Conhecimento tem data de validade


Matemático de Harvard estuda durabilidade das teorias científicas e explica como isso pode afetar o futuro.

Revista Galileu - por Gabriel Nogueira

O que você sabe hoje pode valer muito pouco ama­nhã. Foi assim com os que estavam certos de que a Terra era quadrada ou de que vinho fazia mal. As verdades mudam - às vezes, o tempo todo. Um dia os ovos são os grandes vilões do coleste­rol, no outro, tornam-se mocinhos. Em seu livro The Half-Life of Facts (A meia-vida dos fatos, sem versão em português), o matemático da Univer­sidade Harvard Samuel Arbesman defende que praticamente todo conhecimento tem prazo de validade. Arbesman é um dos representantes da cientometria, a ciência que se dedica a estudar a evolução da própria ciência. É com base nela que muitos governos formulam políticas para induzir o avanço de pesquisas científicas.

Tudo começou em 1947, quando o matemático Derek de Solla Price hospedou uma coleção da publicação Philosophical Transactions, da Royal Society, o primeiro jornal científico do mundo. Ele organizou os exemplares em pilhas por ano, desde 1662. Percebeu que as alturas variavam, mas não aleatoriamente. O crescimento dos volumes se­guia uma curva exponencial, havia cada vez mais conhecimento. Daí surgiu a cientometria.

Em essência, os pesquisadores da área usam estatísticas sobre a publicação de estudos - como o número de citações, o impacto e a frequência de artigos sobre o mesmo tema -, para avaliar o estado de um campo. Olhando os padrões - por exemplo, quais áreas estão mais efervescentes, com mais gente, ou produzindo os estudos com maior repercussão -, é possível estimar que no­vas descobertas serão feitas naquelas áreas. A seguir, Arbesman fala sobre cientometria e como ela pode afetar a ciência.

Galileu - Por que os fatos teriam meia-vida?

Samuel Abesman - Na química, a meia-vida é o tempo em que metade de um punhado de átomos de um determinado elemento tende a decair - perder prótons, que definem sua identidade - e se trans­formar em outro elemento. Não dá para prever quando um único átomo irá cair, mas é possível calcular quan­do isso vai acontecer com um grupo deles. Com a ciência seria a mesma coisa. Fatos, quando vistos como um grande corpo de conhecimento, são previsíveis. Isso não significa que tudo que sabemos hoje será descartado ­alguns conhecimentos resistirão ao teste do tempo, como, por exemplo, as próprias meias-vidas já calculadas dos elementos químicos conhecidos. E mesmo que algo seja superado, não é no sentido de jogar fora, mas de inte­grar a novos conhecimentos. Newton não estava errado com sua teoria da gravitação; Einstein simplesmente criou uma teoria mais geral, a relati­vidade, que abarcou a dele.

Galileu -  Quanto dura um conhecimento?

Samuel Abesman - Não dá para prever exatamente. Mas muito do que sabemos de ciência são o que chamo de mesofatos - fatos que mudam durante o tempo de uma vida. Muitas áreas da medicina têm essa ro­tatividade de menos de meio século. O número de elementos químicos é outro exemplo. Se você fez o ensino médio em 1970 e não voltou a olhar a tabela periódica desde então, não percebeu que há pelo menos 12 novos elementos nela, elevando o total a 118, cerca de um décimo dos elementos. O número de planetas fora do Sistema Solar, o que sabemos sobre os dinossauros ou sobre a velocidade média de um com­putador são outros exemplos disso .

Galileu - A vida dos fatos vem diminuindo?

Samuel Abesman - A ciência caminha cada vez mais de­pressa, o que faz pensar que a meia-vida dos fatos está caindo. Mas há também o "efeito da cauda longa", em que resultados científicos ten­dem a ser incrementos, em vez de
se ter mudanças revolucionárias. Depende do campo a ser analisado. Áreas mais novas ainda têm gran­de potencial para revolucionar o que sabemos. Os campos interdis­ciplinares são um exemplo. Veja a bioinformática, na fronteira entre os computadores e a biologia, que produziu a revolução da genômi­ca. A combinação de computação e ferramentas digitais com áreas de humanidades é outra promessa. Agora, conforme um campo se tor­na mais desenvolvido, ele passa a tender mais para incrementos - o "efeito da cauda longa" vai anulando o poder da produção exponencial de conhecimento .

Galileu -A cientometria como guia para a política científica não pode trans­formá-Ia numa máquina de profe­cias autorrealizáveis?

Samuel Abesman -De fato poderia, mas eu não fico par­ticularmente preocupado com isso. Por exemplo, há quem diga que a Lei de Moore, em que o poder de processamento dos computadores dobra regularmente a cada 18 meses, é uma profecia que se autorrealiza - ou seja, acontece porque isso foi proclamado antes -, embora esteja claro que uma versão geral desse princípio já estava operando muito antes que ele fosse enunciado. Se por um lado escolher que campos deveriam receber financiamento com base nos dados de cientometria pode guiar o progresso científico, no fim das contas, os lampejos e o trabalho de pesquisa ainda terão de ser feitos nessas áreas - eles não podem e não vão se tornar realidade só com a previsão e o financiamento. É preciso que de fato aconteçam.

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