Deu branco, e agora?


O uso que você faz das novas tecnologias e seus hábitos no trabalho podem afetar sua capacidade de armazenar informações.

Revista Você S/A - por Carla França

Você é do tipo que lê um relatório en­quanto fala ao te­lefone e manda e­-mails? Então, sai­ba que fazer várias coisas ao mesmo tempo pode afe­tar sua capacidade de reter infor­mações. "Quanto mais atividades a pessoa exerce simultaneamen­te, maiores as chances de trocar as bolas, confundir e esquecer", diz o neurologista Eli Faria Evaristo, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo. "Não é uma doença, mas fruto da vida maluca dos tem­pos modernos." Segundo o espe­cialista, os pequenos apagões de memória têm levado mais profis­sionais a procurar ajuda médica nos consultórios. "Mas, se a pes­soa vive uma rotina sobrecarrega­da, não vai conseguir milagre", diz. Isso porque, junto com a sobrecarga de trabalho, vem o estresse, que também compromete a capacidade de reter dados e informações rele­vantes para o dia a dia.

Falhas de memória frequentes podem perturbar a rotina. Se você já teve de retomar ao escritório quan­do estava a caminho de uma reu­nião porque esqueceu o notebook, sabe bem o estresse que isso gera. Sua imagem profissional também pode ser prejudicada. Afinal, uma pessoa que a todo instante está re­petindo "ih, esqueci" ou "deu bran­co" dificilmente ganhará a confiança do chefe e dos colegas de trabalho. "Esses problemas afetam a toma­da de decisão, pois a pessoa tende a ficar mais insegura", diz o neuro­logista Rubens José Gagliardi, di­retor científico do departamento de neurologia da Associação Pau­lista de Medicina (APM). Mas há como treinar a memória? A respos­ta é "sim". "Quanto mais a pessoa exercita o cérebro, mais capacidade terá. Ler, ler e ler é disparado o me­lhor treino", diz o médico e cientis­ta paulista Ivan Antonio Izquierdo.

• Nossas duas memórias

1) Memória de retenção.

E aquela recente. Alguém fala uma coisa e um minuto depois você se lembra. De acordo com o neuro­logista EIi Faria, do Hospital Oswal­do Cruz, de São Paulo, a maioria dos distúrbios de retenção esta ligada a problemas de atenção e con­centração. "Não quer dizer que a pessoa sofra de déficit de atenção. Pode ser consequência de ansieda­de, cansaço, insônia, que afetam a atenção e a retenção de dados."

2) Memória de evocação.

É aquela relacionada a fa­tos mais antigos, que se passa­ram há muitos anos e já estavam retidos no cérebro. "A dificuldade de evocação, em geral, não tem a ver com atenção ou concentra­ção, mas com o funcionamento da região do cérebro onde está esto­cada a informação", diz o especia­lista. Se a pessoa não dormiu bem à noite ou está fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, pode ter problemas para acessar informa­ções retidas. Também pode estar ligada a alterações degenerativas (doenças ou idade mais elevada), conforme explica o médico.

• Falta de concentração e foco

A advogada Renata Negrini Denadal, de 31 anos, de São Paulo, sempre foi meio desligada, do tipo que esquece a data de aniversário da melhor amiga e de levar o carregador da máquina fotográfica em viagem. Ouando esses lapsos começaram a afetar os relacionamentos e a ameaçar a vida profissional, ela decidiu procurar ajuda de um psiquiatra. "Estava ficando cada vez mais ansiosa e tendo problemas para dormir", diz. Ela descobriu que a "memória fraca" estava relacionada à dificuldade de concentração e foco. "Tenho clientes com perfis diferentes, com casos que me obrigam a estudar diversos segmentos do Direito", explica. Depois de seis meses tomando medicamentos para ansiedade, ela optou, há um ano e meio, por um tratamento à base de fitoterápicos. Hoje, além de tomar polivitaminicos, ela adquiriu alguns hábítos: anota os compromissos numa agenda e evita tratar de mais de dois assuntos por vez. "Agora, se eu começo algo, tenho de concluir antes de iniciar outra atividade."

• Estresse atrapalha muito

Um dos principais motivos dos pequenos esquecimentos é o famigerado estresse. "Uma pessoa cansada, que vive ansiosa, dorme pouco e come mal, certamente vai ter a capacidade cognitiva afeta­da", diz o neurologista Rubens Gagliardi, diretor da APM. "Tem muita gente que sai de férias e volta curada." No entanto, o proble­ma também pode estar relacionado a problemas metabólicos, coleste­rol alto, diabetes, pressão alta.

Dependendo das queixas, pode­-se detectar alguma alteração no fluxo sanguineo ou lesão estrutural no cérebro como consequência de um processo degenerativo, como o Mal de Alzheimer. O primeiro passo é distinguir se é uma perda de me­mória decorrente da idade, ou mo­mentânea, quando a pessoa pas­sa por um período mais desgastan­te, ou ainda se ê uma causa fisioló­gica. Há casos que exigem medica­ção. "De um modo geral, a respos­ta vai depender da causa e, quan­to mais cedo combater o mal, me­lhor o resultado", diz o neurologista Eli Faria, do Hospital Oswaldo Cruz, de São Paulo. A falta de determi­nada vitamina no organismo ajuda a afetar sua memória. Poré e;m, Ru­bens, da APM, alerta: "Não adianta tomar vitamina por conta própria. E cuidado, ler um livro de 500 pági­nas em duas horas não vai resolver seu problema", diz o médico.

• Bons hábitos

Para o neurologista EIi Faria, do Hospital Oswaldo Cruz, de São Paulo, não existe nenhuma medi­da capaz de preservar a memória intacta ao longo dos anos, Há, po­rém, alguns estudos que mostram que quem pratica atividade física regularmente e cultiva hábitos de leitura, estuda línguas ou está sempre aprendendo algo novo tem maior propensão a preservar a capacidade do cérebro de reter dados, Segundo Eli Faria, existem estratégias para organizar as in­formações que estimulam as co­nexões, que, por sua vez, ajudam a desenvolver a memória, "Promo­ver associacões aumenta a rede neural e facilita lembrar das coi­sas", diz o médico. O importante é ficar atento aos sinais. Esquecer o nome de um conhecido, um compromisso ou uma data importante de vez em quando é normal. Mas, quando lapsos se tornam frequentes, lembre-se de procurar a ajuda de um médico.

• É bom lembrar e esquecer

O médico e cientista Ivan Antonio Isquierdo, um dos maiores pesquisadores do mundo na área de fisiologia da memória, seu a seguinte entrevista a Você S/A.

Como a memória funciona? A me­mória funciona por meio de modi­ficações, no início, bioquímicas e a longo prazo bioquímicas e estru­turais, em sinapses cerebrais (junção de dois neurônios) utilizadas na aquisição de cada memória. A for­mação de cada memória de longa duração requer um processo com­plexo, com mais de 50 passos bio­químicos consecutivos, que levam entre 1 minuto e 6 horas. Ela ocorre em vários lugares do cérebro, sendo o principal o hipocampo, estrutura do lobo temporal e, nele, nas células chamadas piramidais. Cada célula piramidal faz perto de 10 000 sinap­ses. É um processo complexo.

Quais são os tipos de memória? As memórias podem ser, segundo seu conteúdo, declarativas (fatos e eventos) e de procedimentos (hábi­tos motores ou sensoriais motores, como tocar teclado, andar de bicicle­ta). Ou ainda pela duração: memó­rias de curto e longo prazo.

Por que tem épocas na vida que é mais fácil o aprendizado? O siste­ma nervoso começa a se formar no embrião a partir da segunda sema­na de gestação, tem seu auge entre 11 e 20 anos de idade e se desenvolve ao longo de toda a vida. Por isso co­meçamos a andar com 9 a 13 meses, a falar entre 2 e 4 anos. Fica mais fá­cil aprender outros idiomas a partir dos 4 anos até os 15 anos.

Qual é a relação da memória com a emoção? As memórias mais bem guardadas são as que têm um conteúdo emocional intenso. Isso se deve às vias nervosas estimula­das pelo alerta emocional, bom ou ruim, que, por sua vez, estimulam os mecanismos bioquímicas da formação de memórias nas sinap­ses. Existem duas forrnasde ini­bir a recordação de memórias pre­judiciais: a repressão e a extinção. Na primeira, o cérebro decide vo­luntária ou involuntariamente não recordar de determinado fato ou evento. Já na segunda, a repetição dos componentes da memória, sem sua consequência, causa o esque­cimento. Outro motivo para es­quecer é a necessidade de abrir espaço para novas memórias.

Por que somos capazes, por exemplo, de decorar o nome de todos os joga­dores de um time de fute­bol, mas não as datas importantes? Por que tem gen­te que reconhece uma pessoa que viu uma vez na vida e há quem nunca lembre de fechar a porta quando sai de casa? Para algumas pessoas, por razões de prática ou por razões inatas, é mais fácil lembrar nomes, datas, lugares. Já para outras, não. Algu­mas pessoas são mais esquecidas ou distraídas.

Qual é o limite da capacidade hu­mana para reter informações? Quanto mais a pessoa exercita o cé­rebro, maior sua capacidade de me­mória. Ler, ler e ler é disparado o me­ lhor treino para a memória.

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