Desafios da memória


Nossa capacidade de "arquivar" informações e resgatá-las quando necessário costuma diminuir com o passar do tempo; alguns hábitos simples, entretanto, ajudam a fortalecer a capacidade de recordar.

Revista Scientific American - por Amanda Nogueira

Em geral, lembrar-seja um compro­misso, o rosto de um conhecido, o que o professor ensinou na aula anterior ou da data de aniversário de um amigo - é muito útil. Não por acaso as pessoas se sentem tão ameaçadas quando percebem que a memória começa a Ihes pregar peças. O desgaste da capacidade de reter e acessar informações (prin­cipalmente as mais recentes) surge à medida que o tempo passa, mas pode ser agravada por fatores como noites maldormidas, alimentação inadequada, falta de concentração e acomodação ao cotidiano. A boa notícia é que algumas atitudes que podem ser incorporadas à rotina ajudam a melhorar o desempenho nessa área. Mas é preciso esforço. Como ocorre com a maioria de nossas habilida­des, quanto mais as exercitamos mais elas se desenvolvem. Isso vale para os treinos da musculatura, idiomas ou aprendizado de algum instrumento musical. No caso da memória, em especial, é importante desafiar-se a buscar novos aprendizados. Se você trabalha em um escritório, uma boa pedida pode ser aulas de dança (ainda que essa atividade lhe pareça distante de seu universo). Se for um dançarino avesso à informática, pode aprender a lidar com computador; se trabalhar com vendas, o exercício de jogar xadrez será um desafio. Ou seja, ofereça a seu cérebro a possibilidade de se surpreender - e até errar, por que não? A novidade estimula os circuitos neurais.

Outra providência importante para quem quer exercitar a memória é apren­der a relaxar. Para a maioria das pessoas é impossível focar a atenção em algo se elas estiver em sob tensão. Um há­bito simples, que ajuda a direcionar a concentração para o que queremos, é o famoso "contar até 10": basta prender a respiração por dez segundos e soltá-Ia lentamente. Também vale lembrar que é contraproducente tentar guardar to­dos os fatos que acontecem, o melhor é focalizar a atenção e se concentrar naquilo que parece de fato importante, procurando afastar os demais pensamen­tos. Há um exercício que pode ajudar a treinar essa capacidade: pegue um objeto qualquer, uma caneta, por exemplo, e se concentre nela. Pense sobre suas diversas características: material de que é feita, função, cor, forma etc. E durante essa
prática não deixe que nenhum outro pensamento ocupe a sua mente. Passadas algumas horas, relembre o que pensou sobre a caneta - a maioria das pessoas se surpreende quando percebe o quão aguçada se torna sua capa­cidade de memorização quando de fato presta atenção.

Também costuma ser muito útil aprender a "associar" um fato a outro. Aqui, de novo, a velha história de amarrar a fita no dedo para se lembrar de algo. O pro­blema é quando esquecemos por que estamos com aquele lacinho. Para evitar isso, é preciso fazer uma "ancoragem". Por exemplo, se você quer se lembrar de levar o guarda-chuva quando sair de casa, mas sempre o esquece, pense no lugar por onde inevita­velmente terá de passar para sair. Visualize o objeto pendurado na maçaneta, procurando deixar essa imagem o mais clara possível em sua mente. Primeiro pense no guarda-chuva e em seguida volte seu foco para a maçaneta (e vice-versa) algumas vezes. Essa prática não dura mais que alguns segundos e pode livrá-lo de chegar ensopado ao seu desti­no. Ainda que bem mais tarde, ao passar pela porta, a possibilidade de se lembrar do guarda-chuva será muito grande.

Dormir também é funda­mental para manter a capacida­ de mnêmica em dia. É durante o sono que as memórias são cultivadas: enquanto algumas vingam, outras se perdem. A construção da memória depen­de muito desse período em que o cérebro tece a trama da sub­jetividade e oferece respostas a problemas que nos afligem durante a vigília.

Ao contrário do que muitos pensam, o cérebro não descansa durante o sono, mas encon­tra-se em franca atividade. É nessas horas que as informações coletadas durante a vigília são processadas, selecionadas, gravadas e finalmente transfor­madas em memória. Dentre as várias funções do sono, o processamento da memória parece ser a única que exige do organismo estar realmente adormecido.

Economizar horas de sono prejudica a cognição: alguns aspectos da consolidação da me­mória só são acionados quando dormimos mais de seis horas. Quando se passa uma noite em claro, as memórias daquele dia fi­cam, portanto, comprometidas.

• Trilha do hipocampo

Durante o sono, o cérebro reativa padrões de atividade que realizou durante o dia, fortalecendo as memórias por meio dessa potenciação a longo prazo. Em 1994, os neurocien­tistas Matthew Wilson e Bruce McNaughton, então da Uni­versidade do Arizona, mos­traram esse efei­to pela primeira vez usando ra­tos equipados com implantes
que monitora­vam sua ativi­dade cerebral. Eles ensinaram os animais a encontrar uma trilha que leva­va até a comida, registrando ao mesmo tempo os padrões de disparo neuronal de roedores. Células no hipocampo - uma estrutura do cérebro crucial para a memória espacial - criaram um mapa da trilha, com células diferentes disparando conforme os ratos atravessavam cada área. Essas células correspondem de maneira tão rigorosa a locais físicos exatos que os pesqui­sadores puderam monitorar o progresso dos ratos apenas observando quais delas estavam disparando em dado momento. E o que é mais interessante: os cientistas registraram essas informações até mesmo quando os ratos dormiam e notaram que elas continuavam a disparar na mesma ordem - como se os ani­mais estivessem "andando pela trilha" durante o sono.

Conforme essa prática in­consciente fortalece a memória, algo mais complexo acontece: o cérebro pode estar ensaiando, de forma seletiva, os aspectos mais difíceis de uma tarefa. Um trabalho realizado em 2005 pelo neurocientista Matthew P. Walker, da Faculdade de Medicina de Harvard, demonstrou que quando as pessoas treinavam digitação de sequên­cias complicadas num teclado, como 4-1-3-}-4 (algo parecido com aprender uma partitura no piano), dormir entre sessões de treinamento fazia com que os dedos se movimentassem de forma mais rápida e coordenada numa próxima tentativa. Em um experimento mais aprofundado, ele descobriu que os voluntários não apenas aprimoravam a tare­fa de digitação, mas também es­tavam vencendo as dificuldades com as sequências numéricas mais complicadas.

O cérebro faz isso, ao menos em parte, deslocando a memória para as sequências mais difí­ceis. Com o uso de ressonância magnética funcional, Walker mostrou que os voluntários mo­bilivazarn diferentes regiões do cérebro para digitar depois de terem dormido. No dia seguinte, a digitação correspondeu a uma atividade maior no córtex motor primário direito, lobo pré-frontal medial, hipocampo e cerebelo esquerdo - áreas associadas a mo­vimentos mais rápidos e precisos. Em compensação, houve menor atividade nos córtices parietais, ínsula esquerda, pólo temporal e região fronto­-polar, indicando redução no es­forço conscien­te e emocional. Em suma: toda
a memória foi fortalecida, mas em especial as partes que mais precisavam sê-lo. O sono esta­va fazendo esse trabalho usando regiões do cérebro diferentes daquelas utilizadas enquanto a tarefa era aprendida.

• Hipermemória

Há várias memórias, porém, que seria melhor esquecer. Infelizmente para Jill Price, conhecida pelas iniciais J. P., de 45 anos, moradora da Ca­lifórnia, esse é um luxo com o qual só é possível sonhar. Ela se lembra de cada dia da sua vida desde a adolescência com extraordinário detalhe. Quando alguém menciona qualquer data desde 1980, é como se J. P. fosse imediatamente transportada de volta no tempo, descrevendo onde estava, o que fazia naquele momento e quais foram as no­tícias daquele dia. A habilidade desconcertou e deslumbrou a família e amigos por vários décadas, mas J. P. tem pago um preço alto por ela: está presa num ciclo de lembranças que descreve como um "filme que está passando e nunca para". Mesmo quando quer, Jill não consegue esquecer.

Sua história está no livro recém-lançado A mulher que não consgue esquecer - Relatos da síndrome de hipermemória, publicado no Brasil pela Arx, no qual conta os problemas que enfrentou. Com a sondagem de seu cérebro em busca de pistas, uma coisa fica evidente: memória sadia não tem a ver apenas com a retenção daquilo que é signifi­cativo. Muito mais importante é ser capaz de esquecer o que não tem tanta importância.

Passaram-se sete anos desde que as extraordinárias habili­dades de J. P. vieram à luz pela primeira vez, quando ela escre­veu ao neuropsicólogo James McGaugh, da Universidade da Califórnia (UC) em Irvine, pedindo ajuda. Ela descreveu a constante rememoração "ininterrupta, incontrolável e extremamente fatigan­te", um verdadeiro "fardo" do qual ela era ao mesmo tempo guardiã e vítima. Intrigado, McGaugh e seus colegas Elizabeth Parker e Larry Cahill, também da universidade em Irvine, se dispuseram a investigar a me­mória de J. P. Nos primeiros testes, descobriram que ela era capaz de identificar corretamen­te a data de todas as Páscoas dos últimos 24 anos, além do local em que se encontrava e o que fazia nesses dias (detalhes pos­teriormente confirmados com os registros de seu diário). E não apenas isso: a moça conseguia identificar o dia da semana de qualquer ano desde 1980 e foi capaz de dizer a data correta de eventos que geralmente se esquecem com facilidade, como o dia em que foi ao ar o episó­dio "Quem atirou em J. R.?", do seriado de TV Dallas.

Convencida de que a afec­ção era nova para a ciência, a equipe batizou-a de síndrome hipertimésica - do grego timesis, lembrar. Desde então, os neuro­cientistas identificaram várias outras pessoas que parecem ter característica semelhante. Mas, afinal, o que torna os hipertimé­sicos diferentes dos demais e o que poderiam eles nos ajudar a descobrir sobre as nebulosas engrenagens da memória con­siderada normal?

A raiz da síndrome hiper­timésica poderia se manifestar em qualquer um dos estágios de fixação de lembranças. Em termos gerais, uma memória é formada em três estágios: em primeiro lugar, ela é codifica­da, armazenada e, mais tarde, recuperada. É possível que J. P. e seus colegas hipertimésicos realizem essas três tarefas com
eficiência muito maior que o restante de nós. Mas existe outra possibilidade, talvez mais intrigante. A extraordinária me­mória de J. P. poderia também ser explicada por uma falha das estratégias utilizadas pelo nosso cérebro para nos ajudar a esquecer as coisas que não precisamos lembrar.

Podemos dizer, de forma simplificada, que novas memórias se iniciam com a excitação tem­porária das sinapses numa rede de neurônios. Quando lembramos algo, determinadas vias neurais serão reativadas. Quanto mais vezes isso acontece, mais impor­tante o cérebro considera a recor­dação e é mais provável que ela seja convertida numa memória de longo prazo, com a formação de conexões permanentes entre os neurônios. Essas conexões são reforçadas cada vez que a infor­mação é retomada, facilitando sua recuperação. O cérebro con­tém tantas conexões sinápticas potenciais que, pelo menos em teoria, não existe limite para o número de memórias de longo prazo que uma pessoa consegue armazenar. Por que, então, não nos lembramos de tudo?

"Um sistema que registra incondicionalmente todo e qualquer detalhe e deixa os da­dos continuamente à disposição resultará numa confusão geral", afirma o chefe do Departamen­to de Psicologia da Universida­d contece, mais impor­tante o cérebro considera a recor­dação e é mais provável que ela seja convertida numa memória de longo prazo, com a formação de conexões permanentes entre os neurônios. Essas conexões são reforçadas cada vez que a infor­mação é retomada, facilitando sua recuperação. O cérebro con­tém tantas conexões sinápticas potenciais que, pelo menos em teoria, não existe limite para o número de memórias de longo prazo que uma pessoa consegue armazenar. Por que, então, não nos lembramos de tudo?

"Um sistema que registra incondicionalmente todo e qualquer detalhe e deixa os da­dos continuamente à disposição resultará numa confusão geral", afirma o chefe do Departamen­to de Psicologia da Universida­de Harvard, Daniel L. Schac­ter. O pesquisador diz que deixamos de recordar porque o cérebro desenvolveu estraté­gias para eliminar informações irrelevantes ou ultrapassadas. O chamado esquecimento efi­ciente é, portanto, crucial para haver uma memória funcional. "Quando nos esquecemos de algo útil, significa simplesmen­te que o sistema de poda está trabalhando um pouco bem demais", diz Schacter.

Em seu livro Os sete pecados da memória (The seven sins of memory), de 2001, lançado no Brasil pela Editora Rocco, Schacter descreve várias maneiras como esquecemos. Ele chama uma delas de "transitoriedade do pecado". É com essa estratégia que descartamos informações obsoletas - um velho número de telefone ou o que comemos no almoço na terça-feira passa­da, por exemplo. Assim como recuperar e utilizar uma infor­mação a solidifica na memória, nossa mente também "julga" que é seguro descartar informações que raramente acessamos.

Outro "pecado" é a distra­ção, que nos faz, por exemplo, deixar de codificar corretamente as informações sobre onde colocamos nossas chaves porque nossa atenção estava em outro lugar quando as guardamos. Outro problema é o bloqueio: neste caso, o cérebro restringe uma memória em favor de outra concorrente, para não ficarmos confusos, por exemplo, quando uma mesma palavra tem dois significados diferentes. Ocasionalmente, recuperamos antes aquela que não queremos e, então, nos es­forçamos para lembrar a outra. Schacter argumenta que essas estratégias têm uma finalidade adaptativa, impedindo-nos de armazenar memórias desnecessárias, confusas ou obsoletas. Afinal, queremos lembrar nosso atual número de telefone e não um antigo, e onde esta­cionamos o carro hoje, não na semana retrasada.

• Algo de obsessivo

Imdubitavelmente, a memória de J. P. não funciona exatamente da mesma maneira. E até agora especialistas não sabem expli­car de forma clara por que isso acontece, mas uma pista poderia estar no fato de que tanto J. P. quanto Brad Williams (locutor de rádio com características de memória semelhantes às dela) têm características obsessivas. Poderiam eles estar simplesmen­te revendo os detalhes da vida seguidas vezes? Embora nem J. P. nem Williams possam ser considerados autistas, da mesma forma que algumas pessoas com síndrome de savant, ambos têm um interesse fora do comum por datas. "Nos dois casos, eles parecem decorar o calendário.
Existe alguma coisa na atenção a datas e ao conhecimento sobre elas que nos intriga", reconhece McGaugh. De fato, J. P. guarda na cabeça uma espécie de calen­dário mental de meses e anos e o descreve como algo que ela "simplesmente conhece".

Além disso, J. P. mantém um diário há 32 anos e diz que "sempre precisou de ordem". Tanto ela quanto Williams têm grandes coleções de guias de TV, iniciadas há muitos anos. Essas estratégias compulsivas podem ajudá-los a organizar e reforçar memórias, diminuindo a probabilidade de serem arqui­vadas e esquecidas.

Um ponto crucial, contudo, é que, embora impressionante, memória de J. P. não é in­discriminada e não poderia ser escrita como fotográfica. lntegrantes da equipe de McGaugh descobriram isso recentemente, depois que um deles pediu à moça que fechasse os olhos e descrevesse o que os pesquisa­dores estavam vestindo. Para surpresa geral, ela não tinha a menor ideia. Da mesma forma, não conseguiu lembrar as datas em que a equipe a tinha interro­gado, cerca de um mês antes. "A memória autobiográfica, embo­ra incrível, é também seletiva e até trivial em certos aspectos", diz McGaugh. Isso ficou evi­dente no mau desempenho de J. P. em testes nos quais foi
pedido que memorizasse listas de palavras ou reconhecesse rostos. Não apenas isso, J. P. foi uma aluna média, incapaz de se beneficiar da memória prodigiosa nos estudos.

A memória de WiIIiams também tem limites. Ele precisa se dedicar bastante para decorar suas falas para as produções teatrais nas quais atua e, apesar de ser um aficionado de pala­vras cruzadas, não conseguiu memorizar listas de palavras além daquelas com duas letras. "Imagino que apenas as lem­branças autobiográficas não exigem nenhum esforço de minha parte", diz ele.

Schacter e Michael Anderson, da Universidade de St. Andrews, Reino Unido, acreditam que aquilo que parece ser uma habilidade inata pode ter muito a ver com rememo­ração obsessiva dos eventos. Pode ser que J. P. e Williams obtenham tanta satisfação de se lembrar dos detalhes autobiográficos que se tomaram especialistas na história da própria vida, coisas que eles consideram menos interessantes não são tão bem guardadas. E, nes­se caso, talvez seja melhor mesmo esquecer algumas coisas para poder reter outras. 

• Para não esquecer

- Preste atenção

"É incontestável que a memória é intensi­ficada pela atenção", diz o professor Michael Anderson, da Universidade de St. Andrews, Reino Unido. Portanto, faça um esforço consciente para pensar sobre onde você deixa as chaves ao chegar. Dizer em voz alta "estou colocando as chaves sobre a mesa" também ajuda a fixar a informação.

- Seja organizado

Memórias são como correspondências, diz Anderson. É preciso bem pouco esforço para abri-Ias e jogar todo o conteúdo sobre a mesa, mas, quando você precisar encontrar uma, não será tão fácil. Arquivá-Ias de formas relacionadas costuma facilitar. Portanto, quando precisar se lembrar de alguma coisa, tent

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