Criatividade e disciplina não são excludentes


Disciplinar é preciso. Astronauta brasileiro fala sobre a importãncia da disciplina e da atuação dos pais no desenvolvimento pessoal e profissional dos jovens nos dias de hoje.

Revista Escola Particular - por Adhemar Oricchio e Paula Hernandes 

O bauruense Marcos Pontes foi o primeiro brasileiro enviado a uma missão espacial em 2006. Engenheiro aeronáutico, consultor técnico de projetos, acadêmico e pai de dois filhos adultos, Pontes tem em sua experiência de vida o propulsor de suas palestras motivacionais e de sua atuação como coach, enfatizando a autodisciplina como um dos fatores es­senciais para o sucesso na construção de um projeto de vida pessoal.

Em sua participação no Saber 2011, Pontes foi muito bem acolhido pelos congressistas, que fizeram fila para ter seus livros autografados, além de tirar fotos ao lado do astronauta, cuja palestra versou sobre a presença de referenciais dos ambientes escolar e familiar no preparo e no desenvolvi­mento profissional. Em entrevista à Escola Particular, ele fala sobre sua motivação em palestrar para o público educacional e opina sobre questões que abrangem o universo da educação.

Escola Particular - De que forma a sua experiência como astronauta pode ajudar as crianças em idade escolar?

Marcos Pontes - Acho muito importante conseguir colocar boas ideias na cabeça desses jovens, porque é preciso motivar essa garotada a estudar, a pensar em ciência e tecnologia como uma coisa legal, que é o que falta no Brasil, com enfoque na divulgação científica. Percebo que muitos jovens ainda pensam a ciência como uma coisa chata, centrada na figura de um homem trancado num laboratório. Quando isso acontece, eles não vêem o lado legal da ciência.

Escola Particular - Atualmente, os educadores se queixam da falta de limites das crianças. De que maneira a moti­vação e o foco na preparação para o futuro trabalham esse olhar para a questão dos limites, tão debatida na área da educação?

Marcos Pontes - Concordo em todas as letras com isso [a falta de limites nas crianças de hoje]. Na minha infância, os limites foram dados naturalmente pelas necessidades; depois eles vieram com os ensinamentos militares. O Brasil, por ter passado por um regime ditatorial, tem ainda algumas distorções sobre como se vê a doutrina militar, que tem muita coisa boa em termos de autodisciplina e de superação, uma vez que o treinamento faz a pessoa suportar determinadas situações que não são confortáveis, visando a um objetivo posterior. Nas minhas con­versas com os jovens, eu tento mostrar esse lado, para que eles conheçam seus limites e possam expandi-los, no que diz respeito ao campo do conhecimento. É importante que eles saibam de suas limitações e quais as maneiras de superá-Ias para alcançar mais.

Escola Particular - Outra questão disciplinar está rela­ cionada aos casos de bullying. Esse comportamento agressivo sempre existiu, mas não de forma exacer­bada. O que o senhor acha disso?

Marcos Pontes - Eu não concordo com a ideia de que a criança pode fazer de tudo. A cria­tividade e a disciplina podem conviver muito bem e não são excludentes. Muito pelo contrário: a disciplina exige da criatividade as melhores soluções para a expansão do conhecimento e o desenvolvimento de coisas novas, mesmo com todas as tarefas que precisam ser feitas. O bullying, de certa forma, está relacionado com essa falta de disciplina, porque quando se permite que uma criança possa fazer de tudo, ela tanto pode fazer de tudo consigo mesma, como pode fazê-lo com os outros. Isso cria certo egoísmo na criança, porque ela deixa de se co­locar no lugar do outro.

No momento que há mais disci­plina, mostra-se a definição clara dos papéis da família e da escola, no que se refere à formação de valores, como respeito e a própria questão da cidada­ nia e da religiosidade. Hoje, as famílias colocam muita carga em cima das es­colas, deixando parte da sua obrigação de educar. A escola, por sua vez, não está preparada para assimilar isso, até porque sua função é a de trabalhar o conhecimento.

Escola Particular - Como reverter este quadro?

Marcos Pontes - Acho que a participação da família nesse contexto é extremamente im­portante até para gerar esses limites de modo a fazer com que a criança entenda quais são os seus direitos, até onde eles vão e quando começam os direitos dos outros. Minha mãe sem­pre me dizia: "o seu direito termina quando começa o do outro". Acho que se conseguirmos sensibilizar as famí­lias para sua importância na formação do indivíduo e a importância de sua participação na escola, será possível reduzir a agressividade.

Escola Particular - O que o senhor sugere para a melhoria da educação no país?

Marcos Pontes - A minha sugestão é estrutural, porque aqui no Brasil pagamos impostos que vão para algum ponto do governo e depois esse dinheiro é distribuído dentro dos orçamentos para vários locais. Não necessariamente o dinheiro que eu gasto com o pagamento desses im­postos vai especificamente para a edu­cação e muito menos, para a educação do meu distrito. Eu, particularmente, gosto de um sistema de tributação que existe nos Estados Unidos, onde moro.

No fundo do meu quintal em Houston, há uma escola que corresponde ao nosso Ensino Funda­mental I, (Elementary School). É só abrir a cerca do quintal que já estou no pátio da escola. Lá, existe um imposto específico para educação e o dinheiro recolhido é aplicado no distrito de residência do contribuinte. Então, todas as crianças que moram num mesmo distrito têm que estudar nas escolas locais. Minha filha, inclusive estudou nessa escola vizinha. Esse imposto é municipal, o que dá uma certa sensação de posse, uma vez que eu ajudo a pagar para aquela escola ficar em bom estado.

Escola Particular - Essa sensação de posse ajuda o morador a cobrar providências?

Marcos Pontes - Não só cobrar, como também ajudar, porque a escola é minha também. Então, quantas vezes eu já não abri a cerca dos fundos da minha casa, peguei o meu cortador de grama e fui cortar a grama da escola? Se os brinquedos do parquinho estão com a tinta lascada e eu tenho tinta em casa, vou lá, pinto e coloco uma plaquinha avisando "tinta fresca".

Às vezes, os pais se reúnem e vão arrumar a escola, pintar alguma coisa, e eu faço isso, mesmo depois de a minha filha ter saído de lá. Então, há essa sensação de participação. Aqui, embora as escolas sejam também nossas, a gente não tem a sensação de participação. É o discurso "O governo cuida". Mas eu também tenho que cui­dar. Outra questão é a participação dos pais. Cada um tem sua profissão e não custa nada, pegar meia hora uma vez a cada três ou seis meses para participar de atividades promovidas pela escola.

Uma diferença que noto dos Estados Unidos em relação ao Brasil é de que lá existe essa cultura de, quinze­nalmente, às sextas-feiras no período da tarde, os pais irem para a escola para falar sobre sua profissão e sua rotina de trabalho. Isso é bom para a criança sentir e mostrar quem são seus pais, além de ser bom para os pais se apresentarem e contarem sobre a sua rotina. Essa participação é muito im­portante, porque é a oportunidade que o pai tem de se aproximar e averiguar as condições físicas da escola, conver­sar com os professores fora daquelas situações de reunião. É gostoso par­ticipar e saber como está o seu filho. O professor também pode aproveitar a oportunidade e orientar o pai.

Outro ponto interessante é que lá existe uma polícia específica para a escola. São policiais treinados para lidar com os jovens e eles só trabalham dentro das escolas. Cada instituição, dependendo do tamanho, tem dois ou três policiais por turno e eles conhe­cem cada um dos meninos e meninas que estão lá, além dos pais. Então, se algum estranho entra nas dependências da escola, o policial o aborda educadamente e pergunta o que ele veio fazer ali. Se alguma criança reage de maneira diferente do habitual, o policial consegue perceber isso, no caso de uma criança acuada, suspeita de ser vítima de bullying, por exemplo. Eles também falam a respeito de drogas, de cuidados com a segurança. Isso aproxima o policial da realidade das crianças, pois é uma pessoa que trabalha ali com elas.

Escola Particular - De que maneira uma educação mais disciplinada faz com que os jo­vens encarem melhor os desafios?

Marcos Pontes - A disciplina esta relacionada à su­peração de obstáculos. Como sou engenheiro, baseei o meu livro "É possível: como transformar seus sonhos em realidade" numa estrutura de gerenciamento de projetos. Quando se tem um projeto para ser realizado, "primeiramente, surge uma ideia, o conceito e, com isso, deve-se extrair o máximo de visões para o que se quer alcançar como resultado.

No momento seguinte, é hora de por o pé no chão e pensar nas coisas que a pessoa se imagina fazendo para, a partir daí, traçar as metas, uma a uma.

A disciplina entra na hora do planeja­mento, que é extremamente necessário para a realização do objetivo proposto. Esse planejamento precisa ser rigoro­samente seguido e exige preparação, pois é necessário controlar todas as exigências e superar os obstáculos que surgem no meio do caminho. Na realidade, é preciso aprender com os percalços e fazer alterações na sua rota para alcançar o sucesso. Se não há disciplina, nunca se vai conseguir cumprir o planejamento.

Escola Particular - Nesse contexto, qual a disciplina dos pais?

Marcos Pontes - Os pais têm uma função essencial no crescimento e no desenvolvimento da pessoa e essa função não é a de tirar os obstáculos da frente da criança ou do jovem. Todo mundo que tem filho corre esse risco, principalmente quando se vive uma situação difícil. A primeira coisa que passa pela cabeça dos pais é: "o meu filho não vai sofrer como eu sofri e por isso vou dar tudo para que ele não passe pela dificuldade que passei". Só que, ao fazer isso, é como se o pai colocasse a criança numa redoma e não deixasse que ela criasse anticorpos para combater as doenças.

É importante que a criança tenha desafios e o pai pode, por vezes, colocar obstáculos para ver como a criança os supera. O papel do pai é o de observar de perto o desenvolvimento do seu filho e isso não significa ficar mexendo nas coisas dele, mas algo muito mais simples: conversar. Em vários casos, a gente não conversa com os filhos, o que não quer dizer distância.

Muitas vezes os pais dizem que trabalham muito tempo fora e não con­seguem arrumar tempo para falar com os filhos. Consegue, sim. Eu mesmo fico a maior parte do tempo longe dos meus filhos fisicamente, mas se você me perguntar o que está acontecendo com cada um deles, posso te dizer com precisão, porque hoje temos telefone, internet, skype ...

Escola Particular - Como administrar isso?

Marcos Pontes - Quando surgem as oportunidades de aproximação física, é preciso dividir o tempo. Se estou em casa num final de semana, separo um tempo para os
meus filhos e pode ligar o Papa, mas se eu reservei aquele momento para ficar com eles, deixo o celular e o rádio desligados. A aproximação tem que ser conquistada naturalmente, não adianta você ter passado 10 anos sem falar direito com seu filho e de repente querer conversar todos os dias com ele, porque ele não vai aceitar isso de uma hora para outra. Ma ara falar com os filhos. Consegue, sim. Eu mesmo fico a maior parte do tempo longe dos meus filhos fisicamente, mas se você me perguntar o que está acontecendo com cada um deles, posso te dizer com precisão, porque hoje temos telefone, internet, skype ...

Escola Particular - Como administrar isso?

Marcos Pontes - Quando surgem as oportunidades de aproximação física, é preciso dividir o tempo. Se estou em casa num final de semana, separo um tempo para os
meus filhos e pode ligar o Papa, mas se eu reservei aquele momento para ficar com eles, deixo o celular e o rádio desligados. A aproximação tem que ser conquistada naturalmente, não adianta você ter passado 10 anos sem falar direito com seu filho e de repente querer conversar todos os dias com ele, porque ele não vai aceitar isso de uma hora para outra. Mas, de repente, você pode pedir ajuda em alguma coisa que ele saiba e isso talvez possa causar uma aproximação maior, para, a partir de então, você começar a perguntar sobre os detalhes.

Escola Particular - Educação é ...

Marcos Pontes - Essencial e uma paixão minha. A meu ver, é a maneira de modificar um país. Não adianta fazer campanhas com adultos se não trabalharmos também
as crianças. Aqui no Brasil, a gente dá muito enfoque ao Ensino Superior se comparado ao Ensino Fundamental que, como o próprio nome já diz, é fundamental. Acho que deveria haver uma estrutura de ensino básico que comportasse mais alunos em período integral, com atividades extras no contraturno.

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