Ele disse, ela disse


Mulheres e homens usam linguagens próprias — por isso nem sempre o entendimento é tão simples. Enquanto o discurso deles tende a se concentrar na hierarquia e na competição pelo poder, o delas é voltado ao objetivo de se aproximar ou se afastar do interlocutor.

Revista Mente & Cérebro

Volta e meia duas perguntas aparecem em comédias, shows de humor e programas de piadas: “Por que Moisés vagou pelo deserto durante 40 anos?"; “Por que é preciso tantos espermatozoides para encontrar apenas um óvulo?". A resposta para ambas as questões é a mesma: porque os homens não gostam de pedir ajuda quando não sabem o caminho. Há alguns anos, chegaram a ser vendidos nos Estados Unidos guardanapos de papel com a frase: “Homem que é homem não pergunta o caminho”. Tanto interesse por esse aspecto do comportamento masculino — que, aliás, levantei em meu livro You just don’t understand: women and men in conversation, de 1990 — me surpreendeu. Na verdade, eu não sabia o quanto essa experiência era difundida, mas percebi que buscar informações sobre endereço e direção parece cristalizar aspectos essenciais do fenômeno responsável por várias frustrações que homens e mulheres enfrentam na comunicação.

Passei mais de três décadas coletando e analisando milhares de exemplos de como as pessoas de cada sexo interagem e descobri que o discurso deles tende a se concentrar na hierarquia: a competição pelo poder relativo; enquanto isso, as mulheres geralmente dão prioridade para proximidade ou distância. Em outras palavras, um homem e uma mulher podem se afastar depois da mesma conversa, com questionamentos diferentes. Ele pensa: “Será que o que falamos me deixou um nível acima ou abaixo dela?”. E ela reflete: "Isso nos aproximou ou nos afastou mais ainda?”. Esses pensamentos, porém, nem sempre são percebidos de forma consciente.

Mas calma lá! Toda comunicação e todos os relacionamentos refletem uma combinação de hierarquia e conexão — as duas não são mutuamente excludentes; ao contrário, estão intimamente ligadas. De alguma forma, almejamos o poder e queremos nos conectar uns com os outros. Em minhas investigações tenho constatado que nuances na forma de homens e mulheres se expressar nos ajudam a esclarecer como o estilo de conversa de cada um revela modos diferentes de alcançar os mesmos objetivos. Mas como isso está ligado ao ato de perguntar o caminho?

• Melhor ou igual?

Meu interesse pelas diferenças linguísticas entre mulheres e homens aumentou com a pesquisa sobre conversas entre pessoas de variadas origens étnicas e regionais que conduzi no início da minha carreira. Essas interações geralmente levavam à falta de entendimento porque os membros de cada grupo tinham suposições diferenciadas sobre o que deveria ser dito e a forma adequada de fazê-lo. Também constatei um padrão paralelo nas conversas entre as mulheres e os homens: uma espécie de choque cultural baseado na diferença de gêneros.

Costumo ilustrar e definir esse fenômeno usando filmagens de vídeo de crianças em idade pré-escolar em um jardim de infância. Em uma cena, quatro garotinhos estão sentados juntos, conversando sobre a altura da qual conseguem rebater uma bola. “A minha vai até aqui”, declara um deles, elevando o braço acima da cabeça. “A minha chega até o céu”, garante o segundo, apontando mais alto, O terceiro contrapôs: “A minha vai mais longe que o céu”. Por fim, o quarto menino afirmou: “A minha chega até Deus”. E óbvio que a conversa dos garotos é um jogo de hierarquia, no qual cada menino alega ser melhor que o anterior.

Na mesma escolinha duas meninas estão sentadas em uma mesa pequena, desenhando. De repente, uma delas ergue a cabeça e fala (provavelmente se referindo a lentes de contato): "Você sabia que a minha babá, chamada Amber, já tem lentes?”. A segunda garota parece surpresa no começo, mas se recompõe rapidamente e anuncia, com visível prazer: “Minha mãe também já tem lentes, meu pai também”. A primeira garota ri, divertida, com a resposta espelhada, que até lexicalmente se ajusta à fala dela. A constatação de “similaridade” propicia às garotinhas satisfação semelhante à que os colegas do sexo masculino experimentam tentando se superar.

Embora os movimentos específicos de conversa — superação em contraste com a chegada ao mesmo ponto — sejam diferentes, o que esses discursos diversificados têm em comum é que são rituais “disfarçados”. Há uma espécie de pressuposição implícita sobre como as conversas devem se encaminhar. Em geral, não reconhecemos esses rituais até conversarmos com pessoas (de outras culturas) que não compartilham deles. Pais e educadores que reconhecem esses padrões relacionados com o sexo encontram mais facilidade para lidar com comportamentos infantis que, de outro modo, seriam irritantes. Por exemplo: uma mulher se lembrou de ter ouvido seu filho e dois outros garotos pequenos conversando no banco de trás do carro, enquanto ela dirigia. Um deles disse: “Quando fomos para a Disneylândia, ficamos lá três dias”, O segundo garoto afirmou: “Quando fomos para lá ficamos quatro dias.” Então o seu filho declarou: “Nós vamos morar na Disneylândia”. Ela ficou incomodada por ouvi-lo contar uma mentira deslavada. Será que ela deveria interromper o filho e corrigi-lo? Eu a acalmei e disse que os outros meninos sabiam que sua família não se mudaria para a Disneylândia. Mas o filho dela tinha vencido aquela parada.

Um pai me contou uma confusão semelhante ao ouvir uma conversa entre a filha pequena e uma amiga, que havia dito: &ld dquo;Eu tenho um irmão que se chama Benjamin e outro que se chama Jonathan”. A outra respondeu: ‘Eu tenho um irmão que se chama Benjamin e um que se irmão que se chama Jonathan também”. Mas não era verdade. O pai ficou pensando qual o motivo de ela ter dito aquilo. Expliquei que simplesmente sua filha oferecia à amiguinha uma experiência semelhante como um sinal de boa vontade, para reforçar a amizade.

O foco contrastante entre a conexão e a hierarquia também lança luz sobre inúmeras conversas — e desentendimentos — de adultos. Vamos dizer que uma jovem conta a outra um problema pessoal e ouve em resposta: “Sei como você se sente” ou “A mesma coisa aconteceu comigo." A conversa sobre problemas que se segue costuma reforçar a ligação entre elas. Na verdade, algumas mulheres sentem que devem escarafunchar os problemas e contá-los às amigas para manter a intimidade. Como os homens não estão acostumados a esse ritual, é muito provável que se estivessem no lugar da amiga, fizessem uma leitura errada do pedido de ajuda. O resultado, nesses casos, é a frustração mútua: ela o culpa por mandá-la fazer o que ele quer e deixar de oferecer o amparo desejado, enquanto ele pensa que fez exatamente o que ela solicitou e não tem a mínima ideia do motivo pelo qual ela continua a falar sobre a questão, se não pretende resolvê-la da forma como ele orientou.

Situações semelhantes acontecem no ambiente profissional, onde os mal-entendidos podem ter sérias consequências na carreira. Por exemplo, se o chefe de uma mulher a ouve dizendo a um subordinado: "Você poderia fazer o favor de me trazer a cópia daquele relatório”, é possível que pense que lhe falta confiança. Para ele, é como se ela sentisse que não tem o direito de pedir ao funcionário para fazer alguma coisa. Mas a verdade é exatamente o oposto. Ela sabe que o empregado tem de fazer o que ela pede. E quando diz “poderia fazer o favor” ela opta por não explicitar desnecessariamente esse fato. Enquanto os homens tendem a enxergar os ritos femininos como falta de assertividade (ou até de competência), as mulheres confundem rituais menos diretos com prepotência e insegurança. O pensamento delas: ele realmente deve ter baixa autoestima se precisa se impor dessa forma.

O que nos leva de volta à mulher e ao homem dentro do carro, que têm suposições diferentes quanto a como pedir auxilio para encontrar o caminho. Do ponto de vista dela, essa solicitação significa fazer uma conexão breve com um estranho e chegar ao ponto desejado sem perder nada. Da perspectiva dele, a atitude o coloca em uma posição inferior diante de um estranho — o que representa uma experiência desagradável. Projetivamente, ele pode até acreditar que o esforço seja contraproducente, pois um informante que não conheça o caminho pode enviá-lo para qualquer direção equivocada, apenas para não reconhecer que não sabe a localização. Por esses dois motivos, faz sentido para ele evitar o desconforto e encarar dez minutos—ou meia hora—tentando encontrar o caminho sozinho.

• Estilos e objetivos

Apesar dessas diferenças, os estilos de conversa de homens e mulheres guardam inúmeras similaridades. E os estilos aparentemente opostos podem ser usados para os mesmos propósitos. Eles também estão preocupados com a conexão, elas querem poder — as formas de atingir esses objetivos é que são diferentes.

Os rituais verbais que se concentram na conexão geralmente envolvem igualdade de afirmação (como no diálogo das menininhas sobre as lentes de contato) e nas respostas familiares: “A mesma coisa aconteceu comigo” e “Sou igual a você”. Já os ritos de competição: “Isso não é nada! Veja o que aconteceu comigo são tipicamente associados aos homens e interpretados como competitivos, mas também podem criar conexão, ao implicar a seguinte mensagem: "Você não deveria se sentir mal com o que aconteceu com você, porque o que aconteceu comigo foi pior”. Em outras palavras, “superar” o interlocutor pode ser uma forma de expressar solidariedade.

De maneira semelhante, para meninas e mulheres, o que aparece na superfície, visto como conexão, também pode ser um modo de exercer poder A linguista Amy Sheldon, da Universidade de Minnesota, investigou esse processo ao filmar crianças da pré-escola do mesmo sexo brincando em grupos de três. Ela descobriu que tanto os meninos quanto as meninas buscam seus próprios objetivos, mas enquanto os meninos que ela filmou eram assertivos quanto a frustrar os objetivos dos outros, geralmente as meninas faziam isso de uma forma que parecesse honrar os objetivos da outra concorrente. Em um dos exemplos, duas meninas, Eva e Kelly, não estavam muito dispostas a incluir na brincadeira a terceira garota, Tulia. Em vez de dizer a esta última diretamente que ela não poderia brincar, as duas a incluíram, mas determinaram um papel para ela que não previa interação: "Você pode ser o bebê, mas ele ainda não nasceu”. A pesquisadora enfatiza que esse é um movimento altamente assertivo, embora mantenha a aparência de conciliar o desejo de participação de Tulia no jogo.

Dessa forma, o comportamento da criança não é uma aplicação do tipo excludente ou da hierarquia ou da conexão, mas sim a mescla das duas. Podemos dizer que Eva e Kelly exerceram o poder para manter Tulia fora, mas também honraram a conexão ao oferecer um papel para ela. Em contraste, a linguista observou que, quando os meninos brincam, costumam expor mais abertamente seus objetivos e até ameaçam os oponentes com força física. Por exemplo, quando Pedro, queria cortar um legume de plástico de um colega, gritou: “Tenho de cortar! Eu quero cortar! É meu!”. No entanto, Amy Sheldon enfatiza que, embora meninos e meninas tenham propensão a usar mais de uma estratégia, há casos em que eles tentam ceder e momentos em que elas recorrem à força física para se impor. A pesquisa de Sheldon nos lembra que não importa o quanto os padrões sejam reais — nunca são absolutos. Novamente, o exemplo de perguntar sobre o caminho é ilustrativo. Há casais em que é o homem quem prefere parar e pedir informações e a mulher opta por se localizar pelo mapa.

• Jogo verbal

De qualquer forma, um fato prevalece: sempre estamos engajados em negociações sobre a conexão e o poder relativo. Eva e Kelly serviram a dois propósitos ao incluírem Tulia — e a mantiveram longe da brincadeira. De modo semelhante, os meninos que competiam verbalmente sobre a altura em que conseguiam rebater a bola também criaram uma conexão ao concordar com o tipo d s de uma estratégia, há casos em que eles tentam ceder e momentos em que elas recorrem à força física para se impor. A pesquisa de Sheldon nos lembra que não importa o quanto os padrões sejam reais — nunca são absolutos. Novamente, o exemplo de perguntar sobre o caminho é ilustrativo. Há casais em que é o homem quem prefere parar e pedir informações e a mulher opta por se localizar pelo mapa.

• Jogo verbal

De qualquer forma, um fato prevalece: sempre estamos engajados em negociações sobre a conexão e o poder relativo. Eva e Kelly serviram a dois propósitos ao incluírem Tulia — e a mantiveram longe da brincadeira. De modo semelhante, os meninos que competiam verbalmente sobre a altura em que conseguiam rebater a bola também criaram uma conexão ao concordar com o tipo de jogo verbal a ser usado. Para entender os padrões do gênero, em vez de perguntar: "Este tipo de fala serve à hierarquia ou à conexão?”, parece mais indicado questionar: “Como esta forma de falar reflete o encontro entre conexão e hierarquia?”. E não há outro lugar onde essa interação possa ser mais bem explorada que no contexto que é ao mesmo tempo universal e fundamental: a família.

A família surge com hierarquia e conexão inerentes. A diferença de lugar e papéis entre os pais e os filhos é evidente — mas o mesmo acontece em relação aos irmãos. Embora usemos o termo "ligações fraternas” para descrever amizades íntimas e igualitárias, as verdadeiras relações entre os irmãos não são marcadas por conflitos, competições e diferenças, em grande parte ligados à ordem de nascimento, Em Having our say, livro de memórias das irmãs Delany, um sucesso de vendas nos Estados Unidos, Bessie Delany escreve: “Sadie, às vezes, não me aprova. Ela olha para mim com aquele jeito de irmã mais velha”. Quando disse isso, Bessie tinha 101 anos e Sadie, 103. Em outra parte do texto, Sadie declara: “Se ela viver até 130, vou ter de viver até 132 para poder tomar conta dela”. Curioso que o relacionamento tenha sido moldado mais em termos dos dois anos que as separavam que pelo século que elas já tinham vivido.

Os comentários dessas centenárias refletem a dinâmica que já ouvi das mais de 100 mulheres que entrevistei a respeito de irmãs, para o meu livro You are always mom"s favorite: sisters in conversation throughout their lives, além de comentários que ouvi sobre os irmãos; irmãs mais velhas geralmente eram vistas como protetoras, mas também críticas. Afinal essas qualidades revelam os dois lados da mesma moeda. “Crítica” significa que uma pessoa percebe como os outros podem melhorar a si e a sua vida — e menciona isso. E isso não é novidade: todos temos opiniões sobre como nossos amigos, parentes e até estranhos poderiam fazer as coisas de um jeito melhor. Mas em geral não dizemos nada do que pensamos — a menos que nos sintamos responsáveis por eles. Os pais muitas vezes são críticos com as crianças porque sentem que é direito deles, ou até obrigação, orientá-las para que se encaminhem da melhor forma possível, o que significa dizer a elas como podem melhorar. Essas ofertas de conselho, no entanto, por mais que sejam bem-intencionadas (em outras palavras, concentradas na conexão), muitas vezes são ouvidas como alfinetadas”. A pessoa que aconselha é interpretada como invasiva, como se estivesse se colocando em um lugar de superioridade, com a prerrogativa de exercer o direito de dizer ao outro o que ele deve fazer.

Não raro, irmãs mais velhas falam com caçulas de forma autoritária e direta — discurso mais associado com os meninos e os homens. Uma mulher me disse que quando era pequena ela e a irmã primogênita brincavam de um jogo que chamavam de “vassoura”. A mais jovem era vassoura. A irmã a agarrava pelos pés e a arrastava pela casa, usando seus longos cabelos para varrer a casa. Várias outras mulheres relembraram das irmãs mais velhas organizando e dirigindo pecinhas de teatro improvisadas. A distribuição de papéis seguia o modelo: “Eu sou a princesa; você é o sapo”. Na minha própria família, meu pai me ouviu pedindo à minha irmã, quando eu tinha 4 e ela uns 6 anos: “Mimi, posso brincar no seu quintal?”. Fica óbvio que eu não questionava a autoridade que a minha irmã mais velha impunha nas nossas negociações.

Ao mesmo tempo, a proximidade é o ponto alto dos relacionamentos entre irmãs — quase sempre independentemente da idade e dos contextos. Ao falar com as mulheres sobre suas irmãs, ouço muito: “Gostaria que fôssemos mais chegadas”, mas nunca “Gostaria que não fôssemos tão ligadas”. Os comentários também costumam refletir a premissa feminina comum de que a conversa sobre problemas é essencial para a intimidade. Várias mulheres sentem-se profundamente magoadas quando uma irmã mantém em segredo informações pessoais importantes. Enquanto um irmão (ou pai) pode dizer: “Ele nos contou quando estava pronto”, as irmãs (e as mães) geralmente lamentam: “Pensei que éramos mais próximas”.

Em geral, uma forte rivalidade acompanha os vínculos fraternos femininos — mas pode tomar a forma de competição por conexões. Com frequência, as irmãs sentem-se muito competitivas sobre quem conhece os segredos dos membros da família — ou quem soube deles primeiro. Elas geralmente competem para ter mais informações pessoais sobre os membros da família, enquanto os irmãos podem disputar o lugar de quem sabe mais fatos sobre informações impessoais como computadores ou história.

Os relacionamentos familiares deixam claro que a proximidade não é oposta ou mesmo distinguível da hierarquia e da competição. De fato, um motivo para as irmãs mais velhas se sentirem tão à vontade para mandar nas mais novas e lhes dar conselhos é precisamente por haver um forte vínculo entre elas. Além disso, o amor profundo entre os irmãos mais velhos e mais novos, assim como entre pais e filhos, resulta em parte das experiências de cuidar e ser cuidado que esses papéis incluem.

A observação de conversas entre membros de família revela uma mescla especial de autoridade e intimidade em diálogos entre as mulheres e entre os homens. Demonstra claramente as formas nas quais os padrões de discursos dos dois sexos podem ser rotas diversas para o mesmo objetivo: descobrir o equilíbrio entre proximidade e distância. Enquanto o poder relativo é constantemente negociado.

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