Como o exercício melhora o cérebro


Pesquisas revelam que a atividade física melhora a concentração, a memória, a aprendizagem e até estimula o nascimento de neurônios.

Revista Istoé - por Mônica Tarantino e Monique Oliveira

Não é segredo que a atividade física produz inúmeros benefícios para o corpo, mas agora a ciência reuniu provas suficientes para adicionar um novo e poderoso efeito à sua lista de ações positivas: o aprimoramento do cérebro. As mais recentes descobertas indicam que a prática regu­lar de exercícios ajuda a pensar com mais clareza, melhora a memória e proporciona um grande ganho na aprendizagem. Novos estudos sugerem que as mudanças podem ser ainda maiores, alte­rando a própria estrutura do órgão ao incentivar o nascimento e o desenvolvimento de neurônios. Essas conclusões são de uma ampla revisão de pesquisas que acaba de ser divulgada nos Estados Unidos por uma das mais renomadas cientistas no campo da neurogênese, Henriette van Praag (Ph.D), do Laboratório de Neu­rociências do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. Henriette e seus colaboradores afirmam que há maior produção de neurônios e um aumento das substâncias que atuam na nutrição e desenvolvimento dessas células em animais submetidos a exercícios regulares. O trabalho foi publicado pela revista "Current Topics in Behavioral Neurosciences". A cien­tista detectou ainda que o exercício aumenta a capacidade do cérebro de se adaptar e criar novas conexões, a chamada neuroplasticidade. Em estu­dos com ressonância magnética feitos em indivíduos foi possível também observar que quem se exercita regularmente produz uma intensa atividade no hipocampo. Essa região cerebral está relacionada à memória e à aprendizagem, e lá estão armazenadas as células-tronco que darão origem aos novos neurônios.

As relações entre exercícios e cé­rebro estão no centro das atenções da neurociência por suas implicações imediatas e futuras na vida de milhares de pessoas. Há avanços em diver­sas frentes. Os cientistas comprova­ram, por exemplo, que as vantagens começam com a elevação dos níveis de oxigenação e do fluxo sanguíneo no corpo como um todo. "Por si só essa mudança já melhora o funcionamento da memória e da concentração e previne o acidente vascular cere­bral", explica Gisele Sampaio Silva, gerente-médica do programa integra­do de neurologia do Hospital Albert Einstein e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O incremento da circulação também estimula a comunicação mais eficien­te entre os neurônios. A atividade fí­sica aumenta ainda a produção e a liberação de neurotransmissores. "Es­ses hormônios fabricados pelos neu­rônios atuam nas sinapses, a comuni­cação entre essas células", explica Ricardo Arida, professor e pesquisa­dor do Departamento de Fisiologia da Unifesp. Esses compostos participam da regulação de funções como memó­ria, aprendizagem, emoções, sede, sono, fome, bem-estar, ansiedade e humor. O resultado é um reequilíbrio das quantidades dessas substâncias no cérebro, compensando déficits ou excessos, o que melhora o desempe­nho global do órgão. Numerosos estudos estão focados na compreensão dos efeitos do exercício na proteína BDNF, uma espécie de tônico do surgimento, crescimento e especialização das células nervosas. Um trabalho coordenado pelo neurofisiologista Arida, da Unifesp, mediu a concen­tração dessa proteína no sangue de atletas internacionais, de nacionais e de pessoas sedentárias. As conclusões, publicadas na revista "Neuroscience Bulletin"", revelaram que os atletas de mais alto nível tinham quantidades maiores do composto circulando no sangue. Uma das prerrogativas da proteína é melhorar a troca de men­
sagens entre os neurônios.

Crianças também podem vir a se beneficiar intelectualmente da ativi­dade física, conforme sugerem dados colhidos pela Unifesp. Os pesquisado­res analisaram as respostas de animais à ginástica logo após o desmame. "Nossos achados sugerem que fazer exercícios desde cedo ajuda a cons­truir uma reserva neural que protege, inclusive, contra desordens cerebrais", afirma Arida. Na Universidade de Darthmouth, em New Hampshire, o grupo do cientista David Bucci de­tectou diferenças nos resultados de quem começa a se exercitar na infân­cia, na juventude ou mais tarde. "O exercício na fase de desenvolvimento do cérebro favorece a formação de uma rede neuronal mais densa e oferece mais apoio para funções co­mo memória e aprendizagem", disse o pesquisador à ISTOÉ.

Nos Estados Unidos, essas informa­ções estão se traduzindo em mudanças no currículo das escolas. Um dos res­ponsáveis por essa transformação é o neuropsiquiatra John Ratey, da Uni­versidade de Harvard. Ele percorre o país para promover a adoção de pro­gramas de fitness voltados para o aprendizado. O pesquisador partiu nessa cruzada convencido por suas pesquisas e por casos como o dos alunos da Naperville Central High School, situada em um distrito de Chicago. Ali, os estudantes se reúnem na escola todas as manhãs antes das aulas, colocam seus frequencímetros (relógios que calculam a frequência cardíaca) e saem correndo em uma pista. "A ideia principal é que os jo­vens consigam praticar atividades como a corrida mantendo uma taxa entre 65% e 80% de sua frequência cardíaca máxima, mantendo-a estável nessa faixa por 20 a 40 minutos tr&e ecirc;s vezes por semana", disse Ratey à IS­TOÉ. Ele registrou essa experiência e outros estudos sobre a relação entre cérebro e exercício no livro "Corpo Ativo, Mente Desperta" (Ed. Objeti­va), lançado recentemente no Brasil. No ano passado, o pesquisador ofere­ceu um programa de apoio com ati­vidades físicas a 24 jovens do Ensino Médio com sérios problemas discipli­nares, baixa frequência às aulas e di­ficuldades de aprendizagem da escola Barrie Central. "Em seis meses a me­lhora foi notável", disse o neuropsi­quiatra. Em breve Ratey irá à Coreia do Sul a convite do Ministério da Educação para falar sobre os efeitos do exercício no cérebro. Diante dessa nova abordagem da atividade física, es­colas brasileiras já estão começando a rever a pauta das suas aulas de ginástica. No Colégio Ítaca, na zona oeste de São Paulo, o currículo de educação física foi reelaborado sob esse prisma. "Além de contribuir em várias áreas do conhecimento, o exercício é uma peça fundamental para a concentra­ção", diz Elisabete Vecchiato, assesso­ra cultural do colégio.

Muitos estudos ainda são necessá­rios para determinar, por exemplo, como surgem e por quanto tempo persistem as alterações induzidas pela ginástica. "Os primeiros efeitos podem ser sentidos após uma semana", diz Arida, da Unifesp. A recomenda­ção é que se façam três sessões de 20 a 30 minutos de exercícios aeróbios por semana, mas duas já produzem algum efeito. O entusiasmado pesquisa­dor Ratey, de Harvard, tem sugerido aos professores de educação física que ofere­çam sessões de ginástica duas vezes por dia, uma antes do início das aulas, e outra no final, para produzir dois momen­tos de pico na produção das substân­cias que melhoram o desempenho. "Minha convicção é que o foco no
condicionamento físico tem um papel essencial nas realizações acadê­micas dos alunos", afirma ele.

Por hora, é consenso que a inter­rupção da atividade física cessa suas benesses. A avaliação de resultados de longo prazo, porém, está levando os especialistas a considerar a possi­bilidade de a prática persistente gerar mudanças estruturais no órgão. Pes­quisa da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, mostrou um aumento do tamanho do hipocampo (associado a aprendi­zagem e memória) em adultos saudáveis após um ano de atividade física moderada, levan­do a um aprimora­mento da memória. "Os resultados desse estudo são interessantes porque mostram que exercícios feitos por adultos mais velhos e sedentários, mesmo que em pouca quantidade, podem levar a uma subs­tancial melhora da saúde cerebral", disse Art Kra­mer, um dos autores do trabalho realizado em conjunto com outras universidades.

Buscam-se também explicações para as respostas diferentes que o cé­rebro dá quando o corpo se exercita. A equipe do professor David Bucci revelou recentemente a presença de um gene que parece regular a inten­sidade da reação do órgão. A desco­berta pode ser especialmente útil para ajudar a selecionar, no futuro, quem pode lucrar mais ao associar a ativi­dade física ao tratamento de condi­ções como depressão, a ansiedade e o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDHA). Essas aplica­ções estão sendo estudadas em centros como o Instituto Karolinska, na Sué­cia. "O exercício não só é eficiente no combate à depressão, como potencia­ liza os efeitos dos medicamentos", diz a neurocientista Astrid Bjornebekk. Ambos contribuem para a formação de novos neurônios em áreas no cé­rebro importantes para a memória e a capacidade de aprender e podem ser usados de maneira combinada. Em São Paulo, na Unifesp, o pesquisador Arida concluiu que a ginástica pode ajudar a reduzir pela metade as crises de epilepsia, doença tratada com medicamentos potentes e nem sempre eficazes. À luz dessas descobertas, o sedentarismo torna-se um fator de risco ainda mais perigoso. 

• Foco e autocontrole

 Todos os dias, o administrador de empresas Michel Soares Abumrad, 29 anos, cumpre uma rotina de três horas de intensa atividade física divididas entre jiu-jitsu, natação e musculação. "O exercício e o esporte me ajudam a enfrentar as situações difíceis que surgem em relacionamentos e no trabalho." Ele diz que percebe clara diferença no seu comportamento quando é obrigado a diminuir o ritmo. "Perco o controle mais rápido".

Memória e energia

A empresária Mônica Saião, 32 anos, corre todos os dias e pratica boxe e musculação. "O exercício me auxilia a lidar melhor com a burocracia do trabalho e o estresse do dia a dia. Não esqueço o que tenho de fazer e tudo flui." Proprietária de um espaço de vida saudável em São Paulo para apoiar pessoas com problemas de peso, ela sente a diferença nos clientes que aderem ao exercício. "Eles relatam melhorias na memória e na concentração".

Disciplina

Beatriz Koh, 6 anos, pratica natação e tênis e participa do programa de educação física da escola. "Quando ela falta, dá para perceber que fica mais dispersa. Perde a noção da rotina e, às vezes, esquece a lição de casa", diz o pai Edgar Koh, 35, que também pratica esportes regularmente.

Concentração

O personal trainer e estudante de mestrado Bruno Nakao, 29 anos, credita ao esporte, que pratica desde a infância, o seu sucesso na vida acadêmica. Atualmente, ele dá aulas e faz mestrado na Universida­de Federal de São Paulo. "Sou muito disperso e ansioso. Com o esporte, eu fico mais focado".

Os efeitos do movimento na mente

Conheça as alterações positivas que o exercício produz no funcionamento cerebral.

- Mais nutrientes e comunicação: O simples gesto de dobrar o braço ou dar um passo aciona a troca de milhares de mensagens entre os neurônios. Os exercícios intensificam essa comunicação neuronal e o fluxo sanguíneo.


Concentração

O personal trainer e estudante de mestrado Bruno Nakao, 29 anos, credita ao esporte, que pratica desde a infância, o seu sucesso na vida acadêmica. Atualmente, ele dá aulas e faz mestrado na Universida­de Federal de São Paulo. "Sou muito disperso e ansioso. Com o esporte, eu fico mais focado".

Os efeitos do movimento na mente

Conheça as alterações positivas que o exercício produz no funcionamento cerebral.

- Mais nutrientes e comunicação: O simples gesto de dobrar o braço ou dar um passo aciona a troca de milhares de mensagens entre os neurônios. Os exercícios intensificam essa comunicação neuronal e o fluxo sanguíneo.

- Sintonia fina: Sob atividade física, os neurônios elevam a produção e liberação de neurotransmissores, as substâncias responsáveis por levar instruções de uma célula nervosa a outra. Isso pode corrigir distorções, melhora o desempenho de funções cerebrais, ajuda a controlar e reverter estados de ansiedade, estresse e depressão.

- Novos neurônios: Estudos mostram que o exercício estimula a produção de compostos que atuam na diferenciação das células-tronco em novos neurônios. Elas ficam armazenadas em uma parte do hipocampo. A atividade física também aumenta a liberação de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), uma proteína produzida pelas células nervosas. Permite que os neurônios recebam nutrição adequada para que possam se regenerar, crescer ou se desenvolver.

- Memória reforçada: A contração muscular faz o cérebro liberar o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF). Ele estimula a formação de novos vasos sanguíneos. Pesquisas recentes mostram que atua também na consolidação das memórias.

- Córtex mais denso: Pesquisas feitas com exames de imagem, como a ressonância magnética, indicam que a atividade física pode aumentar a espessura do córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro e que processa a maior parte das informações.

- Conexões a mil: A atividade física aprimora as trocas metabólicas no interior da célula nervosa, aumentando a sua eficiência energética. "Isso estimula também a sensibilidade das terminações nervosas dos neurônios e as sinapses (a comunicação entre eles).

- Prevenção do envelhecimento: Mexer o corpo eleva a produção de substâncias envolvidas no fortalecimento das conexões entre as células cerebrais, na criação de ligações, e estimula o surgimento de mais neurônios. Isso ajuda a proteger o cérebro dos efeitos do envelhecimento e de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

- Redução dos danos do estresse: É sabido que o exercício combate os efeitos negativos do cortisol, que se eleva sob o estresse. Ele também protege os neurônios das consequências da elevação excessiva desse hormônio, como o aumento do neurotransmissor glutamato, que em exagero pode prejudicar o funcionamento dessas células.

O valor da frequência cardíaca

O cálculo do ritmo dos batimentos do coração durante o exercício mostra se a atividade está sendo feita na medida certa (nem muito intensa, nem fraca demais) para que os benefícios da prática sejam alcançados. Há três formas de conhecer a sua FCM. A ideal é ser orientado por um profissional da área após a realização de um teste de esforço para avaliar as respostas do seu coração à sobrecarga e como se comporta a sua pressão arterial. Após os 35 anos, o teste ergométrico é indispensável antes de iniciar qualquer programa de exercícios. Sua finalidade é evitar acidentes cardiovasculares. Confira as outras duas opções:

- Faça as contas

Subtraia a sua idade de 220. Se você tem 50 anos sua FCM será 220 - 50 = 170 . Para alcançar as porcentagens indicadas para iniciantes, por exemplo, entre 60%e 70% da frequência máxima, multiplica-se 170 por 60 e 70, para depois dividir por 100.

Na hora do exercício, para monitorar os batimentos, pare um instante e conte o número de batimentos por 15 segundos. Multiplique o resultado por quatro e terá a medida da sobrecarga do coração no momento da atividade. Compare com os valores indicados para saber se está dentro dos limites.

- Use o frequencímetro

Especialistas recomendam o uso de um frequencímetro. É um relógio que calcula a sua frequência cardíaca, exibindo o ritmo dos batimentos durante a atividade. Preços e sofisticação variam. Há desde modelos simples até os programados para enviar dados acumulados ao computador do seu médico.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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