Cérebro em construção


Ao nascer, o bebê tem cerca de 100 bilhões de neurônios e durante o desenvolvimento esse número praticamente não se altera, mas novas sinapses se formam. Nessa fase, dormir, acordar, chorar e mamar acarretam intensa atividade cerebral.

 Revista Scientific American - por André Trindade*

 Entre as descobertas científicas mais surpreendentes está o maapeamento da atividade cerebral do bebê. O avanço de tecnologias e exames sofisticados nos permitiram acompanhar o intenso desenvolvimennto neural, por trás da aparente calma. Nos três primeiros anos de vida, a atividade cerebral humana é tão vigorosa que supera a também enorme atividade do cérebro de um adolescente em fase de prestar o vestibular. Aos 2 anos, a criança dispõe de um sistema neurológiico tão ativo quanto o de um adulto.

Ao nascer, o bebê tem cerca de 100 bilhões de neurônios - a maioria dos quais ele vai utilizar por toda sua vida. Portanto, o aumento de peso e volume, ou seja, o crescimento do cérebro nesses primeiros anos não ocorrerá em decorrência da aquisição de células neurais, mas pela formação de sinapses - conexões entre os neurônios, que formam circuitos responsáveis por "ligar" áreas do cérebro. Mas, em nenhum outro momento da vida, essa expansão cerebral será tão forte quanto neste. Observando a rotina de uma criança em seus primeiros anos de vida, pode até parecer estranho que atividades tão corriqueiras de seu cotidiano - como dormir, acordar, chorar, mamar, movimentar-se, reconhecer sons, distinguir vozes, cheiros e imagens - possam acarretar tanta atividade cerebral.

Já nos primeiros meses de vida o bebê percebe seu corpo no espaço: no colo, durante o banho ou a troca de fraldas. Aprende a rolar, torcer-se, sentar, engatinhar e andar. Alcança objetos, observa-os e lança-os longe; reconhece os sons de seu corpo: da respiração e dos batimentos cardíacos, que variam de acordo com os estados emocionais, possibilitando que aos poucos ele possa criar, de acordo com os diferentes ritmos, nuances entre um sentimento e outro. Escuta os sons do próprio tubo digestivo, percebe o prazer de ter seu estômago distendido ao ser preenchido pelo alimento, reconhece as sensações inerentes à entrada e à saída do ar nos pulmões, à pressão do sangue nas cavidades do coração, nas veias e artérias. Brinca, reconhece que está vivo e que pulsa, desenvolve noção do tempo. Sente a falta da mãe e também sua presença. Desfruta o prazer do toque afetuoso, do carinho. Desenvolve a afetividade. O bebê seduz e encanta. Com essa sedução, envolve o adulto cuidador até que suas necessidades sejam atendidas. Demonstra fragilidade e desamparo, sabe reclamar chorando, enrubescendo, esperneando. É capaz de fantasiar e memorizar e, enquanto dorme, sonha.

As experiências vividas por esse pequeno ser humano imprimirão em seu cérebro caminhos, atalhos e trilhas que ele utilizará pelo resto da vida para estabelecer relacionamentos futuros, fantasiar, construir hipóteses, filosofias, matemáticas, ciências, artes - "amar, desamar, amar", como escreveu Carlos Drummond de Andrade.

Quando tentamos descrever a complexidade da atividade cerebral do bebê, temos a sensação de estar lidando com um quebra-cabeça de milhares de peças. E não por acaso: é função do próprio cérebro encontrar sentidos e organizar impressões, captadas do mundo e de si, compondo uma unidade integrada. Há prazer em construir-se e tomar consciência da individualidade. Esse processo não se restringe à infância: de uma forma ou outra, ao longo de nossa vida nos empenhamos em saber quem somos. São as experiências iniciais, contudo, que marcarão profundamente o indivíduo.

Nascemos com características determinadas por nossa herança genética: cor de cabelos, de olhos, traços de rosto, compleição física, estrutura óssea, muscular etc.; nascemos também com motivações e temperamentos próprios. Alguns aspectos físicos são evidentes: "Puxou os olhos do pai, a altura da mãe, o cabelo do avô", costumamos ouvir. Para as características psíquicas, a ciência busca determinar até que ponto os genes são responsáveis pelos mais diversos comportamentos. Trata-se de um rico campo de pesquisa, com estudos e discussões em andamento entre as diferentes correntes do pensamento científico. Certamente surgirão nos próximos anos informações importantes a esse respeito.

Atualmente, podemos afirmar que o desenvolvimento humano depende da interação entre a herança genética que recebemos de nossos pais - e remonta a nossos antepassados - e o acolhimento que o ambiente (família, educação e cultura) proporcionam a esses potenciais. Isso significa que o cérebro, bem como o corpo, desenvolve-se à medida que é utilizado. Um ambiente capaz de acolher o potencial genético pode levar uma característica a expandir-se, tornar-se plena. Já um meio hostil pode fazer que uma potencialidade genética se perca ou não se desenvolva.

Entre aquilo que herdamos genetiicamente e o que aprendemos de nossa cultura, existe um terceiro elemento representado pelas motivações pessoais e pelo temperamento de cada um. A motivação da criança é um requisito absoluto para o desenvolvimento de habilidades. Diante dessa perspectiva o adulto deve oferecer uma gama de situações e estímulos ricos em escolhas ao bebê, de acordo com sua maturidade neurológica e, ao mesmo tempo, manter-se atento para decifrar as motivações da criança.

Trata-se de uma atitude de escuta e observação. Em vez de nos atirarmos desesperados na tentativa de decifrar o bebê, devemos deixar que ele possa se mostrar aos poucos. No início, traduzimos seus gestos e, sem m pressa, ensinamos a ele formas e palavras para descrever o que sente e o que deseja. "Conversar com o bebê?" "Sempre!" Assim, por intermédio da experiência vivida com o adulto a criança constrói em seu cérebro alguns caminhos que serão reforçados pela repetição de determinadas situações e escolhas, e também pelo prazer que elas poodem proporcionar, enquanto outros comportamentos, pouco reforçados, ficarão enfraquecidos e tenderão a ser eliminados. O que é vivido e reforçado, porém, nem sempre diz respeito às qualidades positivas. Um ambiente desfavorável pode imprimir marcas de desconfiança, insegurança, dificuldade de aprender e, ao mesmo tempo, enfraquecer a confiança e o desenvolvimento das habilidades cognitivas.

Embora o papel do adulto seja muito importante nessa dinâmica, não podemos nos responsabilizar exclusivamente pela evolução desse processo, já que a criança participa ativamente de sua construção por meio de escolhas, da qualidade de suas motivações e da forma como percebe cada situação. Sabemos que crianças criadas em uma mesma família, em condições similares, viverão os eventos de forma própria. De uma mesma situação, um irmão pode tirar uma experiência positiva, enquanto outro ficará com uma marca negativa. Esse parece ser um dos mistérios da vida.

  • Choro, careta e contorções: sinais de desconforto

Há alguns anos os bebês eram considerados seres primitivos, um "vir a ser". Graças aos avanços tecnológicos e à observação da vida desde tão cedo, poodemos atualmente desconsiderar o modelo cartesiano que nos orientou por tantos séculos e, enfim, observar corpo e mente em uma unidade integrada. O neurologista Antonio Damásio, professor da Universidade de Iowa e um dos mais importantes pesquisadores de neurociências, propõe, por meio de um jogo de palavras, um novo modelo de pensamento. Substitui a famosa frase de Descartes "Penso, logo existo" por "Sinto, existo, logo penso".

Trata-se de uma revolução que tem reflexos no âmbito da filosofia e da ciência e atinge educadores, psicólogos e pais. Sob esse novo olhar, o bebê deixa a condição de "ser passivo", de "folha em branco" a ser preenchida, e sua participação no processo de desenvolvimento passa a ser considerada. A criança "registra" o que acontece a seu redor e em seu interior, por meio de sensações, emoções e gestos. Antes de ter condição de pensar o mundo, ela o sente. Utiliza-se para isso do sistema límbico, responsável pelas emoções, pela memória e por funções vitais como respiração, digestão e circulação. Recorre também ao seu sistema sensorial para, gradualmente, apropriar-se de si, dos próprios movimentos e do mundo que a rodeia.

Hoje, é possível afirmar que, desde muito cedo, o bebê pode perceber o ambiente, ainda que de forma primitiva. Se a criança está em situação hostil, de extremo desconforto, seu organismo produz hormônios relacionados ao stress, que possibilitam a percepção da situação adversa. Esse mal-estar, sentido de forma global, será comunicado por expressões físicas como choro, contorções do corpo e caretas.

  • Muito Cedo

Nos últimos anos, tem sido inevitável questionar eventuais benefícios e posssíveis prejuízos na questão da estimulaação precoce dos bebês. Durante muitos anos, as correntes de pensamento que acreditavam que o desenvolvimento humano estava completamente apoiaado na genética e que, a seu tempo, todo gene teria chance de expressão, indeependentemente do ambiente, apoiaram práticas educativas pouco interessadas em estimular os bebês. Essa corrente foi chamada de maturacionismo e teve seu ponto de vista defendido pelo psicólogo Arnold Gesell (1880-1961), que influenciou a ciência até meados do século XX.

Outra linha de pensamento, chamada abordagem da aprendizagem, atribui ao ambiente papel fundamental na formação do indivíduo nessa perspectiva, apesar de não negar que os fatores biológicos sejam a base do desenvolvimento. Segundo a teoria, defendida por J. B. Watson (1878-1958) e reforçada por B. F. Skinner (1904-1990), tudo se aprende, tudo pode ser treinado. Para uma terceira abordagem, do construtivismo, desenvolvida pelo suíço Jean Piaget (1896-1980), natureza e educação são igualmente necessárias ao desenvolvimento, e a criança participa ativamente desse processo.

O fato é que, historicamente, muiitos já erraram por estimular os bebês menos do que o necessário, e outros tantos se equivocaram ao sobrecarregar crianças pequenas com treinamentos e práticas educativas. Atualmente, o grande (e grave!) engano me parece ser a excessiva importância dada à idéia de estimulação - e, o que é pior, desde muito cedo. Ao escutar a palavra estimulação fora do contexto de crianças que apresentam algum déficit (motor, neurológico, visual etc.), devemos ficar atentos ao que realmente está sendo feito. Hoje em dia, há um número imenso de serviços oferecidos aos pequenos. Há, por exemplo, aulas de ginástica, computação, língua estrangeira e matemática para bebês, além de uma infiinidade de DVDs educativos voltados para esse público. Enfim, uma série de serviços de estimulação que prometem contribuir para a formação de adultos mais inteligentes e competitivos para o mercado de trabalho. Mas só poderíamos comprovar a eficiência de toda essa estimulação daqui a 20 anos ou mais. Será que vale a pena arriscar?

Essa "armadilha" pode atrair pais, mães, educadores e psicólogos - e fazer com que bebês recebam uma série de informações "goela abaixo" sem que saibamos se essas experiências serão registradas como positivas ou negativas pela criança. Com isso, nossos bebês, desde muito pequenos, têm sido connvidados a deixar o "ninho" - a presença da mãe, do pai, o ambiente familiar - e partir para um novo ambiente. Alguns se adaptam com surpreendente facilidade, enquanto outros encontram dificuldades e precisam de ajuda nessa fase de transição. O que todos vão precisar é reencontrar fora de casa - seja em creches ou escolas - um ambiente de proteção e afeto. E só a partir daí eles estarão suficientemente estruturados para aprender.

Para conhecer mais

Essa "armadilha" pode atrair pais, mães, educadores e psicólogos - e fazer com que bebês recebam uma série de informações "goela abaixo" sem que saibamos se essas experiências serão registradas como positivas ou negativas pela criança. Com isso, nossos bebês, desde muito pequenos, têm sido connvidados a deixar o "ninho" - a presença da mãe, do pai, o ambiente familiar - e partir para um novo ambiente. Alguns se adaptam com surpreendente facilidade, enquanto outros encontram dificuldades e precisam de ajuda nessa fase de transição. O que todos vão precisar é reencontrar fora de casa - seja em creches ou escolas - um ambiente de proteção e afeto. E só a partir daí eles estarão suficientemente estruturados para aprender.

Para conhecer mais

Gestos de cuidado, gestos de amor. André Trindade. Summus Editorial, 2007.

*André Trindade é psicólogo, especialista em psicomotricidade. É autor de Gestos de cuidado, gestos de amor(Summus Editorial, 2007). Este artigo foi adaptado do livro com autorização da editora.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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