Como pensam as pessoas mais criativas


Lampejos de gênio.

Revista Você S.A. - por Robert e Michèle Root-Bernstein

Einstein, Mozart, Bach, Virginia Woolf, Alexander Fleming, Leonardo da Vinci, Picasso. O que os maiores gênios da humanidade tinham em comum além da genialidade? Segundo o casal Robert e Michèle Root-Bernstein, todos eles tinham uma maneira especial de pensar, uma grande capacidade de observação e de abstração. É este o tema do livro Lampejos de Gênío, escrito pelos Root-Bernstein, a ser lançado no Brasil pela Editora Nobel. O livro reúne as táticas utilizadas por escritores, pintores e cientistas durante o processo de criação. E, mais importante, ensina como nós, pessoas comuns, também podemos utilizá-las. Robert Roott-Bernstein é professor de fisiologia na Michigan State University, nos Estados Unidos. Michèle, sua mulher, é historiadora e autora de vários livros. O resultado do trabalho do casal é um sofisticado best-seller que está sendo considerado o "repensar do pensamento". Este é um livro para quern sempre quis ser gênio, mas não sabia onde aprender a sê-lo. Se este é o seu caso, mãos à obra.

Todo mundo pensa. Mas nem todo mundo pensa de uma maneira igual, ou da melhor maneira possível. Temos uma tendência a achar que os gênios nasceram prontos. Até mesmo o mais bem-dotado deles, entretanto, gasta muitos anos treinando suas habilidades natas. Nós também podemos aprender a usar as ferramentas mentais que os gênios usam. Basta acreditar que as grandes idéias surgem das mais estranhas maneiras. Em um dia qualquer de 1930, a jovem Barbara McClintock, futura Prêmio Nobel em genética, estava examinando os resultados de uma experiência realizada numa plantação de milho, na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. A sua equipe de pesquisa não conseguia explicar por que somente um terço do milho produzia sementes estéreis. A expectativa era de que metade das espigas o fizesse. Meia hora mais tarde, de repente, Barbara gritou: "Eureka! Eu sei qual é a causa!" - mas logo verificou que não conseguia explicar o que acabara de intuir. Algumas décadas mais tarde, ela diria: "Quando se tem um problema, de repente algo acontece que nos dá a resposta. Isso ocorre antes que sejamos capazes de expressá-la verbalmente. É um trabalho inteiramente subconsciente".

Isso é o que também outros gêrrios revelam. Filósofos e matemáticos, cientistas, pintores, compositores, escritores, todos descrevem a mesma sensação de não saber exatamente como as grandes idéias surgiram em suas mentes. Até o inventor da fisiologia moderna, Claude Berrnard, escreveu que tudo o que é importante no pensamento científico começa sempre com um sentimento. Einstem reconhecia que os sentimentos e a intuição constituíam elementos essenciais no processo do pensamento criador.

Olhar para uma obra de arte apenas como algo a ser analisado é ilusão. A Realidade somente pode ser atingida quando conseguimos entender como a arte emerge da vida e se relaciona com ela. De nada adianta tentar "apoderar-se" do pensaamento alheio, em filosofia, ciência, literatura ou história. Se você não consegue imaginar, não consegue inventar nada novo. Imaginação é a capacidade de unir a mente e o corpo, o intelecto e a intuição. Se você não conseguir desenvolver o seu próprio ilusório(mas revelador) "olhar mental", os olhos que você tem na cabeça não lhe mostrarão grande coisa.

  • A observação

    Todo conhecimento começa pela observação. A capacidade de perceber acuradamente o mundo nos permite discernir padrões de ação, abstrair os seus princípios, estabelecer analogias, criar modelos de comportamento e fazer inovações proveitosas. Há uma diferença muito grande entre olhar e ver. Muitos artistas plásticos lembram-se nitidamente do momento em que estabeleceram a diferença entre as duas coisas. A pintora Georgia O"Keeffe dizia: "De certa forma ninguém vê uma flor... e leva tempo para vê-la, assim como leva tempo para se fazer um amigo". Há pessoas que nascem com uma aptidão especial de concentração. Na maioria dos casos, porém, tanto o olho como os outros órgãos sensoriais têm de ser treinados.

    Van Gogh dizia que seu objetivo era "ver de forma a poder reproduzir à vontade a coisa vista, numa escala maior ou menor". Picasso contava que seu pai o obrigava, até os 15 anos, a desenhar repetidamente um pé de pombo. Somente quando pôde desenhá-lo com perfeição é que teve permissão para desenhar outros objetos. Os escritores também são grandes observadores de personagens e cenas da vida, e os cientistas precisam aprender a captar a essência das coisas em um instante.

    Mas nossa mente precisa ser treinada para observar. Diz o bioquímico Szent-Györgyi: "Descobrir consiste em ver o que todo mundo já viu e pensar o que ninguém ainda pensou".

  • Criando imagens

    O nome de Charles Steinmetz não é tão conhecido como o de Alexander Graham Bell ou Thomas Edison. Sem ele, entretanto, os dois não teriam conseguido fazer suas invenções prosperar. Steinmetz foi o inventor dos geradores elétricos, dos transformadores e outros equipamentos que tornaram possível a distribuição geral da eletricidade. Passou à História também pela extraordinária capacidade de visualizar mentalmente objetos e resolver problemas de física num átimo.

    Essa capacidade não é comum. Há três tipos básicos de pensamennto visual, ou capacidade de criar imagens: o daque eles que precisam desenhar uma forma, ou traçar o contorno com os dedos, para "vê-la"; o dos que têm de fechar os olhos para imaginar; e o de uns poucos que conseguem imaginar formas com os olhos abertos, sobrepondo-as a outras formas. Mais raros ainda são os que conseguem imaginar formas que mudam de cor, tamanho, perspectiva etc.

    As estatísticas mostram que o sucesso profissional de cientistas e inventores depende muito desta última habilidade. François Jacob, Prêmio Nobel em Biologia, dizia que ao acordar, de olhos fechados, recriava mentalmente o seu quarto, a sua casa, a vizinhança, e até o mundo inteiro. Outro Prêmio Nobel, o químico Peter Debye, escreveu que só conseguia pensar por meio de imagens.

    Nas artes, não somente os artistas plásticos pensam por meio de imagens visuais, mas também poetas, escritores e até músicos. Charles Dickens dizia que "via" as suas histórias antes de sentar para escrevê-las. Tennessee Williams diz ter criado Um Bonde Chamado Desejo a partir de uma imagem mental: "Tive a visão de uma mulher no final da juventude, abandonada pelo homem com quem ia se casar". E Beethoven só continuou a compor, depois de ter ficado completamente surdo, pela capacidade de imaginar e guardar durante muito tempo suas composições na cabeça, antes de passá-las para o papel.

    Johann Pestalozzi, fundador da escola onde Einstein estudou, já em 1801 dizia que a visualização deve preceder todas as outras formas de educação. Esse treino pode ser feito, porém, em todas as idades. A leitura de poemas e histórias, que obrigam o leitor a imaginar o que é descrito, é um ótimo exercício.

  • A Abstração

    Dizemos que as idéias e teorias são abstratas por não serem matéria. Ao desenhar, em 1927, o retrato de sua companheira, Marie Thérèse, tricotando, Picasso recriou-a de maneira abstrata, procurando captar também seus movimentos. Ele se incluiu na tela que pintava, criando um desenho sobre o processo do desenho. Parece estar dizendo: "Você está olhando mas não está vendo! Pense! Descubra o que há por trás do óbvio!"

    O físico Werner Heisenberg definiu a abstração como "a possibilidade de se considerar um objeto ou um grupo de objetos sob um ponto de vista, ao mesmo tempo que se descartam todas as suas outras propriedades". Na mesma época em que Picasso fez o retrato de Marie Thérèse, o físico C.T.R. Wilson inventou um sistema para fotografar partícuulas subatômicas. A invenção valeu um Prêmio Nobel. Sua fotografia resultou em algo muito parecido com o retrato feito por Picasso: um grupo de espirais e curvas que em três dimensões poderiam se parecer com molas bizarras. Tanto o cientista como o artista eliminaram da sua observação todos os elementos do objeto, menos um. E reduziram idéias complexas a imagens simples - isto é, estabeleceram uma abstração.

    A linguagem do corpo também é abstrata e consegue superar as diferenças das várias culturas. Em todo o mundo, as pessoas recorrem à mímica sempre que não conseguem se entender verbalmente. Abstraímos a linguagem musical quando assobiamos um tema musical. O sumário de um texto, a caricatura ou o uso das iniciais de um nome também são abstrações.

    Estabelecer abstrações não é fácil, mas é uma habilidade que pode ser treinada. Escolha o seu tema e o seu ponto de vista; pense de maneira realista sobre eles; brinque mentalmente com suas várias características; chegue ao que é essencial; considere e reconsidere os resultados obtidos, procurando distanciar-se deles, em tempo ou espaço. Enuncie a sua abstração, escolha um meio para expressá-la e extraia dela um conceito ou metáfora.

  • Reconheça padrões

    Em toda atividade mental estamos sempre fazendo uma operação: a de reconhecer padrões. A cada momento que vivemos, organizamos todos os dados que vemos, ouvimos ou sentimos, agrupando-os. Como diz Horace Judson, "perceber um padrão significa que já formamos uma idéia do que virá a seguir". Dos padrões que reconhecemos, derivamos princípios gerais de percepção e de ação e baseamos neles nossas expectativas. Depois tentamos introduzir neles outras observações e experiências, formando novos padrões.

    O artista gráfico M.C. Escher foi um especialista em descobrir novos padrões nos objetos mais comuns do seu dia-a-dia: faces risonhas, tristes, grotescas ou solenes no papel de parede; formas de animais nos veios da madeira ou nas nuvens; anjos e demônios num polígono regular que se repete. No século 16, Leonarrdo da Vinci também já fazia isso, aconselhando os discípulos a descobrir temas pictóricos em paredes manchadas de tinta ou agrupamentos de pedras. Existem padrões em tudo, nos sons que ouvimos, nas palavras que usamos verbalmente ou na escrita. Todas as formas de expressão se entrosam. Os poetas podem atingir a linguagem rítmica ouvindo jazz ou dançando.

    Reconhecer padrões requer observação e análise. Os músicos e os matemáticos são excepcionalmente dotados para percebê-los. Os cientistas estão sempre reconhecendo padrões no aparente caos da natureza. Os médicos agem da mesma forma quando fazem um diagnóstico. O mais interessante é que muitas vezes a observação do "negativo" - isto é, da aparente não-ocorrência de padrões reconhecíveis - resulta em grandes descobertas. Jogos como dominó, xadrez ou quebra-cabeças são excelentes para o treino dessa habilidade desde a infância.

  • Formando Padrões

    A habilidade de formar padrões consiste na combinação de dois ou mais elementos estruturais e/ou operações funcionais. Artesanatos como tapetes e tricô nos dão exemplos contínuos disso. O pintor Gene Davis conta como trabalha: começa seus quadros traçando linhas coloridas em forma de grades na tela e vai preenchendo os buracos, até descobrir um padrão novo.

    Estudos de pintores primitivos e de ritmos africanos têm mostrado que, na realidade, os artistas usam sempre variações sobre um número muito reduzido de elementos pictóricos ou ternas musicais. Estes são recorrentes também na música erudita. Usando processos como repetição, inversão, justaposição, sobreposição e elementos de análise combinatória, artistas de todo tipo têm criado obras originais. Virginia Woolf dizia que o propósito da literatura é "descobr de;o de dois ou mais elementos estruturais e/ou operações funcionais. Artesanatos como tapetes e tricô nos dão exemplos contínuos disso. O pintor Gene Davis conta como trabalha: começa seus quadros traçando linhas coloridas em forma de grades na tela e vai preenchendo os buracos, até descobrir um padrão novo.

    Estudos de pintores primitivos e de ritmos africanos têm mostrado que, na realidade, os artistas usam sempre variações sobre um número muito reduzido de elementos pictóricos ou ternas musicais. Estes são recorrentes também na música erudita. Usando processos como repetição, inversão, justaposição, sobreposição e elementos de análise combinatória, artistas de todo tipo têm criado obras originais. Virginia Woolf dizia que o propósito da literatura é "descobrir o padrão escondido". O romancista Vladimir Nabokov também definiu escrever como "a arte de formar repentinos padrões harmônicos com fios muito diferentes uns dos outros".

    Um princípio universal: a complexidade resulta da combinação de elementos simples. Todas as cores que vemos são misturas das cores básicas do espectro. A maior parte da música resulta da combinação de 12 notas. Combinações de somente quatro ácidos nucléicos básicos codificam todas as informações genéticas dos seres vivos no planeta. O Código Morse foi feito usando-se somente dois símbolos, o ponto e o traço.

    Exercícios úteis: escolha um determinado número de palavras e procure combiná-Ias de maneiras diferentes; combine ritmos diversos; faça quebra-cabeças; habitue as crianças a brincar com brinquedos educativos.

  • Estabeleça analogias

    Durante as duas primeiras décadas do século 20, os físicos começaram a se referir aos átomos como se eles fossem órgãos, ou grandes pianos, ou uma série de sinos. O alemão Max Planck e o franncês Louis de Broglie, que haviam tido formação musical, serviram-se da analogia com "cordas musicais vibrantes" para descrever as órbitas dos elétrons no átomo. Foi a origem da famosa teoria do quantum, que seria chamada por Einstein de "a mais alta forma de musicalidade na esfera do pensamento".

    O progresso realizado pela física quântica desde a década de 20 toi enorme e superou há muito o modelo orbital do átomo. A analogia entre os átomos e pequenos instrumentos musicais não é mais viável atualmente. E, no entanto, o trabalho de Planck e De Broglie permanece incorporado à física moderna. Como explicar que uma analogia "errônea" forneceu insights válidos e verificáveis?

    Esse mistério constitui a base de todas as analogias. O filósofo francês Denis Diderot comparava a sensibilidade humana a "cordas vibráteis" - uma idéia fazia surgir uma segunda e as duas juntas uma terceira etc. A mente/instrumento era capaz de dar saltos tremendos. Assim, uma ideia podia às vezes fazer nascer uma autêntica harmonia, a uma distância considerável.

    Foi o que Helen Keller, ceega, surda e muda, conseguiu fazer, suprindo suas deficiências com o conhecimento adquirido por meio de analogias. A capacidade de estabelecê-las é um dos mais importantes instrumentos do pensamento. A ciência está repleta de analogias: a do coração como uma bomba, a do som como ondas do mar, a dos cromossomos como contas enfiadas num fio, a do cérebro humano como um computador. O humanista Jacob Bronowski diz: "As descobertas científiicas e as obras de arte são explorações - mais do que isso, são explosões de alguma semelhança escondida".

  • Pense com o corpo

    Observando os macacos no zoológico, vendo como se movimentam, os truques de que se servem para alcançar alimentos, temos a consciência do quanto nós, humanos, intelectualizamos tudo o que fazemos. Esquecemos que nosso corpo "sabe" como fazer coisas que s6 conseguimos entender depois que as fizemos.

    Pensar com o corpo depende do controle de nossos músculos, de nossa postura, balanço e tato. Quando andamos, corremos ou saltamos, sabemos como o nosso corpo se sente e onde nos situamos no espaço. Mas essa sensação já se tornou tão automática que somente nos conscientizamos dela quando estamos aprendendo uma atividade ou esporte. À medida que treinamos os movimentos referentes a andar de bicídeta ou tocar piano, por exemplo, eles se tornam gradativamente automáticos.

    Quando Helen Keller não conseguia entender o que era "saltar", fizeram-na colocar as mãos na cintura de um bailarino que, apoiado na barra, saltava. A sua reação toi esta: "Como isso é parecido com o pensamento! Com a mente!" É o que dizia o poeta Jean Cocteau a respeito do grande bailarino Nijinsky: "O seu corpo sabia; as suas pernas tinham inteligência". Como diz o escultor Isamu Noguchi: "Aquele que quiser realmente ver uma escultura deve mover-se fisicamente para tomar consciência da sua forma".

    Donde a conclusão: pensar é sentir, e sentir é pensar.

  • A empatia

    Escritores e atores costumam dizer que têm de "se colocar na pele dos seus personagens". O pianista Claudio Arrau dizia que o músico deve ser como um ator, capaz de interpretar vários estilos e criar um milagre de comunicação com a platéia. A essa identificação dá-se o nome de empatia. Os médicos também costumam "se colocar no lugar do paciente" para entender melhor os seus males, principalmente na psiquiatria. O teatro terapêutico integra o trabalho do dramaturgo, dos atores e do médico. Nos Estados Unidos, a Clínica Mayo e o Hospital Mount Sinai, de Nova York, criaram nas duas últimas décadas uma programação teatral paralela à docência. A idéia é que os estudantes possam compreender melhor seus pacientes para poder curá-los. A leitura de obras de ficção também tem sido encorajada, com o mesmo propósito.

  • O Pensamento bidimensional

    Os que sonham em tazer acrobacias em futuras viagens espaciais pensam que, superando a lei da gravidade, serão capazes de se mover livremente em três dimensões. A coisa não é bem assim. O princípio de Newton, segundo o qual a cada ação corresponde uma reação, ainda é válido no espaço. Uma nova descoberta, a inércia espacial, prova que se você mover a mão numa direção, seu corpo todo se torcerá na outra direçã

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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