte anterior do tálamo esquerdo. A dupla conexão desempenha um papel crucial na produção dos fonemas, que pode ser governada pelos circuitos cortical e subcortical ou pelos dois ao mesmo tempo. A via subcortical assegura a aquisição dos automatismos linguísticos, e a cortical governa a linguagem consciente adquirida pela aprendizagem associativa.

Quando uma criança aprende, por exemplo, a palavra "amarelo", os sistemas de formação das palavras e de controle motor seriam ativados mediante as vias cortical e subcortical; a atividade desses sistemas seria correlacionada à atividade dos sistemas neuronais que governam os conceitos de cor e a mediação entre conceitos e linguagem. O sistema neuronal de mediação conceito-linguagem parece estabelecer uma via direta para os gânglios de base, de tal forma que uma fraca ativação da região perisilviana posterior basta para desencadear a produção da palavra "amarelo". A aprendizagem posterior da palavra que designa a cor amarela em outra língua ativaria novamente a região perisilviana posterior, que então estabeleceria as correspondências auditivas, cinestésicas e motoras entre os fonemas.

O sistema associativo cortical e o sistema automático subcortical parecem operar paralelamente no processamento da linguagem. O prevalecimento de um ou outro depende do nível de domínio da linguagem e da natureza dos elementos linguísticos. Segundo Steven Pinker, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, a maioria dos indivíduos memoriza as formas do passado dos verbos irregulares ingleses por meio da aprendizagem associativa e as formas dos verbos regulares por aquisição automática.

A região perisilviana anterior, próxima à cissura de Rolando, parece conter as estruturas que comandam o ritmo da elocução e a gramática. Os gânglios de base são elementos ativos desse sistema, como o são também nas conexões da região perisilviana posterior. O conjunto está fortemente ligado ao cerebelo e recebe projeções de várias regiões sensoriais do córtex, reenviando projeções às regiões motoras. Entretanto, ainda é desconhecido o papel dessa estrutura na linguagem e no conhecimento.

Pessoas com lesões na região perisilviana anterior falam com voz monocórdica, longos silêncios entre as palavras, e as estruturas gramaticais que usam são defeituosas. Omitem frequentemente os pronomes e as conjunções e raramente respeitam a ordem gramatical. Como têm mais facilidade de encontrar substantivos que verbos, supomos que diferentes regiões cerebrais processam essas duas classes de palavras.

Como as lesões nessa regi&a

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