Conclusões e escolhas aos saltos


Formar juízos, estabelecendo relações de causa e efeito, é um processo complexo: depende de aprendizado mas, em alguns casos, o excesso de informações pode atrapalhar.

Revista Scientific American - por Deanna Kuhn

Uma criança de 4 anos assiste a um boneco em forma de macaco aproximar-se de um vaso com duas flores artificiais - uma vermelha e outra azul. O macaco espirra, recua, retorna e espirra mais uma vez. Um adulto então retira a flor vermelha e a substitui por uma amarela. O macaco cheira a flor amarela e a azul e a cada vez espirra. O adulto por fim troca a azul pela vermelha. O macaco retorna para cheirar as duas flores e, desta vez, não espirra.

A criança é então solicitada a dizer qual flor faz o macaco espirrar. Quando as psicólogas Laura E. Schulz e Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia em Berkeley, realizaram esse experimento, 79% das crianças escolheram, corretamente, a flor azul. A pesquisa deixa claro que ainda na fase pré-escolar começamos a entender as relações de causa e efeito. Esse entendimento é crucial para a capacidade de dar sentido ao mundo e agir nele.

Com tal habilidade de discernimento operando aos 4 anos seria de esperar que, quando adultas, as pessoas tivessem habilidades bem desenvolvidas para raciocinar de forma causal. Pesquisas sugerem que isso de fato se dá e também destacam os juízos repletos de nuances que os adultos podem fazer - como elaborar avaliações consistentes das probabilidades numéricas de que dois eventos estejam causalmente relacionados examinando diferentes circunstâncias.

Evidências, porém, sugerem algo bem diferente: o raciocínio e a capacidade dos adultos em geral de fazer escolhas parecem altamente sujeitos a falhas. As pessoas costumam associar dois eventos, atribuindo a um deles o papel de causa e ao outro, de efeito - baseando-se para isso em pouca ou nenhuma evidência. E agem com base nesses juízos: as conclusões são estabelecidas por meio de um salto. Estudos sobre a maneira como esses processos mentais ocorrem têm papel social: podem ajudar psicólogos e educadores na tarefa de incutir nas crianças formas de pensar mais cuidadosas e menos preconceituosas.

Uma possível explicação para a discrepância entre nossas descobertas e grande parte da literatura relevante sobre o tema é que os pesquisadores que estudam o raciocínio causal tendem a fundamentar suas conclusões em estudos que abarcam um segmento restrito da população adulta em um contexto específico: universitários em situações experimentais, realizando tarefas complexas com o uso de lápis e papel. Em um estudo de 2000, por exemplo, os psicólogos Patricia Cheng, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, e Yunnwen Lien, da Universidade Nacional de Taiwan, apresentaram a estudantes uma série de informações sobre a freqüência do crescimento de plantas de diferentes formas e cores que haviam sido adubadas. Após examinar cada caso, os voluntários estimaram, em uma escala numérica, a probabilidade ou grau de influência causal de cada um dos fatores ou fizeram prognósticos dos resultados futuros. O desempenho deles foi bastante satisfatório. Embora tais pesquisas revelem a capacidade que os participantes mostram em tais tarefas, podemos afirmar que representam o desempenho cognitivo da pessoa média que pensa sobre temas cotidianos?

Para abordar a questão, no ano passado, eu e minha aluna Joanna Saab perguntamos a 40 pessoas escolhidas aleatoriamente na cidade de Nova York se gastariam dez minutos respondendo a uma pesquisa em troca de US$ 5. Quase todas aceitaram. Explicamos que um grupo tentava levantar fundos por meio de diferentes combinações de entretenimento e queria identificar qual dos procedimentos seria mais eficiente para a venda de ingressos para determinadas atividades. Cada pessoa podia ver um diagrama com alguns dos resultados. Na primeira combinação, que apresentava sorteio de prêmios, comédia e apresentação de roupas típicas, as vendas foram "médias". Na segunda, constava sorteio de prêmios, leilão, show com roupas típicas e as vendas eram "altas". A terceira apresentava sorteio de prêmios, leilão, comédia e apresentação de roupas típicas e as vendas foram "altas".

O diagrama podia ser visto enquanto falávamos com cada entrevistado. Perguntamos: "Com base nos resultados, você considera que o leilão ajuda na venda de ingressos?". Indagamos também sobre o grau de certeza das respostas que davam. Os entrevistados podiam escolher entre "bastante seguro", "seguro", "penso que sim, mas não estou seguro" e "mera conjectura". Apresentamos a mesma questão para cada um dos eventos restantes: comédia, sorteio de prêmios e roupas típicas.

  • Com certezaA primeira e a terceira possibilidades sugerem que o leilão incrementa as vendas. Comparando a segunda e a terceira, percebe-se que acrescentar uma comédia não tem efeito nas vendas. Mas a informação disponível é insuficiente para avaliar o status causal do sorteio de prêmios e das roupas típicas (pois estão sempre presentes).

    A habilidade desse grupo de adultos em identificar causa e efeito é igual àquela atribuída pelos pesquisadores aos estudantes universitários? Ou, ainda: o grupo apresenta o mesmo grau de habilidade que a criança de quatro anos descrita anteriormente? A resposta é simples: não. Em geral pessoas escolhidas aleatoriamente apontaram mais relações causais do que a evidência justificaria. Cerca de 83% consideraram que dois ou mais dos eventos apontados causavam o aumento das vendas e 45% avaliaram que três ou as quatro atividades exerciam esse efeito. A evidência disponível apoiavasse apenas na relação entre um evento significativo (o leilão) e o resultado. O mais surpreendente é que a maioria dos entrevistados afirmou estar segura de de que estava correta. Para dois eventos a certeza média relatada era maior que "seguro" (e tendia para "bastante seguro") e para os dois outros a média estava l ligeiramente abaixo de "seguro". O gênero não mostrou ser um fator: homens e mulheres não diferiam significativamente no juízo ou nível de certeza.

    O que tornou os entrevistados tão decididos a respeito de suas opiniões? Enfatizamos que eles deveriam basear suas conclusões nos resultados relativos ao grupo específico de combinações (e não em crenças prévias sobre a eficácia dos eventos); ao final do questionário, todos afirmaram que levaram em conta os resultados mostrados. Entretanto, as respostas revelaram que os juízos foram de fato influenciados pelas idéias de cada um a respeito da eficácia dos eventos. Eles avaliaram que o sorteio de prêmios afetava o resultado (83%) muito mais que a apresentação de roupas típicas (33%), embora fossem idênticos os dados apresentados sobre os dois eventos.

  • Mais inteligentePara elucidar o problema, apresentamos aos entrevistados uma tarefa adicional, na qual não havia respostas corretas. Não era possível fazer previsões justificadas, em razão de informações imprecisas a respeito do sorteio de prêmios e da apresentação das roupas típicas. Apesar disso, a certeza dos entrevistados em relação às previsões que fizeram permaneceu tão alta quanto a certeza referente aos juízos causais.

    As previsões tendiam a ser inconsistentes com os juízos de causa e efeito quando pedíamos aos voluntários que indicassem explicitamente se um fator "ajudava a vender ingressos". Somente 15% emitiram pareceres consistentes entre si nas duas tarefas. De modo similar, as pessoas foram inconsistentes na atribuição de causas implícitas a eventos que influenciaram cada uma de suas previsões. Por exemplo: dos 63% dos participantes que avaliaram corretamente que a inclusão de uma comédia não exercia efeito no incremento das vendas de ingresso, a maioria apontou que a presença ou ausência desse evento havia influenciado as previsões que fizeram. Particularmente difícil foi o reconhecimento de que, se a presença de uma atividade afetava positivamente o resultado, seria de esperar que sua influência seria negativa caso fosse removido. A maioria não considerava essa relação.

    Como reconciliar os juízos de causa e efeito (também chamados causais) inconsistentes e descuidados desses vooluntários - embora considerassem suas conclusões corretas - com a capacidade de raciocínio observada em universitários e até em crianças de quatro anos? A resposta envolve vários aspectos. Nossos entrevistados levaram a tarefa a sério e, para justificar o recebimento dos US$ 5, estavam dispostos a responder às questões dando o melhor de si. Mas é improvável que considerassem a tarefa como um teste de raciocínio destinado a avaliar seus processos mentais - pelo menos não o faziam tão prontamente quanto os universitários, acostumados a tais avaliações. A maioria dos estudantes reconhece logo que, nesses casos, o objetivo não é obter uma solução (seja a maior venda de ingressos, seja o projeto de uma ponte capaz de suportar determinado peso), mas sim mostrar como procedem ao enfrentar o problema. Esses estudantes aprenderam a se comportar da forma correspondente, examinando a informação dada e determinando como usá-la. Não surpreende, assim, nossa descoberta de que os entrevistados com formação universitária tenham elaborado melhores juízos do que os que careciam desse preparo.

    Quando as pessoas nem sequer desconfiam que o que há por trás de certas questões é o desejo de compreender processos mentais, tendem a se concentrar na solução do problema e dão pouca atenção às operações cognitivas que usam. Na tentativa de obter respostas, recorrem a tudo que conhecem e que possa ser útil. Baseados em conhecimentos prévios de que o sorteio de prêmios parece um meio mais eficaz para levantar fundos do que uma apresentação de roupas típicas, eles o consideraram como uma força causal, ainda que a evidência apresentada não apoiasse essa conclusão. Levar em conta o que responderam em determinada parte da entrevista não ajuda a resolver o problema e, portanto, não é prioridade. Para tais pessoas, o que importa é a melhor interpretação de como as coisas se apresentam no momento. Além disso, uma vez obtida a conclusão, expressar confiança e certeza é melhor do que hesitar.

    Quem estaria empregando a estratégia "mais inteligente"? Por que recorrer a antigas crenças quando se trata de avaliar novas informações? Não é mais provável que se obtenham melhores conclusões ao fazer uso de tudo o que é conhecido? Em muitos contextos a resposta é sim. Todavia, a capacidade de avaliar "a informação dada" para determinar exatamente o que ela implica (e exclui) também é uma habilidade importante.

    Suponha, por exemplo, que eu esteja pensando em experimentar o novo produto para redução de peso sobre o qual meus amigos comentam que pode causar câncer. Para consultar um estudo recente sobre o produto é preciso que eu seja capaz de interpretá-lo, independentemente de idéias prévias . Ao formar uma opinião e escolher se quero ou não usar o medicamento, posso integrar conhecimentos e considerações anteriores aos novos dados que obtive ao ler a pesquisa. Mas não poderia fazê-lo se não fosse capaz de interpretar o artigo.

  • Fora de contextoEm seu livro de 2004, The robot"s rebelion, Keith E. Stanovich, da Universidade de Toronto, aponta a importância do que chama de "raciocínio descontextualizado", apresentando estudos em que os participantes não conseguem fazer uso dele. A relevância dessa forma de pensar não se limita à inferência causal. A formulação de um veredicto em um processo legal, por exemplo, envolve um contexto em que os jurados devem se basear apenas na evidência apresentada - e não nos aspectos relacionados que lhes vêm à cabeça. Trata-se de um raciocínio dedutivo, que emprega os clássicos silogismos do filósofo grego Aristóteles. Stanovich nota que 70% dos adultos pesquisados aceitaram este silogismo como válido:

    - Premissa 1 : Todos os seres vivos necessitam de água.
    - Premissa 2: As rosas necessitam de água.
    - Conclusão: As rosas são seres vivos.

    Como sabemos que a conclusão é verdadeira, é fácil aceitá-la, mesmo que ela não seja lógica. Para se convencer disso, basta comparar o primeiro exemplo com outro, idêntico na forma:

    - Premissa 1: Todos os animais da classe hudonblu são ferozes.
    - Premissa 2: Vampetes são ferozes.
    - Conclusão: Vampetes são animais da classe hudonblu.

    Somente 20% das pessoas co à cabeça. Trata-se de um raciocínio dedutivo, que emprega os clássicos silogismos do filósofo grego Aristóteles. Stanovich nota que 70% dos adultos pesquisados aceitaram este silogismo como válido:

    - Premissa 1 : Todos os seres vivos necessitam de água.
    - Premissa 2: As rosas necessitam de água.
    - Conclusão: As rosas são seres vivos.

    Como sabemos que a conclusão é verdadeira, é fácil aceitá-la, mesmo que ela não seja lógica. Para se convencer disso, basta comparar o primeiro exemplo com outro, idêntico na forma:

    - Premissa 1: Todos os animais da classe hudonblu são ferozes.
    - Premissa 2: Vampetes são ferozes.
    - Conclusão: Vampetes são animais da classe hudonblu.

    Somente 20% das pessoas consideraram correta a conclusão. As outras 80% acertaram, rejeitando-a. O melhor desempenho se deve provavelmente, ao fato de que não havia nenhum conhecimento acerca da realidade para confundir o raciocínio - já que os vocábulos hudonblu e vampetes foram inventados para a exemplificação.

    Como a pesquisa que realizamos em Nova York sugere, a descontextualização não é o único recurso do arsenal mental da pessoa que raciocina de forma cuidadosa. A atitude de evitar a certeza exacerbada ao emitir juízos é fundamental ,já que essa postura reflete uma falha na metacognição (ou seja, no saber o que se sabe) e está por trás do pensamento rígido e inflexível, uma das principais causas dos conflitos humanos. A capacidade de considerar possibilidades diferentes daquelas às quais estamos habituados reflete maleabilidade e saúde psíquica.

    Já a inconsistência pode servir a interesses próprios permitindo que protejamos nossas idéias favoritas, sem submetê-las aos mesmos critérios de evidência que aplicamos às teses dos outros. Sustentamos, por exemplo, que nosso time ganhou porque é o mais talentoso e atribuímos à sorte a vitória das outras equipes.

  • Processos de raciocínioNo estudo com crianças mencionado anteriormente, os pesquisadores não avaliaram a consistência ou o grau de certeza dos juízos causais. Mas é fácil perceber que os pequenos se beneficiaram de uma situação melhor para avaliar a evidência do que os adultos de nosso estudo. O cenário com flores de diferentes cores mobilizava pouco conhecimento prévio acerca de qual delas fazia o macaco espirrar. Os adultos, porém, dispunham de considerável experiência anterior sobre planejamento de eventos, venda de ingressos e atração exercida por diferentes atividades. Essas informações dificultavam a avaliação das evidências.

    A pesquisa realizada por Schulz e Gopnik revela que processos de raciocínio envolvidos na inferência causal multivariada (isto é, com várias causas em potencial) já estão desenvolvidos, pelo menos em grau rudimentar, aos quatro anos. E, mais importante que isso, trata-se de uma competência que crianças, adolescentes e adultos podem desenvolver por meio de experiências psicopedagógicas.

    Outra pesquisa coordenada por mim, com a participação de colegas, mostrou que crianças e adultos raciocinam de forma mais crítica sobre relações causais quando têm oportunidades freqüentes de avaliar evidências e elaborar juízos com base em causas e efeitos e de realizar previsões. Adolescentes revelam, inicialmente, as mesmas falhas no raciocínio causal multivariável ilustradas aqui. Mas quando se empenham em problemas durante vários meses, o raciocínio se torna bastante aprimorado. O mesmo se aplica a adultos jovens.

    Podemos vislumbrar duas mensagens nas pesquisa descritas. Em primeiro lugar, o raciocínio causal que adultos em geral utilizam quando se trata de assuntos cotidianos é altamente falível. Com muita freqüência, pessoas fazem inferências infundadas com uma certeza também sem fundamentos e é provável que ajam com base em tais inferências.

    Em segundo lugar, embora as pessoas tirem conclusões equivocadas em seus juízos causais, não devemos inferir que isso tem necessariamente de ser assim. O pensamento pode ser aprimorado e, com a prática, torna-se mais cuidadoso e crítico. O desempenho em testes padronizados relativos às "capacidades básicas" de ler e contar é hoje o principal meio de medir a eficácia do ensino escolar. Entretanto, na maioria das escolas, não tem sido objetivo prioritário ensinar a formação de juízos corretos sobre questões cotidianas.

    É possível que tais aspectos da cognição ganhem, aos pouco, mais atenção, já que a cada dia é necessário interpretar grande quantidade de informações sobre questões cada vez mais complexas, algumas das quais com implicações para a sobrevivência. Promovendo o desenvolvimento de capacidades que ajudarão as pessoas a enfrentar esse desafio, poderemos enriquecer a concepção a respeito do que é importante ensinar aos estudantes. A oportunidade freqüente de examinar diversas formas de evidência e extrair conclusões fortalece a capacidade de raciocínio. Até mesmo o hábito de questionar a si mesmo e aos outros - com perguntas do tipo: "Como você sabe?" e "Podemos ter certeza disso?" - favorece o rigor do pensamento. Certamente as crianças devem ser capazes de ler, escrever e contar. Mas que outra meta educativa seria mais importante do que ensinar o aluno a usar o raciocínio para emitir juízos mais corretos que lhe serão úteis por toda a vida?

    Para conhecer mais

    Who is rational? Studies of individual differences in reasoning. Keith E. Stanovich. Lawrence Erlbaum Associates, 1999.
    The everyday production of knowledge: individual differences in epistemological understanding and juror reasoning skill. M. Weinstock e M. A. Cronin, em Applied Cognitive Psychology, vol. 17, nº 2, págs. 161-181, 2003.
    The robot"s rebellion: finding meaning in the age of Darwin. Keith E. Stanovich. University of Chicago Press, 2004.
    Education for thinking. Deanna Kuhn. Harvard University Press, 2005.

    • Leitura Dinâmica e Memorização

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