Comunicação Consciente


Estudiosos destacam a importância da empatia no diálogo e ensinam a falar sem violência Verbal para estabelecer vínculos mais profundos com as outras pessoas.

Revista Psique Ciência & Vida - por Leandro Quintanilha

O ser humano começa a balbuciar as primeiras palavras antes de completar um ano de vida e, se um dia chegar à universidade, seu vocabulário pode abarcar até 80 mil palavras. O ensino da língua, em suas variadas versões, é ministrado na escola e na vida, mas é possível que uma pessoa passe uma existência inteira sem aprender a expressar os próprios sentimentos ou a compreender os dos outros. O analfabetismo emocional prejudica, inclusive, o contato essencial do homem consigo mesmo. Psicólogos e estudiosos da comunicação propõem, hoje, alguns sistemas para aprimorar a manifestação do pensamento. Afinal, você tem mesmo certeza de que sabe falar?

O trabalho mais conhecido na área é o do psicólogo clínico estadunidense Marshall B. Rosenberg, que desenvolveu, há mais de 40 anos, um sistema a que chamou de comunicação não-violenta (CNV). Numa era hostil, cheia de preconceitos, rótulos, julgamentos e mal-entendidos, a comunicação é reformulada para funcionar como o meio mais econômico e de fácil aplicação para uma convivência pacífica e enriquecedora. "Quando concentramos nossa atenção nos sentimentos e necessidades das outras pessoas, percebemos nossa humanidade em comum", afirma o psicólogo em seu livro Comunicação não-violenta.

Em 1984, Rosenberg fundou na Califórnia o Centro de Comunicação Não-Violenta, uma organização internacional sem fins lucrativos que hoje conta com dezenas de multiplicadores em mais de 30 países - inclusive o Brasil. A CNV é o sistema de comunicação empática com mais adeptos no mundo, mas não é o único. Muitos outros pesquisadores têm se dedicado ao tema. A consciência do que se quer dizer, o respeito ao outro e a escolha adequada das palavras são pontos comuns entre os diferentes modelos.

"Há uma diferença importante entre as pessoas se unirem para atacar um problema e se unirem para atacarem umas às outras", destaca a psicóloga Maria Tereza Maldonado, autora de A arte da conversa e do convívio e de comunicação entre pais e filhos. Para ela, uma conexão real só se estabelece quando os interlocutores conseguem os dois pilares da comunicação: a escuta sensível e a capacidade de se expressar claramente.

"É preciso trocar a conveniência pela convivência", afirma a consultora Renata Di Nizo, da Casa da Comunicação, autora de O meu, o seu, o nosso querer. "Quantos e-mails você vê por dia?", provoca. "Hoje, as pessoas filtram umas às outras, de acordo com o próprio estado de ânimo - é preciso mais tempo para estar consigo e com o outro." Uma convivência saudável implica sempre, ela diz, um diálogo de quereres. "Hoje, numa empresa, as pessoas trabalham separadas por baias, sem tempo e disposição para se conhecer."

Por isso, muitos dos programas de metas dessas empresas parecem otimismo desvairado. "O resultado da comunicação não é unicamente o que você pretende, mas também aquilo que você obtém", desenvolve o consultor brasileiro Karim Khoury, em Vire a página - estratégias para resolver conflitos. Boa intenção não basta: comunicação requer empenho, envolvimento, aprendizado. "Comunicar-se bem é uma arte e, como toda arte, requer treino e dedicação."

No livro, o consultor propõe o sistema Dearc, uma sigla para as palavras-chave do processo: "descrição" (da situação a ser discutida - Não temos nos visto na última semana), "expressão" (dos sentimentos envolvidos - Estou com saudade), "acordo" (a proposta a ser feita - Podemos jantar amanhã?), "resultado" (o que se espera obter - Vou ficar feliz por vê-la) e "congruência" (o tom de voz e a linguagem corporal que acompanham o conteúdo da mensagem). É a sofisticação da velha sabedoria do senso comum de que se deve sempre pensar antes de falar.

  • Com o outro

O ingrediente-chave da empatia é a presença: ouvir com atenção e acolher os sentimentos e necessidades do interlocutor. Conheça abaixo alguns dos mais recorrentes obstáculos à empatia nas conversas do cotidiano, relacionados pela psicóloga Holley Humpphrey. Muitas vezes, são reações automáticas que impedem uma real conexão.

- Aconselhar: acho que você deveria..
- Competir pelo sofrimento: isso não foi nada - espere até ouvir o que aconteceu comigo...
- Educar: isso pode acabar sendo uma experiência muito positiva, se você apenas...
- Consolar: não foi sua culpa, você fez o melhor que pôde.
- Contar uma história:  isso me lembra uma ocasião...
- Encerrar o assunto: anime-se, não se sinte mal.
- Manifestar pena: Ah, coitadinho...
- Interrogar: quando foi que isso começou?
- Corrigir: não foi bem assim que aconteceu...

  • Consigo mesmo

Talvez o emprego mais importante da comunicação não violenta (CNV) seja no desenvolvimento da autocompaixão. Quando internamente somos violentos conosco, é difícil ter uma compaixão verdadeira pelos outros. Isso vale, em especial para as avaliações que o indivíduo faz sobre si mesmo. Em geral, as pessoas foram ensinadas a julgar a si mesmas de modo que enxerguem o que fazem como certo ou errado. "É trágico que tantos de nós fiquemos enredados no ódio por nós mesmos, em vez de nos beneficiar dos erros, que mostram nossas limitações e nos guiam em direção ao crescimento" afirma o psicólogo Marshall Rosenberg.

Julgamentos de si mensmo, assim como todos os julgamentos, são expressões mal resolvidas de necessidades insatisfeitas. Produtivo mesmo é conhecer essas necessidades, para então, buscar sua satisfação. "Quando  a consciência se concentra naquilo que de fato precisamos, somos naturalmente impelidos a agir em direção a possibilidades mais criativas para que aquela necessidade seja atendida", desenvolve o psicólogo. Julgamentos, no entanto, tendem a obscurecer as possibilidades disponíveis e a perpetuar um estado de autopunição.

Ao se conectar com a necessidade que estava tentando atender quando tomou determinada atitude da qual agora se arrepende, você pode, em fim, perdoar-se e prosseguir. Isso o ajuda a desenvolver a capacidade de estar consciente de que necessidade deseja atender a cada escolha que faz, o que o liberta de sentimentos destrutivos como culpa, vergonha, medo e obrigação.

  • Sem ataques

Por sorte, o aprendizado pode ser, em si, gratificante. O modelo da comunicação não-violenta, de Marshall Rosenberg, tem semelhanças com o Dearc - compõe-se de quatro elementos principais: observação, sentimento, necessidade e pedido. Para abordar um tema delicado, primeiro observa-se o que de fato acontece naquela situação: o que está sendo dito e feito? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação, apenas dizer o que lhe agrada ou não.

Em seguida, pode-se perceber como se sente ali (magoado, assustado, alegre, motivado, irritado?). Em seguida, é hora de reconhecer quais necessidades estão ligadas aos sentimentos identificados. O quarto componente da CNV seria fazer um pedido ao interlocutor, focado no que se espera dele para a melhora da relação.

Acompanhe um exemplo do autor, o sobre como uma mãe poderia abordar um conflito com o filho: Roberto, quando eu vejo duas bolas de meias sujas embaixo da mesinha e mais três perto da TV, fico irritada, porque preciso de mais ordem no espaço que usamos em comum. Na sequência, ela continuaria com um pedido bem específico. Você poderia colocar suas meias no quarto ou na lavadora?

Perceba que não houve ataque em nenhum momento. Ela não o chama de "preguiçoso" ou "folgado", porque, para a CNV, julgamentos são contraproducentes. Provocam mágoa, resistência e não convidam à mudança. Os adeptos do sistema de Rosenberg gostam de citar esse versinho do poeta sufi Rumi: "Para além dos conceitos de certo e errado, há um campo - encontro você lá".

Ao rotularmos as pessoas, tendemos a contribuir para a reprodução do próprio comportamento que nos incomoda. E o erro maior é perceber o resultado desastroso desse processo como a simples confirmação do "diagnóstico". "Se você é tachado como um aluno "desajustado", isso não lhe daria a "permissão" de se divertir um pouco na escola, resistindo a fazer o que quer que lhe pedissem?" De volta ao senso comum, é o mesmo princípio que manda deitar na cama quem já tem a fama.

"Estou convicto de que as análises de outros seres humanos são expressões trágicas de nossos próprios valores e necessidades", prossegue o autor. São trágicas porque, quando nos expressamos assim, transformamos uma queixa legítima em veneno para a relação.

Para a CNV a comunicação alienada é fruto de sociedades baseadas em sistemas de hierarquia e dominação. "Quando estamos em contato com nossos sentimentos e necessidades, deixamos de ser bons escravos ou lacaios." Para Rosenberg, era do interesse de reis, czares, nobres etc. que as massas fossem educadas para atribuir a instâncias exteriores - as autoridades - a definição de certo ou errado, bom ou mau.

Um exemplo emblemático foi a bipolaridade da Guerra Fria, quando o mundo testemunhou a tensão decorrente dessa maneira de pensar. "Nossos líderes viam os russos como um "império do mal", dedicado a destruir o American way of life", lembra o psicólogo. Os líderes russos, por sua vez, referiam-se aos estadunidenses como "opressores imperialistas", que tentavam subjugá-los. Nenhum dos lados reconhecia o medo e as necessidades que se escondiam atrás daqueles rótulos.

Em geral, o repertório de palavras que uma pessoa detém para rotular os outros costuma ser maior que seu vocabulário para descrever claramente os próprios estados emocionais. "Desenvolver um vocabulário de sentimentos que nos permita nomear ou identificar de forma clara e específica nossas emoções nos conecta mais facilmente uns com os outros", avança Rosenberg.

Quem se dispõe à vulnerabilidade de expor seus sentimentos ajuda a resolver conflitos. A CNV distingue a expressão de sentimentos verdadeiros de palavras e afirmações que descrevem pensamentos, avaliações ou interpretações. "Por exemplo, não considero que ter vontade de bater em alguém seja um sentimento", ilustra o psicólogo. Para ele, isso expressa o que uma pessoa se imagina fazendo motivada por determinada emoção - não como está se sentindo. Uma expressão de sentimento para o caso poderia ser: estou furioso com você. "Somos ensinados a nos manter direcionados aos outros, em vez de em contato conosco. Sempre a imaginar: "O que será que os outros acham que é certo eu fazer ou dizer?", complementa.

O emprego de julgamentos subentende uma natureza errada ou maligna nas pessoas que não agem em consonância com nossos valores. Esses julgamentos aparecem em frases como: O seu problema é ser egoísta demais, Ela é preguiçosa, Isso é burrice etc. Culpar, insultar, depreciar, rotular, criticar, comparar e fazer diagnósticos são formas corriqueiras de comunicação alienada.

Quando alguém expressa suas necessidades indiretamente, por meio de avaliações ou interpretações, é provável que caia na armadilha de criticar. "E, se uma pessoa ouve qualquer coisa que soe como crítica, tende a investir energia na autodefesa ou no contra-ataque." Assim, tão ocupada, ela não estará apta ou disposta a atender às necessidades de ninguém.

Nossos sentimentos resultam de como escolhemos receber os acontecimentos e o que os outros dizem ou fazem, bem como de nossas necessidades e expectativas específicas naquele momento. Como afirmava o filósofo grego Epiteto, na Antig eacute; ser egoísta demais, Ela é preguiçosa, Isso é burrice etc. Culpar, insultar, depreciar, rotular, criticar, comparar e fazer diagnósticos são formas corriqueiras de comunicação alienada.

Quando alguém expressa suas necessidades indiretamente, por meio de avaliações ou interpretações, é provável que caia na armadilha de criticar. "E, se uma pessoa ouve qualquer coisa que soe como crítica, tende a investir energia na autodefesa ou no contra-ataque." Assim, tão ocupada, ela não estará apta ou disposta a atender às necessidades de ninguém.

Nossos sentimentos resultam de como escolhemos receber os acontecimentos e o que os outros dizem ou fazem, bem como de nossas necessidades e expectativas específicas naquele momento. Como afirmava o filósofo grego Epiteto, na Antiguidade, as pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelo modo como as veem.

Exemplo: quando alguém diz que uma pessoa a desapontou por não comparecer a um encontro, está terceirizando a responsabilidade pelo que sente. Agora, veja como isso poderia ser traduzido para a CNV: Fiquei desapontado quando você não apareceu, porque eu queria conversar a respeito de algumas coisas que estavam me incomodando. Faz toda a diferença.

É possível ainda ir além e identificar qual desejo, necessidade, esperança ou expectativa não foram atendidos - para fazer um pedido, como: Será que podemos nos encontrar amanhã? Quanto mais formos capazes de relacionar nossos sentimentos às nossas necessidades, mais fácil será para os outros reagir compassivamente.

Para Marshall Rosenberg, tão importante quanto assumir responsabilidade pelos próprios sentimentos, intenções e atos é perceber também o que cabe ao outro. Ele chama de escravidão emocional o empenho de algumas pessoas em manter todos felizes a seu redor. "Isso pode facilmente nos levar a ver as pessoas próximas como fardos."

  • Discurso reponsável

Uma linguagem inadequada pode obscurecer a consciência da responsabilidade que uma pessoa assume consigo e com os outros. A comunicação não-violenta considera que cada indivíduo é o único responsável pelo que faz e pelo próprio estado emocional. O que as outras pessoas dizem ou fazem são apenas estímulos - e não a causa do que você sente. Uma pessoa nega sua responsabilidade pelos próprios atos e sentimentos quando os atribui a:

- Forças vagas e impessoais: limpei o quarto porque tive de fazê-lo.
- Condição, histórico pessoal, diagnóstico médico ou psicológico: bebo porque sou alcoólotra.
- Ações dos outros: bati no meu filho porque ele correu para a rua. Você me faz sentir culpado.
- Ordens de autoridade: menti para o cliente porque o chefe mandou.
- Pressão do grupo: comecei a fumar porque todos os meus amigos fumavam.
- Regras institucionais: vou suspender você porque é a política da escola para esse tipo de infração.
- Papéis determinados: detesto esse trabalho , mas sou pai de família.
- Impulsos incontroláveis: fui tomado por uma vontade doida de comer chocolate.

  • Conexões humanas

Com o amadurecimento da comunicação, o indivíduo encontra o que se pode chamar de libertação emocional responsável. Respeita as próprias necessidades e responde às dos outros por compaixão - nunca por medo, culpa ou vergonha. Procura-se o meio-termo aceitável para a satisfação possível das necessidades de todos. "É por isso que a CNV não pode ser classificada simplesmente como uma técnica de persuasão", ressalta o inglês Dominic Barter, que coordena as atividades de CNV no Brasil. "O objetivo maior não é obter o que se quer, mas recuperar, estabelecer e aprimorar as conexões humanas."

A CNV é um método para convivência pacífica e empática. Por isso, o sistema vem sendo apresentado em escolas, empresas, centros de recuperação juvenil, penitenciárias, e mesmo em regiões de conflito latente, como Sérvia, Croácia, Sri Lanka e Israel, entre outras. Imagine então o quanto essa consciência pode ser útil no dia-a-dia de pessoas comuns. Às vezes, só o que falta é clareza. Em seu livro Comunicação não-violenta, Rosenberg relata o caso de uma mulher que pediu ao marido que não trabalhasse tanto. Três semanas depois, ele chegou com a "boa notícia" - havia se inscrito em um torneio de golfe. O que a mulher queria, na verdade, era que ele passasse mais tempo em casa, com a família. A falha na comunicação ocorreu porque ela focou o pedido no que não queria que ele fizesse - em vez do que gostaria que fosse feito. Os pedidos, recomenda o psicólogo, devem ser diretos, positivos, focados em ações concretas. Do contrário, quando são vagos ou negativos, podem confundir o interlocutor.

O autor também narra o comovente episódio vivido pela mãe dele, na adolescência dela. Uma de suas irmãs foi operada de apêndice e ganhou dos pais, como "compensação", uma linda bolsinha de contas. Ela queria uma igual, mas não ousou pedir. Alguns meses depois, simulou sofrer de uma forte dor na barriga. Como o médico não conseguiu diagnosticar o problema, a menina foi submetida a uma cirurgia exploratória.

No hospital, enquanto convalescia do procedimento cirúrgico, a adolescente ganhou dos pais, enfim, o sonhado presente. Mas, dias depois, com um termômetro na boca, resolveu mostrar a bolsa a uma das enfermeiras, que entendeu tudo errado. "Para mim? Não precisava, obrigada." A enfermeira foi embora com a bolsa, deixando a adolescente perplexa, sem imaginar como dizer que havia ocorrido um mal-entendido. Ela só queria que elogiassem sua bolsa nova.

  • Pensamento produtivo

Em momentos de tensão, reações automáticas podem induzi-lo a padrões (auto) destrutivos. Quando aprende a evitar o raciocínio distorcido, você exerce domíno sobre os seus pensamentos automáticos e consegue controlar suas emoções. Abaixo, algumas reações comuns em situações perturbadoras. Você pode evitar todas elas.

-Generalizar: afirmações como: Sou sempre tão lento para assimilar as coisas ou Ele nunca me escuta são baseadas em circunstâncias específicas. Ao generalizar, você se dá a impressão equivocada de que essas afirmações sempre se aplicam a todos os casos. Troque o " sempre" e o

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