Da Timidez à Fobia Social


A simples vergonha em se apresentar em público transformada em uma angústia conflituosa pode ser indício de um Transtorno de Ansiedade Social.

Revista Psique Ciência & Vida - por Alaor Santos Filho

Algum grau de ansiedade em situações de exposição social é algo que faz parte da vida de todos nós. Para alguns, o nervosismo surge para fazer uma entrevista de emprego ou para falar em público no trabalho ou na faculdade. De fato, sentir-se ansioso não é doença e até determinado ponto é adaptativo, melhorando nosso desempenho, e por vezes, tendo a função de proteção. porém, quando essa ansiedade é excessiva, caisando um sofrimento ou fazendo com que a pessoa se esquive de diversas situações isso começa a se tornar um problema. Por exemplo, vamos imaginar  um estudante que precisa apresentar  um seminário na sala de aula. Ficar moderadamente ansioso é bom para ele no sentido de ajudá-lo a estudar com antecedência, ensaiar sua apresentação e, consequentemente, ter um melhor desempenho. No entanto, caso essa ansiedade seja tão intensa que na hora da apresentação a pessoa comece a gaguejar ou dê um "branco" e ela não consiga apresentar o que havia preparado, então essa ansiedade deixa de ser saudável e torna-se um problema.

A timidez pode ser definida como um desconforto ou inibição em situações de interação social, geralmente associada  a grande preocupação com as atitudes, reações e pensamentos dos outros. Seria um grau de ansiedade em situações socias um pouco mais elevado, mas ainda saudável. E aqui é importante ressaltar: timidez não é doença. Entretanto, para algumas pessoas, a ansiedade diante das situações sociais torna-se  tão intensa, incapacitante e paralisante, que prejudica as atividades do dia-a-dia e os relacionamentos interpessoais. Nesse caso pode ser feito o diagnóstico de Fobia Social.

Assim, a timidez é uma ansiedade normal que diminui com a exposição e a experiência de vida, podendo até contribuir para um desempenho melhor nas situações sociais. Só falamos em Fobia Social, ou Transtorno de Ansiedade Social (seu nome oficial), quando a ansiedade é persistente, de alto grau e resulta em comprometimento no funcionamento social e psíquico. Fobia Social é muito mais que timidez.

A característica essencial da Fobia Social é a ansiedade diante de situações sociais em que a pessoa sente que está sendo observada por pessoas fora do seu ambiente familiar. Estas situações incluem falar em público - a situação precipitante mais comum - comer, beber, e escrever em frente aos outros, encontrar pessoas que representam figuras de autoridade ou convidar alguém para um encontro. Essas situações são evitadas ao máximo, mas caso não seja possível, causam amrcante ansiedade antecipatória, desconforto e mal-estar. Os sintomas mais comumente relatados incluem coração acelerado, rubor, sudorese, tremores nas mãos, bloqueio da fala, todos observáeis pelas outras pessoas, o que ajuda a aumentar a ansiedade.

É um dos transtornos psiquiátricos mais comuns, a idade média de início está entre 11 e 19 anos- um período da vida em que a personalidade e habilidades sociais ainda estão sendo desenvolvidas - e o início é seguido por cronicidade e prejuízo que afeta praticamente todas as áreas da vida. Pacientes com Fobia Social apresentam tendência a pior desmpenho escolar, têm menor probalbilidade de se casar e maior chance de continuar morando com os pais, nível de renda mais baixo e são mais susceptíveis a ficar desempregados. O diagnóstico e a intervenção precoce podem prevenir o desenvolvimento de outros problemas e melhorar a qualidade de vida das pessoas com Fobia Social.

  • Critérios diagnósticos

A Fobia Social - ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS) - pode ser definida como o medo excessivo, persistente e irracional de uma ou mais situações sociais ou de desempenho, como falar em público, comer ou escrever na frente de outras pessoas. É o transtorno de ansiedade mais comum na população geral e o terceiro transtorno psiquiátrico mais frequente, com taxas de prevalência em 12 meses entre 7 e 10%.

Nos últimos anos o interesse científico na área tem aumentado e, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, sob a coordenação do prof. Dr. José Alexandre de Souza Crippa, foi desenvolvido um estudo que coloca em discussão se os critérios diagnósticos atualmente definidos para caracterizar esse transtorno estariam adequados. A pesquisa foi premiada em Brasília durante o Congresso da Associação Brasileira de Psiquiatria, quando recebeu o mais importante prêmio da entidade.

Atualmente a ansiedade social é entendida como um transtorno psiquiátrico, como uma patologia, quando há medo excessivo, persistente e irracional de uma ou mais situações sociais ou de desempenho, a exposição às situações temidas quase que invariavelmennte provoca ansiedade, há sofrimento importante pelo quadro e evitação dessas situações quando possível.

Porém, partindo do princípio que algum grau de ansiedade para situações sociais e de desempenho é algo que faz parte da vida de virtualmente todas as pessoas, talvez indivíduos que não preencham todos esses requisitos, mas têm um temor acentuado de situações sociais ou de desempenho, também mereçam atenção e eventualmente tratamento. Essas pessoas são classificadas como subclínicas, por apresentarem sintomas abaixo dos limites diagnósticos.

O estudo avalia a presença de outros transtornos psiquiátricos, como depressão, transtorno de pânico ou dependência de álcool, drogas, e o comprometimento no funcionamento psicossocial (o comprometimento em situações como escola, casamento/namoro, trabalho, família, amizade ou atividades da vida diária) em indivíduos com Transtorrno de Ansiedade Social, com ênfase sobre a apresentação denominada subclínica ou subsindrômica desse transtorno, que são as pessoas com medo excessivo de uma ou mais situações sociais, mas que não preenchem os critérios diagnósticos de evitação ou prejuízo funcional e/ou ocupacional devido a este medo. Vale ressaltar que os subclínicos são sujeitos que atualmente são definidos como "normais", pois esses critérios são fundamentais para o diagnóstico.

A amostra inicialmente composta por mais de 2 mil estudantes universitários foi avaliada por meio de entrevistas diagnósticas e a aplicação de escalas e dividida quanto ao Transtorno de Ansiedade Social (TAS) em três grupos: Grupo TAS, grupo Subclínico e o grupo Controle - aqueles sem diagnóstico de TAS.

Quanto aos resultados, foi verificada comorbidade com outros transtornos psiquiátricos de 71,6% no grupo TAS e de 50% nos sujeitos subclínicos, que diferiram estatisticamente em relação aos controles, com 28,7%. A pesquisa revelou, ainda, que a presença simultânea de outros transtornos foi progressivamente maior de acordo com o subtipo e a gravidade do TAS, com taxas dos sujeitos subclínicos ocorrendo de modo intermediário. Assim, as pessoas do grupo subclínico para o Transtorno de Ansiedade Social apresentam uma frequência maior de outros transtornos psiquiátricos concomitantes (principalmente depressão, seguido de outros transtornos ansiosos - como fobias específicas e Transtorno de Ansiedade Generalizada - e abuso ou dependência de álcool) que as pessoas do grupo controle.

As implicações clínicas referem-se à indicação de que indivíduos com múltiplos transtornos estão entre os mais gravemente afetados. Além disso, pesquisas prévias demonstraram que indivíduos com comorbidades têm maior gravidade de sintomas, maior tendência a tentar suicídio, são mais propensos a procurar tratamento de saúde mental e apresentam pior prognóstico.

Em relação ao funcionamento psicossocial, o grupo subclínico apresentou escores maiores que o grupo controle em todas as escalas utilizadas, demonstrando um maior comprometimento de seus relacionamentos sociais, na escola, namoro, família, amizades, trabalho, ou atividades do dia-a-dia. Há nesse grupo considerável incapacidade e sofrimento, o que reflete de maneira geral os prejuízos gerados pelos sintomas, e de certa forma contradiz o fato de que a maior parte dos sujeitos subclínicos não preenche o critério diagnóstico de comprometimento. Quanto ao grupo TAS, apresentou maior comprometimento que os dois grupos anteriores em todos os domínios avaliados, fortalecendo a noção de espectro.

Assim, o estudo confirma e amplia os achados anteriores a respeito das taxas de comorbidades e comprometimento no funcionamento psicossocial no TAS. Mas provavelmente os resultados mais importantes referem-se ao fato de que tanto a prevalência de comorbidades quanto o comprometimento psicossocial apresentam valores "dose dependentes" sobre o diagnóstico, ou seja, quanto maior a "dose" de ansiedade social, maior a presença de comorbidades e maior o comprometimento psicossocial, ficando demonstrado que os sujeitos subclínicos, asssim denominados em função dos critérios diagnósticos atuais, apresentam considerável prejuízo no funcionamento psicossocial e têm taxas de comorbidades com outros transtornos psiquiátricos aumentadas, o que os diferencia dos sujeitos controles.

Dessa forma, síndromes do TAS abaixo do limiar diagnóstico parecem ser indicadores de psicopaatologia, comprometimento e incapacidade, um fato com importantes implicações clíínicas a respeito de diagnóstico. Vale lembrar que, pelas definições atuais, os pacientes considerados subclínicos são "normais" quanto ao TAS. A partir do momento em que as pessoas com ansiedade social subclínica forem entendidas como um grupo à parte, será possível estudar e estabelecer alternativas de intervenção e prevenção.

Assim, parece necessário e oportuno avaliar de forma ponderada se o critério de sofrimento e prejuízo funcional dos sistemas atuais de classificação e diagnóstico (CID 10 e DSM-IV) não precisariam de uma rediscussão e mudanças.

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