É preciso trabalhar muito


Quem quiser se tornar CEO tem, sim, de colocar o trabalho acima de tudo.

Revista Você S. A. - por Rosana Tanus

A constatação é de Antonio Carvalho Neto, professor do programa de mestrado da PUC Minas em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC), em Belo Horizonte. Com a professora Betania Tanure,da FDC, e Juliana Andrade, mestre em administração pela PUC Minas, Antonio participou de uma pesquisa de dois anos com 965 gerentes, diretores, vice-presidentes e presidentes de 300 grandes empresas, sobre o equilíbrio entre vida pessoa e profissional. "Descobrimos que o executivo brasileiro está trabalhando muito: em média, 14 horas por dia", conta. Um dos motivos, segundo ele, é a falta gente nas empresas. Além disso, geralmente o profissional que dá o sangue é bem-visto e admirado pelos colegas e pelos superiores. Para completar, a própria cultura do país valoriza os workaholics. " Quando executivos europeus e americanos vêm trabalhar aqui, se assustam com o volume de trabalho".

É mesmo necessário deixar a vida pessoal de lado para chegar ao topo da pirâmide corporativa, ou tem muito executivo se escondendo no escritório, para não encarar a rotina doméstica?

Quem quiser se tornar diretor, vice-presidente ou CEO com certeza tem, sim, de deixar a vida pessoal em segundo plano, pois o volume de trabalho é excessivo e a competição é verdadeiramennte acirrada. Mesmo assim, não há garantias de que o profissional vai chegar lá, pois esses cargos estão cada vez mais escassos devido às fusões e aos cortes de postos de liderança intermediários, que as empresas vêm fazendo ano a ano. Muitos cargos de supervisor foram cortados e postos de alta gerência e diretoria, enxugados, o que dificullta a escalada ao topo. Infelizmente essa é a realidade da vida corporativa no Brasil hoje.

Por que os executivos brasileiros estão trabalhando mais do que os outros?

No topo da pirâmide corporativa, eles trabalham de 12 a 16 horas por dia. Alguns chegam a 17. Como lá fora o bem-estar e a segurança social, em caso de demissão, são fatores que empresas e governo levam a sério, os executivos trabalham menos. No Brasil a realidade é oposta. Como se sentem "desprotegidos", os profissionais trabalham muito para manter o emprego e construir uma carreira, porque sabem que se perderem aquela posição vai ser bem difícil conseguir outra. Principalmente se já forem CEOs.

Se a carreira está em primeiro plano, o que fica em segundo?

A família, é claro! A maioria dos executivos não consegue acompanhar o crescimento dos filhos. Mas eles só se dão conta disso quando, ao chegar ao topo, lá pelos 50 anos, percebem que seus filhos cresceram, se formaram e foram embora de casa. Além disso, muitos também enfrentam perdas na vida afetiva - não encontram uma parceira ou não conseguem manter o casamento. O paradoxo é que esses mesmos profissionais que colocam a vida pessoal em segundo plano em nome da carreira afirmam que é a família que garante o suporte psicológico necessário para que eles atinjam seus objetivos profissionais. Eles têm consciência de que a vida familiar e afetiva precisa estar bem para que a escalada prossiga. Mas na prática não investem nisso.

Essa realidade também atinge as mulheres?

Para as mulheres, o aspecto emocional é ainda mais pesado, porque a sociedade é machista, o que faz com que elas sintam culpa quando não conseguem cuidar bem de seus filhos. Por isso muitas deixam pelo caminho o sonho de ser CEO.

E o que perdem os CEOs mais jovens?

Com certeza a saúde. A maioria deles, que têm entre 36 e 38 anos, sofre de síndrome do pânico, úlceras e crises agudíssimas de estresse. Isto acontece nessa faixa etária porque eles só conseguem enxergar a carreira e a ambição de estar no topo. E ficam mais vulneráveis. Para conquistar a posição de CEO, provavelmente venceram candidatos mais velhos, que, inconformados com a derrota, fazem pressão no executivo mais jovem.

Que exageros os workaholics costumam cometer?

Acessam e- mails de trabalho em casa (até no fim de semana) e atendem ligações profissionais no celular a qualquer dia e hora. Não tiram férias ou dividem a folga em pequenos períodos. Almoçam sanduíches no escritório ou sempre têm almoços de negócios. E ficam surpresos quando computamos tudo isso como hora trabalhada!

Que setores exigem mais tempo e suor do executivo?

As áreas de finanças, marketing e comercial com certeza sugam mais os executivos. Já a área de planejamento, por trabalhar com projetos de médio e longo prazos, é menos pesada.

Os executivos não vêem um certo glamour nisso?

Sim. Muitos acreditam que trabalhar demais, estar conectado o tempo todo e ser muito solicitado pela organização dá prestígio. Tem executivo competindo com os pares para ver quem é que faz mais sacrificio pela carreira!

  • É preciso trabalhar certo

    Você pode ser CEO sem sacrificar o resto da sua vida.

    É o que defende Ana Cristina Limongi França, psicóloga, mestre e doutora em organizações e trabalho. Ana é professora da Universidade de São Paulo (USP), no departamento de Administração da Faculdade de Economia, Adrninistraçã:o e Contabilidade (FEA) onde dirige o Núcleo de Estudes e Pesquisas ern Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho. Segundo ela os executivos que encontram o equilíbrio entre vida pessoal e profissional demonstram mais competência e maturidade na c carreira. E podem, sim, trabalhar menos. Desde que aprendam a trabalhar certo.

    É possível chegar ao topo da pirâmide corporativa e ainda assim equilibrar a vida pessoal e profissional?

    Eu acho que sim. Com muita disciplina e clareza do seu projeto de vida e dos papéis sociais, é possível chegar ao topo da hierarquia sem abandonar a vida pessoal. Para tanto, é preciso estabelecer metas pessoais de equilíbrio. Isto quer dizer que o executivo não deve negar o seu papel social fora do trabalho - na família, nos círculos de amigos etc.- nem suas necessidades como ser humano em termos biológicos, psicológicos, sociais e organizacionais.

    É possível escolher quando trabalhar mais ou menos?

    A questão não é trabalhar menos. É trabalhar certo. Deixar claro para si e para a empresa quais são suas funções, gerenciar bem processos contínuos e programar paradas - não dá para ter alta performance cinco dias por semana e trabalhar 17 horas por dia. É preciso parar, porque o corpo pede e também para dar atenção à família. Do contrário, o executivo faz apenas retrabalho. Não consegue ser produtivo nem criativo, comprometendo a performance.

    Que tipo de parceria é preciso construir para estabelecer esse equilíbrio entre vida pessoal e profissional?

    O executivo tem de fazer um planejamento conjunto com os pares tanto no escritório como em casa. Na vida familiar, por exemplo, é importante planejar a carreira com o marido ou a mulher e sinalizar que está comprometido com ele ou ela - telefonando durante o dia, participanndo de aniversários e festas escolares dos filhos, e procurando reparar as ausências, quando realmente não for possível comparecer.

    Tem muito executivo usando o escritório como esconderijo?

    O trabalho protege contra frustrações em outras responsabilidades e papéis sociais, como, por exemplo, a família. Trabalhar dá menos trabalho do que a família, porque vida pessoal demanda dedicação e transparência. Mas não podemos esquecer que tem muita gente que gosta de trabalhar - autenticamente - pela natureza da atividade que executa, pelo exercício do poder, pelos valores e cultura da profissão ou da empresa, pela rede de relacionamentos e até mesmo pela própria rotina, que já deixa a vida planejada.

    Quando trabalhar muito é um vício?

    O problema do vício está mais nos procedimentos adotados do que no ato de trabalhar por longas jornadas. Tem muito executivo que adota um conjunto de ações que se repete na rotina do escritório, achando que isso é gerenciar bem. Daí não consegue bons resultados porque não é criativo. Nem consegue promoção e reconhecimennto. E o sonho de ser CEO fica à deriva. Carreira é um caminho a seguir, um projeto de vida que não se concentra num papel único. Por isso é mais importante para o executivo que quer ser CEO fazer um mapa para posicionar suas ações, fazer networking, do que ficar preso a procedimentos rotineiros, que muitas vezes implicam a perda do equilíbrio da vida pessoal e profissional.

    • Administração do Tempo

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