Cérebro X Mente: uma visão contemporânea


O texto a seguir reproduz a palestra do neurocientista Cláudio L. N. Guimarães dos Santos ocorrida dia 23 de junho com parte do evento Cérebro X Mente: uma visão contemporânea. Tema: Hemisfério cerebral direito: aspectos neuropsicológicos e neuropsiquiátricos. Com palestras mensais que têm o objetivo de disseminar o conhecimento científico e médico para psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos e outros profissionais de saúde pública, Cérebro X Mente: uma visão contemporânea acontece mensalmente no SESC Vila Mariana.

Revista Viver - palestra do Prof. Cláudio L. N. Guimarães dos Santos

Eu gostaria de iniciar a minha palestra lembrando que, no indivíduo normal, os dois hemisférios cerebrais funcionam de maneira integrada, sendo praticamente impossível, a não ser em condições experimentais extremamente controladas, a sua estimulação seletiva e isolada.

Como todos sabem, existem várias estruturas anatômicas conectando os hemisférios cerebrais direito e esquerdo. Dentre elas, a mais importante é, sem dúvida nenhuma, o corpo caloso. A existência dessas vias de conexão é, precisamente, o fator responsável pelo funcionamento integrado dos hemisférios cerebrais no ser humano normal.

Isso não quer dizer, todavia, que algumas funções mentais não possam estar predominantemente representadas em um dos hemisférios cerebrais. Na verdade, a existência de especializações funcionais hemisféricas é um fato neurobiológico relativamente bem demonstrado.

O grande problema é que essas especializações raramente recobrem aquelas dicotomias que são reiteradamente mencionadas em publicaações leigas ou pretensamente científicas, tais como as oposições "holístico X analítico", "racional X emocional", "verbal X não-verbal", etc.

Por exemplo, todos aqui já devem ter ouvido falar que a linguagem é uma funcão mental representada, na maioria dos indíviduos, no hemisfério cerebral esquerdo. Isso, todavia, não é inteiramente verdadeiro...

Em realidade, a linguagem assim como todas as outras capacidades cognitivas (memória, raciocínio lógico-matemático, capacidades atencionais, habilidades inferenciais, capacidades práxicas, gnósicas, etc...), é uma entidade essencialmente complexa, suscetível de ser analisada em um determinado número de níveis elementares tais como os níveis fonético-fonológico, morfo-sintático, léxico-semântico, pragmático, discursivo, etc...

Ora, o que a pesquisa mais recente tem demonstrado é que cada um desses níveis pode ser associado a estruturas predominantemente localizadas em um ou outro dos hemisférios cerebrais. Assim é que os níveis fonético- fonológico e morfo-sintático parecem estar muito mais relacionados ao hemisfério esquerdo do que ao direito, enquanto que a situação inversa parece ocorrer com os níveis pragmático e discursivo que possuiriam uma representação cerebral predominantemente direita. Finalmente, no caso do nível léxico-semântico, as estruturas responsáveis por seu processamento parecem estar distribuídas de forma equilibrada em ambos os hemisférios cerebrais.

Diante disso, vocês podem compreender facilmente que a afirmação de que a linguagem é uma função do hemisfério cerebral esquerdo é, no mínimo, parcial, para não dizer incorreta.

Um outro ponto que me parece importante abordar, no âmbito dessa palestra, diz respeito às estratégias de pesquisa através das quais as assimetrias funcionais hemisféricas podem ser investigadas.

Durante muito tempo pensou-se que os hemisférios cerebrais não tinham funções diferentes. Foi somente com o advento dos primeiros estudos em pacientes que apresentavam alterações comportamentais decorrentes de lesões cerebrais, no final do século passado, que os pesquisadores começaram a suspeitar da existência de assimetrias funcionais hemisféricas.

O interesse desses autores foi despertado sobretudo pelo fato de que lesões seletivas de um dos hemisférios cerebrais pareciam ocasionar quadros clínicos específicos e distintos daqueles provocados por lesões seletivas do outro hemisfério.

Um exemplo paradigmático desse tipo de investigação clínica é o trabalho do médico e antropólogo francês Paul Broca que, no final do século XIX, publicou as primeiras observações consistentes correlacionando alterações do comportamento lingüístico e lesões do hemisfério cerebral esquerdo.

Desde então, foram acumuladas uma série de evidências clínicas, obtidas junto a pacientes apresentando diversos tipos de lesão cerebral, indicando que os hemisférios cerebrais realmente possuem algum tipo de assimetria funcional.

O grande problema com as evidências clínicas é que, nesse caso, o funcionamento cerebral normal deve ser inferido a partir da consideração do relacionamento entre estruturas cerebrais lesadas e padrões cognitivos deficitários apresentados pelos diferentes tipos de pacientes investigados, o que constitui um passo inferencial extremamente problemático e sujeito a erros.

Por exemplo, frente a um paciente apresentando alterações de linguagem após lesão no hemisfério cerebral esquerdo, tudo o que pode ser legitimamente afirmado é que essas estruturas lesadas devem estar, de alguma forma, envolvidas na manutenção das capacidades lingüísticas no indivíduo normal. Todavia, não se poderá jamais inferir, das evidências clínicas acima mencionadas, que a "sede" da função da linguagem é a região cerebral lesada nesse paciente. Lamentavelmente, esse tipo de raciocínio defeituoso foi, durante muito tempo, utilizado pelos autores interessados na local lização cerebral de funções mentais.

Na verdade, dizer que determinaada região lesada é sede da função cognitiva que foi alterada em conseqüência dessa lesão é mais ou menos como dizer que a tomada é a estrutura responsável pelo funcionamento normal de uma televisão. Evidentemente, a energia elétrica fornecida pela tomada é fundamental para o funcionamento da televisão... Todavia, não é ela, de maneira alguma, a responsável pela especificidade do funcionamento da televisão: evidentemente, eu posso ligar à mesma tomada um gravador, um ventilador, uma enceradeira, um computador, etc...

Com o passar do tempo, outras estratégias para o estudo das assimetrias funcionais hemisféricas passaram a ser utilizadas.

Nos anos 60, com os trabalhos de Roger Sperry e de seus colaboradores, novas evidências relacionadas à representação cerebral assimétrica de funções cognitivas puderam ser acumuladas. Esse autor, que foi agraciado em 1981 como o Prêmio Nobel de Medicina por suas pesquisas, procurou investigar as alterações neuropsicológicas apresentadas por pacientes, que apresentavam crises epilépticas generalizadas e incoercíveis, e que haviam sido submetidos a um procedimento cirúrgico destinado a minorar o seu sofrimento. Essa cirurgia consistia na secção do corpo caloso, estrutura que, tal como já vimos, é a principal via de conexão e de troca de informações entre os dois hemisférios cerebrais.

Através de suas pesquisas, Sperry logrou demonstrar que, ao menos no caso dos pacientes investigados, os hemisférios cerebrais direito e esquerdo pareciam apresentar aptidões desiguais para a realização de determinadas tarefas cognitivas.

O trabalho de Sperry gerou, contudo, uma série de controvérsias.

Em primeiro lugar, como já tive a chance de comentar ao examinar o caso específico da linguagem, a natureza complexa das funções cognitivas torna extremamente problemática qualquer tentativa de associação exclusiva de qualquer dessas funções a determinado hemisfério cerebral.

Em segundo lugar, os indivíduos examinados por Sperry apresentavam uma estrutura cerebral bastante alterada e, em virtude disso, diversos autores passaram a questionar a aplicabilidade dos resultados obtidos com aqueles pacientes no que se refere a indivíduos normais.

Um outro problema importante gerado por esses estudos, cuja culpa, evidentemente, não pode ser atribuída ao trabalho de Sperry, foi que, a partir de sua publicação, um sem-número de dicotomias simplistas e distorcidas passaram a ser propostas e difundidas por indivíduos nem sempre bem intencionados, dicotomias que passaram, infelizmente, a povoar o imaginário popular desde então. Todos aqui já ouviram dizer que o hemisfério esquerdo é racional, lógico, verbal, "frio", etc., e que o hemisfério direito é "não-racional", "holístico", "não-verbal", emocional", etc...

Felizmente, estamos começando, atualmente, uma fase extremamente interessante e rica no que se refere à pesquisa neurobiológica, durante a qual poderemos, certamente, elucidar uma série de dúvidas que ainda envolvem a existência das assimetrias funcionais hemisféricas.

Com o desenvolvimento, ocorrido recentemente, de novas tecnologias de neuroimagem dinâmica, tais como a ressonância magnética funcional, a eletroencefalografia de alta-resolução, a magnetoencefalografia, capazes de permitir o estudo, in vivo e em tempo real, do funcionamento cerebral de indivíduos, normais ou patológicos, durante a realização de tarefas cognitivas, poderemos, com muita mais propriedade, estudar as capacidades que possam ser específicas a cada um dos hemisférios cerebrais.

Cremos ser fácil perceber que, nesse caso, estamos frente a um processo de investigação muito mais direto do que aquele anteriormente descrito, no qual o funcionamento cerebral normal precisava ser inferido a partir da consideração do relacionamento entre estruturas cerebrais lesadas e padrões cognitivos deficitários apresentados pelos diferentes tipos de pacientes investigados. No que se refere a essa técnicas de neuroimagem dinâmica, a observação quase-direta e em tempo real das estruturas cerebrais efetivamennte envolvidas na execução de determinada função cognitiva permite que se estabeleçam passos inferenciais bem menos ousados e bastante mais fundamentados.

Concluindo essa palestra, mencionarei, a título de exemplo, algumas evidências experimentais obtidas com a utilização dessa novas tecnologias de neuroimagem dinâmica e que se referem, no caso em questão às hipóteses relacionadas à localização cerebral dos mecanismos neurobiológicos subjacentes ao processamento de entidades musicais.

São os seguintes os principais resultados que gostaríamos de mencionar: (a) estudos realizados junto a populações constituídas de músicos profissionais e de aficionados sem treinamento musical explícito (melômanos), parecem sugerir que algumas das diferenças inter-hemisféricas relacionadas ao processamento de entidades musicais, que foram evidenciadas através de estudos realizados com pacientes apresentado lesões cerebrais, podem, na verdade, depender crucialmente do grau de proficiência em música apresentado pelo indivíduo no qual se procura estudar o referido processamento; assim é que algumas habilidades anteriormente referidas como parecendo depender crucialmente do hemisfério cerebral direito podem, na verdade, depender do hemisfério cerebral esquerdo, devendo-se essa diferença ao fato de ser o sujeito, no qual esse processamento é estudado, um melômano (dependência hemisférica direita) ou um músico profissional (dependência hemisférica esquerda); (b) existem, todavia, alguns outros estudos, também realizados através da utilização de sofisticadas técnicas de neuroimagem dinâmica, que parecem indicar não haver diferenças significativas nos padrões de ativação cortical, apresentados por uma população de cantores (i.é. de músicos profissionais) e outra de indivíduos não-cantores (i.é., aficionados, melômanos sem treinamento musical explícito), durante a execução de tarefas cognitivas de fala, canto e canto com lábios cerrados; (c) um outro importante estudo, realizado nos últimos anos, apresenta como conclusão de suas investigações a hipótese de que, no que se refere especificamente à população de músicos profissionais, as regiões cerebrais implicadas em atividades cognitivas tais como tocar um instrumento ou ler uma partitura musical estariam localizadas em áreas distintas porém adjacentes àquelas relacionadas ao processamento da linguagem verbal; (d) finalmente, para complicar um pouco mais as coi renças significativas nos padrões de ativação cortical, apresentados por uma população de cantores (i.é. de músicos profissionais) e outra de indivíduos não-cantores (i.é., aficionados, melômanos sem treinamento musical explícito), durante a execução de tarefas cognitivas de fala, canto e canto com lábios cerrados; (c) um outro importante estudo, realizado nos últimos anos, apresenta como conclusão de suas investigações a hipótese de que, no que se refere especificamente à população de músicos profissionais, as regiões cerebrais implicadas em atividades cognitivas tais como tocar um instrumento ou ler uma partitura musical estariam localizadas em áreas distintas porém adjacentes àquelas relacionadas ao processamento da linguagem verbal; (d) finalmente, para complicar um pouco mais as coisas, um estudo recentemente publicado parece indicar que músicos profissionais dotados do chamado "ouvido absoluto" apresentariam uma assimetria estrutural esquerda, relativamente a determinada região cerebral (o chamado planum temporale), mais pronunciada do que a assimetria estrutural também esquerda apresentada por músicos sem "ouvido absoluto" ou por não-músicos.

Um último ponto importante que eu gostaria de mencionar, antes de concluir, é o que se refere à relação entre a possibilidade de reabilitação de indivíduos que apresentem alterações cognitivas decorrentes de lesões cerebrais e a existência de assimetrias funcionais hemisféricas.

Sabemos hoje que áreas cerebrais hígidas podem, ao menos parcialmente, assumir a função de áreas cerebrais lesadas. Evidentemente, a consideração de aspectos relacionados à localização hemisférica de funções cognitivas, tanto normais quanto alteradas, será crucial para a obtenção de resultados satisfatórios com a implementação de procedimentos de reabilitação neuropsicológica.

Ao final dessa palestra, creio ser oportuno mencionar que uma série de questões relacionadas às assimetrias funcionais hemisféricas serão investigadas aqui em São Paulo, já a partir do mês de novembro deste ano, no Setor de Eletroencefalografia de Alta Resolução que será coordenado por mim e pelo Prof. Dr. Luís F. H. Basile. Esse Setor fará parte do Laboratório de Neurociências LIM-27 que é coordenado pelo Prof. Dr. Wagner F. Gattaz no âmbito do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e que tem seu funcionamento viabilizado graças a recursos financeiros concedidos pela FAPESP-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Prof. Dr. Cláudio L. N. Guimarães dos Santos é co-responsável pelo Setor de Eletroencefalografia de Alta-Resolução do Laboratório de Neurociências-L1M 27 do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e coordenador da Unidade de Reabilitação Neuropsicológica-URN

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