Dificuldade em idiomas


Apesar das promessas de métodos "fáceis" de ensino de línguas para adultos, pesquisadores garantem: na maioria dos casos é preciso dedicação e coragem de se arriscar a errar, pois esse tipo de aprendizzagem requer a formação de novas redes neurais - e para isso é necessário treino e tempo.

Revista Scientific American - por Jan Dönges

O domínio de uma língua estran­geira, em especial o inglês, é uma exigência frequente nas empresas. A maior parte dos candidatos às vagas, por sua vez, atesta no currículo que fez cursos - o que eT geral é verdade. Mas, na prática, são poucos os que sustentam uma entrevista mais detalhada em outro idioma ou mantêm uma conversação em inglês sem grande esforço. Para muitos prevalece a sensação de cometer um erro atrás do outro. E o pior é que a insegurança quanto à gramática e o medo de equívocos terminam por comprometer as possibilidades de acerto. Em muitos casos, nem mesmo anos de aula mudam essa situação.

Talez por isso pareça, para tanta gente, tão sedutora a proposta de eliminar as antigas tradi­ções no ensino de línguas estrangeiras e investir em novos métodos, mais rápidos e eficazes. Os livros CDs e DVDs para autodidatas ou prospec­tos de escolas particulares sempre voltam a afirmar veementemente que tudo o que precisamos é uma abordagem correta. E o melhor: podemos nos livrar com certeza das horas de estudo em casa, das listas de vocabulário, do jargão linguís­tico! Verdade? Especialistas acreditam que não. Principalmente quando se trata de adultos, nada substitui o trabalho duro.

É claro que há o caso de crianças que crescem em um país estrangeiro e aprendem a língua de seu ambiente sem grandes dificuldades. E avanços na psicologia e linguística poderiam ajudar a transferir mecanismos de aprendizagem seme­lhantes para o mundo adulto. Por trás disso não está apenas o argumento promocional de poupar os alunos do grande trabalho de aprender gramá­tica. Pesquisadores, reconhecem a necessidade de adoção de modelos mais eficazes e menos penosos, já que prevalece o consenso de que nada se ganha apenas com o ensino de regras.

• Em ziguezague

O que precisa ser transformado é o chamado mé­todo de gramática e tradução - pelo qual, ainda hoje, boa parte dos livros didáticos se orienta -, que vem dos tempos iniciais do ensino metódico de línguas. Ele é o consenso fundamental, o pro­tótipo da aula de língua estrangeira de qualquer conceito pedagógico. A bem da verdade, em sua forma pura hoje é encontrado apenas em casos de exceção, mais provavelmente nas aulas de latim: devem-se construir frases na língua es­trangeira ou traduzir textos para a língua materna com caneta e papel, pois os alunos só vão falar (se isso acontecer) bem mais tarde.

Obviamente o que ainda é sustentável no caso das línguas mortas certamente fracassará com o inglês ou o francês. "Nesse processo, os alunos não absorvem muito mais do que um conjunto de regras abstratas. Isso, porém, não ajuda em nada o uso da língua: dessa forma, os estudantes não conseguem transformar seu conhecimento linguístico em uma forma útil para a comunicação", diz a pedagoga Susanne Even, da Universidade de Indiana em Bloomington.

Chovem críticas ao método de gramática e tradução - e elas não são recentes. Justamente por esse motivo, já em 1882 o professor Wilhelm Viêtor (1850-1918), em seu panfleto polêmico A aula de línguas deve ser transformada!, condenou a prática comum naquela época. Ele obteve grande apoio e, a partir de então, muitos educadores e linguistas passaram a dar mais valor ao domí­nio oral do idioma. A questão que os intrigava naquela época e de certa forma permanece até hoje é: como é possível ensinar as pessoas a falar outra língua corretamente sem que seja necessário dedicar anos a fio para isso?

A grande busca por alternativas que se iniciou desde então na didática se assemelha à tentativa de atirar em um objeto em movimento. Como quase não há pesquisas próprias e siste­máticas, qualquer mudança na tendência das "disciplinas de base" - psicologia, linguística e pedagogia - cedo ou tarde também culmina em um procedimento didático próprio, enquanto a estrutura teórica acaba com os antigos conceitos de aprendizagem de línguas. O "método áudio­-oral", por exemplo, no qual frases e estruturas são treinadas à perfeição por meio de sua cons­tante audição e repetição, foi celebrado como uma verdadeira revolução na metade do século 20, levando, entre outras coisas, à divulgação dos laboratórios de línguas. Como, no entanto, ele se apoia em uma psicologia do aprendizado hoje ultrapassada, a maioria dos pesquisadores se distanciou dele.

Nos anos 70, o "método natural" do pro­fessor de espanhol Tracy Terrell e do linguista Stephen Krashen, da Universidade do Sul da Califórnia, fez sucesso. Eles se concentraram completamente na comunicação e tomaram como modelo de reflexão a seguinte questão: línguas estrangeiras devem ser aprendidas como foi aprendida um dia a língua materna - por meio da fala e, principalmente, pela audição. Krashen e Terrell partiram do princípio de que um mecanismo cerebral específico Ihes permitia aprender a própria língua materna. A fim de ativá-lo novamente, o planejamento do curso deve se orientar exatamente pela ordem em que as crianças adquirem novos conceitos linguísti­coso Ou seja: se egundo os estudiosos, os alunos expandem suas capacidades principalmente quando ouvem construções de frases que sempre estão um pouco acima de sua capacidade momentânea (como uma criança pequena que aprende a falar).

Seria esse então o modelo de um curso de lín­gua mais próximo do ideal, capaz de proporcio­nar aprendizado fácil e ao mesmo tempo efetivo? Por mais plausível que pareça à primeira vista, o "método natural" de Krashen e Terre mostrou-se ingênuo demais: muitos professores de línguas que o seguiam logo deixavam totalmente de lado o cansativo ensino de regras gramaticais. "Muitas escolas e até universidades optaram por descartar a gramática, mas mesmo depois de vários anos muitos alunos ainda estavam no nível do "eu vai", comenta Susanne Even.

A pesquisadora Claudia Riemer, que realiza estudos na Universidade de Bielefeld em didática de línguas estrangeiras, reconhece o problema: "Aprender uma língua estrangeira é uma situ­ação de enorme complexidade para o cérebro. Não é possível fazê-Io sem nenhuma atenção focada em determinadas regras".

Outros métodos não tiveram melhor desti­no. Assim, entre os pesquisadores foi se esta­belecendo a ideia de que, infelizmente, quase todos os conceitos que deixavam explicações gramaticais de fora se mostravam inadequados em algum momento. Apenas sair falando funciona, no máximo, para os primeiros passos em uma nova língua.

Por enquanto, ninguém desco­briu o método com o qual a apren­dizagem de línguas finalmente se tornará uma agradável brincadeira de criança para qualquer pessoa. Mas sejamos sensatos: é bastante improvável que algum dia exista um truque assim, já que as pes­soas têm formas diferentes de apreender informações e resolver problemas. As demandas também são diversas. Uns querem apenas falar e se comunicar sem grandes vexames, outros têm excelente memória para vocábulos mas fracassam ao construir uma frase - e, por fim, há aqueles que encontram prazer em folhear os livros de gramática, sentem-se mais seguros assim. Além disso, o aprendizado (e consideramos aqui que aprender é mudar comportamentos e compreensão de si e do outro) requer formação (ou ativação) de redes de neurônios. Adquirir conhecimento complexo, como um idioma, significa, portanto, alterações da anatomia cerebral.

Por isso, a didática de línguas estrangeiras tem se concentrado, nos últimos tempos, nos estilos pessoais de aprendizagem. E para não perder (tantos) alunos os cursos buscam, cada vez mais, atender a essa diversidade. Os mais velhos, muitas vezes, já estão acostumados, desde crianças, a declinar e conjugar. "Após alguns anos de aulas na escola, a maioria tem pelo menos uma ideia bastante exata daquilo que constitui uma boa aula", diz Claudia. Esses alunos não confiam apenas em exercícios de conversação e de grupo, preferem tentar sanar seus problemas orais com lições de gramática - e quase sempre acabam caindo em um círculo vicioso, diz Sylvia Fischer, da Universidade de Modena, que estudou o tema em seu douto­rado e entrevistou estudantes italianos sobre a causa de sua inibição em aula. Ela percebeu que a fixação em regras linguísticas estimula uma postura mais dura em relação aos próprios erros. Uma aula que, em grande parte, se compõe de exercícios de conversação em grupo é proveitosa quase que exclusivamente para pessoas com pouca dificuldade em conversação.

Como saída para esse dilema, existe uma estratégia dupla que as­socia abordagens especificamente comunicativas às formas clássicas, que valorizam a gramática. Alega­-se que essa estratégia deixa espaço suficiente para ensinar todo o conhe­cimento teórico necessário e ajuda a "soltar a língua" dos alunos e a eli­minar o medo de se expor - e errar. A aprendizagem voltada para situações práticas (como se comunicar com o garçom, conversar com funcionários do aeroporto, pedir informações so­bre pontos turísticos ete.) segue esse princípio na medida em que - em cada situação relevante do cotidiano - é possível aprender. O conceito central aqui é deixar claro que as formas gramaticais não têm um fim em si, mas é fundamental que tenham aplicação prática.

• Experiência lúdica

Susanne Even dá um passo à frente ao mandar seus alunos da Universidade de Indiana fazer teatro. O "gramaticodrama" se baseia na abor­dagem pedagógico-dramática desenvolvida por Manfred Schewe, da Universidade de Cork, na Irlanda. "Não apenas representamos, buscamos formas próprias e corretas de dizer "o que o outro disse", trabalhamos com o discurso indireto e exercitamos as construções de frases em varia­das situações." A proposta privilegia também a experiência lúdica: os alunos se preocupam com vários aspectos como expressão corporal e a interação com os outros, deixando de lado a timidez. A pesquisadora ainda não tem dados comparativos sobre o método, mas tem espe­rança de que, de forma mais descontraída, os estudantes finalmente aprendam uma língua estrangeira de maneira prazerosa e efetiva. 

• Qual curso mais adequado?

Cinco perguntas que todos deveriam se fazer:

- A escola promete eliminar totalmente as aulas de gramática? Então você deve desconfiar; as chances de sucesso são duvidosas.

- A conversação é priorizada? É fundamental que seja, pois sem a prática nem uma mochila cheia de teoria pode ajudá-lo.

- Qual a postura dos professores em relação aos erros? Mesmo quando algumas frases alnda saem erradas, eles devem estimuiar e aluno a falar; em fases iniciais do aprendizado a supervalorização da gramática não ajuda, mas inibe.

- O curso se concentra em um tipo de atividade? O ideal é que não. Quanto mais variada for a aula, mais provável será que a pessoa descubra a melhor forma de aprender.

Para saber mais 

A magia da fala. Anette Lessmollmann. Coleção A Mente do Bebê, n° 3, págs. 14-19.
Pequenos aprendizes. Maria Cecília de Oliviera Micotti. Coleção A Mente do Bebê, n° 3, págs. 20-25.
O tempo da palavra. Ma­ria Francisca Lier-DeVitto e Viviane Orlandi Faria. Cole­ção A Mente do Bebê l;ão aos erros? Mesmo quando algumas frases alnda saem erradas, eles devem estimuiar e aluno a falar; em fases iniciais do aprendizado a supervalorização da gramática não ajuda, mas inibe.

- O curso se concentra em um tipo de atividade? O ideal é que não. Quanto mais variada for a aula, mais provável será que a pessoa descubra a melhor forma de aprender.

Para saber mais 

A magia da fala. Anette Lessmollmann. Coleção A Mente do Bebê, n° 3, págs. 14-19.
Pequenos aprendizes. Maria Cecília de Oliviera Micotti. Coleção A Mente do Bebê, n° 3, págs. 20-25.
O tempo da palavra. Ma­ria Francisca Lier-DeVitto e Viviane Orlandi Faria. Cole­ção A Mente do Bebê, nº 3, págs. 26-29.

Sobre o autor

É linguista e jornalista.

    Leitura Dinâmica e Memorização

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