Concurso Público: os campeões


Os campeões dos concursos públicos ensinam como se preparar para conquistar empregos mais cobiçados do país.

Revista Veja - Caroline Melo e Ricardo Westin

O serviço público no Brasil já foi um reino de burocratas com poucas aspirações a não ser per­manecer num emprego com es­tabilidade e conquistar aposen­tadoria com salário integral. Na última década, o perfil do funcionário que serve ao estado se alterou. O serviço público passou a ser um celeiro de talentos e carreiras promissoras. Uma série de mudanças nas políticas de remune­ração e promoção fez com que esse setor se tor­nasse extremamente atraente. O resultado foi uma multiplicação espetacular no número de candida­tos a vagas nas repartições e empresas estatais, que neste ano chega a seu ápice. As estimativas são de que, em 2011, 12 milhões de brasileiros (o dobro de cinco anos atrás) prestem concursos pú­blicos para concorrer a 70.000 vagas oferecidas apenas na esfera federal. A quantidade de empre­gos multiplica-se por sete quando se somam as oportunidades abertas pelos estados e municípios. Nunca tanta gente quis ser empregado do estado. O número de funcionários públicos também au­mentou nesse período. Hoje, nas esferas federal, estadual e municipal, incluindo as estatais, eles somam 10,2 milhões de pessoas, contra 8,9 nmilhões em 2006. O que atrai tantos candidatos para os concursos, primariamente, são os salários cada vez mais polpudos. Em 2000, os vencimentos mé­dios de um servidor público federal eram de pou­co mais de 4.000 reais. Hoje, estão perto dos 7.000 reais - um aumento de 75%. Os valores da ini­ciativa privada nem sequer chegam perto disso. Em 2000, um trabalhador com carteira assinada recebia, em média. 1.400 reais. Atualmente, ga­nha 1.500 reais. Quando se examina cada carreira isoladamente, tem-se uma melhor noção de como o serviço público é tentador. Oito anos atrás, um auditor fiscal da Receita Federal tinha um salário inicial de 5.300 reais. Hoje, ele começa com 13.600 reais. É mais do que o dobro. No mesmo espaço de tempo, o salário inicial de um perito criminal da Policia Civil do Distrito Federal pulou de 7.200 para 13.400 reais. Diz a paulista Mayara Belluzzi, de 23 anos, que em 2010 passou em pri­meiro lugar no concurso para analista de orça­mento do Ministério Público em Florianópolis: ""É o emprego dos meus sonhos. Abdiquei dos fins de semana para estudar e consegui-lo".

Nesta reportagem, VEJA apresenta dez per­sonagens que, assim como Mayara, resolveram prestar concursos públicos e foram extremamen­te bem-sucedidos. Alguns passaram em primeiro lugar nas provas, concorrendo com dezenas de milhares de outros candidatos. Outros foram aprovados em diversos concursos, e puderam optar pelo órgão que oferecia o cargo mais vantajoso. Baseando-se em sua própria experiência, eles dão um con­junto de dicas a quem pretende se aven­turar nos concursos públicos. Não é uma tarefa fácil. A vantagem inicial é que a seleção para os cargos públicos é extremamente democrática: não faz dis­criminação de idade, condição social, sexo ou cor da pele - o que nem sem­pre ocorre no setor privado. O sucesso, porém, exige do candidato meses de es­tudos, debruçando-se sobre os temas indicados pelos editais, os textos que contêm as regras dos concursos e o con­teúdo que será aplicado nas provas. É preciso não temer o fracasso: em média, os candidatos se submetem a meia dú­zia de concursos antes de ser aprovados. "Concurso não se faz para passar, mas até passar", diz a regra de ouro do juiz fluminense William Douglas, autor de doze livros que ensinam como ser bem­ sucedido em exames desse tipo. Mesmo uma sucessão de fracassos ajuda a acu­mular conhecimento, já que mais da metade do conteúdo que cai nas provas é comum à maioria dos concursos ­apenas: uma pequena parcela dos exames exige conhecimentos específicos de determinada área.

O fato de que a vitória nos concur­sos seja mérito apenas do candidato faz com que eles atraiam cada vez mais jovens recém-formados, que, na iniciativa privada, esbar­ram na falta de experiência para conseguir emprego. Pessoas de meia-idade que desejam retomar ao mercado de tra­balho também veem nos con­cursos públicos sua grande chance. Nos últimos anos, 60% dos candidatos a con­cursos são homens e 40%, mulheres. Eles têm entre 25 e 40 anos, e mais da metade possui nível de escolaridade supe­rior. "Um recém-formado, no se­tor privado, invariavelmente tem salário inicial baixo. No setor público, com formação superior, pode co­meçar a carreira com salário de 10.000 reais", observa Emani Pimentel, presi­dente da Associação Nacional de Prote­ção e Apoio aos Concursos. O gaúcho Carlos Augusto Beckenkamp, de 28 anos, é o típico caso de candidato que venceu no mundo dos concursos pela de­dicação e pela persistência. Aos 17 anos, submeteu-se ao primeiro, dos Correios.
O cargo era de carteiro, mas ele não pôde assumir porque era menor de idade. Daí para a frente, passou em outros cinco concursos. Em seguida, foi reprovado no primeiro que fez para auditor da Receita Federal, um dos cargos mais almejados do serviço público, com salário entre 13.600 e 19.451 reais. A tristeza durou pouco tempo. Em 2009, Beckenkamp passou em primeiro lugar para a mesma vaga. Seu segredo do sucesso: "Não pa­rei de estudar desde o primeiro concurso. O ritmo diminuiu, obviamente, mas sempre mantive ao menos três horas de estudo por dia".

O candidato que se prepara intensi­vamente para um concurso gasta, em média, 12.000 reais num ano com cur­sinho, materiaI didático e inscrições. Não é pouco, principalmente e para um grande contingente de candidatos que deixam de trabalhar para se dedicar in­tegralmente aos estudos. Segundo a avaliação das escolas preparatórias pa­ra concursos públicos, isso é um erro. "Geralmente passa quem não deixa o emprego e sabe conciliar o estudo com o lazer e os programas em famflia", diz José Luís Romero, diretor da Central de Concursos, escola de São Paulo es­pecializada em cursos para a carreira pública. Ser aprovado num concurso nem sempre é garantia de emprego imediato. Isso porque muitos deles in­formam no edital que o cargo está su­jeito ao chamado cadastro de reserva, o que significa que talvez seja preciso es­perar até a nomeação, que pode demo­rar anos. Os concursos com cadastro de reserva se destinam a formar uma espé­cie de banco de substitutos de funcionários públicos. Geralmente, são para cargos menos bem remunerados e que exigem menor qualificação - caso dos carteiros e dos agentes penitenciários.

Os concursos públicos representam um funil ainda mais rigoroso do que o vestibular, principalmente aqueles que exigem aptidões especiais que não se aprendem nos bancos escolares. Muitas vezes, apesar da enorme diferença entre a quantidade de vagas oferecidas e o número de candidatos a elas, não se conseguem aprovações em número su­ficiente para preenchê-Ias. Tome-se co­mo exemplo o último concurso promovido pela Polícia Federal, um dos ór­gãos cujos cargos são mais almeja­dos, para agente e escrivão, reali­zado em 2009:

- 114.747 candidatos se ins­creveram; 
- 1.760 foram selecionados para as provas psicotécni­cas e físicas - corrida, barra, salto em distância e natação;
-  653 passaram para o cur­so de formação na Academia Nacional de Polícia, em Brasília, que dura qua­tro meses e meio e inclui au­las de inteligência, investiga­ção, tiro e defesa pessoal. Nesse período, o candidato recebe metade do salário que receberia se já estivesse trabalhando na PF; 
- 518 (menos que as 600 vagas ofereci­das) foram aprovados e se tornaram po­liciais federais.

Os candidatos que hoje procuram os concursos são atraídos por um período de bonança da máquina burocrática bra­sileira como há muito não se vê. O funcionalismo cresceu em tamanho e em prestígio no governo de Juscelino Ku­bitschek e na ditadura militar. Nos dois períodos, o governo investiu pesado em rodovias, em hidrelétricas e na indústria.

Para levar a cabo as polí­ticas de desenvolvimen­to, precisou apoiar-se num amplo e sólido quadro de servidores. Trabalhar para o es­tado era um privilé­gio. Significava galgar degraus na esca­la social. Na virada dos anos 70 para os 80, o Brasil se afundou na dívida externa e entrou num período prolongado de crise econômica. Sem dinheiro para investir na sua própria máquina, o governo pratica­meme abandonou os servido­res. A situação piorava à medida que a inflação corroía os salários. Aos poucos, a burocracia estatal voltou a ser valorizada, O governo Fernando Henri­que Cardoso realizou uma ampla refor­ma na administração do estado. Primei­ro, aumentaram-se os salários para pos­tos-chave. Foi uma forma de injetar âni­mo nas repartições públicas, elevar a produtividade e, ao mesmo tempo, evitar a fuga de talentos para a iniciativa priva­da. Diz Luiz Carlos Bresser-Pereira, mi­nistro da Administração Federal e Refor­ma do Estado na gestão FHC: "Fizemos uma pesquisa e verificarnos que os salários dos administradores públicos eram 30% inferiores aos de quem ocupava cargos correspondentes no seror priva­do. Com um quadro desses, não há esta­do que consiga funcionar com eficiên­cia. Fizemos a balança começar a pender para o outro lado". A segunda mudança foi na periodicidade dos concursos. Até então, um processo seletivo aprovava muito mais candidatos que o número de vagas disponíveis. Os que não eram con­vocados imediatamente só eram chama­dos anos mais tarde, conforme servido­res se aposentavam. Às vezes, passavam­ se dez anos sem que se abrisse concurso para determinado cargo. Com FHC, os concursos começaram a ser realiza­dos a cada um ou dois anos. "Com essa mudança, passa­mos a atrair os jovens bri­lhantes para o serviço pú­blico. Eles podiam come­çar a preparação para o concurso antes mesmo do fim da faculdade. Ti­nham a certeza de que, assim que se formas­sem, haveria provas para o setor público", explica Bresser.

Hoje, as micros e pe­quenas empresas, com até 99 funcionários, são as que mais empre­gam no Brasil - 17,2 milhões de traba­lhadores do setor formal da economia. Em segundo Iugar, vêm as médias e grandes empresas, com 12,8 milhões de empregados. O serviço público, com 10,2 milhões de funcionários, está em terceiro lugar. O motivo pelo qual tanta gente tenta ingressar nele são as van­tagens que oferece sobre o setor privado. Embora as chances de subir ra­pidamente na carreira sejam praticamente nulas - para isso é preciso prestar novo concurso público -, os salários vão subin­do gradarivamente ao longo dos anos. No funcionalismo federal, o servidor é avaliado a cada doze ou dezoito meses, dependendo da re­partição pública. Seu chefe imediato analisa critérios como pontualidade, assiduidade, empenho e relacionamento com os colegas de trabalho. Caso seja bem ava­liado, ele receberá um aumento. Se o ser­vidor é escolhido por um superior para ocupar um cargo de chefia, passa a rece­ber uma comissão que se soma ao salá­rio. Outro tipo de vantagem que os servi­dores públicos têm são os cursos de es­pecialização pagos pelos cofres públicos. Desde que renham relação com a sua área de trabalho e o pedido seja aprovado pelo chefe, o funcionário pode fazer cursos de especialização em instituições de ensino públicas ou privadas. O trans­porte, a alimentação, a hospedagem e, se for o caso, a mensalidade do curso são custeados integralmente pelo órgão em­pregador. O funcionário se afasta do tra­balho para se dedicar aos estudos e con­tinua recebendo o salário integralmente.

Os servidores públicos se aposentam com o último salário integral. Os empre­gados das empresas estatais e das socie­dades de economia mista, como a Petro­bras, os Correios, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, são contrata­dos com carteira assinada. Em tese, de­veriam se aposentar recebendo no máxi­mo os 3.689 reais do INSS. Na prática, não é assim. Essas empresas contam com fundos de p e o pedido seja aprovado pelo chefe, o funcionário pode fazer cursos de especialização em instituições de ensino públicas ou privadas. O trans­porte, a alimentação, a hospedagem e, se for o caso, a mensalidade do curso são custeados integralmente pelo órgão em­pregador. O funcionário se afasta do tra­balho para se dedicar aos estudos e con­tinua recebendo o salário integralmente.

Os servidores públicos se aposentam com o último salário integral. Os empre­gados das empresas estatais e das socie­dades de economia mista, como a Petro­bras, os Correios, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, são contrata­dos com carteira assinada. Em tese, de­veriam se aposentar recebendo no máxi­mo os 3.689 reais do INSS. Na prática, não é assim. Essas empresas contam com fundos de previdência próprios que cornplementam o valor da aposentadoria dos funcionários para que chegue ao do salário da ativa. Os empregados das esta­tais não gozam de estabilidade no traba­lho, ao contrário dos servidores públicos estatutários - esse é o entendimento da Justiça do Trabalho. De qualquer forma, a situação deles não chega a ser a mesma da iniciativa privada. Dificilmente são demitidos sem justa causa. O regimento de órgãos como o Banco do Brasil, a Pe­trobras e os Correios determina que se realize um procedimemo administrativo para avaliar a necessidade de uma demissão. É compreensível que 12 milhões de brasileiros, apenas neste ano, queiram o governo como patrão.

• Os campeões

- GUSTAVO MElRA, 24 anos, de Porto Alegre - PRIMEIRO LUGAR PARA O ITAMARATY

"Os simulados, provas fornecidas pelos cursinhos ou disponiveis na internet que servem como exercício, são uma ótima ferramenta de estudo. Devo ter feito mais de uma dezena deles."

Gustavo sempre quis ser diplomata. Para isso, teria de enfrentar um concurso com 100 candidatos por vaga. Poucos meses antes de se formar em economia, ele começou a estudar para a prova de admissão ao ltamaraty - um processo que se prolonga por seis meses e é dividido em quatro fases. Em cada fase é necessário focar um tipo de conhecimento, incluindo fluência em inglês, espanhol e francês. Gustavo conta que fazer simulados reproduzindo as condições do dia da prova o ajudou bastante, principalmente no que diz respeito aos limites de tempo para responder às questões. Essa prática o deixou preparado para enfrentar com maior segurança as quatro fases do concurso - e funcionou. Passou em primeiro lugar.

- BEATRIZ CHAGAS, 29 anos, de São Paulo - SEGUNDO LUGAR PARA A PROCURADORIA-GERAL DE SÃO PAULO

"o próprio edital do concurso é um bom guia sobre como se preparar. Conhecer bem as regras e o conteúdo que será aplicado nas provas dá maior segurança sobre o que estudar. Para mim, ajudou também estudar­ o programa de editais de concursos anteriores para o mesmo cargo."

Beatriz se formou em direito, trabalhou pouco mais de um ano como advogada, decidiu que entraria na vida pública e se inscreveu no concurso para o cargo que lhe interessava: procurador-geral do estado de São Paulo. Não esperou o editaI ser publicado - mergulhou nos editais de concursos anteriores. Quando ocorreu a divulgação, estudou seu programa minuciosamente e começou a usá-Io como guia. Além disso, matriculou-se num cursinho preparatório e, ao voltar para casa, no fim do dia, estudava tudo o que havia aprendido nas aulas. Beatriz soube que havia passado para a segunda fase do concurso poucos dias depois de seu casamento ­ e adiou a lua de mel para se preparar para as duas fases seguintes.

- ALEXANDRE MElRELLES, 41 anos, do Rio de Janeiro - PASSOU EM CINCO CONCURSOS

"Estudar mais de uma matéria por dia, em vez de destinar horas fixas semanais ao estudo de matérias isoladas, faz com que o conteúdo esteja sempre atualizado na cabeça."

Antes de concluir a faculdade de informática, Alexandre passou em três concursos. Escolheu a vaga de auditor fiscal da prefeitura de Belo Horizonte. Depois de onze anos na função, inscreveu-se para concorrer a um cargo melhor, o de auditor fiscal da Receita Federal. Disputou com 70.000 candidatos 1.000 vagas, e passou. Não tomou posse porque foi aprovado em outro concurso, para ser agente fiscal de rendas do estado de São Paulo. Para se preparar para as provas, Alexandre criou técnicas
próprias, que agora compartilha com outros candidatos em seu recém-lançado livro Como Estudar para Concursos. A dica acima faz parte da obra.

- ANDREIA COSTA E SILVA, 35 anos, de São Paulop - APROVADA EM TRÊS CONCURSOS, UM DELES EM TERCEIRO LUGAR

"Minha estratégia foi prestar concursos que exigem menor nível de conhecimento. Essa é uma boa maneira de se preparar para um salto mais ambicioso em um concurso mais difícil."

Farta do stress da vida de publicitária, Andrea prestou concurso para fiscal da Receita Federal. Foi reprovada. Resolveu, então, concorrer a cargos de nível médio, que exigem menos conhecimento específico. Com essa estratégia, foi aprovada em três concursos. Um deles, no qual ficou em terceiro lugar, habilitou-a ao cargo de técnico do Banco Central, Que hoje ocupa. Ela continua estudando com vistas a concorrer a carreiras mais difíceis, como analista do próprio Banco Central, cargo de nível superior e, portanto, mais bem remunerado. Com um horário de trabalho mais regular do que no período em que era publicitária, Andrea pode passar mais tempo com a filha, Nathalia Costa Fonseca.

- FREDERICO DIAS, 29 anos, de Belo Horizonte - PRIMEIRO E NONO LUGARES EM DOIS CONCURSOS FEDERAIS

"Não adianta ler uma montanha de livros e apostilas, sob risco de se dispersar. Para selecionar o material de estudo específico para cada concurso, eu consultei professores, candidatos experientes e sites especializados."

Frederico se formou em engenharia, trabalhou três anos na carreira e, em busca de um salário maior, decidiu dedicar-se à carreira pública, Um ano depois, já podia escolher entre dois cargos para os quais havia sido aprovado: analista de finanças e controle da Controladoria-Geral da União (nono lugar) e auditor federal de controle externo do Tribunal de Contas da União (primeiro lugar). Ele optou pelo segundo, mudou-se para Brasílla e não se arrepende. Considera sua função relevante para a sociedade e ganha cinco vezes mais do que recebia como engenheiro. Para Frederico, é essencial Que um "concurseiro" selecione uma boa bibliografia para estudo. Para chegar às obras mais adequadas, ele cons

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus