Desça do Salto


Ser aprovado no programa de trainee não é o mais difícil. O complicado é não deixar que essa conquista suba à cabeça.

Revista Você S/A - por Vanessa Vieira

Até ser aprovado em um programa de trainee, o candida­to enfrenta uma ba­teria de testes e entrevistas. O aspirante deve ter um excelente currículo, passar por testes de personalidade, se destacar nas dinâmicas de gru­po, apresentar painéis de negó­cios aos gestores da empresa e, em alguns casos, encarar uma série de entrevistas com a di­retoria e até com o presidente da companhia - uma etapa em que cada resposta é decisiva pa­ra a contratação ou para a exclu­são do candidato. Superar uma seleção como essa significa dei­xar milhares, ou dezenas de mi­lhares de concorrentes para trás. Ser aprovado significa fazer par­te de um seleto clube no qual, supostamente, as grandes compa­nhias esperam encontrar seus fu­turos líderes. Considerando tu­do isso, não é tão difícil entender o efeito colateral que afeta mui­tos trainees recém-aprovados: o chamado salto alto. Basta circu­lar pelos corredores de qualquer empresa com um programa de trainees para reunir histórias de colaboradores estupefatos com a atitude de jovens trainees com experiência zero e arrogância que faria supor um cargo diretivo.

O hoje coordenador de marke­ting da BR Malls, Raul Cilento, de 26 anos, admite que no começo de seu programa de trainee, na Johnson & Johnson, pecou pe­lo excesso de confiança. "Hoje vejo claramente que sabia mui­to menos do que achava que sa­bia", diz. Foi durante o rodízio nos departamentos, ou job rota­tion, que ele percebeu que teria de mudar de atitude. "Saí do se­tor de marketing, no qual já tinha experiência, e sentia que es­tava brigando por uma posição, para a área de vendas, na qual eu não sabia nada. Tive que bai­xar a bola e apanhei bastante pa­ra aprender o serviço e para en­contrar o meu espaço dentro da equipe", recorda-se. A mudança de comportamento valeu a pe­na. "Saí do programa fortaleci­do. Desenvolvi minha capacida­de de relacionamento e aprendia fazer alianças de trabalho pa­ra chegar aos resultados", diz. O conselho dele para não pas­sar uma imagem errada é dimi­nuir a cobrança sobre si mesmo.

"A gente acha que precisa se des­tacar a agregar valor sempre. Mas há momentos em que você sim­plesmente não sabe nada e não há problema em admitir isso", afirma Raul Cilento. Esse é um grande aprendizado e também uma prova de maturidade que muitos jovens ignoram.

• Ambição pelo topo 

Para os especialistas, parte da responsabilidade sobre o com­portamento equivocado de al­guns jovens profissionais é da própria empresa. "É comum que, nas palestras do início do progra­ma, as companhias coloquem ex-trainees que já chegaram a cargos mais altos para falar de sua trajetória de sucesso. Isso ge­ra uma ansiedade nos novos jo­vens, porque acham que o pró­ximo passo é uma posição ge­rencial", diz Danilo Castro, dire­tor da consultoria Page Person­neI. Na maior parte das organi­zações, o trainee assume o pos­to de analista ao fim do programa. Uma pesquisa feita pe­la Page Personnel com 19.000 candidatos mostra que 23% de­les, quase um quarto, afirmam que seu objetivo é assumir um posto de gerente na companhia após o programa. "Seria inte­ressante que as empresas apre­sentassem um plano de carreira claro aos trainees, para que eles entendessem que vão ter de ga­nhar muita experiência até che­gar ao sonhado posto gerencial", diz Danilo Castro.

Fruto da ansiedade ou não, o fato é que uma atitude conside­rada arrogante pode ter impacto negativo sobre a carreira do jo­vem profissional. "O programa de trainee dura até três anos. De­pois disso, é vida normal. E para crescer na empresa vai ser preci­so apresentar resultados e cons­truir bons relacionamentos", diz Bruna Dias, gerente de orienta­ção de carreira da consultoria Cia de Talentos. Para não passar uma imagem negativa e prejudi­car o networking, Bruna orienta aos trainees a ter atenção ao uso que fazem do contato privilegia­do com diretores e vice-presiden­tes durante o programa. "Se o jo­vem comenta que vai tratar do as­sunto com um VP ou que já fa­lou do projeto com o diretor, is­so pode soar arrogante para os colegas", adverte Bruna.

Ter humildade ajuda

Se alguém ainda acredita que a humildade é um ingrediente se­cundário no perfil de um trainee de sucesso, pode se surpreender ao descobrir a importância des­sa característica dentro da cul­tura de várias empresas. É o ca­so do grupo Ale Combustíveis. "Como somos uma companhia que valoriza muito o respeito às pessoas, o trabalho em equi­pe e a humildade, buscamos como trainees jovens com uma história pessoal alinhada com es­ses valores", diz Vladimir Barros, gerente de RH do grupo Ale. Um dos selecionados para o progra­ma da empresa foi o engenhei­ro Bráulio Moreira, de 24 anos, que tem um perfil bem diferen­te do estereótipo de um trainee. "Sempre estudei em escola pública. Minha mãe trabalhava em ca­sa de família e meu pai é técni­co em contabilidade", diz. An­tes e durante a faculdade de en­genharia de produção, ele preci­sou trabalhar como torneiro me­cânico e garçom para se susten­tar. "Mesmo trabalhando e estu­dando durante o curso, me des­taquei." Para fazer parte do curso no exterior, Bráulio vendeu seu Fusca e trabalhou na universida­de que o acolheu, na Alemanha. Experiências que ele hoje acredita contar a seu favor no programa de trainee. "Para conseguir resultados, não basta ter talen­to, é preciso ter as ferramentas. E quem tem as ferramentas são os funcionários mais antigos e experientes. Para que meu po­tencial aflore, preciso do apoio do resto da equipe", afirma Bráu­lio. "Com humildade, se ganha o respeito das pessoas. E só se conquista a liderança tendo o respeito dos demais."

• Atutude arrogante

Os especialistas também aler­tam para a confusão que muitos trainees fazem entre a agressivi­dade na busca pelos resultados, ou ambição por crescer, e a arro­gância pura e simples. "Quem agrega valor colabora com o tra­balho e aponta soluções. Quem é arrogante apenas critica sem ter conhecimento de causa", diz Danilo Castro, da Page Person­nel. Mesmo em empresas alta­mente competitivas, como as instituições financeiras, a ati­tude salto alto vem sendo com­batida. "Desde o princípio do programa, os superintendentes nos orientam a ter humildade, paciência e a valorizar o traba­lho em equipe", diz Paula Mat­suda, trainee do Itaú-Unibanco. Numa época em que a maneira como os resultados são obtidos conta tanto quanto os resulta­dos propriamente ditos, fica a lição: "A competitividade sau­dável estimula a superação. Ar­rogância é passar por cima dos outros para alcançar resultados. Você pode até conseguir, mas o estrago no clima organizacional é enorme", afirma Vladimir Bar­ros, RH do grupo Ale. 

• Os piores erros de um trainee

Os comportamentos abaixo podem comprometer uma trajetória de sucesso na empresa:

- Sou eu quem manda: Alguns trainees acredltam que o programa e apenas uma formalidade antes de assumrr um posto gerencial. Por isso, pecam pelo excesso de autoridade. Não caia nessa e çembre-se: o fato de estar mais próximo dos líderes da empresa não significa que você já é um deles!

- Tom hipercrítico: Em vez de colaborar com os projetos e sugerir soluções, o trainee se coloca na posição de criticar o trabalho realizado. sem conhecer o hlstórico dos antigos colaboradores. Erro grave.

- Autopromoção: Alardear o contato que tem com a diretoria pode ser encarado pelos colegas como uma forma de autopromoção. Evite a gafe

- Falta de envolvimento: Por saber de antemão qual será sua área de trabalho após o programa, alguns trainees não demonstram interesse pelas atividades desenvolvidas em outros departamentos nos quais atuam durante o rodízio. Essa atitude compromete o networking, já que futuramente o profissional pode precisar interagir com essas áreas. 

- Domínio técnológico: Elaborar blogs, gravar vídeos (que depois serão postados no You Tube)  e administrar a linha de produção de uma fábrica por meio de jogos virtuais que lembram o classico SimCity são ferramentas que fazem parte do arroz com feijão dos processos seletivos. Entrevistas via Skype, em português e inglês, são bastante comuns.

- Imaturidade: Alguns jovens trainees têm dificuldade de lidar com a frustação ao ver seus projetos ou ideias criticados. Receba o feedback com tranquilidade e diga que vai melhorar a entrega em uma próxima vez.

- Miopia: O trainee pode chegar à empresa com um foco específico de interesse e não enxergar outras oportunidades e possibilidades de carreira. Abra o olho. Áreas menos cobiçadas e com menos glamour podem impulsionar o seu crescimento na companhia.

- Inversão de prioridades: O desejo de ascenção acelerada faz com que o trainee queira realizar os trabalhos dentro da sua prórpia escala de prioridades. É preciso entender as prioridades da empresa, das áreas e das pessoas.

- Falta de iniciativa: O trainee não se esforça para interagir e colaborar nos departamentos por onde passa. Seja flexível e demonstre iniciativa e espírito de equipe.

- Atitude de aprendiz: Tem trainee que após entrar na empresa abandona a atitude de aprendiz, um dos diferencias que o fez chegar até ali. Não perca seu interesse pelo novo.

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