Direto ao ponto sem Power Point


Ele penhorou a casa para lançar o primeiro livro. Mas a capacidade de transformar informações em gráficos fez de Edward Tufte um homem influente, hoje contratado por Barak Obama.

Revista Galileu - por Tiago Cordeiro

Em 2003, um artigo de 28 páginas chegou à sede da Nasa, em Washington. O texto defendia que o PowerPoint, programa da Microsoft de apresentação de dados, ajudou a provocar a tragé­dia do ônibus espacial Columbia, que se desintegrou na volta à Terra e matou seus 7 tripulantes. O texto foi citado no relatório da agência espacial americana sobre o acidente. Seu autor, o designer de informação Edward Tufte, destrinchava nele os registros dos en­genheiros desde o lançamento, quando uma peça da nave se soltou. Foi aí que a Nasa descobriu que dados importantes foram simplificados para caber nos slides e abandonou de vez o PowerPoint. No lugar, Tufte sugeriu algo bem simples: a volta das velhas planilhas.

Começava ali uma campanha contra o popular software de apresentações, que passou a entrar em decadência entre boa parte dos cientistas. "Pare­ce retrocesso, mas a solução mais antiga, se bem usada, é a melhor", diz Tufte, hoje com 69 anos. "Tudo o que puder ser apresentado em planilhas e gráficos deve ser feito. O restante pode vir em texto, sem o limite de caracteres do PowerPoint, um programa tão pobre em informações que só ganha, hoje, do antigo jornal soviético Pravda", diz Tufte. ET, como curiosamente prefere ser chamado, já fez projetos para a IBM, para o New York Times e o Wall Street Journal, e é um dos precursores do conceito conhecido hoje como visualização de dados. "Essa é a técnica que usamos para explorar quantidades enormes de informações", diz Fernanda Viegas, pesquisadora do Google e uma das experts mun­diais no assunto. "Ele demonstrou que o tratamen­to visual de dados impacta profundamente nossa compreensão de mundo."

Tufte fez uma de suas máximas virar lei: sempre ter comparações de dados em análises visuais, já que odeia qualquer imagem que não seja informa­tiva. Quando revisou um infográfico de Carl Sagan sobre a evolução da vida no planeta, fez poucas mudanças: substituiu os nomes pelas imagens dos animais e mudou a localização de alguns deles no gráfico. "O dinossauro estava muito perto dos go­rilas, o que vai contra a tese do próprio Sagan. Tentei deixar as informações mais claras, mas também mais precisas."

Galileu moderno

Tufte, filho de um engenheiro e de uma profes­sora de inglês e literatura renascentista, diz que a união de texto e estatística começou em casa. "Meu pai valorizava a objetividade, enquanto mi­nha mãe chamava minha atenção para a comple­xidade do mundo e para a importância de colocar tudo em seu devido contexto." Como professor na Universidade de Princeton, em 1975, ao preparar um curso de estatística a jornalistas, ficou decep­cionado com os textos teóricos e fez seu material, em parceria com o colega John Tukey, pioneiro do design de informação. "Queríamos o básico: dados apresentados de forma clara, sem distorções nem simplificações. Como sempre acontece com tudo
o que parece simples, demoramos para conseguir", diz. Decidiu, então, publicar um livro sobre o novo conceito, que não custasse mais de US$ 30. Como nenhuma editora se interessou, hipotecou sua casa para bancar The Visual Display of Quantitative In­formation (Visualização de Informação Quantitati­va). Lançada em 1983 com 5 mil exemplares, hoje é uma das publicações independentes mais vendidas, com mais de um milhão de cópias, e está entre as 100 mais influentes do século 20 em um ranking da Amazon. "Não adianta só coletar dados, é preciso interpretá-Ios. Tufte ensinou os designers a fazer isso e o público a ler informações complexas", diz Sergio Peçanha, editor de infográficos do jornal New York Times.

A fama do infografista vai para além do mundo do design. Os cursos diários que ministra por US$ 380 já atraíram mais de 190 mil pessoas e Tufte é parado nas ruas da cidadezinha de Cheshire, Connecticut, onde vive com a família e 3 cachor­ros golden retriever. É lá também onde ele guarda sua respeitável coleção de mapas antigos, entre eles o do francês Charles Minard (veja o quadro abaixo), que demonstra que a invasão de Napoleão à Rússia estava fadada ao fracasso - e que Tufte usa como inspiração.

Formado em estatística por Stanford, e ciências políticas em Yale, ET diz que sua principal influ­ência é, veja só, Galileu Galilei, que considera o melhor pensador visual da história. E indica a obra Istoria e Dimostrazioni Intorno Alle Macchie Solari, de 1613, em que o cientista italiano descreve, com texto e desenhos, o planeta Saturno. Por isso, sem modéstia, chama a si mesmo de Galileu moderno dos gráficos. "Minha obra é perene, será estudada depois da minha morte."

Contratado por Obama

Alguns de seus infográficos mais marcantes lidam com a área de saúde. "É uma das áreas mais úteis para meu trabalho porque lida com um grande vo­lume de informações que, se mal interpretadas, podem causar mortes", diz. Não por acaso, Bara­ck Obama recorreu ao especialista, em 2010, pa­ra reformular o site do plano de recuperação da economia dos Estados Unidos. A missão, que ET aceitou sem cobrar um centavo, era apresentar ao país o destino de US$ 787 bilhões para estimular o sistema produtivo. Na primeira reunião, após ver as ideias, disparou: "intelectualmente empobrece& ­dor". Diante da sala em silêncio, sugeriu então que o site fosse tratado como um portal de qualquer grande jornal. Foi assim que reformulou a equipe e montou uma redação, com repórteres e editores. O resultado ainda é parcial (cobre 85 mil projetos e US$ 225 bilhões) e pode ser conferido online no endereço recovery.gov. "Ele é revolucionário porque ensinou os leigos a ler informações que antes só eram para especialistas", diz John Hood, presidente da John Locke Foundation, uma ONG americana de transparência governamental.

Versão Excel

O trabalho mais recente de Tufte, publicado em 2007, são as sparklines, um modelo de apresenta­ção de elementos variáveis pelo tempo que é usado para mostrar dados financeiros, como a oscilação da bolsa. "As sparklines são resultado de 5 anos de pesquisas. Queria algo que um operador de bolsa pudesse entender em segundos", diz. Para isso, ET descartou números da linha do gráfico e destacou o valor final. Curiosamente, a Microsoft, criado­ra do PowerPoint, comprou os direitos sobre as sparklines para incluir na recente versão do Excel. Para Edward Tufte, é irônico que a empresa de Bill Gates, que criou um dos maiores inimigos da sua profissão, tenha adquirido uma obra sua.

Primeiro de tudo. Funcionalide

Edward Tufte é o grande defensor do minimalismo em visualização de informação. Sua filosofia parte de um princípio básico: codificar a maior quantidade de dados possível, usando a menor quantidade de recursos visuais e de espaço que der. Sempre com profundidade.

- Mau exemplo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Turfte é cpntrário a usar decorações e enfeites demais porque tiram o espaço para aprofundar a informação e mostrar dados. No seu lilvro Envisioning Information (1990), ele critica um trabalho do famoso designer Nigel Homes, que na época estava na revista Time. Homes, memso acusando Turfte de injusto (estes gráficos eram comuns nos anos 80), hoje reconhece que é um estilo falido.

• Bom exemplo

 

 

 

 

 

 

 

 

Para Turfte, um dos melhores gráficos da história foi feito pelo cartógrafo francês Charles Minard, em 1869, sobre a campanha de Napoleão contra a Rússia. é um prodígio de economia visual e profundidade. A linha marrom representa o avanço das forças do imperador e a preta, a reitrada. A largura dos fios é proporcional ao número de soldados de seu exército - mais de 400 mil no começo, menos de 17 mil no final. Funciona como mapa e como um gráfico estatístico com múltiplas variáveis, incluindo a temperatura, um fator decisivo para a derrota.

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