Crer faz bem?


A pergunta parece inevitável quando se recorre à psicologia para analisar os efeitos da fé e compreender como a espiritualidade pode nos alienar e prejudicar ou oferecer apoio nos momentos difíceis.

Revista Scientific American - por Paola Emilia Cicerone*

A religião surgiu na história da humanidade com as primeiras agregações sociais e, embora não seja a única possibilidade de conferir sentido à existência, para milhões de pessoas em diferentes épocas e culturas tem sido uma forma eficiente de se projetar no futuro com mais segurança. Ideais políticos, comprometimento com causas sociais ou ecológicas podem assumir a mesma função psíquica; porém, pelo modo como é estruturada na cultura, a crença religiosa funciona como um organizador psíquico privilegiado - embora exista o risco de instituições, dogmas e rituais exageradamente rígidos favorecerem justamente o oposto: confusão, fanatismo e adoecimento mental.

Mesmo quem reconhece a importância da religião não economiza críticas. "Em nome da fé se justificaram ações de todo gênero, dos gestos de generosidade às atrocidades", comenta a psicóloga Israela Silberman, professora da Universidade Colúmbia, que há vários anos estuda o tema. "Sabemos, por exemplo, que os sites com conteúdo religioso estão entre os mais visitados da internet. Em muitos países, padres e pastores são recordistas de vendas de CDs. E, recentemente, a revista Time incluiu entre os personagens mais influentes do nosso tempo três figuras ligadas à religião de diferentes modos: papa João Paulo II, Dalai Lama e Osama bin Laden."

O professor de religiões comparadas da Universidade Western Michigan Thomas Lawson lembra que, muitas vezes, a fé contribui para estabelecer a distinção entre grupos, reforçando a coesão social e fornecendo uma sólida motivação para comportamentos altruísticos. Em muitas culturas é justamente a religião que dá forma ao tecido social. "Não existem sociedades completamente sem religião, exceto poucas comunidades que tentaram eliminá-la, substituindo-a por utopias como o marxismo", observa a psicóloga Antonella Delle Fave, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Milão.

  • Experiência singular

Nos últimos anos, muitos especialistas têm discutido as nuances do conceito de religião. "Podemos defini-la como um sistema de significados centrado no sagrado que se torna a lente através da qual percebemos a realidade", propõe Silberman, em artigo publicado no Journal of Social Issues. "Esse sistema, formado por crenças e expectativas, influencia a vida dos indivíduos, nas relações consigo mesmos e com os outros. E, para muitos, confere sentido à própria história do nascimento à morte e além."

Em muitos casos, a adoção de uma religião provoca grande angústia: talvez porque muitas crenças proponham modelos de comportamento fortemente baseados nas noções de culpa e punição. "Os mandamentos ditados pelas diversas religiões parecem destinados a permanecer como objetivo inatingível e contribuem para criar a tensão ética que se renova constantemente", diz o psicanalista Mario Aletti, professor e presidente da Sociedade Italiana de Psicologia da Religião.

Seu objeto de estudo é a vivência subjetiva, o que de psíquico há na religião. Para ele, é incontestável que, em sua evolução histórica, as diversas fés seguem percursos diferentes e contribuem de modo variado para estruturar a personalidade do indivíduo. As pessoas se tornam religiosas ou atéias no processo de interação e negociação com o universo simbólico da religião proposto pela cultura. No Ocidente, até quem não é crente não pode prescindir da tradição judaico-cristã que está indissoluvelmente ligada à nossa cultura, assim como no Oriente estão o hinduísmo e o budismo.

E é inevitável que cada crença forneça suas próprias respostas a interrogações universais. "Budismo, cristianismo e judaísmo, por exemplo, propõem escalas de valores e modelos educativos diversos e também diferentes sentidos da existência", afirma o psicólogo Dario Galati, da Universidade de Turim. "A tradição judaico-cristã acentua o erro humano, a marca representada pelo pecado. Em outras religiões, como no hinduísmo, o abismo entre o homem e a divindade pode ser preenchido; já no islamismo prevalece a submissão do homem. Na maioria das religiões existe também um filão místico que propõe a idéia de uma fusão com o divino."

Outras variantes nascem de um entendimennto diferente de cada fé em relação à história. A tradição judaico-cristã enfatiza o transcorrer do tempo, o que no judaísmo implica o contínuo debate sobre a Torá e até mudanças de interpretações do contexto histórico. Já o hinduísmo considera a existência de ciclos temporais em que cada mutação assume importância relativa. "Cada fé vive fases alternadas de evolução e estagnação. Se a religião é um conjunto de instruções culturais, pode "fazer a escolha" de não se transformar e cristalizar-se, sem evoluções. O problema prático dessa situação é que, em nome da fé são queimados livros e as mulheres impedidas de se emancipar socialmente, por exemplo", ressalta Delle Fave. Mas enquanto na evolução biológica o erro leva à morte do organismo, na cultura não é selecionado o "gene" t; mais adequado à sobrevivência, mas o mais forte naquela fase específica.

A visão evolucionista é somente uma das abordagens possíveis da religião. Alguns psicanalistas dedicam particular atenção à relação entre a vivência religiosa e figuras parentais. Já a linha cognitiva, muito difundida sobretudo nos Estados Unidos, estuda as influências ambientais e as reações do indivíduo frente aos estímulos. "A religião pode produzir uma vasta gama de efeitos, contribuindo para tomar os indivíduos felizes, amigáveis e cooperativos ou infelizes, isolados ou até mesmo hostis perante aqueles que não pertencem ao seu grupo."

São temas com os quais já se confrontaram os pioneiros da psicologia moderna. No ensaio O futuro de uma ilusão, de 1927, Freud diz que a religião surge da fragilidade humana e do reconhecimento, por parte do homem, de que é indefeso frente às forças da Natureza e aos próprios anseios, que tantas vezes não compreende. William James aborda em As várias formas de consciência religiosa, de 1902, os aspectos da vivência psicológica, notando como isso pode ser fonte de serenidade para alguns e de tormento para outros. E Abraham Maslow descreve a tendência do homem a viver experiências transcendentais, consideradas de caráter religioso.

Em 1909, durante o VI Congresso Internacional de Psicologia, o pesquisador Theodore Flournoy propôs dois princípios metodológicos para esse campo da psicologia: o da exclusão da transcendência (que prevê a abstenção dos juízos de valor metafísico do conteúdo da crença) e o da interpretação biológica da religiosidade (segundo o qual a relação humana com sua crença deve ser estudada como um processo psicofísico, que se expressa por meio de comportamentos observáveis e interpretáveis).

"Freud sustentou que a origem do pensamento religioso estava vinculada, para cada indivíduo, às relações com o próprio pai", diz Aletti. "Posteriormente, a psicanálise passou a valorizar ambas as figuras parentais e a trabalhar com a idéia da existência de outras relações simbólicas de filiação, nas quais o pai representa a ordem e o limite, mas também a promessa e a possibilidade de desenvolvimento. "O processo psicológico individual que nos leva a definir a idéia de Deus é inevitavelmente antropomorfizada, traduzida em uma linguagem metafórica e simbólica. "É comum que o crente identifique o ser divino com a idéia que tem de si mesmo; nesse sentido, a fé é, uma busca contínua por um objeto que é por definição latente, presente- mas não atingível", salienta o psicanalista.

Os americanos, que costumam primar pelo pragmatismo, criaram uma escala espiritual: um teste que funciona como indicador de bem-estar. Um estudo sobre religiosidade e valores, publicado em 2004 na revista Personality and Individual Differences pelo pesquisador Vassilis Saroglou, diretor do centro de psicologia da religião da Universidade Católica de Leuven, Bélgica, investigou cientificamente a influência da fé e seus eventuais benefícios. Os dados colhidos por meio de entrevistas com mais de 8 mil voluntários em 15 países mostraram (talvez previsivelmente) que pessoas religiosas tendem a favorecer valores que promovem a ordem social, costumam apresentar comportamentos de desconfiança em relação à independência, à autonomia e a possíveis transformações da situação vigente, não prezam o hedonismo e aparentam pouco interesse pelo poder e pelo sucesso. Segundo o autor, muitos desses comportamentos são constantes em cristãos, judeus e islâmicos praticantes. Outros estudos de Saroglu mostram que os jovens crentes tendem a manifestar comportamento mais altruístico e empático.

  • Posse da verdade

Deus pode assumir diversas facetas: a de um ser benevolente e amoroso ou de uma divindade severa e vingativa. "Obviamente a religião é capaz de produzir efeitos tanto positivos quanto negativos sobre os indivíduos e a sociedade: criar conflitos no âmbito familiar, mas também acelerar soluções; levar ao perdão ou à vingança; encorajar o terrorismo e a violência ou a tolerância", sintetiza Silberman. No que diz respeito às relações da pessoa consigo mesmo, pode reforçar a auto-estima ou diminuí-la.

"Os sistemas religiosos que impelem à crença em um modelo de recompensas gerido por uma divindade que acolhe os justos e pune os maus podem garantir bom nível de bem-estar e serenidade, mas também povocar pungentes desilusões quando as esperanças não são satisfeitas", observa Silberman.

Especialistas concordam que, qualquer que seja a fé, a inflexibilidade e a impossibilidade de considerar e respeitar outras crenças (até para tentar se defender da insegurança que produzem os questionamentos) podem ser nocivas. "Adeptos do fundamentalismo esquecem que a religião é um processo de aquisição - e não a posse definitiva da verdade. É o comportamento de quem se julga um sujeito - ou um povo - privilegiado e não consegue aceitar, sem renunciar à própria fé, o percurso vivido por outros", explica Aletti. Em uma óptica de evolução cultural, a conduta dos kamikazes japoneses e as diversas formas de martírio explicam-se pelo desejo de fazer sobreviver e triunfar a própria crença mesmo que o preço seja a vida - a própria e a dos outros. Afinal, a religião faz bem? A resposta é ao mesmo tempo assertiva e evasiva: depende - mais de quem a segue e de como é praticada que do sistema de crenças em si.
 
Crença e magia

Em muitos casos, a fé estrutura-se sobre os alicerces do pensamento mágico, típico das primeiras fases do desenvolvimento infantil (quando a criança pensa ser capaz de dominar o mundo segundo sua vontade e suas atitudes). "Se nos dirigimos a Deus para garantir um benefício material isso significa que acreditamos que podemos influenciá-lo, assim como os magos crêem poder manipular a realidade. Essa forma de pensar contrapõe-se à do crente que vive a prece como oportunidade de relacionar-se com o divino e olhar a própria realidade sob outras perspectivas", diz o psicanalista Mário Aletti.

Embora algumas crenças beirem os limites da patologia, a religião não é em si patológica. Ao menos não mais que qualquer outra manifestação cultural ou institucional que apresente ordem ideológica e normativa forte e atraia pessoas psiquicamente frágeis ou já sobre os alicerces do pensamento mágico, típico das primeiras fases do desenvolvimento infantil (quando a criança pensa ser capaz de dominar o mundo segundo sua vontade e suas atitudes). "Se nos dirigimos a Deus para garantir um benefício material isso significa que acreditamos que podemos influenciá-lo, assim como os magos crêem poder manipular a realidade. Essa forma de pensar contrapõe-se à do crente que vive a prece como oportunidade de relacionar-se com o divino e olhar a própria realidade sob outras perspectivas", diz o psicanalista Mário Aletti.

Embora algumas crenças beirem os limites da patologia, a religião não é em si patológica. Ao menos não mais que qualquer outra manifestação cultural ou institucional que apresente ordem ideológica e normativa forte e atraia pessoas psiquicamente frágeis ou já perturbadas. Personalidades com tendências psicopatológicas podem encontrar na espiritualidade canais privilegiados de expressão, assim como em outros âmbitos da vida quotidiana, como a política ou postos de liderança.

Para conhecer mais

Identità religiosa, pluralismo religioso, fondamentalismo. ALETTI, M. e ROSSI, G. (orgs.). Centro Scientifico Editore, 2004.
L"illusione religiosa: rive e derive. ALETTI, M. e ROSSI, G. (orgs). Centro Scientifico Editore, 2001.

*jornalista científica - Tradução de Neury Lima

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