Combustão Espontânea


Temporada de final de ano traz aumento dos casos da síndrome de "burn out", estresse que leva à incapacitação profissional.

Folha São Paulo - Débora Yuri

Os consultórios psiquiátricos detectaram um novo mal moderno. Da agressiva competitividade no mercado de trabalho e das intensas frustrações nesta área surge uma doença conhecida como síndrome de "burn out" ou do desgaste profissional. Em inglês, "burn out" significa algo como "queimar até se acabar, até a última cinza".

"A doença é uma das consequências extremas do estresse profissional, no mais elevado grau que um trabalhador pode atingir", diz Elko Perissinotti, 52, chefe da psiquiatria do Hospital São Luiz. Os três sintomas-chave, segundo ele, são cansaço emocional, desilusão com o trabalho e falta de realização pessoal.

A diferença entre o estresse profissional comum e o "burn out" é que o segundo é incapacitante. "Quem está estressado pode passar o dia inteiro reclamando, mas continua trabalhando. Quem tem "burn out" não consegue mais trabalhar, precisa pedir licença ou abandonar o emprego", explica o psiquiatra.

Fisiologicamente, o que acontece é que as glândulas supra-renais, exigidas ao máximo, entram num grau de exaustão, fazendo com que o indivíduo não tenha mais força nem energia e se deprima.

Mistura explosiva de ansiedade com depressão, o "burn out" é uma doença psiquiátrica duradoura - a tendência é de que fique crônica. "A crise é progressiva, vem na esteira de contínuas frustrações. O indivíduo se sente mais esgotado e desmotivado a cada dia", diz Perissinotti.

Apesar de o estopim ser o trabalho e de a capacidade de produzir e render profisssionalmente ficar comprometida, à mediida que a síndrome avança a pessoa também perde a capacidade de manter relacionamentos saudáveis com colegas, amigos e familiares. "É preciso perder a vergonha de procurar ajuda, porque não é raro o trabalhador se demitir, ser demitido ou adoecer gravemente", alerta o médico.

A síndrome tem quatro níveis. No primeiro, surgem dores no pescoço, nas costas e na coluna. No segundo, os relacionaamentos interpessoais ficam afetados; abstenção e rotatividade de empregos aumentam. No nível três, diminui a capacidade o cupacional, podendo aparecer doenças como alergias, picos de hipertensão arterial e psoríase. Nessa etapa, geralmente o doente faz uso de automedicação e ingestão alcoólica. No quarto nível vem o alcoolismo ou a drogadição (dependência de tóxicos), doenças mais sérias como acidentes cardiovasculares e, em muitos casos, idéias ou tentativas de suicídio.

No ano passado, a decoradora Paula, 33, gerente de loja de decoração, percorreu dezenas de consultórios e fez quase 20 exames até descobrir o que realmente tinha. "Ninguém sabia o que era, pensei que iria morrer. Suspeitaram de leucemia, de problemas cardíacos. Eu passava dias sem conseguir dormir, tinha falta de ar, não comia nem bebia água", lembra.

Seis quilos mais magra e no auge da depressão, avisou aos patrões que não connseguia mais trabalhar. "Fiquei completamente desfuncional", admite. Passou um mês praticamente sem sair de casa. Um psiquiatra finalmente diagnosticou estresse profissional. "Eu nunca pensei que o acúmulo de cansaço me levaria à depressão. Estava sem tirar férias há anos, ficava na cama pensando no que teria que fazer no dia seguinte, nos clientes, até sonhava com eles".

Paula teve acompanhamento psiquiátrico, matriculou-se em aula de hidroginástica e começou a tomar remédios homeopáticos. "Percebi que eu tinha que "desencanar" um pouco, cuidar mais de mim. Tento não levar mais problemas do trabalho para casa e sempre arrumo um tempo para clarear a cabeça, fazer coisas gostosas", conta a decoradora.

O psicólogo José Roberto Leite, 56, coordenador do setor de medicina comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que as mulheres são mais suscetíveis a quadros depressivos e de ansiedade, inclusive a síndrome de "burn out".

"Duas pessoas podem passar pela mesma situação desafiadora e reagir de maneira diferente. Uma pode sucumbir ao estresse, a outra não. O que determina isso é a mistura de propensão genética e experiência de vida de cada um", afirma.

A cura passa por acompanhamento psiquiátrico (a maior parte dos casos exige medicação) e uma profunda guinada na maneira de encarar o trabalho, diz Elko Perissinotti. Também é recomendável que a pessoa procure o patrão e o notifique da doença. "O mais perigoso é o funcionário ir ao médico da empresa, que prescreve qualquer tranquilizante ou calmante, e isso só tende a agravar o quadro".

Ano novo, vida nova. O final do ano é uma época propícia para a síndrome eclodir. Festas, férias e balanço da vida - é uma fase de expectativas, em que as esperanças são renovadas. "O grau de tensão e depressão é maior para todo mundo. Atendemos um grande número de gente que vai ao pronto-socorro desesperada de angústia porque se sente solitária e fracassada", relata Perissinotti.

O administrador de empresas Ricarrdo, 50, teve a síndrome no meio dos 40 anos, quando trabalhava numa multinacional. "Nessa época sempre vem o questionamento: será que vale a pena? Mas eu tinha mulher e dois filhos pré-adolescentes, não podia chutar o balde", conta.

No primeiro momento da crise, ele t teve pressão alta, insônia constante e cansaço extremo. As coisas pioraram quando passou a levar a irritabilidade do trabalho para casa. "Eu ficava preocupado que os meus fIlhos vissem o pai de saco cheio o tempo inteiro, mas não conseguia conversar, passear com eles. E eu sempre fui o contrário disso". Ricardo acredita que o melhor foi ter conseguido admitir que precisava de ajuda médica.

"Não dá para sair dessa sozinho. Mesmo com apoio psiquiátrico, eu passei dois anos saindo e entrando nessas crises", diz. Para buscar novas alternativas, ele mudou de empresa e começou a dedicar mais tempo a viagens e à família. "O que não pode é culpar a empresa tal ou então a cidade de São Paulo. A culpa é nossa".

Sintomas

- ansiedade, irritabilidade, depressão(chora sem motivo) e rancor.
- comprometimento da aqualidade e quantidade de trabalho.
- comprometimento das relações pessoais e profissionais.
- fadiga extrema.
- falta de realização pessoal.
- insegurança.
- insônia.
- pensa sem parar no trabalho, mesmo após o expediente (sonha que está trabalhando).
- fica a cada dia mais desgatado e esgotado.
- sensação de que não é tão bom quanto os colegas de trabalho.
- trata os outros com cinismo e sarcasmo.

Grupo de risco

- tem por volta de 40 anos ("crise de meia idade").
- trabalha há mais de dez anos na área.
- é solteiro.
- mora sozinho.
- tem profissão que exige intenso contato direto com pessoas (médicos, administradores de empresas, jornalistas, funcionários públicos, etc.)
- jornada de trabalho de 40 ou mais horas semanais.
- mulheres são mais suscetíveis.

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