De cama – cérebro nos força a parar de gastar energia


Às vezes somos forçados pelo prórpio cérebro a parar de gastar energia em atividades temporariamente supérfulas.

Revista Scientific American - por Suzana Herculano-Houzel

Você já notou que resiste bravamente durante aquelas sé­manas de estresse para cumprir um prazo e entregar um trabalho ou fazer uma prova difícil - e tem grandes chances de sucumbir ao menor resfriado assim que o estresse acaba? Esse é um padrão bastante comum, que mostra como um pouco de estresse várias vezes é nosso aliado: enquanto nos sentimos no controle do problema, caminhando para sua resolução, o estresse nos mantém acesos, alertas, com a mente aguçada, os músculos prontos para a ação e o sistema imunitário "a toda". Mas passado o problema, o estado de prontidão se desfaz, o corpo facilmente sucumbe e ... ah, como é quase bom ficar levemente doente e poder curtir um travesseiro, um livro bobinho e botar o sono em dia sem culpa. Gosto de pensar nesse estado como "lassidão pós-estresse".

Assim como a prontidão do estresse agudo, o mal-estar que resulta do estado de baixa imunidade pós-estresse também pode ser um aliado poderoso. Se você não se sente bem é porque seu cérebro está recebendo sinais dos órgãos do corpo de que algo está errado e precisa da sua atenção. Uma causa comum de mal-estar são alterações corporais que escapam ao controle do cérebro, como a invasão do corpo por vírus e bactérias. No processo, várias interleucinas, substâncias produzidas pelo sistema imunitário em resposta à presença de invasores, entram no cére­bro e atingem o hipotálamo, que regula o funcionamento do corpo.

Em casos de invasão, uma das es­tratégias do hipotálamo para promover a recuperação do corpo é a febre. Já que vários vírus e bactérias têm dificuldades para se reproduzir acima de 37°C, o aumento na temperatura interna do corpo o ajuda a combater boa parte das infecções. Um truque esperto permite ao hipotálamo saber quando deve causar febre: ele detecta as pró­prias interleucinas produzidas pelo sistema imunitário como parte da resposta à infecção e, acionado por elas, aumenta o ponto de ajuste da temperatura corporal.

O hipotálamo age como um termostato de ar-condicionado: monitora constantemente a temperatura do sangue e a compara com um ponto de referência interno. Dependendo do resultado da comparação, ele faz você suar para perder calor por evapora­ção ou, ao contrário, aciona mecanismos de produção de calor: o metabolismo sobe, você esquenta e pode até começar a tremer. Se as interleucinas fizerem o ponto de ajuste de temperatura subir, por exemplo para 39°C, você ficará com febre e com aquela sensação desconfortável de frio; por mais que se envolva em cobertores, a sensação dura até o hipotálamo conseguir fazer o sangue chegar aos 39°C necessários para o novo equilíbrio.

A febre dura até o corpo se livrar do invasor (ou tomar­mos um antipirético, como aspirina, que desfaz o efeito das interleucinas), o que traz o ponto de ajuste do hipotálamo de volta aos 37°C originais. Estar a 39°C subitamente volta a ser excessivo, e com isso vem o suadouro, que faz a temperatura descer de volta
ao normal. Chutar as cobertas, nessas horas, é um alívio só.

Além da febre, as interleucinas fa­zem o hipotálamo abafar os sistemas de alerta e de motivação. Assim, enquanto as interleucinas estiverem elevadas no sangue, ficamos letárgicos; indispostos, desatentos e preguiçosos - somos forçados pelo próprio cérebro a parar de gastar energia em atividades tempo­rariamente supérfluas e dar chances ao corpo de se recuperar. É a maneira de o hipotálamo nos mandar para a cama­ e, em casos de teimosia, a única coisa que nos faz sossegar.

    Administração do Tempo

    Preencha aqui seus dados

© Copyright 2020 - Todos os direitos reservados à Methodus