Comunicação: na ponta da língua


Falar e escrever mal prejudica a carreira. Veja como melhorar sua comunicação e transmitir as ideias com clareza.

Revista Você S/A - por Caroline Marino

O escritor angolano José Eduar­do Agualusa é tido como o predileto da presidente bra­sileira, Dilma Rousseff. Em seu livro Milagrário Pessoal (2010), ele faz uma crítica às palavras fracas, muitas das quais lotam o vocabulário corpora­tivo. A protagonista da história é um ajovem linguista cujo trabalho é usar um software para descobrir novas palavras - os neologismos - em jornais e revistas e, quando for o caso, registrá-Ias em dicionário. Mas isso pouco acontece. As gírias que repetimos no trabalho, mostra o escritor, pouco contribuem para a comunicação e não merecem a in­clusão oficial em nosso vocabulário. Veja o que ele diz neste trecho do livro: "Entre as palavras recém­-nascidas, a taxa de mortalidade é elevada. Muitas padecem de graves defeitos congênitos. São frágeis, mal respiram, não resistem ao duro pro­cesso da seleção natural".

O trabalho é a fonte primária dessas palavras fracas e desprovi­das de sentido e precisão, que dificultam a comunicação e atrapa­lham o desempenho do profissional que as profere. Do chão de fábrica às mesas de conselho, ninguém escapa dos jargões, estrangeirismos, lugares-comuns e gírias. Quem nunca ouviu ou recebeu e-mails com termos como "agregar valor ao negócio", "sinergia" ou "approach"? "A comunicação ruim é uma praga nas empresas", afirma Edison Rosa, consultor de comu­nicação, de São Paulo. De acordo com ele, muitos profissionais acham que usar jargão o tempo todo trans­mite a ideia de domínio da área e impressiona os colegas. "O proble­ma é que, muitas vezes, a mensa­gem é simplesmente ininteligível ou pedante", diz o consultor.

Uma pesquisa feita no Linkedln, rede social com mais de 135 milhões de usuários - 6 milhões só no Bra­sil -, mostra que palavras como "inovador" e "criativo" aparecem em mais de 3 000 perfis (veja os prin­cipais jargões usados no Brasil e nos Estados Unidos no quadro Fique Longe Deles). Para Danielle Restivo, gerente de comunicação corporativa do LinkedIn para Cana­dá e Brasil, as pessoas usam essas palavras para descrever sua experi­ência profissional como forma de se enquadrar em um grupo. "São ex­pressões que se tornaram populares e parecem mais importantes do que são", diz Danielle.

Faltam vocabulário e capacidade de argumentar e de dar clareza aos discursos. "Os profissionais se es­condem atrás dessas palavras por­ que têm um vocabulário pobre", diz Osório Antônio Candido da Silva, professor da BSP e da Fundação Instituto de Administração (FIA), em São Paulo, e especialista em téc­nicas de comunicação e expressão verbal. De acordo com ele, as pessoas têm dificuldade de se expressar e pouca familiaridade com a língua portuguesa. "Muitas são fluentes em inglês mas não conseguem explicar " algo simples em seu próprio idioma."

Cuidado com a gramática

Os ruídos de comunicação prejudi­cam a carreira. Uma pesquisa feita pelo Project Management Institute Brasil (PMI) em 2010 com 300 com­panhias nacionais e multinacionais mostrou que em 76% delas os pro­jetos não dão certo porque os pro­fissionais não sabem escrever nem falar bem. "Hoje em dia, uma enor­me parcela de pessoas chega ao mercado de trabalho sem competên­cia para redigir um texto formal de qualidade", diz a professora Maria Clara Jorgewich Cohen, autora do livro Comunicação Escrita ­ A Busca do Texto Objetivo (Edito­ra E-Papers). O mais grave, ela res­salta, é que a maioria dos profissionais não admite que precisa melhorar. "Muitos ficam constrangidos de fre­quentar cursos porque ocupam altos cargos", diz Maria Clara.

A percepção de que a deficiência do idioma é crescente parte do próprio mercado. Hoje, escolas de idio­mas oferecem aulas de português para brasileiros. Várias têm amplia­do o número de treinamentos. A Fundação Fisk, por exemplo, ofere­ce o curso Português sem Tropeços desde o segundo semestre de 2008 e atualmente atende mais de 5 000 alunos em todo o país. Dos matri­culados, 70% vêm de empresas, principalmente das áreas financei­ra e comercial, e a maioria é com­posta por gestores. "Percebemos que existia no mercado um desnível entre a competência técnica e a ha­bilidade de comunicação", diz o professor Elvio Peralta, diretor su­perintendente da Fisk de São Pau­lo. De acordo com Elvio, embora a cobrança pelo segundo idioma seja alta no mercado, o profissional não pode descuidar da própria língua. "Quem não tem o domínio do por­tuguês com certeza será rnalvisto", afirma. "Há deficiências graves em concordância verbal e nominal e referentes à nova ortografia."

A Companhia de Idiomas é outra escola que oferece cursos de portu­guês para brasileiros. "Quando é a empresa que nos procura, fazemos um levantamento das necessidade já percebidas pelo RH e aplicamos um teste para detectar exatamente quais áreas precisam ser trabalhadas", diz Ligia Crispino, sócia-diretora da escola. Assim, os curso podem abordar a produção oral, escrita, regras de gramática e nova ortografia - depende do que é necessário para melhorar a comunicaçã e;o com o público. O antigo curso de reciclagem é chamado oficina de comunicação. Isso porque afirma Ligia, quando a solicitação vem da direção ou do RH, muito alunos não querem dispor do tempo que têm para estudar português. "O objetivo é sensibilizá-los da importância que a comunicação tem para os negócios", diz Ligia.

O uso correto do idioma pode ser a diferença entre um desempenho eficaz e o fiasco nas relações com colegas e clientes. Deixe de Iado o preconceito e abuse do vasto vocabulário da língua portuguesa. De nada adianta falar mais de um idioma e ser especialista num assunto se você não conseguir transmitir ideias em seu próprio idioma. Solte o verbo, mas de maneira correta.

• Fique longe deles

Confira os 10 lugares comuns corporativos mais usados no Brasil e nos Estados Unidos no ano passado. Não faça uso desnecessário destas palavras.

Brasil

1. MULTINACIONAL
2. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO
3. CRIATIVO
4. EFETIVO
5. MULTIDISCIPLINAR
6. ESPECIALIZADO
7. NOVOS DESAFIOS
8. EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL
9. AMPLO CONHECIMENTO
10. NOVAS TECNOLOGIAS

Estados Unidos

1. CRIATIVO
2. ORGANIZACIONAL
3. EFICAZ
4. VASTA EXPERIÊNCIA
5. EXPERIENTE
6. MOTIVADO
7. INOVAR
8. RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
9. COMUNICATIVO
10. DINÂMICO

• Seja mais claro

Como aprimorar a comunicação oral e escrita

- Evite o uso sem necessidade de palavras já desgastadas, como "paradigma", "sinergia" e "valor".
- Evite os verbos ingleses aportuguesados, como printar, estartar, likar, atachar.
- Elimine gerundismos como "vou estar apresentando, vamos estar demonstrando".
- Não complique. Desenvolva um vocabulário simples e objetivo para apresentar as ideias.
- Pronuncie bem as palavras. Não corte os "s" e o "r" finais nem o "i" intermediário,
- Fuja dos cacoetes no meio do raciocínio, como "tá ok?", "né", "bem", "então", "certo?", "é o seguinte".

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