Como lidar com as falsas promessas


Mudanças de cenário ou situações enganosas podemo frustar seus planos de carreira. Veja como lidar como esses problemas no dia a dia.

Revista Você S/A - por Andrea Giardino

No mês passado, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) determinou que uma indús­tria do ramo de energia terá de pagar 3 000 reais a um profissional por ter gerado expectativa de contratação. O candidato à vaga de emprego foi entrevistado, teve a carteira de tra­balho retida pela companhia de ener­gia, fez os exames admissionais, mas depois de todo o processo foi infor­mado pelo RH de que não seria mais admitido. Na decisão do TST, a culpa da empresa é presumida "porque "O dano decorre da frustração injustifi­cada da promessa de emprego".

"Casos de empresas que geram expectativas de contratação nos pro­fissionais e depois os frustram são muito comuns", diz Carlos Eduardo Altona, sócio-diretor da Exec, em­presa de recrutamento de executi­vos, de São Paulo. Entre as razões para isso estão o desespero para atrair pessoas, a desorganização da gestão e as medidas de contenção de custos. A origem do problema, porém, está no despreparo de quem faz a promessa e na falta de alinha­mento do recrutador, o RH, com o alto escalão. "Em vez dos gestores abrirem perspectivas futuras como possibilidades, alguns são mal pre­parados e acabam fazendo promessas vazias", diz Márcia Esteves, sócia da Ofycina RH, consultaria especializa­da em recrutamento e desenvolvi­mento de carreira. Confira a seguir alguns casos de promessas não cum­pridas e as dicas de especialistas para não ser pego de surpresa.

1 - A empresa oferece um salário na proposta de emprego e na hora de contratar declara que o valor é menor.

Há duas situações possíveis: ou o gestor mentiu para atrair o proftsslo­nal ou a estratégia da empresa mu­dou entre o dia da proposta e a data da contratação. Essas mudanças ocorrem principaLmente em rnultl­nacionais que têm decisões tomadas Longe do Brasil. Em ambos os casos, a decepção é grande. A melhor saída é manter a calma e tentar entrar num acordo. "Uma alternativa é negociar o valor acertado no começo para atlguns meses depois", diz Rafael Souto, sócio da Produtive, empresa de reco­locação profissional. Quando a pes­soa percebe que houve um problema de conduta do gestor, a coisa é mais séria. "Se faltou ética da parte de quem está contratando, a saída é procurar outro Lugar, porque a confiança ficará comprometida", diz Márcia, da Ofycina RH.

2 - O profissional recebe um convite de emprego e ouve uma contrapro­posta, que consiste em aumen­to ou promoção, que só ocorre­rá depois de alguns meses. Só que o dia nunca chega.

Use todos os argumentos possíveis para tentar entender o porquê do au­mento prometido ainda não ter sido dado. Mas seja hábil para não encur­ralar o chefe. "Procure-o sem aquele espírito de cobrança e aproveite pa­ra ressaltar que você vem trazendo bons resutados para a companhia", diz Rafael, da Produtive. Sempre jo­gue aberto. Ficar insatisfeito não vai apenas atrapalhar o desempenho no dia a dia, como deixará a sensação no gestor de que ele fez um julgamento errado a seu respeito. Antes de ter es­sa conversa com seu superior, descu­bra se algo não aconteceu no meio do caminho com a empresa. "Às vezes, os motivos não são formalizados pe­la companhia", diz Ana Luiza Segall, da Assert Recrutamento, de São Pau­lo. O caminho é deixar muito bem claro que houve uma frustração e que a pessoa estava contando com aquilo.

3 - Numa transferência de cidade ou de país, benefícios combinados, como aluguel da casa ou passagem para a família nas férias, deixam de existir.

Muitos profissionais negociam trans­ferências apenas verbalmente e es­quecem de formalizar no papel a pro­posta. Erro crasso. Vem uma crise e os benefícios são cortados. Exigir re­paração vale a pena? É preciso ten­tar entender a situação de maneira ponderada e negociar. "Com evidências do que foi acertado em mãos, na­da mais justo do que tentar negociar e recusar o que for proposto", defende Francisco Ramirez, headhunter e pro­fessor do Insper, em São Paulo.

4 - O chefe prometeu promo­ção e mudou de emprego

Com a economia aquecida, as mudanças também afetam o at­to escalão. Muitos diretores e vice­-presidentes vêm recebendo propos­tas tentadoras para sair. Às vezes, o que havia sido combinado verbal­mente vai por água abaixo quando o chefe muda. "Procure formalizar es­ses planos com o chefe do chefe ou com o RH", diz Carlos Eduardo, sócio-diretor da Exec. Se a conversa fi­car restrita entre chefe e subordina­do, as chances da promoção se con­cretizarem são quase ínfimas. "Peça ao gestor para repetir as avaliações de desempenho para reforçar o com­binado, ou deixar mais alguém a par do assunto", diz Carlos Eduardo. As­ sim, o plano de promoção fica claro e é de conhecimento púbico.

5 - O chefe prometeu promoção e trocou de área.

Nesse caso, existe ainda o fato positi­vo de que o chefe permanece na com­panhia e pode deixar a questão para o sucessor. E se isso não acontecer? "Tente ter uma conversa transparen­te com o novo chefe, até para mostrar seu interesse em crescer", diz Ana Lui­za, da Assert. "Mas é preciso lembrar que isso não é garantia de que a pro­moção virá, porque ele precisará ava­liar o dese empenho do profissional que ainda desconhece", diz a consultora.

6 - A promoção demorou e a empresa mudou de opinião e escolheu outra pessoa.

Esse é mais um caso envolvendo promoções programadas que demoram a ocorrer. O profissional fez tudo cer­ to: conquistou a promoção, validou com o chefe e recebeu o aval da empresa. Está tudo registrado, mas o desempe­nho do profissional após o acordo mina seu crescimento. O paulistano Lucio Barbieri, de 42 anos, supervisor de vendas e gerente de marketing do Komet Group, que atua no segmento de óleo e gás, foi preterido num processo sucessório ao ter recebido uma definição formal tanto do gestor quanto da firma. "Disseram que meu colega estava mais bem preparado", diz Lucio. Ou seja, a promoção foi lenta e a empresa mudou de opinião no meio
do caminho. Em casos assim é preciso não descuidar do desempenho sem relaxar e manter o assunto quente na cabeça do chefe. "Não deixe o assunto morrer", diz Ana Luiza, da Assert.

• Moral da história

Deixe tudo, ao máximo, formalizado e fuja dos prazos indefinidos. Trate os acordos para contratação, aumento ou promoção como um produto perecível. No começo, eles precisam ser cuidados. Depois precisam ser consumidos rapidamente, antes que estraguem. Quanto mais a combinação demora a ser cumprida, maiores as chances de ela não passar de uma mera promessa.

• Quando a promessa vira prejuízo moral.

- Empresas são menos orga­nizadas do que parecem. As estratégias e as pessoas mu­dam. O que não está definido e aprovado pode se perder nos corredores. Em processos de contratação, promessas ilusó­rias começam a virar questão para a Justiça do Trabalho.

- Quando o candidato se sen­te prejudicado por ter sido pri­vado de sua fonte de sustento, ou porque parou de procurar emprego ou porque pediu de­missão crente de ter conquis­tado uma nova vaga, a Justiça reconhece ações movidas pe­los profissionais.

- O advogado João Paulo Sér­gio, professor da Escola de Di­reito da FGV, aconselha ao pro­fissional que quiser exigir repa­ração da empresa se munir de provas. O que vale é o que está registrado por escrito. Promes­sas verbais só têm valor se hou­ver testemunhas da conversa, algo que quase nunca acontece.

- Quem procura emprego deve ficar atento ao acordo pré-con­tratual, em que as empresas comunicam salários, benefícios e cargas horárias ao candidato escolhido. De acordo com João Paulo, ao formalizar o contrato, o empregador pode modificar o combinado, o que pode resultar numa diminuição no valor do salário ou na alocação em car­go diferente do anunciado.

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