Educação: Defendemos uma filosofia viva


Para Silvio Wonsovicz, o professor tem um papel maior do que a tarefa de ministrar conteúdos.

Revista Escola particular - por Alex Souza e Paula Hernandes

De origem grega, a palavra filosofia é fruto da junção de duas palavras: philo e sophia. Philo é derivação do termo philia, que significa amizade, amor fraterno e respeito entre os iguais. Sophia quer dizer sabedoria, uma de suas derivações é a palavra sophos, que significa sábio. Dessa forma pode-se dizer que a filosofia significa o amor ou a amizade pela sabedoria.

Num clima bastante descon­traído, durante o XV Congresso Saber, o filósofo Silvio Wonsovicz, que é doutor em Educação pela Unicamp, atendeu a equipe da Escola Particular para falar sobre a filosofia nas esco­las. Presidente do Sistema de Ensino Reflexivo (SER), Wonsovicz também está à frente da Editora Sophos, que publica os livros do SER. Na entrevista, ele conta como funciona o programa que está há 22 anos em escolas públicas e particula­res, da Educação Infantil ao Ensino Mé­dio e como transformar a sala de aula e a escola em Comunidades Reflexivas.

Escola Particular - No que consiste a proposta do SER?

Silvio Wonsovicz - São dois eixos principais, que incluem a maneira como o professor ensina e como ele aprende a ensinar de modo filosófico. Por isso, é de grande importância que a escola seja reflexiva. A escola deve fazer com que alunos e professores possam refletir sobre os conteúdos que são trabalhados, não apenas em uma, mas em todas as dis­ciplinas. Deve existir na estrutura da escola uma maneira de se implantar o ensino filosófico desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Esse conhecimento filosófico deve ser tra­duzido numa linguagem acessível não só ao aluno, mas também ao professor. A proposta é desenvolver uma filosofia viva. O aluno não fica discutindo sobre os teóricos, mas sobre ideias que estes levantaram, sem precisar saber que são ideias de Platão ou de Aristótoles.

Escola Particular - Como fazer isso?

Silvio Wonsovicz - Defendemos uma filosofia viva. Como? Com fatos do dia a dia dos alunos, com as experiências que eles vivenciam nas escolas. Um instru­mento que nos ajuda nessa tarefa são os materiais didáticos que estamos elaborando. O intuito é de que o aluno já discuta filosofia do Ensino Infantil até o 5º ano do Fundamental. E a dis­cussão que o aluno tem nesse período acontecerá mais adiante, quando ele vai se lembrar de que tratou de temas como verdade, justiça ou beleza. E somente depois é que ele vai conhecer os filósofos sobre os quais ele já conver­sou, mesmo sem saber que eram eles que estavam por trás das discussões realizadas lá atrás.

Escola Particular - A proposta é ter a filosofia nas demais disciplinas ou uma aula só de filosofia?

Silvio Wonsovicz -  Embora a filosofia apareça em todas as disciplinas, nós defendemos uma aula de filosofia na escola, que pode se chamar de Educação Para o Pensar, Filosofia ou Ética, não importa. Pode chamar como quiser. Mas um exemplo de aplicação em outras disciplinas pode ser o profes­sor de matemática, que deve ensinar os conteúdos de sua disciplina com a preocupação de que o seu aluno pense matematicamente. Para isso, ele deve desenvolver algumas habilidades de raciocínio, para que a aprendiza­gem seja mais significativa. Não é trabalhar o conteúdo pelo conteúdo, mas trabalhá-lo com um significa­do. Da mesma forma com outras
disciplinas. E não adianta colocar filosofia como matéria obrigatória no Ensino Médio. Não adianta chamar um professor na escola e dizer que ele vai dar aulas de filosofia. A defesa de minha tese foi a de que a escola precisa ser reflexiva. Éu acredito que tudo que é obrigatório é deixado de lado ou se faz de conta que está sendo aplicado. Isso me angustiava, pois a obrigatoriedade levava a esse joguinho do faz-de-conta.

Escola Particular -  E como começou o programa?

Silvio Wonsovicz - Penso que só é possível dizer que sei um conteúdo se eu ensinar uma criança. Quando dizia isso, cos­tumavam me dizer que eu não iria ensinar filosofa para crianças. Saí da graduação e fui para o mestrado car­regando essa ideia, de que a educação deve levar à conscientização. E quando comecei o trabalho em salas de aula, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, tentei traduzir esse conteúdo de filosofia para que as crianças e ado­lescentes entendessem de uma forma empírica, pela experimentação. Nessa época, conheci a proposta do Professor (Matthew) Lipman, que desenvolveu o programa de ensino de filosofia para crianças nos EUA. Começamos a tra­balhar em algumas escolas da região Sul do país e montamos o Centro de Filosofia. Contudo, nosso foco ainda era apenas a filosofia, e eu produzi vários livros e novelas para crianças, re­lacionados ao tema filosófico. A partir de 2000, quando fui para o doutorado, se discutia muito o fator da obrigato­riedade da disciplina na grade escolar, Esse programa saiu da minha defesa de tese de doutorado na Unicamp. Até o ano 2000, o nosso trabalho foi o enfoque filosófico. Ou seja, traduzir esse conhecimento filosófico, que vem da Grécia antiga aos dias de hoje, para que a criança ou o adolescente possa perceber que está filosofando. A partir
de 2000, o foco é de que o professor seja uma liderança na sala de aula e no lidar com as pessoas. O professor de filosofia deve ser uma liderança em sua escola. Ele é que deve puxar a a reflexão com alunos e professores.

Escola Particular - Há profissionais preparados para implantar o programa?

Silvio Wonsovicz - Não temos gente preparada. É óbvio. A academia não está se preocu­pando com isso, mas a escola precisa de professores que sejam reflexivos. É por isso que temos feito palestras, cursos e seminários para ajudar o professor entender que sua função é muito maior do que simplesmente dar uma aula. Ele tem uma função maior na escola e deve se preparar para assumi-Ia. O mesmo se aplica aos professores das outras disciplinas. É um erro um professor de matemática, por exemplo, pensar que isso não tem a ver com ele, por entender que filosofia não é sua área. Ele tem que refletir com s alunos o conteúdo que será trabalhado em sua própria disciplina. Isso causa medo aos professores pelo motivo de que eles fazem somente aquilo que sabem. Se, durante a sua formação, o profes­sor não teve essa inclinação para se tornar um educador reflexivo, ele não saberá fazer.

Escola Particular - Como está estruturado o material didático?

Silvio Wonsovicz - Desde 2004, estamos produzindo o material didático. Cria­mos um sistema de ensino. Quando falávamos para os professores que eles tinham que ser reflexivos, mui­tos perguntavam qual livro deve­riam adotar para atingir os objetivos. Principalmente os professores da área de exatas. Eu não podia indicar livros de Química, Matemática ou de Física, por não conhecer o sufi­ciente sobre essas disciplinas. Certa vez, uma diretora me disse que se eu desse o anzol, deveria dar a isca tam­bém. Mas como eu poderia indicar livros dessas disciplinas, que eu desconhecia? Isso me angustiou a ponto de discutir esse assunto em nos­so grupo. Foi então que começamos a conceber um modelo que perpassasse a outras disciplinas, para que isso tudo não ficasse só no discurso. Começamos a chamar bons professores, de prática e de teoria, e começamos a desafiá-los. Sempre dois ou três de cada disciplina. E estamos desenvolvendo livros com esse pessoal. Tornou-se um trabalho interdisciplinar.

Escola Particular - Como incluir professores de outras disciplinas, se eles não possuem esse olhar filosófico?

Silvio Wonsovicz - Primeiramente eles conhecem o material que nós temos para, so­mente depois, aplicar esse conceito à disciplina que eles dominam. Os três professores de história que de­ senvolveram o livro do 6º ano tiveram uma boa discussão, porque um deles defendia começar como a maioria dos livros didáticos, ou seja, pela história dos povos primitivos. Os outros dois diziam que não. Eles propunham apre­sentar o Brasil, para deixar a história universal para o 9º ano. Em matérias como geografia e ciências, no 6º ano, existe um conteúdo comum, que é o sistema solar, muitos embora possuam enfoques diferentes. Mas os profes­sores combinam para intercalarem esse conteúdo em suas disciplinas ano a ano. Quando os professores não combinam isso, eles trabalham o con­teúdo no mesmo ano, mas o aluno não percebe a ligação, porque o enfoque é diferenciado. Os alunos pensam que são conteúdos diferentes.

Escola Particular - E vocês já possuem o material de todas as séries?

Silvio Wonsovicz - Ainda não temos todo o pro­grama. Começamos o trabalho em 2004, mas os primeiros livros só ficaram prontos em 2009. Temos o material do 1º e do 6º ano, os livros do 2º e do 7º ano já estão na gráfica. O intuito é concluir o material do 8º e o do 9º ano até o final de 2012, para depois trabalharmos com o 3º, 4º e 5º ano, fechando o ciclo. Esse tempo todo se justifica pelo fato de que os profes­sores que escrevem não se dedicam integralmente a isso, porque eles são professores de sala de aula, com uma carga horária bastante intensa. E a ideia é essa mesmo. O professor deve estar em sala de aula, para escrever e colocar em prática. Se necessário, ele vai reescrever até que se chegue num produto final que seja aquilo que ele realmente quer trabalhar. Para asses­sorar os professores nessa tarefa, existe uma coordenadora pedagógica que é formada em Filosofia. Os materiais são separados por disciplina e não é necessário fechar com todas as disci­plinas ao mesmo tempo.

Escola Particular - Por estar em Florianópolis, o Centro de Estudos Filosóficos foca esse trabalho na região Sul?

Silvio Wonsovicz - Estamos locados em Florianópo­lis, mas nosso trabalho já se estendeu por todo o Brasil. Temos grupos em São Paulo, no Rio Grande do Sul, na Bahia, Maranhão, etc. Embora a maior parte seja das escolas particulares, também trabalhamos com muitas escolas da rede pública. Realizamos seminários de capacitação em todo o país. A capacitação é feita, num primeiro momento, em cinco etapas presenciais. Cada etapa é composta de uma carga de 40 horas. Também temos a modalidade de ensino à dis­tância (EAD), que é semipresencial, com quatro horas presenciais e 76 no EAD. O Centro vai até a escola, para realizar essa capacitação.

Escola Particular - Após 22 anos desse trabalho, quais são alguns dos resultados?

Silvio Wonsovicz - Hoje nós vemos alunos de 7º ano questionando e propondo ações. Isso é legal, porque em nossa metodologia, não formamos o aluno que ques­tiona por questionar, mas um aluno que aponta os problemas e busca as soluções. O nosso intuito é que a sala de aula se torne um espaço privilegiado de diálogo, pois esses espaços foram extintos fora da sala de aula. Hoje em dia, ninguém tem tempo para conversar, seja na famí­lia ou mesmo na escola, quando se privilegiam os conteúdos, ao invés da reflexão. Por meio da filosofia, temos conseguido abrir espaço para o diálogo. Ao fazê-Io, as crianças e os adolescentes começam a perceber que o que o outro diz é importante. Ao dialogar, as pessoas percebem que existem diferenças entre elas, mas que não é preciso desrespeitá-Ias. Por meio do diálogo, as pessoas encontram o caminho da tolerância.

Escola Particular - Não é pouca coisa!

Silvio Wonsovicz - Não. Esse é o maior resultado: alunos mais abertos para escutar o outro e mais dispostos a dizer o que pensam. Não apenas para contestar, mas para dizer que tem um ponto de vista diferente sobre o mesmo as ula. Hoje em dia, ninguém tem tempo para conversar, seja na famí­lia ou mesmo na escola, quando se privilegiam os conteúdos, ao invés da reflexão. Por meio da filosofia, temos conseguido abrir espaço para o diálogo. Ao fazê-Io, as crianças e os adolescentes começam a perceber que o que o outro diz é importante. Ao dialogar, as pessoas percebem que existem diferenças entre elas, mas que não é preciso desrespeitá-Ias. Por meio do diálogo, as pessoas encontram o caminho da tolerância.

Escola Particular - Não é pouca coisa!

Silvio Wonsovicz - Não. Esse é o maior resultado: alunos mais abertos para escutar o outro e mais dispostos a dizer o que pensam. Não apenas para contestar, mas para dizer que tem um ponto de vista diferente sobre o mesmo assunto. Quando você vê uma criança dizendo isso, algo de bom aconteceu. Ver um adolescente que diz não suportar o outro, mas entende que precisam con­viver de modo pacífico, respeitando um ao outro, é diferente daquele jovem que diz não gostar do outro e que não está nem aí, que não tem nada a ver e que não vai conversar com ele. Isso é uma mudança de compor­tamento, mas há também a mudança em relação à busca pelo conhecimento. Você percebe alunos que pesquisam mais, que querem saber mais e não aceitam o que o professor diz só porque ele é o professor ou só porque o livro diz isso ou aquilo.

Escola Particular - Quais os impactos desse modelo de educação para a sociedade?

Silvio Wonsovicz - Os pais também percebem essa mudança e notam que os filhos estão mais questionadores, o que não quer dizer que estão rebeldes. Trata-se de um questionamento inteligente. Pais de alunos mais tímidos passaram a perceber que o filho tinha vergonha de manifestar seus pensamentos e, agora, podem verificar que ele expõe suas ideias com mais naturalidade. Nos conselhos de classe, há professores que relatam estar conhecendo melhor os alunos, porque eles falam mais sobre si. Antes, os professores viam esses alu­nos como pessoas que sabiam ou não os conteúdos de suas disciplinas. Hoje, esses professores enxergam a história de seus alunos e os conhecem como cidadãos. Temos uma coleção que tem o convite para que o aluno seja coautor do livro. Isso acontece porque ele vai ter de responder a algumas questões individuais, bem como algumas que são formuladas para o grupo de alunos. Há algumas perguntas que forçam o aluno a questionar as pessoas de sua casa, para que, baseado nas respostas dos familiares, esse aluno venha a emitir a sua própria opinião.

Escola Particular - Parece ser um modelo de duas vias de conhecimento?

Silvio Wonsovicz - Claro. Formam-se comunidades de aprendizagem investigativa, nas quais alunos e professores não estão sozinhos e precisam saber o que os outros pensam, assim como eles pre­cisam saber o que você pensa. Assim que se forma a comunidade, que não fica apenas no pensamento, mas parte para a ação.

Escola Particular - Fale sobre um exemplo prático

Silvio Wonsovicz - Em uma escola se discutiu a questão do uso dos uniformes. Na primeira semana de aula, os alunos decidiram que não iriam usar o uni­forme escolar. O diretor, sabendo do que estava acontecendo, propôs ao professor a elaboração de um projeto, pois os alunos não poderiam deixar de usar o uniforme sem um motivo. O professor disse que eles tinham esse projeto, que incluía a observação dos outros uniformes que os alunos usam. Foi levantada a questão de que a escola é uma empresa, e se a empresa exige um uniforme, tem de fornecê-lo. O professor disse ser um bom argu­mento. Outro aluno disse que todos pensam de modo diferente, o que não justificaria usar a mesma roupa que os outros. Por fim, houve quem dissesse ser o uniforme a propaganda da escola e que, ao usá-Io, o aluno se torna uma propaganda ambulante. Se os alunos fazem propaganda para a escola, esta deveria pagá-los por isso.

Escola Particular - Por quanto tempo os alunos foram às aulas sem o uniforme?

Silvio Wonsovicz - O projeto consistia em ir para a escola sem uniforme, durante uma semana. Professores de todas as dis­ciplinas iriam observar e fazer um levantamento estatístico. Nisso, iden­tificaram que às segundas-feiras uma porcentagem de alunos foi de calça jeans, que tais calças eram de uma determinada marca, que os tênis eram dessa ou daquela outra marca e assim por diante. O professor de matemática trabalhou a questão dos valores de cada peça do vestuário, o professor de história ou de geografia os fez pensar sobre a questão de alunos de países em desenvolvimento abrigarem essas fábricas, sobre a questão do lucro, que é remetido para os países de origem desses produtos, etc. Por fim, os alunos foram questionados: se não deveriam cobrar as fábricas de tênis, de calças e outras peças pelo uso de seus produtos, uma vez que ao fazê-Io, também fazem propaganda grátis. Na outra semana, os alunos voltaram usando o uniforme, mas conscientes de seu significado. E entenderam também que o seu uso os fazia ser parte de um grupo.

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