Como o cérebro cria a mente


Há muito tempo nos perguntamos como a mente consciente passa a existir. A resposta definitiva estará mais próxima quando compreendermos melhor as funções cerebrais.

Revista Scientific American - por António R. Damásio

No começo um novo milênio, não resta dúvida de que uma se de uma pergunta se destaca de todas as outras nas ciências da vida: como a cadeia de processos que mecanismos chamamos de mente resulta da atividade do órgão que denominamos cérebro? A pergunta certamente não é nova. De uma maneira ou outra, vem sendo formulada há séculos. E preocupa tanto os especialistas - neurocientistas, cientistas cognitivos e filósofos - quanto outros que se perguntam sobre a origem da mente, e sobretudo da mente consciente.

A questão da consciência ocupa hoje um lugar privilegiado porque a biologia em geral, e a neurociência em particular, alcançaram notável êxito em decifrar segredos da vida. É possível que se tenha aprendido mais sobre o cérebro e a mente na década de 90 - a década do cérebro - do que durante toda a história da psicologia e da neurociência. Elucidar a base neurobiológica da mente consciente - versão do clássico problema corpo e alma - tornou-se quase que um desafio residual.

Alguns pensadores, especialistas ou amadores, acreditam que a pergunta seja, em princípio, irrespondível. Para outros, o crescimento inexorável e exponencial do novo conhecimento pode criar a sensação vertiginosa de que nenhum problema consegue resistir ao ataque da ciência, desde que a teoria esteja correta e as técnicas sejam suficientemente poderosas. O debate é intrigante e até inesperado, já que não se levantaram dúvidas semelhantes sobre a probabilidade de explicar como o cérebro processa a visão ou a memória, componentes óbvios do processo mais amplo da mente consciente.

Incluo-me entre os que confiam numa explicação sólida para o surgimento da mente a partir do cérebro, e em breve. Nada é mais familiar que a mente, mas o peregrino em busca das fontes e dos mecanismos por trás dela embarca em uma viagem por uma terra estranha e exótica. O que se segue, sem uma ordem específica, são os principais problemas encontrados pelos que buscam bases biológicas para a mente consciente.

O primeiro dilema se refere à perspectiva que deve ser adotada no estudo da mente consciente em relação ao cérebro no qual acreditamos que se origine. O corpo e o cérebro de todas as pessoas podem ser observados por outros; a mente, no entanto, é observável apenas por seu dono. Várias pessoas podem fazer as mesmas observações a respeito de um corpo ou cérebro de alguém, mas não é possível que uma delas faça uma observação direta comparável sobre a mente desse alguém. O corpo e o cérebro são públicos, expostos, externos e inegavelmente objetivos. A mente é privada, oculta, interna e inequivocamente subjetiva.

Como e onde, então, ocorre a dependência da mente de uma pessoa sobre o corpo de outra? Técnicas empregadas para estudar o cérebro incluem exames sofisticados e a medida de padrões de atividade neuronal. Os críticos afirmam que a exaustiva compilação dessas informações resulta em correlatos de estados mentais, mas nada que se pareça a um estado mental efetivo. Para eles, a observação detalhada de matéria viva conduz, portanto, não à mente, mas tão-só aos detalhes da matéria viva. A compreensão de como é gerada a sensação do "eu", marca da consciência mental - a sensação de que as imagens em minha mente são minhas e se formam de acordo com minha perspectiva -, é simplesmente impossível.

Para os pessimistas, o problema da mente-consciência parece tão intratável que nem sequer é possível explicar por que a mente se ocupa de algo - por que processos mentais representam estados internos ou interações com objetos externos. (Os filósofos se referem a essa qualidade de representação da mente com um termo confuso: "intencionalidade".) Esse argumento é falso.

A tese negativa final é o lembrete de que elucidar o surgimento da mente consciente depende da existência dessa mesma mente consciente. Levar adiante uma investigação usando o próprio instrumento que está sendo investigado torna tanto a definição do problema como a maneira de solucioná-lo especialmente complexas. Dado o conflito entre o observador e o observado, dizem, é provável que o intelecto humano não esteja à altura da tarefa. Esse conflito é real, mas a noção de que é insuperável é imprecisa.

Em suma, a evidente peculiaridade do problema da consciência-mente e as dificuldades de abordagem geram dois efeitos: frustram os pesquisadores comprometidos em encontrar uma solução e confirmam a convicção dos que acreditam que uma solução está fora de nosso alcance.

Conceitos-chave

- A década do cérebro, nos anos 90, pode ter permitido um conhecimento maior sobre mente-cérebro que em toda história anterior da psicologia e neurociência.
- 0 que se pode chamar de substância da mente divide os pesquisadores em dois blocos fundamentais: os que acreditam que o conhecimento atual do cérebro permita um julgamento mais delinitivo sobre a mente e os céticos quanto a chances mais promissoras neste sentido.
- Os "grão" de estruturas físicas e atividades biológicas que formam o "filme no cérebro" gradualmente serão conhecidos.

  • Avaliação das Dificuldades

Os que mencionam a incapacidade de pesquisar a matéria viva do cérebro para revelar "a su ubstância da mente" presumem que o atual conhecimento dessa matéria viva seja suficiente para permitir um julgamento definitivo. Isto é inaceitável. A atual descrição dos fenômenos neurobiológicos é bastante incompleta. Ainda temos de solucionar inúmeros detalhes sobre a função dos neurônios e circuitos em nível molecular e sobre o comportamento de populações de neurônios em regiões cerebrais. Estamos apenas começando a considerar o fato de que interações entre muitas regiões não-contíguas provavelmente produzem estados biológicos altamente complexos, muito maiores que a soma de suas partes.

A explicação da física relacionada a acontecimentos biológicos ainda é incompleta e portanto é absurdo declarar insolúvel o problema da mente consciente, só porque estudamos o cérebro por inteiro e não a descobrimos. Não estudamos plenamente nem mesmo a neurobiologia e a física que lhe são relacionadas. No nível mais minucioso de descrição da mente, por exemplo, a rápida construção, manipulação e superposição de muitas imagens sensoriais poderia exigir uma explicação no plano quântico. A noção de um possível papel para a física quântica na elucidação da mente, idéia comumente associada ao físico matemático Roger Penrose, da University of Oxford, não equivale a endossar suas propostas específicas, a saber, de que a consciência se baseia nos fenômenos quânticos que ocorrem nos microtúbulos - componentes de neurônios e outras células. A quântica das operações poderia ajudar a explicar como possuímos uma mente, mas considero desnecessário explicar como sabemos que a possuímos - questão que vejo como a mais crítica numa ampla explicação sobre a consciência.

A estranheza do problema da mente consciente é em grande parte reflexo da ignorância, que limita a imaginação e tem o curioso efeito de fazer o possível parecer impossível. A "tecnologia" do cérebro é complexa a ponto de parecer mágica, ou pelo menos incognoscível. O surgimento de um abismo entre estados mentais e fenômenos físico-biológicos resulta da grande disparidade entre dois corpos de conhecimento - a compreensão da mente conquistada após séculos de introspecção e os esforços da ciência cognitiva versus a especificação neural incompleta que atingimos por meio dos esforços da neurociência. Não há razão para imaginar que a neurobiologia não possa transpor esse abismo.

Portanto, sustento que os processos biológicos que hoje se presume corresponderem a processos mentais são de fato processos mentais e assim serão considerados quando compreendidos em detalhe. Não estou negando a existência da mente ou dizendo que, tão logo saibamos o que precisamos saber sobre sua biologia, ela deixará de existir. Acredito que a mente particular, pessoal, preciosa e única é na realidade biológica e um dia será descrita tanto em termos biológicos quanto mentais.

Outra objeção à compreensão da mente é que o conflito entre o observador e o observado torna o intelecto humano incapaz de estudar a si mesmo. Entretanto, é importante sublinhar que cérebro e mente não são um monólito: possuem múltiplos níveis estruturais, e o mais alto deles cria instrumentos que permitem a observação dos outros. Por exemplo, a linguagem dotou a mente do poder de categorizar e manipular o conhecimento de acordo com princípios lógicos, e isso nos auxilia a classificar observações como verdadeiras ou falsas. Devemos ser modestos quanto à possibilidade de algum dia observar nossa natureza por completo, mas não podemos anunciar a derrota antes de tentar.

Para solucionar o enigma da mente consciente, é preciso dividi-la em duas partes. A primeira preocupação é como gerar aquilo que chamo de "filme-no-cérebro". Esse filme serve de metáfora para a composição integrada e unificada de diversas imagens sensoriais - visuais, auditivas, tácteis, olfativas e outras - que constituem o espetáculo multimídia que denominamos mente. A segunda questão diz respeito ao "eu" ("self") e a como geramos automaticamente o senso de posse do filme-no-cérebro. As duas estão relacionadas, e a segunda se encaixa na primeira. Separá-las é uma útil estratégia de pesquisa, já que cada uma exige sua própria solução.

  • Razões para otimismo

Ao longo de quase toda a história da disciplina, os neurocientistas têm tentado involuntariamente resolver a parte do filme-no-cérebro do problema da consciência-mente. O empenho em mapear as regiões cerebrais envolvidas na elaboração do filme começou cerca de 150 anos atrás, quando Paul Broca e Carl Wernicke sugeriram que diferentes regiões do cérebro estariam envolvidas no processo de diferentes aspectos da linguagem.

Hoje os pesquisadores conseguem registrar diretamente a atividade de um único neurônio ou grupo de neurônios e relacionar essa atividade a aspectos de um estado mental específico, tal como a percepção da cor vermelha ou de uma linha curva. Exames utilizando técnicas de imagem cerebral como o PET (tomografia de emissão de pósitrons) e o fMRI (ressonância magnética funcional) revelam como diferentes regiões cerebrais de uma pessoa normal são recrutadas por certa tarefa mental, como relacionar uma palavra a um objeto ou reconhecer um rosto. Os pesquisadores são capazes de determinar como moléculas no interior de circuitos neuronais microscópicos participam dessas tarefas, e conseguem identificar os genes necessários à produção e distribuição dessas moléculas.

Os progressos têm sido rápidos desde que David H. Hubel e Torsten Wiesel, da Harvard University, forneceram a primeira pista para entender como circuiitos cerebrais representam a forma de um dado objeto, ao demonstrar que os neurônios no córtex visual primário estavam seletivamente sintonizados para reagir a linhas orientadas em ângulos variados. Mais tarde, Hubel e Margaret S. Livingstone, também da Harvard, mostraram que outros neurônios do córtex visual primário reagem seletivamente à cor, mas não à forma.

Como descobriu Semir Zeki, da University College London, regiões ceerebrais que receberam informação sensorial depois do córtex visual primário eram especializadas no processamento posterior da cor ou movimento. Em pacientes com problemas neurológico e;o dessas moléculas.

Os progressos têm sido rápidos desde que David H. Hubel e Torsten Wiesel, da Harvard University, forneceram a primeira pista para entender como circuiitos cerebrais representam a forma de um dado objeto, ao demonstrar que os neurônios no córtex visual primário estavam seletivamente sintonizados para reagir a linhas orientadas em ângulos variados. Mais tarde, Hubel e Margaret S. Livingstone, também da Harvard, mostraram que outros neurônios do córtex visual primário reagem seletivamente à cor, mas não à forma.

Como descobriu Semir Zeki, da University College London, regiões ceerebrais que receberam informação sensorial depois do córtex visual primário eram especializadas no processamento posterior da cor ou movimento. Em pacientes com problemas neurológicos, observou-se que lesões em regiões distintas dos córtices visuais interferem na percepção da cor, enquanto conservam intacto o discernimento da forma e do movimento. Outros trabalhos indicam a existência de uma correspondência entre a estrutura de um objeto, tal como assimilado pelo olho, e o padrão de atividade neuronal gerado no córtex visual.

Outros progressos, envolvendo aspectos do filme-no-cérebro levaram a uma melhor percepção dos mecanismos de aprendizado e de memória. O cérebro utiliza sistemas distintos para diferentes tipos de aprendizado. Os gânglios basais e o cerebelo são cruciais para a aquisição de habilidades - por exemplo, aprender a pedalar ou tocar um instrumento musical. O hipocampo é essencial para o aprendizado de características de entidades como pessoas, lugares ou acontecimentos. E, depois de aprendidos os fatos, a memória de longo prazo conta com sistemas cerebrais multicomponentes, cujas partes principais se localizam em vastos espaços cerebrais, conhecidos como córtices.

Além disso, o processo mediante o qual fatos recém-aprendidos se consolidam na memória de longo prazo ultrapassa hipocampos e córtices cerebrais em bom funcionamento. É preciso que ocorram certos processos, em nível de neurônios e moléculas, para que impressões de fatos recém-aprendidos fiquem gravadas, por assim dizer, nos circuitos neurais. Essa gravação depende de se fortalecerem ou enfraquecerem os contatos entre os neurônios, conhecidos como sinapses. Uma estimulante descoberta de Eric R. Kandel, da Columbia University, e Timothy P. Tully, de Cold Spring Harbor Laboratory, é que a gravação da impressão exige a síntese de proteínas novas, que por sua vez contam com o encaixe de genes específicos nos neurônios encarregados de manter a memória consolidada.

Poderíamos incluir relatos sobre o estudo da linguagem, emoção e capacidade de tomar decisões. Seja qual for a função mental que consideremos, é possível identificar partes distintas do cérebro que, em conjunto, contribuem para a produção de uma função; existe uma correspondência íntima entre o surgimento de um estado ou comportamento mental e a atividade de regiões cerebrais determinadas. É possível estabelecer essa correspondência entre uma dada região identificável macroscopicamente (por exemplo, o córtex visual primário, uma área relacionada à linguagem ou um núcleo ligado à emoção) e os circuitos neuronais microscópicos que constituem a região.

Novas técnicas aumentam cada vez mais a capacidade de estudar funções neurais no plano molecular e de investigar os fenômenos extremamente complexos de larga escala que surgem no cérebro inteiro. Isso tornará possível fazer correspondências cada vez mais precisas entre estados cerebrais e estados mentais, entre o cérebro e a mente. Os delicados grãos de estruturas físicas e atividades biológicas que constituem o filme-no-cérebro gradualmente se tornarão nítidos.

O ímpeto da atual pesquisa sobre a neurociência cognitiva e a acumulação de fatos vigorosos talvez convençam muitos descrentes de que é possível identificar a base neural do filme-no-cérebro. Os céticos continuarão a achar difícil aceitar que a segunda parte do problema da mente consciente - o surgimento de um senso do "eu" - possa ser solucionada. Esse problema não é de modo algum óbvio, mas uma possível solução foi proposta e uma hipótese está em teste.

  • Confrontando o "Eu"

As principais idéias por trás dela dizem respeito à capacidade de representação única do cérebro. Células dos rins ou do fígado desempenham os papéis funcionais que lhes foram determinados e não representam outras células ou funções. Mas as células do cérebro, em qualquer nível do sistema nervoso, representam entidades ou acontecimentos que ocorrem em alguma outra parte do organismo. Nasceram para ser cartógrafas da geografia de um organismo e dos acontecimentos que se dão ali: elas se ocupam de outras coisas e de outros procedimentos. O sempre citado mistério da mente "intencional", relativo à representação dos objetos exteriores, acaba não sendo mistério algum. O desespero filosófico que cerca essa barreira de "intencionalidade" citada antes - de por que os estados mentais representam emoções internas ou interações com objetos externos - cai quando se considera o cérebro em contexto darwinista: a evolução produziu um cérebro cuja função é representar diretamente o organismo e indiretamente tudo aquilo com que o organismo interage.

Assim, a intencionalidade natural do cérebro nos leva a outro fato estabelecido: o cérebro possui dispositivos, no interior de sua estrutura, projetados para administrar a vida do organismo de tal modo que equilíbrios químicos internos, indispensáveis para a sobrevivência, sejam conservados todo o tempo. Eles não são hipotéticos nem abstratos; localizam-se no cerne do cérebro, o tronco encefálico e o hipotálamo. Os dispositivos cerebrais que regulam a vida também representam, necessariamente, os estados em constante alteração do organismo. Em outras palavras, o cérebro possui meios naturais de representar a estrutura e o estado de todo o organismo.

Mas como é possível sair desse "eu" biológico e passar para o senso de propriedade dos pensamentos de uma pessoa, no sentido de que os pensamentos são construídos de acordo com sua própria perspectiva, sem cair na armadilha de invocar um homúnculo onisciente que interpreta a realidade? Como é possível saber sobre o "eu" e adjacências? Sustento que o fundamen

    Leitura Dinâmica e Memorização

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