Dois pra lá, Dois pra cá


Estudos sobre cooperação mostram que ações sincronizadas facilitam a concordância sobre os mais diversos temas; acordo tácito facilita interação social.

Revista Scientific American - por Natalie Sebans

Os argentinos Juan Carlos Copes e Maria Nieves dançam juntos há 40 anos e formam um dos pares de dançarinos de tango mais famosos do mundo. A sintonia entre os dois hipnotiza qualquer platéia. Copes disse uma vez que se não tivesse encontrado Nieves, precisaria de pelo menos quatro parceiras para explorar todas as possibilidades de expressão do ritmo portenho. Qualquer pessoa que já tenha feito dança de salão sabe como é difícil harmonizar os movimentos com os de outra pessoa para que a dupla deslize suavemente pela pista.

Problemas de coordenação e sincronia fascinam pesquisadores que estudam cooperação. Ninguém precisa ser um exímio dançarino para usar tais habilidades, presentes em muitas siituações no dia-a-dia- como quando dirigimos entre outros carros ou somos ajudados para carregar objetos pesados.

Apesar de permear nosso cotidiano, a sincronia implicada na cooperação não tem nada de trivial, reconheceu o psicólogo social Floyd Henry Allport, da Universidade Harvard, há mais de 80 anos. Afinal, não é fácil ter sintonia fina de pensamentos e movimentos sem a oportunidade de ensaiar a coreografia", como fazem os dançarinos.

A base da cooperação é construída apenas durante a interação propriamente dita - é por isso que ninguém aprende a dançar consultando livros ou sites na internet. Pioneiros nessa área, os psicólogos cognitivos Simon Garrod, da Universidade de Glasgow, e Martin Pickering, da Universidade de Edimburgo, investigaram o papel da fala como instrumento de coordenação. Eles observaram que, enquanto executam ações sincronizadas, as pessoas tendem a concordar rápida e involuntariamente sobre conceitos comuns. Exemplo: dois indivíduos, enquanto realizam uma ação conjunta, discutem a cor de uma gravata. Quando um deles diz que a peça é verde, o outro não demora muito para concordar, mesmo que a gravata seja de fato azul. Esse acordo tácito simplifica muito o entendimento. Os experimentos dos pesquisadores escoceses mostraram também que a estrutura da frase e até mesmo a entonação da fala passam por ligeiras alterações para que a conversação flua sem obstáculos.

E quando a fala simplesmente não é o modo apropriado para sintonizar corpos e mentes? Instruções verbais não costumam funcionar em atividades que, além de exigir coordenação instantânea, estão muito sujeitas à improvisação, como tango ou jazz. Nesses casos, as palavras demoram muito para transmitir idéias. O papel das pistas não-verbais na ação coordenada vem sendo estudado mais detalhadamente nos últimos anos. Vários mecanismos já foram identificados e a maioria deles funciona de forma inconsciente. Os pesquisadores observaram, por exemplo, que o ser humano é capaz de reconhecer quase que instantaneamente a mudança de foco de atenção de seu interlocutor e redirecionar seu olhar para o mesmo objeto ou evento. Essa habilidade de "atenção conjunta" parece se desenvolver muito cedo. Bem antes do primeiro aniversário, os bebês acompanham o olhar de outra pessoa. Entre os 12 e os 18 meses, já são capazes de inferir que, se alguém está olhando para o mesmo objeto observado por elas, ambos só podem estar vendo a mesma coisa.

Os psicólogos Herbert H. Clark, da Universidade Stanford, e Meredyth Krych, da Universidade Estadual de Montclair, demonstraram a importância da atenção conjunta para a ação cooperativa. Em um dos experimentos, instruíram duplas de participantes na construção de um modelo com peças Lego. Cada dupla deveria atuar como "gerente", lendo as regras que constavam num manual; o outro, como "operário", organizando a peças. Metade das duplas trabalhou separada por uma divisória, de forma que um não podia ver o trabalho do outro. Nas duplas restantes, os pares trabalharam juntos. Como era de esperar, as divisórias dificultaram muito a coordenação dos esforços - o trabalho fluiu mais rapidamente e com menos erros quando os parceiros mantiveram o contato visual.

Muitas vezes uma espiada rápida é suficiente para reconhecermos o que o outro está fazendo e o desdobramento de seus atos. Se avistarmos alguém pegando um copo d"água, por exemplo, é muito fácil prever que o objeto será levado até a boca e a água será bebida. Uma série de estudos neuropsicológicos e de imageamento cerebral indica associações entre a percepção do que outros estão fazendo e nossos mecanismos de planejamento e de controle. Uma das primeiras conexões foi observada em macacos. Hoje os chamados neurônios-espelho, células situadas nos córtex pré-motor e parietal, disparam sinais elétricos não apenas quando o indivíduo executa uma ação, mas quando observa outros fazendo a mesma coisa. A descoberta impulsionou uma série de estudos que mostraram a ação das regiões cerebrais durante a observação e a realização de ações.

A neurocientista Beatriz Calvo-Merino, da University College de Londres, vem investigando o assunto nos últimos anos. Em um de seus experimentos, ela mostrou vídeos de dança para grupos de bailarinos e de capoeiristas enquanto seus cérebros eram monitorados com técnicas de imageamento cerebral. Em todos os participantes foi observada uma ativação maior de certas áreas apenas quando eles assistiam ao ritmo que praticavam, por sinal as mesmas ativadas quando eles, de fato, dançavam ou jogavam. Assim, uma bailarina, por exemplo, exibia atividade menos s intensa na medula espinhal quando via cenas de capoeira e vice-versa. Quanto mais próximas as ações do observador e do observado, maior a ressonância no sistema nervoso motor.

  • Cola social

    A conexão entre ação e percepção também ajuda a explicar por que muitas vezes imitamos gestos e expressões faciais. Por exemplo, quando erguemos copos para brindar. Da mesma forma, é comum cruzarmos as pernas quando nosso interlocutor faz o mesmo. O fenômeno pode surgir em função da ativação de "programas" cerebrais que têm força suficiente para deflagrar movimentos involuntários.

    Nosso talento para o mimetismo serve a um importante propósito. Estudos sugerem que a imitação espontânea age como uma "cola social" que estimula sentimentos de cordialidade e senso de proximidade. Pesquisas conduzidas pela psicóloga Tanya L. Chartrand, da Universidade Duke, indicam que as pessoas consideram amigáveis aqueles que costumam imitar inconscientemente seus movimentos; por outro lado, parecem antipáticos aqueles que não refletem seus gestos. Chartrand também mostrou que quem se sente excluído das atividades de um grupo imita com mais freqüência as expressões dos seus integrantes no intuito inconsciente de se aproximar dos demais. Quando nossas ações se parecem com as que percebemos nos outros, surge o sentido de união social.

    A tendência para a cooperação está tão profundamente arraigada na espécie humana que não a abandonamos mesmo que imponha dificuldades para executar certas tarefas, como constatei no experimento que realizei com Guenther Knoblich, da Universidade Rutgers, em Newark, e Wolfgang Prinz, do Instituto Max Planck de Ciências do Cérebro e Cognição Humana, em Munique. Os participantes observaram, numa tela de computador, uma sucessão de imagens de uma mão, que ora apontava para a direita, ora para a esquerda, e na qual o dedo indicador podia ter um anel vermelho ou verde. Foi pedido aos voluntários que apertassem uma tecla à direita, com a mão direita, sempre que o anel verde aparecesse na tela. No caso do anel vermelho, o botão da esquerda deveria ser pressionado com a mão esquerda. Em ambos os casos a direção do dedo que aparecia na tela deveria ser ignorada. No entanto, esse detalhe foi o que mais confundiu as pessoas. Era comum vê-las, por exemplo, hesitando em pressionar a tecla direita quando o anel verde indicada o lado esquerdo.

    Repetimos o experimento com duplas. Sentadas uma ao lado da outra, as pessoas olhavam o mesmo monitor e podiam apertar apenas uma tecla. Assim, quem se sentava à direita respondia apenas ao anel verde; o da esquerda ficava responsável pelo vermelho. De novo, a direção para onde o dedo da tela apontava afetou resultados. Os indivíduos reagiram mais rapidamente quando o dedo apontava na direção deles. Curiosamente, porém, quando os participantes foram separados fisicamente e realizaram exatamente as mesmas tarefas, não houve diferenças no tempo de reação. Assim, quando cada pessoa assume o controle de uma parte da tarefa, no conjunto elas se comportam como uma única entidade responsável pela tarefa completa. Isso quer dizer que não prestamos atenção apenas às nossas próprias ações, mas também às de terceiros. Sempre que a mão do vídeo aponta o meu parceiro, uma representação mental, relacionada à ação potencial dele, é automaticamente ativada em meu cérebro. Há um lapso de tempo antes de eu perceber que preciso reagir à minha cor. É por isso que hesito por um momento antes de pressionar a tecla. Outros estudos revelaram que esse "efeito de integração" é muito mais comum do que imaginamos.

    Será que o impulso de cooperação poderia estar ausente ou debilitado em pacientes com distúrbios neurológicos? Autistas, por exemplo, parecem incapazes de tirar conclusões sobre o que os outros estão pensando ou sentindo. Não sabíamos se isso atrapalhava a habilidade deles para integrar as ações alheias a seu comportamento. Em colaboração com o neurocientista Luitgard Stumpf, do Centro de Integração para Pessoas Autistas de Munique, repetimos a experiência da mão com anel com o objetivo de verificar se adultos autistas com inteligência normal são tão sensíveis às ações dos outros quanto os indivíduos saudáveis. Para nossa surpresa, não houve a mínima diferença entre o comportamento dos dois grupos. Para a mesma tarefa, o tempo de reação foi mais curto quando os participantes estavam separados. Concluímos que as conexões básicas entre ação e percepção, que são a base das interações sociais, podem estar intactas nos autistas - ainda que eles pareçam viver em torno de si mesmo. Outras experiências deverão mostrar como essas pessoas se comportam em situações que exigem níveis mais altos de coordenação. É muito provável que estejamos diante de uma habilidade que tenha se desenvolvido muito cedo na história evolutiva.

    Em alguns casos, a cooperação exige um esforço adicional para garantir que as pessoas não reajam na hora errada, ou seja, na vez do outro. A habilidade de alternar tem um papel cmcial numa conversa, num duo ao piano ou no remo, por exemplo. Sob essa perspectiva, parece que o instinto da mímica precisa ser suprimido de forma a tornar a coordenação possível. Em nossas pesquisas fomos capazes de medir a supressão da atividade elétrica cerebral por meio da eletroencefalografia. Um componente específico do traçado gerado por esse exame - chamado Nogo P3 -mostra a magnitude dos processos necessários para suprimir um movimento que não deve ser realizado em um determinado momento. De novo, essa inibição foi claramente registrada quando os sujeitos trabalham juntos.

      Chave da colaboração

      Os seres humanos usam os neurônios-espelho tanto para imitar ações alheias como para entender seus significados. Essas células estão envolvidas na apreensão de quase tudo, desde sorrisos até movimentos de dança. Seu papel na compreensão das emoções dos outros é um dos aspectos mais investigados atualmente. Para alguns pesquisadores, como o neurocientista cognitivo Vilayanur S. Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de habilidades sociais elaboradas, redes sociais e a infra-estrutura de conhecimento que chamamos cultura. Registros arqueológicos sugerem que esse "grande salto à frente", isto é, o início da cultura humana, começou cerca de 50 mil anos atrás.

  • Com ajuda é ma o

    Os seres humanos usam os neurônios-espelho tanto para imitar ações alheias como para entender seus significados. Essas células estão envolvidas na apreensão de quase tudo, desde sorrisos até movimentos de dança. Seu papel na compreensão das emoções dos outros é um dos aspectos mais investigados atualmente. Para alguns pesquisadores, como o neurocientista cognitivo Vilayanur S. Ramachandran, da Universidade da Califórnia em San Diego, os neurônios-espelho foram cruciais no desenvolvimento de habilidades sociais elaboradas, redes sociais e a infra-estrutura de conhecimento que chamamos cultura. Registros arqueológicos sugerem que esse "grande salto à frente", isto é, o início da cultura humana, começou cerca de 50 mil anos atrás.

  • Com ajuda é mais fácil

    Saber que um parceiro se juntará a nós numa tarefa pode alterar nossa percepção sobre situações e objetos. Há muito se sabe que percebemos as coisas de forma diferente dependendo de nossas intenções e dos recursos à disposição. Um dos exemplos foi dado pelo psicólogo Dennis R. Proffitt, da Universidade da Virgínia. Ele demonstrou que uma montanha parece mais íngreme se estivermos carregando uma mochila pesada. Da mesma forma, a avaliação do peso de uma caixa será diferente entre quem tiver de erguê-la por conta própria e quem contar com uma mãozinha de alguém. O fenômeno foi demonstrado numa experiência que conduzi com Maggie Shiffrar, na qual pediamos aos participantes para calcular o peso de caixas transparentes com diferentes quantidades de batatas. Quando os voluntários acreditavam que receberiam ajuda para realizar a tarefa, a estimativa do peso era menor do que se fossem informados de que teriam de erguê-la sozinhos.

    Os resultados sugerem que vemos o mundo não apenas com nossos olhos, mas também com os do grupo ao qual pertencemos. Planejamos nossas ações em parte guiados pelo que pensamos que podemos obter com os outros, o que parece ter sido uma vantagem adaptativa importante ao longo da evolução. Uma das primeiras formas ancestrais de ação cooperativa pode ter sido a caça de um animal ou o deslocamento de urna pedra grande para a proteção da entrada da caverna. Mais tarde, os indivíduos teriam começado a desenvolver ações mais complexas, como as danças tribais e os rituais religiosos. Os desafios impostos pelas diversas formas de cooperação modelaram nossos sistemas de ação-percepção e de processamento cognitivo inconsciente. Num momento histórico em que se fala tanto em responsabilidade social, é interessante notar que a cooperação não é um mero exercício de solidariedade, mas uma habilidade inata da qual dificilmente conseguiremos abrir mão.

    Saiba mais

    Representing others" actions: just like one"s own? Natalie Sebanz et al., em Cognition, vol. 8, págs. B11-B21, 2003.
    Beyond simulation? Neural mechanisms for predicting the action of others. Natalie Sebanz e Chris Frith, em Nature Neuroscience, vol. 7, nº 1, págs. 5-6, 2004.
    Far from action-blind: representation of others" actions in individuais with autism. Natalie Sebanz et al., em Cognitive Neuropsychology, vol. 22, nº 3 e 4, págs. 433-454, 2005.
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