Descobertas sobre a memória


Novas descobertas revelam que é possível modificar as nossas recordações negativas e aumentar a capacidade do cérebro de guardar as lembranças que nos fazem bem.

Revista Istoé - por Cilene Pereira e Rachei Costa

Guardar apenas as lembranças boas, fe­lizes. As ruins, aquelas que nos fazem recordar momentos difíceis e doloro­sos, seria melhor que desaparecessem. Certamente você já se pegou imaginan­do como seria bom se isso fosse possível. Se depender da ciência, esse desejo está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Numerosas pesquisas realizadas por centros de estudo espalhados pelo mundo estão comprovando que se pode, sim, alterar ou apagar as memórias negativas, permitindo que a mente só traga à tona as recordações que nos fazem bem. Além de representarem um marco na evolução do conhecimento a respei­to da memória humana, as experiências abrem uma fronteira importante para a criação de tratamentos de doenças geralmente marcadas por even­tos traumáticos, sofridos, como a ansiedade, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico e a depressão. Nesses casos, a simples lembrança do episódio pode desencadear crises e fazer com que a pessoa sinta nova­mente as mesmas e terríveis sensações. Evitar que essa recordação apare­ça - ou fazer com que ela ressurja de modo menos assustador -, seria, portanto, uma maneira de poupar a pessoa de um novo sofrimento.

O ponto de partida dessa revolução foi a constatação, nos últimos anos, de que a memória é algo vivo, maleável, sujeito a interferências. Muito distinto da ideia predominante entre os estudio­sos por décadas de que a memória era como um pacote fechado, guardado no fundo de um armário e impossível de ser aberto. Com o auxílio de equipa­mentos como a ressonância magnética funcional, capazes de acompanhar o movimento cerebral em tempo real, diversas pesquisas registraram o vai e vem percorrido dentro do cérebro pelas informações do passado e desvendaram a ocorrência de pro­cessos fascinantes.

Um deles acaba de ser anuncia­do. Na última semana, cientistas da Universidade da Califórnia, de Berkeley, nos Estados Unidos, iden­tificaram como são guardadas as lembranças ruins - aquelas pontuadas pelo medo, angústia, estresse. Os pes­quisadores descobriram que esse tipo de recordação é tão forte que estimula a criação de uma rede de neurônios própria, em que ficam marcadas com um status especial. "Em geral, nos lembramos mais das experiências ruins do que das boas", diz Daniela Kaufer, uma das responsáveis pelo trabalho. "Nosso estudo ajuda a explicar por que isso acontece." Os cientistas acre­ditam que a designação de um com­partimento específico para esse gênero de recordação foi uma estratégia criada nos tempos em que a humanidade enfrentava animais e intempéries cli­máticas para sobreviver. Os novos neurônios auxiliavam a identificar e a reagir mais rapidamente às ameaças.

Portanto, trata-se aí de uma arma de defesa. O problema é quando as más lembranças - hoje resultantes de cir­cunstâncias como a violência, o estresse cotidiano, a pressão no trabalho -, em vez de ajudar, mantêm o indivíduo preso ao passado e à dor. "É preciso fazer com que a vivência afetiva ruim se torne uma lembrança aceitável", afirma a psiquiatra Rita Jardim, do Rio de Janeiro. As informações levantadas pela ciência irão ajudar a fechar esse ciclo. Descobriu-se que é possível inter­ferir no conteúdo da memória, nas sensa­ções nela impressas ou até mesmo apagá­-Ias principalmente em um momento de­ terminado, batizado de recall ou recuperação. Ele se dá quando a recordação é incentivada a subir à superfície, abrindo o que os pesquisadores chamam de ja­nela de oportunidade.

Estudos importantes, conduzidos na New York University, nos Estados Unidos, deixaram evidente que a ma­nipulação é de fato eficaz quando aplicada logo após a lembrança ser resgatada. A primeira constatação veio com trabalhos em ratos. Os animais foram condicionados a ter medo (ou­ viam um som e recebiam choques). Um dia depois, foram novamente ex­postos à experiência, o que reativou o pânico. Depois, foram submetidos a um plano conhecido como treino de extinção: o som foi tocado, mas não houve choque. Verificou-se que o me­do foi extinto somente nas cobaias que passaram pela reprogramação até seis horas depois de terem tido suas memó­rias reativadas - ou seja, após a abertu­ra da janela de oportunidade.

O experimento foi posteriormente repetido em humanos. Novamente, o medo foi extinto apenas nos voluntá­rios que passaram pelo programa de extinção até seis horas após a memória ser recuperada. "O tempo é importan­te para interferir nas lembranças asso­ciadas ao medo", disse à ISTOÉ Eliza­beth Phelps, coordenadora do grupo envolvido nas pesquisas. Aqueles que receberam o treinamento depois das seis horas ou que foram submetidos ao tratamento, mas sem ter a lembran­ça reativada, permaneceram presos ao medo. Um ano depois, expostos novamente à situação que desencadeou o pânico, aqueles que foram auxiliados dentro do tempo correto manifestaram respostas ao medo significativamente mais brandas dos que os outros.

Os recursos em estudo para apagar as memórias prejudiciais são variados. Um deles ancora-se em saídas não me­dicamentosas, como o treinamento usado pelos cientistas da New York University. Boa parte, porém, quer usar remédios ou as próprias substâncias cerebrais s. O grupo da Universidade da Califórnia em Berkeley, por exemplo, entende que a formulação de algum instrumento capaz de impedir o nasci­mento de neurônios associados ao medo pode ser uma boa opção. "Novos tratamentos podem atuar sobre essas células, reduzindo a intensidade da memória ruim", disse à ISTOÉ Liz Kirby, líder do trabalho.

Nessa linha de trabalho, uma das alternativas mais concretas foi apre­sentada recentemente por pesquisa­dores da Universidade de Montreal, no Canadá. Eles demonstraram - em teste com voluntários - que o uso do remédio metirapona ajuda o cérebro a apagar a parte ruim das recordações. A droga havia sido usada para o tra­tamento da síndrome de Cushing, doença causada pela elevação do nível de cortisol, um dos hormônios do estresse. O que se descobriu é que esse mesmo efeito - de controle do cortisol - pode evitar o registro de lembranças que não queremos guar­dar. "Reduzir os índices do hormônio logo após o evento traumático pode diminuir seu registro", explicou à ISTOÉ Marie-France Marin, uma das pesqui­sadoras envolvidas no estudo.

Trabalhando em conjunto, cientis­tas da Universidade da Califórnia e de Muenster, na Alemanha, descobriram outro alvo: uma proteína chamada neuropeptideo S, importante para a formação de lembranças mais fortes. "Se sua ação for impedida, as memórias enfraquecem rapidamente", disse à IS­TOÉ Rainer Reinscheid, professor de farmacologia da universidade america­na e envolvido na pesquisa. "Neste estado, elas podem ser substituídas por outras, neutras." Nos cálculos do pesquisador, dentro de poucos anos será possível testar um remédio que atue sobre esse sistema.

Outra equipe internacional, integra­da por americanos e israelenses, inves­tiga como a atuação sobre uma enzima (a PKMzeta) também pode ajudar. "Observamos que inibindo essa subs­tância, mesmo que por poucas horas, se consegue apagar velhas memórias", explicou à ISTOÉ Todd Sacktor, da SUNY Downstate Medical Center, em Nova York, participante do estudo.

Existem outros trabalhos com o mesmo objetivo sendo feitos neste momento, focados em diferentes substâncias. A intervenção sobre o conteú­do da memória, porém, suscita discus­são entre a comunidade científica. Os pontos positivos são evidentes, mas eventuais impactos negativos desper­tam inquietação. "Só com os resultados mais definitivos teremos uma ideia mais clara das possíveis consequências, como a perda de lembranças úteis ou a interferência no registro de outros  eventos", diz o psiquiatra Antônio Nardi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria. Temor seme­lhante é manifestado pelo cientista Ivan Izquierdo, da PUC do Rio Grande do Sul, e considerado um dos mais con­ceituados na área de memória do Bra­sil. "Há o risco de intervenção em ou­tras lembranças", afirma. "Por exemplo, posso ter uma recordação ruim relacio­nada à minha mãe, mas tentar apagá-Ia pode afetar outra também associada a ela, mas boa", ressalva.

O debate só serve para enriquecer ainda mais uma área de estudo cada vez mais prolífica. Basta conhecer outra boa safra de novidades, desta vez voltadas para melhorar a aquisição e a manutenção de boa memória. A última deste gênero foi anunciada há três semanas. Pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, apresentaram as conclu­sões de um trabalho que atestou a eficácia da tes­tosterona para aprimorar a memória de mulheres na pós-menopausa. Durante seis meses, participan­tes receberam uma dose diária do hormônio, apli­cado sobre a pele, em forma de spray, enquanto outras não tiveram qualquer tipo de tratamento. "Aquelas nas quais os níveis de testosterona foram elevados saíram-se melhor nos testes de memória", contou à ISTOÉ Sonia Davinson, coordenadora da pesquisa. "Estamos agora conduzindo outro expe­rimento, maior, utilizando placebo em um grupo e o hormônio em outro», adiantou.

Duas outras experiências confirmam que o registro das informações também acontece em momentos nos quais não estamos lá muito preocupados com isso. A primeira provou que uma boa forma de gravar o que acabou de ser ensinado é fazer uma pausa. Estava em uma palestra sobre um assunto difícil? Saia, sente-se, relaxe, respire um pouco, orientam os cientistas. Eles chamam esses minutos de "descanso ativo". Nesse período, foi observado que o cérebro realiza com propriedade a transferência dos dados que acabaram de ser captados para o hipocampo, uma das estruturas-chave na consoli­dação da memória. "Mas é bom fazer uma pausa mesmo. Ficar quieto", aconselha Paul Sanberg, diretor do Centro de Envelhecimento e Recupe­ração Cerebral da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos. "Usar o tempo para fazer outra tarefa pode prejudicar o trabalho do cérebro."

O outro experimen­to comprovou que é possível memorizar quando se está dormin­do. O trabalho foi feito na Universidade Nor­thwestern (EUA). Vo­luntários gravaram a localização correta de 50 imagens dis­postas em uma tela de computador. Cada objeto foi mostrado acompanhado de um som associado (gato e o miado do gato). Depois, eles partiram para uma sala calma e escura e dormiram. Suas ondas cerebrais foram monitoradas e, quando os jovens entraram na fase mais profunda do sono, os cientistas começa­ram a tocar, para cada um, 25 dos sons que haviam ouvido antes. O volume era muito baixo, um pouco superior do que o de um sussurro. Por isso, quando acordaram, os participantes não sabiam que tinham escutado algo. Mesmo assim, lembraram-se melhor das posições dos objetos cujos sons tinham sido executa­dos enquanto dormiam.

No que diz respeito aos benefícios dos alimentos, há boas sugestões. Uma delas é aumentar o consu­mo de opções ricas em magnésio, como nozes, vegetais folhosos e cereais integrais. Uma pesquisa realizada na Universidade de Pequim, na Chi­na, revelou que o mineral aumenta a comunicação entre os neurônios, facili­tando o registro e o armazenamento de informações. "Des­cobrimos que o magnésio é efetivo para aprimorar o aprendizado e a me­mória", contou à ISTOÉ Guosong Liu, da instituição chine­sa. Apresentam o mesmo efeito ali­mentos com alta concentração de lu­teolina. Entre eles, o pimentão, o aipo, o alecrim, a hor ccedil;ões dos objetos cujos sons tinham sido executa­dos enquanto dormiam.

No que diz respeito aos benefícios dos alimentos, há boas sugestões. Uma delas é aumentar o consu­mo de opções ricas em magnésio, como nozes, vegetais folhosos e cereais integrais. Uma pesquisa realizada na Universidade de Pequim, na Chi­na, revelou que o mineral aumenta a comunicação entre os neurônios, facili­tando o registro e o armazenamento de informações. "Des­cobrimos que o magnésio é efetivo para aprimorar o aprendizado e a me­mória", contou à ISTOÉ Guosong Liu, da instituição chine­sa. Apresentam o mesmo efeito ali­mentos com alta concentração de lu­teolina. Entre eles, o pimentão, o aipo, o alecrim, a hortelã e a cenoura. "Eles ajudam a evitar a inflamação dos neu­rônios", explica a nutricionista Elaine de Pádua, de São Paulo.

Um dos achados joga luz sobre a im­portância do afeto também quando o assunto é memória. Pesquisadores da Tufts University (EUA) desenvolveram uma experiência inusitada e obtiveram um resultado surpreendente. Eles que­riam saber o quanto um ambiente acolhedor, estimulante poderia ser um antídoto contra problemas de memo­rização. Para isso, criaram ratos com um defeito genético que provoca de­ficiência na memória. Mas as cobaias que foram colocadas em um local com objetos estimulantes, de atmosfera calma, e onde podiam interagir sem problemas umas com as outras supe­raram o problema. Meses depois, esses animais tiveram filhotes com a mesma mutação genética. No entanto, a cria não manifestou limitações para se re­cordar - nem precisou ficar em am­bientes reconfortantes. "Demonstra­mos que um cotidiano rico, afetuoso tem o poder adicional de aprimorar a memória, e não apenas do indivíduo, mas também de seus descendentes", disse o neurocientista Dean Harley, responsável pelo experimento.

• Troca de Lembranças

Uma das descobertas mais recentes a respeito de recordações é que elas podem serr mudadas. Confira o que se sabe a respeito desse processo.

1 - As etapas da memória

As lembranças são adquiridas em 3 fases

- Aquisição
- Consolicdação
- Armazenamento

2 - Como nasce a memória negativa

A) Estudo publicado revelou como são gravadas especificamente as experiências pontuadas pelo medo ou por outras emoções negativas.
B) A amygdala, estrutura cerebral envolvida no processamento de sentimentos como o medo, a raiva e a ansiedade, é acionada.
C) Ela induz à criação de novos neurônios no hipocampo, outra estrutura do cérebro integrante do sistema de armazenamento de informações.
D) É como se o cérebro formasse uma gaveta, sem uso, onde pode guardar uma nova situação.
E) Esses novos neurônios são ativados pelas sensções negativas entre a segunda e a quarta semana após seu nasciemnto, consolidando a memória do evento.

3 - Hora da modificação

As memórias ruins podem ser alternadas ou apagadas pricipalemnte se forem novamente evocadas (etapa chamada de recall ou recuperação)

O que é esse período?

Fase na qual as lembranças vêm à tona. Pode resultar em momentos que dão prazer - quando se lembra do aconchego da casa da infância ao se sentir o cheiro de um bolo, pór exemplo - ou em sensações ruins. Um exemplo é o caso de pessoas que foram vítimas de assalto e, ao se lembrar do ocorrido, experimentam novamente a mesma sensação de pavor.

4 - O que está acontece neste momento

Quando há uma recuperação da memória, ela torna-se instável, maleável. Isso significa que pode ser modificada durante um mecanismo chamdo de reconsolidação.

Os pesquisadores chamam esse preíodo de janela de oportunidade.

Ainda não se conhece o tempo de duração desse preíodo. Ou seja, por quento tempo a memória permanece vulnerável a maudanças após serem trazidas à tona.

O córtex pré-frontal - centro do controle cognitivo - é aue coordena a supressão das memórias.

5 - Como pode ser feita a mudança

Há várias estratégias em pesquisa. Entre elas:

Testa-se o uso do programa "extinction trainning". O indivíduo é estimulado a relembrar do fato. Depois, os cientistas aplicam um treino no qual tiram da situação sensações ruins a ela associadas e imprimem nela sensações boas.

O uso de um medicamento, a metirapona, mostrou-se eficaz na tarefa.

O aumento da absorção, pelo cérebro, da proteína neuropeptideo S fez desaparecer rapidamente memórias traumáticas em animais.

A droga condroitinase ABC fez com que lembranças de medo ficassem mais sujeitas a desaparecer.

Outras substâncias, como a enzima PKMzeta, estão em teste.

6 - As descobertas serão usadas em:

Doenças que podem ter sido originadas por eventos negativos. Entre elas:

Estresse pós-traumático

Depressão

Síndrome do pânico

Fobias

Transtorno obsessivo-compulsivo

 • Emagrecer faz bem à memória

O que o excesso de gordura tem a ver com problemas de memória? Tudo, segundo estudos recentes. O último foi feito na Kent State University (EUA) e mostrou que pacientes submetidos a cirurgia bariátrica exibiram melhora na capacidade de armazenar informações 12 semanas depois da operação. "Estamos acompanhando esses indivíduos para checar se a performance continuará a mesma um ano e dois anos depois", disse à ISTOÉ John Gunstad, líder da pesquisa. Na sua experiência clínica, o médico Roberto Rizzi. membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, já havia observado a associação. "Percebia que após uma grande perda de peso há melhoria no poder de se lembrar das coisas". diz.

- O peso e as lembranças

A associação entre eles vem sendo cada vez m

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