Depressão: o Céu Negro ao Meio-Dia


"Se você não sabe para onde vai, todos os caminhos levam à depressão." (Lewis Carroll)

Revista Planeta - por Luis Pellegrini

Um mal da nossa civilização

Os dicionários definem depressão como um estado de desencorajamento, de prostração física ou abatimento moral, que surge concomitantemente com problemas reais ou imaginários, ou com experiências momentâneas de sofrimento. A depressão existe desde que o mundo é mundo, e suas causas foram atribuídas aos mais variados fatores, desde traumas físicos e/ou psíquicos, até alterações orgânicas do encéfalo, passando pelas interpretações místicas e esotéricas que apontam para a influência nefasta de espíritos desencarnados ou demônios e outras criaturas sobrenaturais.

Todas as escolas de medicina, todas as tradições religiosas tentaram compreender as causas dos estados depressivos e desenvolver métodos e técnicas para livrar suas vítimas do grande sofrimento que o mal acarreta. Sofrimento que não costuma se limitar ao próprio depressivo, já que se estende com freqüência às pessoas que com ele convivem.

Depressão não é doença à toa. É porta de entrada para uma enorme quantidade de outros males capazes de arruinar por completo a vida do depressivo, sua família, seu trabalho, seus projetos de vida.

Não deve, sobretudo, e como muitas vezes acontece, ser confundida com simples estados psíquicos negativos como melancolia, tristezas corriqueiras e temporárias, ou simples caprichos de indivíduos caracterizados por uma psicologia infantil.

A depressão, nas últimas décadas, saiu do rol das moléstias psíquicas ocasionais para passar a uma categoria mais importante: a das epidemias graves e de difícil controle.

O número já muito alto e crescente dos que sofrem de alguma forma de depressão - com conseqüente aumento exponencial do consumo de medicamentos antidepressivos - obriga a uma reflexão: qual a causa dessa explosão do número de depressivos em nossa civilização? A pergunta já contém a resposta: a nossa civilização. A nossa cultura da produtividade e do consumismo irresponsáveis, da erosão das escalas de valores existenciais, éticos e espirituais que, desde sempre, nortearam o ser humano diante de si mesmo, do próximo e do mundo.

O discurso, como vemos, é amplo e multifacetado. Razão pela qual este caderno especial sobre depressão não pretende esgotar o assunto, Queremos apenas apresentá-lo em suas linhas gerais aos leitores, e passar adiante um alerta quanto à sua importância no atual momento histórico, Queremos, mais uma vez, afirmar a necessidade de batalharmos todos, cada um do seu jeito e na medida das suas possibilidades, para a transformação do nosso mundo em algo mais verdadeiro, no sentido do resgate e do fortalecimento dos valores que realmente contam para a saúde, a felicidade e a realização plena das pessoas.

Mais que causa, o atual boom da depressão é conseqüência de uma civilização que perdeu a noção da sua razão de ser.

Depressão: A incapacidade de construir um futuro

Uma tristeza sem fim, a falta de energia, o desinteresse em encontrar pessoas, a sensação de que a vida não vale a pena e de que o fracasso é inevitável: eis algumas das escalas na rota da depressão, uma doença que afeta cerca de 340 milhões de pessoas em todo mundo.

Quem já foi assombrado pela depressão, ainda que uma única vez, não esconde que o episódio deixa marcas profundas. Algo como ter recebido a visita do demônio e ter convivido com ele cara a cara, sem ver saída e sem voz para pedir socorro. Diferente das manifestações de tristeza pelas quais nós passamos, a depressão é um mal que aflige cerca de 15% da população do mundo em pelo menos um momento de sua vida.

A maioria dos profissionais da área de saúde define a depressão um estado alterado de humor, relacionado a um elenco de sintomas e de reações a suas manifestações. Para quem cai nas suas garas, porém, a depressão é muito mais do que uma doença que afeta o humor - ela merece o respeito e o temor que só temos pelos algozes.

Clara( nome fictício) viu a depressão de muito perto e hoje sabe que esse buraco não tem fundo. Psicóloga e produtora teatral, hoje com 43 anos, ela nasceu no interior paulista e mudou-se cedo para a capital. Os pais, comerciantes bem-sucedidos com 15 lojas espalhadas por São Paulo, proporcionaram a ela uma vida de muito conforto material - estudou em colégios particulares de alto nível, foi à Europa algumas vezes e durante dois anos morou em Londres, aperfeiçoando-se nos estudos. O estilo de vida abastado deu a Clara a certeza de que o pai era forte, até imortal.

Quando ele morreu, não ficaram apenas a ausência e o desamparo: subitamente, ela teve de assumir o empreendimento da família e deparou com uma situação financeira bem complicada. Dívidas (que repercutem até hoje) e a inabilidade para lidar com algo tão concreto quanto advogados, cartórios e ações levaram-na a um beco sem saída, manifestado em agosto de 2003, "Quando achava que tinha chegado ao fim, algo acontecia que me levava ainda mais fundo e eu conheci, então, o que é a mais completa escuridão", relembra Clara, "Eu quis morrer, mas não tive coragem. Ou talvez algo dentro de mim, desde pequena, tenha pedido para eu entender o sentido ou a função de eu estar aqui. E foi por querer demais que saí do labirinto."

Tendência ao isolamento

O primeiro sintoma do início da escuridão foi a imobilidade, afirrma Clara. "Eu não tinha vontade de sair, de encontrar gente, porque para mim as pessoas eram falsas. Passei a não pagar mais nada. Não comia, não dormia, ficava ao computador 24 ho oras por dia, em relacionamentos virtuais. O sentimento mais forte era de incapacidade para qualquer coisa, a falta de vontade psíquica e física para fazer algo, ao mesmo tempo em que me sentia a grande vítima e todos os outros não passavam de filhos da ... ", admite.

O relato de Clara vai ao encontro do que se vê na literatura específica sobre a depressão, na qual as pessoas acometidas pelo mal se sentem fracassadas e sem valor. O analista junguiano James Hillman, autor dos livros Suicídio e Alma (Vozes) e O Código do Ser (Objetiva), assinala que há muito mais depressão à nossa volta do que imaginamos, e ressalta: "Ela é endêmica em nossa cultura, a maior reclamação apresentada na prática médica; relembrando algumas projeções recentes, acredita-se que a depressão irá defasar a força de trabalho nas duas próximas décadas."

A literatura sobre o assunto informa que uma das características da doença é o sofrimento intenso, na maior parte do dia, por pelo menos duas semanas. O sofrimento de Clara não durou apenas duas semanas; passou dos dois anos. "Eu chorava muito, me sentia traída e abandonada. Algumas pessoas realmente sumiram, não atendiam o telefone e acredito até que sentiam medo, como se eu fosse um vírus. Esse comportamento ficou mais claro nos amigos que tinham dinheiro; os que não o tinham não se preocupavam em perder alguma coisa, talvez porque não tivessem mesmo."

No auge da dor e da catatonia, Clara recebeu a informação de que o irmão fora assassinado numa avenida da zona oeste de São Paulo. "Senti inveja do meu irmão, que, tenho certeza, foi ao encontro da morte. Ele se envolveu com drogas e atiraram nele, mas sei que ele tinha desistido de viver. A maneira como fomos criados, com meu pai atendendo todos os nossos desejos, criou em nós a idéia da imortalidade, mas ele foi embora e não tínhamos a quem pedir ajuda", relembra.

Enquanto os braços da morte se abriam insistentemente, chamando Clara para a longa viagem, outros braços a acolhiam no mundo concreto e sustentaram os fios que a prendiam à vida. A relação amorosa daquele período foi decisiva para que ela se mantivesse viva e não perdesse de vez seus referênciais, endossando o que diz Andrew Solomon em seu denso livro O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão (Objetiva), no qual o autor combina a pesquisa com a autobiografia. "Ouça as pessoas que amam você", diz ele. "Acredite que vale a pena viver por elas, mesmo que você não acredite nisso." Não à toa, Solomon dedica o livro ao pai, "que por duas vezes me deu a vida. Ele tem sido, sempre, meu infalível esteio e minha grande inspiração". Sem pai, sem irmão e com as leis no seu encalço, Clara teve ao longo desse período uma parceira generosa e paciente, que se ocupava em prover a casa e conclamar a companheira a acreditar que havia saída.

Hoje, fora do quadro depressivo e quase sem medicação, Clara consegue distinguir bem a depressão da tristeza profunda. "Mesmo numa grande dor, você sabe que vai sobreviver, que a vida continua. Na depressão, é a completa escuridão, não há escapatória, a única saída é a morte." Solomon diz que a depressão é um estado quase inimaginável para quem não a conhece. A psicanalista búlgara Julia Kristeva, que vive na França, escreveu Sol Negro, Depressão e Melancolia. São referências que parecem reforçar que só mesmo as metáforas dão uma noção mais precisa sobre a depressão.

Recentemente, o perigo rondou o relacionamento de Clara com sua parceira e, uma vez mais, ela sentiu que podia perder. Em meio ao caos e à letargia, um momento de lucidez e força: "Eu soube, em algum lugar dentro de mim, que precisava voltar a viver justamente para resgatar a vida" , afirma, com vigor e segurança. "Tive a percepção das coisas à minha volta, a consciência de que estivera jogando nos outros a responsabilidade que é minha. Não, o inferno não são os outros (citando o filósofo Jean-Paul Sartre): o inferno somos nós, nós criamos o próprio inferno, e entendi que sou a chave de toda essa história."

Esse grito que vem de dentro, capaz de ressuscitar seres humanos na antecâmara da morte, acordou Clara. "O primeiro impulso foi procurar pessoas que me ajudassem a encontrar trabalho; eu mesma passei a enviar meu currículo como psicóloga (ela atuou anos na área de recursos humanos) e como produtora teatral, tentando reassumir a garantia financeira da minha sobrevivência. Tomei a minha vida nas mãos, finalmente, e reenconntrei a fé que havia perdido. A fé tem sido meu chão, meu alicerce, e posso assegurar que reencontrei a luz, e aos poucos redescubro minhas vontades, me permito sonhar e ter ambições."

Um mal traiçoeiro

Ao classificar a depressão, o Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial da Saúde (OMS), diz que "o indivíduo usualmente sofre de humor deprimido, perda de interesse e prazer e energia reduzida, levando a uma fatigabilidade aumentada e atividade diminuída". Além desses sintomas, que caracterizam fortemente a doença, a doutora em psiquiatria Letícia Maria Furlanetto, do Rio de Janeiro, aponta outros aspectos comuns: concentração e atenção reduzidas, diminuição da auto-estima e da autoconfiança, idéias de culpa e de inutilidade, visões desoladas e pessimistas do futuro, idéias ou tentativas de suicídio e atos autolesivos, sono perturbado e apetite reduzido.

Letícia chama a atenção para os problemas associados à compreensão dos transtornos depressivos - inclusive no meio médico. Muitas vezes, eles são confundidos com a tristeza normal que qualquer pessoa pode sentir diante de um fato importante, de perdas ou grandes mudanças no estilo de vida. O mal atinge homens, mulheres e crianças, em qualquer faixa etária; a incidência de casos em mulheres é aproximadamente o dobro do observado em homens.

A depressão está associada a uma combinação de fatores que podem ir do estresse a acontecimentos vitais, como separação conjugal, morte na família, mudanças repentinas, crise da meia-idade, uso de certos medicamentos e ocorrência de algumas doenças físicas. Recomenda-se que o paciente combata a doença com tratamento médico e remédios, preferencialmente em associação com a psicoterapia.

Ensinar a esquecer e a amar

Quando desenvolvia sua pesquisa para O Demônio do Meio-Dia, Andrew Solomon entrevistou a cambojana Phaly Nuon, uma sobrevivente da sangrenta guerra civil que marcou seu país nos anos 1970. A história de Phaly, narrada com minúcias no livro, é fantástica não apenas por ser ela uma sobrevivente, mas também m mulheres é aproximadamente o dobro do observado em homens.

A depressão está associada a uma combinação de fatores que podem ir do estresse a acontecimentos vitais, como separação conjugal, morte na família, mudanças repentinas, crise da meia-idade, uso de certos medicamentos e ocorrência de algumas doenças físicas. Recomenda-se que o paciente combata a doença com tratamento médico e remédios, preferencialmente em associação com a psicoterapia.

Ensinar a esquecer e a amar

Quando desenvolvia sua pesquisa para O Demônio do Meio-Dia, Andrew Solomon entrevistou a cambojana Phaly Nuon, uma sobrevivente da sangrenta guerra civil que marcou seu país nos anos 1970. A história de Phaly, narrada com minúcias no livro, é fantástica não apenas por ser ela uma sobrevivente, mas também por ter ressuscitado "mulheres cujas aflições mentais eram tamanhas que outros médicos as haviam abandonado à morte", conta Solomon. Guiada pela intuição, Phaly desenvolveu sua própria terapêutica para resgatar mulheres que tinham sobrevivido à guerra, "mas iam morrer agora de depressão, de um estresse pós-traumático totalmente incapacitante". Ela inicialmente as ensina a esquecer; depois, ensina-as a trabalhar; "e então", arremata, "quando finalmente já dominaram o trabalho, eu as ensino a amar".

Clara também teve de acomodar o passado lá mesmo, no passado. "Ele não tem mais posse sobre mim", diz ela, com o olhar firme. "Do passado, preservei o que foi bom, o que me deu prazer. Não carrrego mais a culpa dos acontecimentos e aprendi a reconhecer o que é realmente meu. Algo acontece dentro e faz optar pela vida: ou leva um tiro na rua ou reconstrói. O que diferencia uma coisa e outra eu não sei, mas sei que estou em busca do entendimento, da percepção, do amor. "

As variações mais comuns

Os distúrbios depressivos aparecem de formas diferentes, e não é fácil descrevê-los por completo. A seguir são apresentados três dos tipos mais comuns da doença - e mesmo eles variam no número de sintomas, grau de severidade e tempo de duração.

Depressão maior - Surge por uma combinação de sintomas que influenciam a capacidade de dormir, comer, trabalhar, estudar e apreciar atividades que a pessoa normalmente considera agradáveis. Esse tipo da doença pode ocorrer uma única vez, mas em geral se manifesta várias vezes na vida do depressivo.

Distimia - Um gênero mais simples de depressão, a distimia está relacionada a sintomas crônicos e de longo prazo que não incapacitam a pessoa, como a depressão maior, mas não permitem que ela se sinta bem ou produza a contento. A maioria dos distímios também enfrenta ocorrências de depressão maior em algum momento da vida.

Distúrbio bipolar (ou neurose maníaco-depressiva) - Essa variante da doença se caracteriza por mudanças cíclicas de humor picos de alta (mania) e de baixa (depressão). Na maioria das vezes essas alterações são graduais, mas ocasionalmente elas ocorrem de maneira mais brusca. Na fase depressiva, a pessoa pode apresentar alguns ou todos os sintomas de um caso de depressão. O período maníaco é marcado por demonstrações de abundância de energia, excesso de atividade e de loquacidade; como o pensamento, o julgamento e o comportamento social geralmente são afetados, essa fase não raro traz problemas para o indivíduo.

Os Passos Para a Recuperação

Tratar corretamente a depressão começa com um diagnóstico preciso. Em geral, os casos são controlados a partir de uma associação entre remédios e psicoterapia.

Embora haja vários registros de casos em que a depressão desapareceu, hoje em dia se considera que, em geral, essa doença é comparável à hipertensão: o paciente nunca fica completamente bom, mas pode muito bem manter a situação sob controle. Em casos mais simples, a cura integral pode ser obtida; em outros, mais severos (cerca de 6% do total), as perturbações causadas pela doença nos relacionamentos e no trabalho só podem ser administradas com um tratamento mais rigoroso.

De qualquer forma, combater a depressão começa sempre por um diagnóstico correto - e isso não é tão fácil de obter. Em princípio, quem está mais apto a fazê-lo é um médico, por meio de um exame físico. Além da velha confusão entre depressão e tristeza, os sintomas da doença podem aparecer também por influências de certo modo inesperadas - remédios ou uma infecção viral, por exemplo. O médico competente é capaz de analisar com equilíbrio cada hipóótese. Se as causas físicas são descartadas, é recomendável que se faça uma avaliação psicológica, a cargo do próprio médico, de um psiquiatra ou de um psicólogo.

O diagnóstico deve partir de um histórico completo dos sintomas, além de perguntas sobre o consumo de álcool ou drogas, eventuais pensamentos de suicídio e casos de depressão em outros membros da família. Em casos mais complexos, um exame mental é recomendável para avaliar se a fala ou determinados padrões de pensamento ou memória foram afetados (isso pode ocorrer em pacientes com depressão grave ou neurose maníaco-depressiva).

O tratamento depende de toda essa avaliação. Se o caso for considerado leve, uma psicoterapia pode dar conta do recado. Em casos mais graves, são aplicados tratamentos à base de medicamenntos antidepressivos. Na maior parte das vezes, o que ocorre é a utilização simultânea dos dois recursos: enquanto o remédio traz um alívio rápido, a psicoterapia ajuda o paciente a lidar melhor com as dificuldades do dia-a-dia.

Os medicamentos indicados devem ser administrados rigorosamente conforme a receita médica. A recomendação pode parecer óbvia, mas não é raro que o paciente, ao melhorar com um certo número de doses, pense que já não precisa mais do remédio.

A psicoterapia tem um papel de destaque no tratamento, e em casos mais leves pode inclusive dispensar o apoio de remédios. A conversa com um psicoterapeuta, apoiada ou não em trabalhos corporais, ajuda o paciente a "desaprender" pensamentos e atitudes que o conduziram à depressão e a substituí-los por conteúdos mais positivos. Estudos mostram que até terapias breves, entre 10 e 20 semanas de duração, conseguem sucesso nesses casos. Quando a depressão é mais séria, recomenda-se que o tratamento com remédios anteceda ou, no máximo, seja simultâneo à psicoterapia.

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