Conversas: palavras cáusticas


Mais que piada ou inocente jogo de plavras, o sarcasmo - uma forma maliciosa de ironia - mobiliza várias áreas cerebrais e pode ser compreendido como um recurso para substituir a agressão explícita e até física.

Revista Scientific American - por Massimo 8arberi

Com uma pontinha de maldade, quase todos os dias dizemos algo querendo expressar outra coisa. E com a mesma frequência somos vítimas desse artifício, embora nem sempre tenhamos consciência disso. Na verdade, é difícil traçar um retrato preciso do sarcasmo, não há consenso sobre o assunto, nem entre os especialistas: pode estar numa frase dita em tom inocente no meio de uma conversa, aparecer em uma discussão, sufocando qualquer possibilidade de diálogo; mas pode também ser expresso na piada que quebra o gelo e possibilita uma saída para uma situação embaraçosa. Até os emoticons, as simpáticas carinhas presentes em chats e redes sociais, se prestam a isso.

"O sarcasmo é o último refúgio das pessoas moderadas quando a intimidade de sua alma foi invadida", acredita­va Fiodor Dostoievski (1821-1888). Se o escritor russo tinha razão, podemos deduzir que hoje existem muitas pessoas "moderadas" e com a alma ferida circulando por aí. Segundo alguns linguistas, o sarcasmo tornou-se a linguagem primária da sociedade contemporânea. Há algumas décadas passou a ser objeto de estudo de muitos psicólogos. Alguns indicam que essa forma cruel de iro­nia está presente em nossos esquemas de comunicação, sobretudo nos diálogos entre amigos. Curiosamente, pesquisas mostram que entre inimigos esse recurso é muito pou­co usado. Afinal, é mais fácil - ou talvez mais socialmente aceito - fazer piadas ácidas com quem conhecemos bem.

• Um gosto ruim na boca

Não há ama única entonação de voz. Entretanto, existem alguns parâmetros, identificados por John Haiman, linguista do Macalester College de St. Paul, em Minnesota, e autor do livro Talk is cheap: sarcasm, alienation, and the evolution of language (Oxford, University Press; sem tradução em português), que servem para identificar o sarcasmo durante uma conversa. Dados como entonação, volume da voz, pausas, duração das palavras e ênfase dada a cada uma e, no caso de texto escrito, a pontuação oferecem pistas importantes.

Há alguns anos, Henry Cheang e Marc Pell, da Universidade McGiII de Montreal, no Canadá, fizeram uma análise acústica e vocal de vozes gravadas durante discursos sinceros e sarcásticos. Eles constataram que nestes últimos se notam redução da velocidade do falar e presença de esquemas prosódicos peculiares (como o aumento de tempo para pronunciar algumas sílabas). Por exemplo, uma coisa é dizer "desculpa", outra é pronunciar "descuuuulpa", acentuando a letra "u". Com a palavra "querida", a extensão da letra "i" também é indicativa de algum exagero que pode beirar a falsidade.

Mas não são apenas o tom e o volume da voz que ajudam a identificar uma piada sarcástica. Segundo Haiman, que estudou o assunto a fundo, a expressão facial também pode ser reveladora. Muitas vezes a frase cortante é acompanhada por uma expressão de repulsa, um sinal primitivo de que as palavras ditas são falsas. A careta mostra que elas parecem ter "gosto ruim". O mesmo vale para a expressão dos olhos e das sobrancelhas, que fazem movimentos típicos quando a pessoa usa o sarcasmo. Uma pesquisa da Universidade Politécnica da Califórnia demonstrou que quando alguém conta uma piada ou faz uma tirada com forte toque de ironia em geral evita olhar nos olhos de sua "vítima".

• Expressão de raiva

Uma pesquisa realizada pela especialista em linguagem Patricia Rockwell, quando trabalhava na Universidade da Louisiana, mostrou que em 94% das situações a frase sarcástica é, do ponto de vista literal, positiva, mas a mensagem é negativa. Apenas nos 6% restantes dos casos usamos uma frase negativa para vincular uma mensagem positiva. Outro estudo americano feito pela mesma instituição com base em te­lefonemas gravados demonstrou que em 23% aparecia ao menos uma piada sarcástica.

O problema é justamente entender o que é o sarcasmo, já que, pelo menos por ora, não existe uma definição unívoca. Para a profes­sora de psicologia dó desenvolvimento e da educação Antonella Marchetti, da Universidade Católica de Milão, que abordou o tema no livro Non dicevo sul seria ("Eu não quis dizer isso", sem tradução em português), de 2007, trata-se de "uma tipologia de ironia que, utilizada em situação emocionalmente intensa, em geral ex­pressa raiva em relação à vítima". "Esse recurso ressalta a crítica ao interlocutor, com o objetivo claro de atacá-Io e prejudicar sua imagem de maneira até mais forte do que quando a crítica é expressa de forma direta", afirma Antonella. A própria etimologia da palavra coloca em evidência as emoções de quem o pratica, visto que deriva do latim sarcasmus, que por sua vez provém de um ver­bo grego que significa "lacerar as carnes".

Na prática, o sar­casmo tem caráter des­trutivo, já que normal­mente atinge pontos sensíveis do outro. Di­zer "você é mesmo um excelente motorista" a um amigo que acabou de bater o carro, por exemplo, sufoca qual­quer possibilidade de discussão. A piada de mau gosto não estimu­la a reflexão, diferen­temente de quando é feita com ironia.

Mesmo em relação às motivações psico ológi­cas que levam ao sarcasmo, não há unanimida­de. Segundo alguns, a clássica alfinetada contra alguém é um modo de "mascarar" a própria agressividade e não serve para torná-Ia explícita nem para afirmar uma suposta superioridade dentro do contexto em que foi formulada.

Podemos pensar no clássico almoço de domingo em família em que a mulher prepara a receita habitual, mas o prato fica insosso e o marido comenta: "Realmente está ótimo!", com tom falso e expressão facial que deixam transparecer a todos os convidados sua verda­deira impressão. Por que ele age assim? Ora, uma piada, ainda que ácida, parece sempre uma forma mais leve de expressão. E, se é mal recebida, sempre é possível que a pessoa encontre saída para a situação embaraçosa alegando que estava brincando.

• De olho no veneno

"Não se pode analisar uma piada, ainda que aparentemente maldosa, fora do seu contex­to e definir apenas na teoria se é sarcástica, irônica, cínica ou se está em outra categoria",
afirma o psicólogo Luca Casadio, professor de epistemologia. Ele ressalta que o humor deve sempre ser visto da óptica multidimensional e que, principalmente, não podemos prescindir dos aspectos situacionais no qual é gerado.

Tanto afirmações irônicas quanto sarcásticas "não expressam abertamente aquilo que a pessoa pensa, mas são usadas para revelar opiniões de forma indireta", escreve Antonella
Marchetti. Por isso, alguns especialistas em linguística consideram que sejam "insultos educados", modos para exprimir críticas de maneira mais amena, por meio do senso de humor. Para os anglo-saxões, a distinção entre ironia e sarcasmo é nítida, pelo menos no campo acadêmico. A primeira é impessoal pois se refere a situações ou circunstâncias pode ser uma piada ou um clássico jogo de palavras que arrancam uma risada. Já o sarcasmo é dirigido a uma pessoa em especial e, ao afirmar exatamente o contrário do que se pensa, fica evidente a crítica.

"Na maioria de suas formas e variantes, e humor tem algum tom de agressividade - É uma questão de dosagem - e cumpre função importante nas relações sociais", acredita Luca Casadio. Podemos afirmar então que se de um dia para outro o sarcasmo desapare­cesse da face da Terra recomeçaríamos a atirar pedras e lanças? "É muito provável", responde Luca. "Se considerarmos, por exemplo, que o insulto e os palavrões são substitutos da vio­lência física, é possível pensar que o sarcasmo é, por sua vez, um substituto menos violento do insulto, dos palavrões ou da crítica direta, dois degraus abaixo em relação à violência física." O psicólogo lembra que esse recurso é tipicamente humano, pois não aparece nos animais, nem mesmo nos primatas, que em­ bora não usem palavras poderiam expressar ironia por meio de comportamentos.

Em um episódio da série Os Simpsons, um cientista maluco, o professor John Frink, mos­tra sua última invenção: o sarcasômetro. Um amigo de Homer comenta: "Ah, essa, sim, é
uma invenção útil". E a máquina explode. Um exemplo de como os autores da série, conhe­cidos pelas críticas cáusticas, conseguiram mais uma vez usar o escárnio.

O problema de identificar e avaliar as pia­das sarcásticas tem sido, há cerca de 20 anos, tarefa de um grupo de cientistas, psicólogos, neurolinguistas e neurologistas dispersos por vários países. Muitos de seus estudos se concentraram na capacidade de perceber a ironia dentro de uma frase falada ou escrita. A primeira coisa nesse caso parece ser localizar
em que momento do desenvolvimento infantil se torna possível reconhecê-Ia. Vários estudos demonstram que aos 4 ou 5 anos as crianças já são capazes de perceber, por meio da en­tonação da voz e do contexto, que uma frase significa exatamente o oposto do que foi dito.

A psicóloga Penny Pexman, da Universi­dade de Calgary, no Canadá, percebeu isso quando apresentou a um grupo de crianças um breve espetáculo de marionetes no qual um personagem expressava pensamentos ora de modo sarcástico, ora de modo "normal". Ela constatou que os pequenos se mostram mais sagazes nesse quesito quando os pais recorrem frequentemente ao sarcasmo no dia a dia.

 • A esperteza de Freud

O criador da psicanálise talvez seja uma das poucas pessoas que poderiam usar o sarcasmo em um momento trágico e delicado conseguindo não apenas se sair bem, mas ainda zombar de seus agressores de maneira inteligente. Contam seus seguidores que, em 1938, enquanto Freud tentava deixar a Áustria, os nazistas tinham prometido o visto de saída em troca de uma declaração na qual o psicanalista afirmasse "que tinha sido tratado pelas autoridades alemãs e pela Gestapo com todo o respeito e consideração". Com um golpe de mestre, ele conseguiu mudar as posições. Pediu se poderia acrescentar outra frase. O oficial nazista consentiu e Freud escreveu de próprio punho: "Recomendo vivamente a Gestapo a quem quer que seja". Um exemplo evidente de sarcasmo: afirmando o contrário daquilo que pensava, de modo claramente acentuado, conseguiu invalidar o documento, que de outra forma teria sido usado para propaganda.

• Tão casativo...

Há alguns anos especialistas começaram a se perguntar se um computador seria capaz de reconhecer o sarcasmo. Em 2006, um grupo de pesquisadores do laboratório de análises e interpretação da Universidade da Califórnia apre­ sentou um conjunto de algoritmos informáticos por meio dos quais um computador comum identificou, em uma série de telefonemas grava­ dos, 80% das piadas sarcásticas apresentadas.

Mais recentemente, em 2010, especialistas da Universidade Hebraica, de Jerusalém, desen­volveram o programa Semi-supetvlsed algorithm for sarcasm identification, que reconheceu 77% das frases desse tipo nos comentários e críticas aos livros no site Amazon.com.

Um dado curioso descoberto pelos pes­quisadores é que o sarcasmo é cansativo. A ironia pungente e maldosa contra uma pessoa exige, além de investimento emocional, en­volvimento significativo por parte do cérebro - certamente maior do que requer dizer uma frase verdadeira ou condescendente. E isso vale para quem é sarcástico, mas também para quem é vítima dele.

Por outro lado, alguns estudos demonstra­ram que escutar esse tipo de piada implica a ativação de diversas áreas shy; dos, 80% das piadas sarcásticas apresentadas.

Mais recentemente, em 2010, especialistas da Universidade Hebraica, de Jerusalém, desen­volveram o programa Semi-supetvlsed algorithm for sarcasm identification, que reconheceu 77% das frases desse tipo nos comentários e críticas aos livros no site Amazon.com.

Um dado curioso descoberto pelos pes­quisadores é que o sarcasmo é cansativo. A ironia pungente e maldosa contra uma pessoa exige, além de investimento emocional, en­volvimento significativo por parte do cérebro - certamente maior do que requer dizer uma frase verdadeira ou condescendente. E isso vale para quem é sarcástico, mas também para quem é vítima dele.

Por outro lado, alguns estudos demonstra­ram que escutar esse tipo de piada implica a ativação de diversas áreas cerebrais ligadas à criatividade. Um estudo israelita realizado pela psicóloga Ella Mirin-Spektor, do Departamento de Psicologia da Universidade Bar-Illan, de Ramat Gran, demonstrou que, diante de uma reclamação expressa de maneira sarcástica, os funcionários da central de atendimento de uma companhia telefônica se mostravam mais propensos a resolver o problema de modo criativo do que quando o mesmo tipo de reclamação era manifestado apenas com raiva. "É como se o sarcasmo fosse capaz de estimular o pensamento complexo e ao mesmo tempo atenuar os efeitos negativos da raiva", afirma a psicóloga.

A ginástica mental exigida por quem escuta uma frase de escárnio requer o desenvolvimen­to daquilo que os psicólogos do aprendizado chamam de teoria da mente, ou seja, a capaci­dade de ir além do significado literal das pala­vras e entender o que o outro está pensando. Quando você derruba uma taça de vinho na toalha e alguém familiar diz "ótimo trabalho", seu cérebro deve executar um intenso exercício para decifrar o significado da afirmação, ainda que você não se dê conta desse processo.

E, de fato, de acordo com os resultados de estudos recentes realizados com base no mapeamento cerebral e em neuroimagens, o sarcasmo envolve diversas áreas cerebrais. A neuropsicóloga Katherine Rankin, da Uni­versidade da Califórnia em São Francisco, descobriu que criar uma frase sarcástica requer com certeza a participação do lobo temporal e para-hipocampal. Também se sabe há muito tempo que quem sofre de demência frontotemporal não é capaz de distinguir uma afirmação sarcástica de uma sincera. Por essa razão, Katherine propôs usar a perda dessa ha­bilidade como indicador diagnóstico do reco­nhecimento precoce desse tipo de demência.

Segundo outro estudo conduzido pela pesquisadora Simone Shamay-Tsoory, do Rabam Medical Center de Haifa, o processo de compreensão de uma afirmação sarcástica começa no córtex do hemisfério esquerdo, destinado à elaboração da linguagem, que imediatamente faz uma análise literal da fra­se. Depois, a competência passa aos lobos frontais e ao hemisfério direito, ao qual cabe a tarefa de interpretar o contexto social em que a afirmação foi feita. É aí que, segundo os es­tudos da pesquisadora israelita, ocorre o reco­nhecimento da contradição entre o significado literal e o verdadeiro. Enfim, é acionada a área ventromedial, capaz de reelaborar todas as informações recolhidas, verbais e não verbais, o que permite reconhecer a eventual alfinetada humorística. "Considerando todo o esforço que o cérebro realiza para assimilar o escárnio e o consequente gasto de energia para executar essa tarefa, podemos deduzir que deve existir aí um significado evolutivo, pois provavelmente saber administrar o sarcasmo, sendo agente ou destinatário dele, é uma vantagem social", observa o psicólogo Luca Casadio.

Para saber mais 

Non dicevo sul serio - Ri­flessioni su ironia e psico­logia. A. Marchetti. Franco Angeli, 2007.
Ousar rir. Daniel Kupermann. Civilização Brasileira, 2003.
Site: www.sarcasmsociety.com

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