Dinheiro no divã


O histórico familiar ajuda a explicar a forma como lidamos com nossas finanças pessoais, se acumulamos dívidas em excesso ou economizamos em demasia.

Revista Istoé - por Débora Rubin

O brasileiro anda gastando mais do que ganha. E o grau de endividamento só cresce. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 48% da população nacional tem dívidas e 8% está muito endividada. Uma parcela da culpa é atribuída à inflação e aos salários estagnados. A outra é debitada na conta da família. "O dinheiro está no nosso dia a dia, mas não falamos sobre ele. Não fomos educados para lidar com as finanças e repro­duzimos padrões familiares sem saber", expli­ca a psicóloga paulista Valéria Meirelles, espe­cializada em psicologia do dinheiro.

A publicitária baiana Joanna Moura, 27 anos, sabe exatamente de quem herdou a com­pulsão por comprar. "Minha mãe era assim, entrava em um shopping e adquiria o que tinha vontade", lembra. Só agora, com mais de 50 anos e ainda trabalhando a todo vapor é que a progenitora passou a se preocupar com a apo­sentadoria. Já o pai, a quem ela chama de "certinho", está aposentado e tranquilo. Joanna aponta o dedo para outro culpado por sua inabilidade. "Por que não tivemos aulas de fi­nanças na escola?", questiona. De fato, a educa­ção financeira só vai se tornar obrigatória nas escolas públicas a partir do ano que vem. Para mudar o padrão de consumo, a publicitária criou um blog no qual conta sua experiência de ficar um ano sem comprar nenhuma roupa (www.umanosemzara.blogspot.com). Após três meses, o diário virtual já rende frutos: mais de 1,3 milhão de visitas, média diária de 23 mil visualizações e uma economia em sua con­ta-corrente.

Segundo a especialis­ta em educação finan­ceira Cássia D"Aquina, identificar que o proble­ma é uma herança fa­miliar é apenas o pri­meiro passo, mas é preciso ir além, como no caso de Joanna. O segundo é fa­lar sobre dinheiro, principalmente nos relacionamentos. "Mas é preciso ter ta­to. Falar não é cobrar o tempo todo nem escrachar o parceiro", diz. As especia­listas garantem que um casal que trata do tema com naturalidade desde o namo­ro tem mais chances de ter um casamen­to saudável. Em relação aos filhos, além do diálogo, valem os bons exem­plos. De nada adianta dar um porqui­nho de presente, dizer que é impor­tante poupar e ser consumista. Valé­ria, que atendeu crianças durante mais de uma década, destaca que frases apa­rentemente inofensivas também têm seu peso, como as clássicas "dinheiro não é tudo na vida". "A gente não tem noção de como essas pequenas men­sagens vão construindo nosso univer­so financeiro", diz.

Muita gente sabe tirar proveito da herança familiar. É o caso dos sócios cariocas Marcelo Portella, 42 anos, e Ricardo Mello, 43. Há oito anos eles tocam um negócio que começou com um cursinho preparatório para exa­mes. Hoje celebram novas unidades, franquias e uma editora. Portella se autointitula um "gastão convicto". Não fica endividado, mas usa o que tem. Investe em carros, esportes radi­cais e passeios com a namorada. O empresário conta que sua mãe era uma mulher prudente com o orçamento familiar. "Já meu pai era um legítimo boêmio, gastava o dinheiro com esco­la de samba e bar", recorda. "Acho que sou um pouco dos dois."

Mello é o oposto. Casado e pai de dois adolescentes, ele é o "departa­mento financeiro" da empresa e da família. "Meu celular apita toda vez que minha mulher faz uma compra com o cartão de crédito", conta, lem­brando que puxou ao pai, professor, organizado, prudente com o dinheiro, que sempre bradava "só se ganha algum trabalhando du­ro". O empresário se orgulha de nunca ter se endividado e de ter juntado dinheiro por dez anos para comprar um aparta­mento à vista. Também faz questão de dizer que só tem três pares de sapato. "Mas não sou pão-duro", garante. Portella acredita que já teria quebrado se não tivesse Mello como sócio. Já Mello aposta que, se tocasse o negócio sozinho, estaria apenas com o primeiro cursinho. Nesse "casamento", o encontro dos opostos deu certo.

• Terapia financeira

Assinale se as colocações abaixo são verdadeiras ou falsas para você:

1. Eu gostaria de viver dentro de minhas possibilidades financeiras, mas não sei se consigo. V(___) F(___)

2. Quando consigo pagar minhas contas em dia, fico feliz e me sinto vitorioso/a. V(___) F(___)

3. Eu gasto muito tempo pensando nas contas a pagar e isso atrapalha minha vida no geral. V(___) F(___)

4. Acho muito chato controlar meus gastos e ter uma planilha para anotar receitas e despesas. V(___) F(___)

5. Eu não sei dizer corretamente quais são minhas despesas, vou gastando e olhando a conta bancária de vez em quando. V(___) F(___)

6. Eu preferiria não ter de pensar em dinheiro, salário, débitos, investimentos e, principalmente, em aposentadoria. V(___) F(___)

7. Quando estou triste ou aborrecido/a, procuro comprar alguma coisa para compensar essa situação. V(___) F(___)

8. Já perdi amigos e relaciona­mentos em função de meu jeito descontrolado (ou muito seguro) de lidar com o dinheiro. V(___) F(___)

9. Quando o assunto é dinheiro, sin­to tristeza, angústia e preocupação. V(___) F(___)

10. Nunca imaginei que teria de aprender a usar co orretamente o di­nheiro. Tudo sempre pareceu muito óbvio e fácil, mas vi que não era. V(___) F(___)

Respostas

Se você respondeu verdadeiro para mais de cinco afirmações, está na hora de rever seu comportamento financeiro e entender por que é tão difícil cuidar do próprio dinheiro. Tente entender quais atitudes levam a uma situação emocional negativa e mude essa história.

Se você respondeu falso para mais de cinco respostas, você está no ca­minho para melhorar sua relação com o dinheiro e atitudes em relação a ele, pois consegue ter um pouco de controle sobre suas emoções.

Se você respondeu falso para mais de sete respostas, o caminho para controlar seu dinheiro e suas emoções já está bem trilhado, é apenas uma questão de ajustes. Reflita sobre as respostas verdadeiras que deu. 

Se deu empate, você está dividido(a} entre acertos e erros. Portanto, meio caminho andado rumo às mudanças positivas.

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