Construtivistas, Mas Nem Tanto


Muitas escolas dizem seguir o construtivosmo - que defende que o aluno deve construir por si só o conhecimento -, mas, na prática, continuam tradicionais. Quando estão escolhendo um colégio, os pais não devem se prender a rótulos, mas perguntar como são as práticas em sala de aula

Jornal Folha de São Paulo - por Angela Pinho e Fabiana Rewald

Se você perguntar a um professor brasileiro se ele é construtivista, é quase certo que ele dirá que sim. No entanto, ao acompanhá-Io em aula, é possível que você não veja os princípios da teoria sendo aplicados.

O construtivismo se desenvolveu a partir de estudos do suíço Jean Piaget (1896-1980) e, em linhas gerais, parte do princípio de que o aluno aprende melhor quando constrói o conhecimento por si só - com a mediação do professor - do que quando recebe o conteúdo apenas de forma passiva.

A partir da teoria, surgiram práticas pedagógicas que não são exclusivas do construtivismo, mas acabaram sendo associadas a ele: atividades de pesquisas, trabalhos em grupo e priorização do raciocínio em detrimento da memorização.

No Brasil, onde as diretrizes curriculares nacionais têm inspiração construtivista, a maioria dos professores diz seguir essa teoria, segundo pesquisa feita neste ano pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com 23 países.

Assim como quase todos os seus pares - a exceção são os italianos -, os professores brasileiros dizem concordar com afirmações relacionadas ao construtivismo, como: "Estudantes aprendem melhor quando encontram sozinhos a solução para problemas."

 A pesquisa também perguntou a posição dos professores em relação a afirmações como "bons professores demonstram a maneira correta de resolver um problema"-mais ligada a outro modo de ensinar, em que o conhecimento é transmitido diretamente pelo professor.

Em países como Austria e Islândia, os adeptos dos conceitos construtivístas rechaçavam as afirmações relacionadas à transferência do conhecimento pelo professor. Já em outros, como o Brasil, os professores aceitavam as duas abordagens.

"Os professores brasileiros têm práticas tradicionais, porque a escola é tradicional, mas abrem parênteses construtivistas", diz Bernard Charlot, professor emerito da Universidade Paris e atualmente docente na Universidade Federal de Sergipe. Na prática, propõem trabalhos em grupo, mas não abandonam a lousa e o giz.

Essa mescla de métodos, no entanto, não é necessariamennte negativa, segundo Charlot, desde que o aluno seja motivado a pensar em vez de só ouvir e anotar. "Há métodos melhores para alguns alunos e outros melhores para outros. Quando se mesclam, cresce a possibilidade de que mais alunos aprendam." Nélio Bizzo, professor da Faculdade de Educação da USP, concorda. "Não se pode pensar que você vai alfabetizar uma classe inteira com uma teoria pedagógica."

O Albert Sabin, por exemplo, é socioconstrutivista (privilegia o debate de ideias e a interação entre alunos e o professor), mas se permite usar o chamado material dourado.

De inspiração montessoriana, ele facilita o entendimento dos números. "O mesmo material didático pode ser trabalhado de forma construtivista ou tradicional", diz Giselle Magnossão, diretora pedagógica.

O importante, para Silvio Barini Pinto, diretor do colégio São Domingos, é não ter receitas para o aprendizado, mas sim jogo de cintura para misturar diferentes linhas.

Por isso educadores dizem que, ao escolher um colégio, os pais não devem se prender a rótulos, mas analisar as práticas em sala de aula e se os objetivos da escola combinam com o que eles querem para seus filhos.

Foi o que Jaqueline Maria Rapoza Cruz fez ao escolher o colégio de sua filha Maria Clara, 8. Ela conta que se decidiu pelo Sion quando ouviu que a filha aprenderia por meio de brincadeiras. Satisfeita, matriiculou na escola a caçula IsabelIa, 5, e ainda se tornou professsora de inglês do colégio.

• Pai deve perguntar sobre a formação dos professores

A melhor maneira de os pais saberem se o colégio escolhido é uma boa escola construtivista é atentar para a formação dos professores. A dica é da professora-titular de psicologia da educação da Universidade de Oxford (Inglaterra), Terezinha Nunes, que é brasileira.

"Uma escola que esteja se informando sobre as novas ideias pode de fato ser considerada construtivista, porque reconhece que o conhecimento dos professores, como o dos alunos, também deve ser construído. Uma escola que repete todo ano o que já fazia dez anos atrás não está vendo o aprendizado dos professores como um processo de construção."

Zélia Cavalcanti, diretora pedagógica da Escola da Vila, compartilha dessa ideia. Ela afirma que o colégio investe muito na formação de professores para manter seu caráter construtivista.

Referência entre as escolas mais alternativas de São Paulo, a Escola da Vila tem um centro de formação que atende também a docentes de outros colégios. Zélia diz que às vezes é muito difícil mudar as práticas em sala de aula dos professores.

"Ser construtivista é politicamente correto. Por isso, muitas escolas começaram a se autodenominar construtivistas, mas não são."

• Teoria as pedagógicas

- Tradicional

Nessa linha, o ensino é mais focado no professor, que deve transmitir o conhecimento aos alunos. Conta com muitas provas e aulas expositivas.

- Construtivismo

O aluno é visto como protagonista da aprendizagem, e o professor, como facilitador. Há um incentivo para que os estudantes resolvam problemas antes de o professor mostrar o caminho.

Quando surgiu

A partir de trabalhos do suíço Jean Piaget (1896-1980) e de pesquisas de estudiosos que o sucederam. Chegou com força ao Brasil nos anos 80, com as teorias sobre alfabetização da argentina Emilia Ferreiro

Exemplos de atividades baseadas em princípios construtivistas realizados em escolas de São Paulo

Laboratório

Antes de ter a aula teórica, alunos vão para o laboratório realizar experimentos, onde fazem questionamentos. Depois, com a ajuda do professor, o conhecimento é sistematizado.

Grupo 

Trabalho em grupo é usado para que os alunos interajam e aprendam com a troca de informações.

Interação 

Também acontece entre alunos de séries diferentes; um aluno ou um grupo apresenta um trabalho para estudantes mais novos, por exemplo.

Alfabetização

A alfabetização se dá por meio do uso de palavras ou textos que façam sentido (como o nome da criança), e não com o estudo de cada sílaba.

Matemática 

Nas aulas de matemática, primeiro é explicado como se dá a construção da tabuada para só depois o aluno memorizá-Ia.

    Leitura Dinâmica e Memorização

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus