Demasiado humano


As características mais marcantes do homem são a sua grandeza, tenacidade e arrogância, mas o aspecto mais revelador é o seu descompasso entre querer e fazer.

Revista Scientific American - pór Sidarta Ribeiro *

O traço mais comovente do macaco humano é sua grandeza. Quando acumula e compartilha recursos essenciais, demonstra estar à altura de Caia. Quando se eleva acima das necessidades básicas para perscrutar o infinito, brilha como cidadão do Universo. Em setembro de 2008, BilI Cates e Bono Vox anunciaram US$ 3 bilhões para erradicar a malária, a Noruega apartou US$ 1 bilhão para o fundo de conservação da Amazônia, e entrou em funcionamento o LHC, maior e mais potente acelerador de partículas do mundo, construído na fronteira franco-suíça ao custo de US$ 9 bilhões. Três exemplos poderosos do combate à miséria de corpo e alma. Ponto para a espécie.

O traço mais encorajador do macaco humano é sua tenacidade. Quase três décadas foram necessárias para construir o LHC. Com 27km de perímetro, a máquina mais cara e complicada de todos os tempos serve para chocar feixes de prótons com altíssima energia. Não se destina a melhorar a vida de ninguém, mas promete diminuir nossa ignorância sobre a origem e natureza da matéria.

No LHC trabalharam e trabalharão milhares de cientistas de inúmeros países, lado a lado, num esforço coletivo sem precedentes. Mas o macaco humano também é especial em sua capacidade de conflitar. Na contramaré do LHC, alguns céticos fizeram cálculos alternativos e concluíram que as colisões de prótons criarão buracos negros capazes de engolir todo o planeta. Chegaram a entrar na justiça contra o funcionamento da máquina do Apocalipse. Já refutado juridicamente, seu temor é recebido com indiferença pela grande maioria dos físicos, para quem tais buracos negros, ainda que surgissem, seriam minúsculos em tamanho e duração.

O traço mais patético do macaco humano é sua arrogância. Acreditar que atos humanos possam subitamente destruir ou salvar o planeta é de uma presunção colossal. Não há de ser a primeira vez que um de nós acredita dominar tanto poder. Assim foi com a bomba atômica, e no topo de um zigurate sumério, sacerdotes loucos de olhar vidrado terão ousado invocar dilúvios.

Por isso mesmo, talvez o traço mais perigoso do humano macaco seja o pendor para o risco. Confiamos demais em nossa sorte. O macaco experimenta, fuça, enfia a mão na cumbuca e a quebra para ver o que tem dentro. A bomba atômica não destruiu a atmossfera mas criou potencial para a morte em larga escala. Se o aquecimento global ainda afeta pouco a vida das pessoas, ursos polares degelados se parecem cada vez mais com pássaros dodô. A verdade é que tudo pode acontecer quando os prótons se chocarem no interior do LHC. Até mesmo nada. Com exceção dos especialistas, terráqueos comuns são leigos demais para opinar. As primeiras colisões do LHC estavam previstas para final de setembro.

Rufam os tambores da descoberta! Ao fundo, o chiado incômodo do fim dos tempos ...

A coisa mais reveladora a respeito do macaco humano é o descompasso entre desejo e realização. Somos azarados e capazes das falhas mais bisonhas. Nove dias após começar a funcionar, o LHC sofreu grande vazamento de hélio líquido. Se tudo correr bem, voltará a operar em 2009. O macaco trapalhão insiste e rói as unhas.

*SIDARTA RIBEIRO é neurobiólogo com Ph.D pela Universidade Rockefeller e pós-doutorado na Universidade Duke. Atualmente é diretor de pesquisas do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) e professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde investiga as bases neurais do aprendizado, comunicação, sono e sonhos.

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