É mesmo tão ruim sentir-se Triste?


Expressar a angústia é uma forma de pedir auxílio, mesmo quando nem a própria pessoa tem clareza do que sente; alguns defendem que além de funcionar como mecanismo de autoproteção contra situações desgastantes, o rebaixamento do humor nos faz rever atitudes.

Conceitos-chave

- Especialistas divergem quanto ao papel da angústia considerada "saudável" e da depressão patológica. Para alguns, é fundamental medicar a pessoa, mesmo que sua tristeza seja justificada, em razão da morte de um ente querido, por exemplo. Há, entretanto, aqueles que defendem os papéis benéficos dessa emoção, como nos livrar do excesso de estresse, ajudar a se preservar em situações que podem nos pôr em risco e facilitar a concentração para resolver os próprios dilemas .

- Independentemente de um pouco de tristeza ser necessária ou não, em geral pesquisadores, médicos e psicólogos concordam que depressão clínica não é saudável. Um dos debates mais atuais é sobre os prós e contras da "supermedicação" (que pode embotar a criatividade e impedir que a pessoa aprenda sobre si mesmo) e da "submedicação" (que pode contribuir para que, em casos extremos, o paciente tire a própria vida, ou pelo menos não o impeça de fazê-Ia).

Tristeza incomoda. Mesmo que não seja a nossa. Em uma sociedade na qual o prazer é valorizado acima de tudo - haja vista os apelos da publicidade por toda parte - há pouca tolerância para com quem mergulha na própria dor. Ainda mais nos dias atuais, em que há drogas que prometem a sensação de bem-estar. Com frequência, os anridepressivos são receitados e vendidos como produtos capazes de banir a angústia - e não apenas própria da melancolia que corrói a vida aos poucos e pode ser clinicamente diagnosticada, mas também os sentimentos inerentes aos maus bocados pelos quais todos passamos em algum momento da vida, seja em razão da perda do emprego, do fim de um relacionamento ou da morte de um ente querido. Não é de admirar, portanto, que para fugir do desconforto psíquico tantas pessoas recorram ao uso de fármacos.

Mas eles podem mesmo ser tomados por qualquer pessoa, em qualquer circunstância? As pesquisas na área da saúde mental sugerem que a resposta a essas duas perguntas é a mesma: não. Especialistas temem que a crescente tendência de tratar tristeza "normal" como se fosse doença seja uma maneira leviana de lidar com partes cruciais tanto da biologia quanto do psiquismo. Tristeza serve a um propósito evolutivo - se a perdermos, estaremos perdidos. "Presumimos que essa característica, tão arraigada, tenha sido mantida por nos trazer alguma vantagem, pois, do contrário, não teríamos sido onerados com esse fardo. O problema é que estamos brincando demais com a parte neurobiológica de nossa constituição", diz o pesquisador Jerome Wakefield, da Universidade de Nova York, que assina A tristeza perdida: como a psiquiatria transfonnou a depressão em moda. Ele divide com Allan Horwitz a autoria da obra, lançada em 2007 nos Estados Unidos e este ano publicada no Brasil pela Summus.

• Pedido de ajuda

Talvez esteja na hora de assumirmos nosso lado depressivo. Ainda assim, muitos psiquiatras insistem que não. Alguns defendem que a tristeza tem a detestável tendência de se transfor­mar em depressão, e por isso, mesmo quando as pessoas se sentem chateadas por um bom motivo, deveriam usar medicamentos que as fizessem se sentir melhor, se for esse o seu desejo.

Seria a tristeza algo realmente dispensável ou uma parte crucial da condição humana? Existem algumas hipóteses sobre os benefícios de nossa propensão ao rebaixamento do humor. Pode ser, por exemplo, uma estratégia de autoproteção, como parece ser o caso entre outros prima as que exibem sinais de tristeza. Um macaco que não faz uma retirada óbvia e estratégica depois de perder o status no grupo poderá transmitir a impressão de que continua a desafiar o macaco dominan­te - e isso poderia ser fatal. Wakefield acredita que, na espécie humana, a tristeza tem outra função: ajuda as pessoas a aprender com os próprios erros. "Uma das funções das emoções negativas intensas talvez seja suspender nosso funcionamen to saudável, de fazer com que nos concentremos em alguma outra coisa por algum tempo", diz ele. Poderia funcionar como um freio psicológico para nos impedir de cometer alguns enganos e de ser dema­siado displicentes nos relacionamentos ou projetos que valorizamos.

Segundo o psiquiatra Paul Keedwell, da Universidade de Cardiff, do Reino Unido, há outro aspecto mais importante: mesmo uma autêntica depressão pode nos salvar dos efeitos do estresse de longo prazo. Diz ele: se não se nos dermos algum tempo para refletir, poderemos permanecer em um estado de estresse crônico até nos exaurirmos completamente-e morrer. Keedwell também acredita que, ao longo da evolução, tenhamos apren­dido a exibir a tristeza para informar a outros membros da comunidade que precisamos de apoio.

• Preocupação e felicidade

Existe ainda a noção de que a cria­tividade está conectada a humores sombrios. E de fato não são poucos os grandes artistas, escritores e músicos que sofrem de depressão ou transtorno bipolar. Seria difícil encontrar gênios reconhecidos em número suficiente para testar a ideia em um grande estudo controlado, pois a criatividade banal não parece estar associada a transtornos de humor. As pesquisadoras Modupe Akinola e Wendy Berry Mendes, da Universidade Harvard, descobriram que pessoas com sinais de depressão se saíam melhor em uma tarefa criativa, particularmente depois de receber um feedback negativo planejado para reforçar seu estado depressivo. Os pesquisa­dores sugerem que intervenção faz a pessoa ruminar sobre a experiência infeliz, o que permite que os processos criativos subconscientes aflorem ou que forcem os mais propensos à depressão a trabalhar mais duramente para evitar sentir-se mal no futuro.

Há também evidências de que felicidade demais pode ser ruim para a carreira. O psicólogo Ed Diener, pes­quisador da Universidade de IIlinois em Urbana-Champaign, constatou que pessoas que obtiveram oito pontos em uma escala de felicidade de zero a dez tiveram mais sucesso nos quesitos renda e educação que aquelas que fizeram nove ou dez pontos - embora estes últimos tenham aparentemente sido mais bemsucedidos nos relacio­namentos íntimos.

Esse dado poderia simplesmente demonstrar que homens e mulheres mais felizes são aqueles que valorizam relacionamentos íntimos em detrimento de poder e sucesso, mas poderia também indicar que pessoas "felizes demais" perdem a disposição de fazer mudanças de vida que possam lhes trazer benefí­cios. Nesse sentido, Keedwell sugere que medicar a tristeza pode mitigar as consequências de situações desastrosas e remover a motivação das pessoas de melhorar sua vida. Oferecer antidepres­sivos para aqueles cujo problema real nem sempre está claro pode contribuir para que se continue em uma situação insalubre em lugar de tratar de resolver o
problema de base. Insegurança que faz a pessoa se prender a um relacionamento infeliz ou mágoas antigas que prejudi­cam a autoestima, por exemplo Independentemente de um pouco de tristeza ser útil ou não, todos concordam que depressão clínica não é saudável. Infelizmente, nem sempre parece claro o limite entre as duas. Assim, o que é mais perigoso: supemedicar a angústia "normal", uma sensação que pode nos levar a reavaliar nossa vida, ou submedicar uma depressão clínica, que pode fazer com que, em casos extremos, o paciente tire a própria vida? O psiquiatra lan Hickie, do Instituto de Pesquisa do Cérebro e da Mente da Universidade de Sydney, Austrália, insiste que a depressão não é superdiagnosticada, mas preferiria que assim o fosse a ver pacientes gravemente deprimidos desamparados. Segundo ele, evidências sugerem que o número de pessoas que tentam tirar a própria vida (ou e fato o fazem) diminuiu à medida que mais casos da patologia foram diag­nosticados. "É importante levar a sério os estados Iimítrofes de depressão por­ que a maioria dos suicídios não ocorre naqueles mais gravemente deprimidos, e sim naqueles que se sentem mais "fortalecidos" a ponto de atentar contra si mesmos", salienta.

Wakefield, entretanto, não se sente à vontade para prescrever pílulas nas situações em que não existe certeza de que sejam necessárias. Afinal, os antidepressivos têm efeitos colaterais, alguns deles sérios. Onde, então, fica a noção de tristeza humana? Deverí­amos aceitar que eventos importantes da vida realmente nos fazem sentir tão tristes que nos deixam temporariamente inválidos? Ou deveríamos usar pílulas para acelerar nossa jornada emocional de volta à felicidade? O psiquiatra Ken Kendler, da Universidade Comunitária de Virgínia em Richmond, destaca que, para algumas pessoas, a angústia é indubitavelmente o que as prejudica. Ele se lembra de uma mãe com pouco menos de 30 anos que o procurou por­ que tinha um defeito inoperável: sua aorta se romperia em algum momento indeterminável no futuro, matando-a instantaneamente. Esse conhecimento a tornou deprimida - certamente um motivo razoável -, mas ela não queria vi­ver o resto dos seus dias daquela maneira, incapaz de estar com sua a família. "Co­mecei a lhe receitar antidepressivos, e ela retomou bem mais animada. A ideia de que eu estava privando essa mulher da devida experiência de desolação e impedindo-a de sentir profundamente o significado disso me soou bem super­ficial nesse caso particular", conta.

Em relação àqueles de nós que não enfrentaram um problema tão extremo, o psiquiatra Terence Ket­ter, da Universidade Stanford na Caliíómia, é mais cauteloso. "Ê preciso reconhecer algumas verdades: o custo da felicidade é a complacência, a capacidade de aceitação e a flexi­bilidade, o descontentamento pode impulsionar mudanças, e emoção é informação: sufocá-Ia ou embotá-Ia nos priva de dados importantes sobre nós mesmos".

KeedweIl concorda: "lndubitavel­mente, se não tivéssemos nos sentido tristes quando fracassamos em atingir determinadas metas, não daríamos um passo para trás para uma intros­pecção e, talvez, não mudaríamos as nossas estratégias; se nos mantemos entusiasmados e exultantes, prova­velmente avançamos cegamente". Haveria, então, um meio-termo? Os dois lados concordam que existem maneiras para dissipar o abatimento sem as pílulas. Uma opção é pensar sobre o que está nos fazendo infeliz. Outra possibilidade é a espera vigi­lante: uma visão mais matizada da situação ajuda as pessoas a pensar melhor sobre suas opções.

Ed Diener também sugere que deixemos de lado a ideia de sermos felizes o tempo todo. "Um dos papéis do profissional de saúde mental é ajudar as pessoas a atenuar a noção exagerada de que nunca são felizes o bastante", acredita. Ele cita um estudo que usou um software de reconhe­cimento de emoções para dissecar os sentimentos que Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, parecia demons­trar. De acordo com os resultados do programa, ela é 83% feliz. O restante é uma mistura de emoções negativas como medo e raiva - o que parece ser razoável, mesmo para a maioria das pessoas.

• Uma pílula para cada problema

Quando o primeiro medicamento antidepressivo chegou ao merca­do, nos anos 50, a empresa que o comercializava não imaginava que existiriam pessoas deprimi­das em número suficiente para tornar as drogas lucrativas. Em 2000, contudo, os antidepressivos representavam um negócio de US$ 7 bilhões, apenas nos Estados Unidos. O tratamento ambulato­rial para depressão triplicou entre 1987 e 1998.

Muitas pessoas culpam a in­dústria farmacêutica pelo enorme aumento no número de diagnósti­cos de depressão, particularmente em países como os Estados Unidos, onde as companhias farmacêuti­cas podem anunciar os produtos diretamente aos consumidores por meio de televisão, rádio e revistas. Um estudo recente de Richard Kravitz, da Universidade da Califórnia em Davis, teve como objetivo testar essa ideia.

da problema

Quando o primeiro medicamento antidepressivo chegou ao merca­do, nos anos 50, a empresa que o comercializava não imaginava que existiriam pessoas deprimi­das em número suficiente para tornar as drogas lucrativas. Em 2000, contudo, os antidepressivos representavam um negócio de US$ 7 bilhões, apenas nos Estados Unidos. O tratamento ambulato­rial para depressão triplicou entre 1987 e 1998.

Muitas pessoas culpam a in­dústria farmacêutica pelo enorme aumento no número de diagnósti­cos de depressão, particularmente em países como os Estados Unidos, onde as companhias farmacêuti­cas podem anunciar os produtos diretamente aos consumidores por meio de televisão, rádio e revistas. Um estudo recente de Richard Kravitz, da Universidade da Califórnia em Davis, teve como objetivo testar essa ideia.

Ele enviou atores para os con­sultórios dos médicos. Metade apresentou sintomas de depres­são, metade não. Alguns partici­pantes pediam um antidepressivo específico, outros solicitavam um remédio sem dizer qual e outros ainda não faziam nenhum apelo. Aqueles que disseram querer urna droga foram mais propensos a conseguir o fármaco que os vo­luntários que não o pediram, quer apresentassem ou não os sintomas de depressão, segundo artigo publicado no The Journal of the Amerícan Medical Association.

• Até que ponto é saudável?

Se uma pessoa tiver sentido cinco dos sintomas abaixo por duas semanas ou mais, incluindo no mínimo um dos primeiros, ela satisfaz os critérios diagnósticos do transtorno depressivo maior:

Humor deprimido

- Menor interesse ou prazer nas atividades normais
- Perda ou ganho de peso ou de apetite
- Insônia ou sono excessivo 
- Fadiga ou perda ele enerqia 
- Sentimentos de inutilidade, ou de culpa excessiva ou inadequada 
- Indecisão ou capacidade reduzida de se concentrar 
- Movimento agitado (como retorcer a mão) ou aceleração física 
-  Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio

Estes critérios, introduzidos na terceira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-IJI) da Associação Americana de Psiquiatria em 1980, mudaram a definição de depressão de algo que dependia do contexto e das circunstâncias de vida do indivíduo para uma lista mais objetiva de sintomas. Existe uma cláusula notáveI: de acordo com os critérios do manual, se a pessoa apresentar esses sintomas depois da morte de um ente amado, não será considerado que esteja deprimida, mas que sofre uma reação normal e esperada de luto. Alguns, entretanto, acreditam que essa não é a única situação de pesar que deveria ser deixada de fora do diagnóstico de depressão. Jerome Wakefield diz que outras perdas, como divórcio, doença ou uma situação de desemprego, também deveriam eximir as pessoas de um diagnóstico de depressão porque tais eventos, embora comuns, podem desencadear sintomas similares. "É realmente preocupante pensar que qualquer emoção negativa (exceto o pesar do luto) que perturbe o humor possa ser classificada como um transtorno", diz ele. Em um estudo publicado em 2007, a equipe de Wakefield fez um relato sobre mais de mil pacientes que satisfizeram os critérios de transtorno depressivo maior: alguns sofre­ram episódios desencadeados por um luto "padrão", e outros tiveram depressão deflagrada por perdas de tipos variados. A equipe descobriu que o quadro, porém, era bastante semelhante. "Isto sugeriu que 25% das pessoas da comunidade que receberiam o diagnóstico de depressão estão, de fato, provavelmente sofrendo de reações normais e até necessárias", observa Wakefield. Em sua opinião, isso significa que outras formas de tristeza deveriam ser eximidas dos critérios do DSM. Alguns pesquisadores, porém, defendem o oposto: que, longe de ser excluído, qualquer recurso que crie sintomas depressivos - inclusive luto - deveria fazer parte do diagnóstico de depressão
clínica e o paciente, receber tratamento adequado. Ken Kendler, da Universidade Comunitária de Virgínia em Richmond, por exemplo, realizou um estudo semelhante ao de Wakefield, mas chegou a conclusão oposta. Ele comparou indivíduos com depressão relacionada ao luto com aqueles deprimidos por causa de outros eventos estressantes e verificou que existem poucas diferenças nos sintomas entre os grupos. "A manifestação relacionada ao luto é recorrente, geneticamente influenciada, prejudicial e responde ao tratamento e não simplesmente algo pelo qual todo mundo passa", escreveu, em artigo publicado no The American Journal of Psychiatry. Com a próxima edição do DSM prevista para 2013, é provável que o debate se torne mais acalorado nos próximos dois anos. Para alguns, porém, o problema não tem a ver apenas com as isenções, está relacionado também a limites frouxos demais. Para o psiquiatra Gordon Parker, diretor-executivo do Instituto Black Dog, de Sydney, tornar um diagnóstico de depressão "mais fácil" por si só não tem utilidade. Em sua opinião, de nada adianta ter uma definição de depressão que seja ampla e desti­tuída de contexto.

Para conhecer mais

O Demônio do Meio-Dia. Andrew Solomon. Objetiva, 2009.
Depressão e cognlção. Chei Tung Teng, Ana Cristina Gargano Nakata, Cristina Castanho de Almeida Rocca e Yuristella Yano. Atheneu, 2009.

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