Eles deram a Virada


Histórias inspiradoras de homens e mulheres que tiveram a coragem de mudar o curso de suas vidas, seja na esfera pessoal, seja na profissional. Como e quando dar essa guinada e qual o perfil de quem conseguiu.

Revista Istoé - por Carina Rabelo e Francisco Alves Filho

Mudar de vida, realizar um sonho, executar projetos engavetados há tempos, tudo isso parece mais próximo de se tornar real quando um novo ano se aproxima. Nessa época, muitos prometem reinventar o próprio cotidiano, seja no campo pessoal, seja no profissional. "O ano-novo é o arquétipo do recomeço, uma outra chance para a esperança", diz o teólogo Leonardo Boff. O problema é que várias pessoas não avançam além da promessa. "Muitas vezes, racionalmente reconhecemos que mudar seria o melhor, mas emocionalmente podemos não estar prontos", afirma a psicóloga carioca Aline Sardinha.

Esse descompasso, entretanto, não consegue barrar a obstinação daqueles que estão decididos a dar uma virada na própria história. Essas pessoas encaram os dissabores e perseguem a felicidade, a qualidade de vida, o ideal. De onde tirar essa coragem? Como vencer a acomodação? Quando se dá o "estalo"? Essas respostas podem representar a diferença entre a realização pessoal e a insatisfação duradoura. Não há receita pronta, mas especialistas em comportamento indicam que idade ou classe social não são determinantes. As circunstâncias é que têm um peso significativo nessa decisão. 

Existem viradas para superar momentos difíceis, como a demissão, o divórcio ou a doença, e aquelas opcionais, em que, mesmo estando bem, a pessoa sente necessidade de mudar. Este segundo tipo é o ideal, como identifica o consultor de negócios César Souza, autor do livro "O Momento da Sua Virada" (Ediouro). "Assim, há tempo para traçar o próximo patamar da vida e mais chance de a mudança dar certo", diz ele. Um dos mais importantes requisitos para o êxito nessa empreitada é o temperamento, já que mudar radicalmente exige uma boa dose de coragem. "Quem tem medo só pensa no que pode dar errado e precisa de alguém que o empurre. O corajoso sempre vê o futuro melhor do que o presente", explica a psicóloga Rebeca Fischer, instrutora da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística. Não é que o medo seja eliminado, já que mesmo aqueles que ousam sentem um "friozinho na barriga" ao dar um passo à frente. O pulo do gato é manter os demônios sob controle.

O teólogo Boft acredita que todos têm potencial para vencer a inércia e seguir novos rumos. "O ser humano sempre quer a felicidade e o caminho para isso não é fazer emendas, mas buscar um novo começo." ISTOÉ colheu histórias de pessoas que deram a virada em suas vidas. Elas contam de onde tiraram inspiração para enfrentar os novos desafios e mostram que, nessa hora, um dos melhores truques é acreditar naquele lema que afirma: o melhor está por vir. Feliz 2010!

• Outras pistas

A semente da virada do ex-piloto Raul Boesel, 52 anos, foi plantada ainda na adolescência, em Londres, num memorável show da banda Pink Floyd, na década de 80. Mas ficou engavetada durante décadas, tempo em que ele construiu uma sólida carreira de piloto. Boesel começou a correr no kart aos 16 anos e ficou no automobilismo até os 48, mas sempre se interessou pela tecnologia na música. "Só nunca imaginei que ela poderia ser a minha profissão." Desgastado no automobilismo, aos 45 anos, já pensava mais em música do que nos carros. "Foi quando decidi que era hora de mudar." Aos 49, um ano após deixar a carreira de piloto, se empenhou com toda a energia para se tornar DJ. Contratou um professor e passou a treinar três vezes por semana, quatro horas por dia. Até sentir-se seguro para a primeira performance, acumulou duas mil horas. "No início, havia muito preconceito. As pessoas diziam que seria apenas um hobby, que eu fazia aquilo para me manter na mídia e que eu era muito velho para estrear como DJ." Desde 2003, ele frequenta todos os anos os festivais de Ibiza, a meca da música eletrônica. Neste ano, se apresentou pela primeira vez na cidade espanhola. E os novos desafios continuam. "Agora, quero me dedicar à produção musical." Realizado, diz que não se arrepende da escolha. "O automobilismo ficou para trás. Assisto a todas as corri­das e dou apoio aos meus sobrinhos que estão praticando, mas correr não me faz falta." Boesel diz perceber algumas semelhanças entre o automobilismo e a música. Como o ritmo intenso de viagens, por exemplo. Mas, na lista das vantagens, o trabalho como DJ tem uma recom­pensa maior. "Ao contrário das pistas de kart, nas de dança, o contato como púbico é direto."

• Adeus mesmice

O administrador de empresas ca­rioca Luciano Monteiro de Miranda, 34 anos, tinha um ótimo emprego, uma boa condição financeira, um namoro prazeroso, uma filha de 15 anos. Uma vida de novela, tendo como pano de fundo a Cidade Mara­vilhosa. Mas não estava feliz. Para reverter a situação, fez as malas e se mudou há três semanas para Vancou­ver, no Canadá, deixando para trás uma bem-sucedida carreira na área de vendas da IBM. Com o visto de imigrante em mãos, ele pretende adotar um estilo de vida totalmente diferente. "Decidi sair do meu País porque senti que precisava olhar para dentro de mim e ir em busca de novas aventuras", conta Miranda. "Não queria levar aquela vida para sempre", revela. O administrador, no entanto, reconhece ter sido difícil deixar a filha de 15 anos, a namorada e os pais, que têm mais de 70 anos. "Sempre que penso no quão sig gnificativa é essa mudança, bate uma ponta de desespe­ro. Para evitar isso, procuro não pen­sar naquilo de que estou abrindo mão. Só assim, terei forças para seguir em frente", diz. Mas arrependimento não faz parte do seu repertório de emo­ções. Afinal, ele planejou a mudança durante dois anos e meio. Em Van­couver, não tem pressa de arranjar um emprego. "Quero me estabilizar, achar um apartamento e concluir o curso de inglês", planeja Miranda, que admite ter ouvido muitas críticas da família e de amigos. "Eles não enten­dem por que saí de lá, se eu tinha tudo. Mas o fato é que eu não aguen­tava mais o rame-rame da vida que levava no Rio de Janeiro", admite. Enquanto aproveita os novos ares, Miranda procura fazer todas as ativi­dades de lazer que não fazia no Brasil, principalmente as ligadas a esportes. "Quando nos sentimos corajosos, temos forças para continuar lutando."

• Ela perdeu 20 quilos

Desde pequena, a psicóloga mineira Renata Gonzaga, 31 anos, brigava com a balança. Seu biotipo de gordinha não era problema na infância, mas tornou-se uma preocu­pação na adolescência. "Tinha mais dificuldades para conseguir namora­dos, era motivo de brincadeiras", recorda. Ela, porém, nunca tomava uma atitude séria para perder peso. "Fazia dieta um tempo, mas o objetivo era sempre ficar em forma para a próxima festa", diz. Logo voltava a comer descontroladamente. O estalo veio de repente, de frente ao guarda-roupa. "Quando notei que para sair eu tinha apenas uma peça do meu tamanho, vi que era o momento de buscar uma solução definitiva." A decisão de procurar o grupo Vigilantes do Peso coincidiu com o fim do curso de psicologia. Em um ano, ela emagreceu mais de 20 quilos graças à reeducação alimentar. "Sou outra pessoa", diz ela, que há dois anos man­tém-se nos 61 quilos. Típico caso de gordinha com baixa autoestima e sinais de depressão, Renata aprendeu a importância da perseverança. "Para emagre­cer é preciso mudar nossa cabeça e os nossos hábitos", prega ela, que agora tem um incentivador a mais para manter o peso: o noivo, com quem vai se casar em breve.

• O médico que dá as cartas

Aos 17 anos, o carioca Leonardo Bello, 33, decidiu que queria ser médico, pois "gostava de ajudar as pessoas". Após seis anos de faculdade, quatro de residência em imunologia pediátrica e dois anos de especialização na Alema­nha, começou a questionar a sua escolha. "Ficava até dois dias e meio sem dormir", lembra. Num desses plantões, conheceu uma pessoa que foi decisiva para sua virada - um médico de 60 anos, muito talentoso, mas pouco reconhecido no meio e com patri­mônio modesto. "O grande proble­ma da medicina é que, se você não tem talento para os negócios, vai dar plantão a vida toda. Não queria me matar de trabalhar e não ir além." Durante a especiali­zação na Alemanha, Bello se distraia com o pôquer online. De volta ao Brasil, teve a ideia de organizar um torneio entre ami­gos. O pequeno hobby se tornou um evento para 100 pessoas. Assustado com a magnitude da sua ideia despretensiosa, desco­ briu um novo traço da sua perso­nalidade: o empreendedorismo. "O pôquer me abriu várias oportu­nidades", diz o médico, que, junto com dois sócios, criou a empresa Nutz, exdusiva para as competi­ções de pôquer. O negócio cresceu, deu retorno financeiro e, em 2006, eles lançaram o torneio nacional. Há um ano e meio, o carioca trocou a medicina pelo jogo em definitivo. "Ganho dez vezes mais do que ganhava quando era médico", diz Bello, que pretende utilizar parte dos ganhos para construir um centro de apoio às crianças portadoras de HIV."Como médico, jamais teria dinheiro para concretizar este sonho."

• Largou o marido e abraçou o piano

beth Ripoli, 57 anos, passou a infância atormentada pelo pai, que insistia para que ela estudasse piano. Obe­diente, fez aulas dos 6 aos 16 anos. Mas detestava, confessa. Aos 20, ela se casou e deixou Piracicaba (SP), para morar na capital. Livrou-se do instrumento para se tornar uma de­votada dona-de-casa. Aos 30 anos, ficou doente - foi diagnosticada com artrite reumatoide. Procurou vários médicos, mas nenhum tratamento funcionava. "Eu não podia esticar a perna, levantar da cadeira e usar sal­to alto", lembra. "Até que me aconse­lharam a praticar piano para exercitar a musculatura das mãos e dos bra­ços." Beth, então, entrou para a esco­la do Zimbo Trio. Após dois anos de aulas, foi convidada para tocar na noite. "Mas meu marido disse que não permitiria", conta. Beth não teve dúvidas: pediu a separação. Sofreu perdas materiais e ficou impedida de ver o filho, então côm 13 anos, por um ano. Em compensação, a dor da artri­te sumiu. "E me diverti muito traba­lhando nos bares nas turnês." Aos 45 anos, gravou o primeiro CD, com composições próprias. Para comple­tar a guinada, também encontrou um novo companheiro. Está casada há 21 anos com uma pessoa que respeita suas escolhas, gosta de frisar.

• O chamado da saúde

Algumas vezes, dar a virada é questão de saúde. Foi o caso do empresário paranaense Marcos Villas Boas, 40 anos. Em 2003, ele abriu uma empresa em São Paulo para ampliar seus negócios - uma rede de oito hotéis. "Trabalhava todos os dias, das 8h à 0h. Ao chegar em casa, não conseguia dormir e assistia à televisão durante a madrugada", lembra Vilas Boas, que visitava a mulher e a filha em Curitiba apenas uma vez por mês. O sono só vinha induzido por remédios. As crises de enxaqueca eram frequentes e, pelo menos uma vez por mês, as dores insuportáveis o levavam ao hospital. Até que a rotina massacrante atingiu o limite das forças físicas. "Um dia, acordei e disse "chega!"", afirma o executi­vo, que, para completar, fumava um maço de cigarros por dia. "Joguei o cigarro fora, procurei um médico e contratei um preparador físico." Hoje, é um triatleta que nem lembra quando teve a última crise de enxaqueca. "Quanto mais a gente faz atividade física, mais tem disposição para trabalhar. Hoje, levo menos tempo para fazer as mesmas coisas. Tudo é possível com disciplina." A televisão? Virou objeto de decora­ção em casa. "Assistir à tevê é a prova da falta do que fazer. Com este tempo, a gente faz esporte."

• Da farda ao consultório

Como soldado do Exército, ele integrava a escolta do ex-preside ospital. Até que a rotina massacrante atingiu o limite das forças físicas. "Um dia, acordei e disse "chega!"", afirma o executi­vo, que, para completar, fumava um maço de cigarros por dia. "Joguei o cigarro fora, procurei um médico e contratei um preparador físico." Hoje, é um triatleta que nem lembra quando teve a última crise de enxaqueca. "Quanto mais a gente faz atividade física, mais tem disposição para trabalhar. Hoje, levo menos tempo para fazer as mesmas coisas. Tudo é possível com disciplina." A televisão? Virou objeto de decora­ção em casa. "Assistir à tevê é a prova da falta do que fazer. Com este tempo, a gente faz esporte."

• Da farda ao consultório

Como soldado do Exército, ele integrava a escolta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas Forças Armadas desde os 19 anos, fazia parte de um pelotão de investigação criminal que prestava serviços às autoridades que vinham a São Paulo. Tudo caminha­va para que o paulista Cleber Soares se consolidasse na carreira militar, até que conheceu a futura esposa, que o influenciou a cursar odontologia para trabalhar com ela numa clínica própria. Como os dois projetos eram incompatíveis, ele largou o Exército aos 27 anos para começar o novo curso. "As Forças Armadas - ajudam muito na formação moral do ser humano, mas a rotina cansa", diz Soares, atualmente com 33 anos. Ele também ficava preocupado com o futuro. "Na vida militar, além do expediente normal de trabalho, que inclui os finais de semana, existem os serviços extras. Queria ter mais tempo, construir uma família e ter mais dinheiro no futuro", explica. Depois de formado dentista, Soares decidiu dar outra guinada e preferiu se dedicar à clínica que montou com a mulher. "Há poucos profissionais na área que têm perfil empreendedor", afirma. O casal montou a Sorridents, uma rede de clínicas odontológicas. "Não havia nenhuma certeza de que a mudança que fiz fosse dar certo, mas arrisquei e funcionou", diz o próspero empresário.

• A mulher de diplomata que virou mãe de santo

A atribulada vida de mulher de diplomata trouxe Gisele Bion ao Brasil em 1959. Além dos salões acarpetados, a francesa doutora em letras pela Sorbonne foi visitar um terreiro de candomblé na Baixada Fluminense. Após oito anos viajando pela África, queria ver os rituais brasileiros de inspiração afro. A visita redefiniu a vida de Gisele. Ao som dos atabaques e diante da dança ancestral, ela entrou em transe. "Senti um frio na espinha e fui ao chão", recorda. Intrigada, por muito tempo viveu um misto de temor e atração. Ao fim, rendeu-se e iniciou-se no candomblé. Nos anos seguintes, voltou para a França, separou-se do marido, deixou seus pais cuidando dos dois filhos e decidiu retomar ao Brasil. Em 1972, abriu um terreiro em Duque de Caxias (RJ), onde vive até hoje, aos 86 anos. "Decidi ser dona da minha vida", diz. "Não queria mais a rotina triste e sem graça da França." Não foi uma decisão fácil. Trocar Paris pelo Rio, a carreira de doutora em letras pela de mãe de santo, a rotina sofisticada de embaixadas pelo subúrbio carioca, nada disso foi feito sem medo. "Não há um caminho único. É preciso levar em conta as circunstâncias de cada um", afirma ela. Com a separação, resolveu fazer o que seu coração mandava. "Não é fácil uma virada assim, principalmente para as mulheres, que ainda se dedicam ao lar, aos filhos e ao marido."

• Duas guinadas para dar certo

Cansado de sua função de metatúrgio na empresa Cosigua, Rodolfo Lima resolveu realizar o sonho de abrir o próprio negócio em 1989. Pediu demissão, juntou as economias e comprou um bar. "Foi a pior coisa. Desenvolvi alcoolismo, acabei com o negócio e com meu casamento", recorda. O que poderia ter sido a grande virada terminou em decepção. Certa vez, alcoolizado, torceu o joelho e procurou ajuda na acupuntura. Deu tão certo - curou­-se até do vício - que ele decidiu fazer um curso de terapias corporais, que engloba acupuntura, do-in e outras técnicas. Gostou, fez empréstimos bancários e deu uma nova chance ao seu lado empreendedor. "Primeiro, comecei a atender pacientes. Depois, a formar terapeutas", conta. HoOje, é dono do Centro de Estudos do Corpo e Terapias Holísticas, que forma 80 alunos por ano, tem
convênio com 13 empresas e dispõe de uma agenda de 2.500 clientes. Dessa trajetória, ele tirou uma lição importante: "Antes de fazer grandes mudanças, é preciso conhecer o novo terreno", diz. Na primeira tentativa, a ansiedade de querer ser dono do próprio nariz o fez passar por cima de precau­ções básicas. Da segunda vez, estudou bastante para ter certeza de que era seu projeto de vida. "Se tivesse desistido no primeiro fracasso, não teria chegado até aqui."

• Herói, que nada

A vida de Marcelo Vieira parecia um filme de aventura. Aos 26 anos, o paulista, oficial do Exército desde os 19, se tornou comandante e instrutor do pelo­ tão que integrou as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti. Suas funções iam desde o treinamento teórico até as instruções dos armamentos militares e explosivos. Naquela mesma época, ele con­cluiu a faculdade de design. Bateu a indecisão: o jovem não sabia qual rumo dar à sua vida. Foi então que Vieira decidiu utilizar como critério aquilo que realmente o fazia feliz - a possibilidade de desenvolver atividades diversíficadas. No Exército, isso não era possível, segun­do ele. "Aquela rotina seria a minha vida para sempre", afirma. O ex-militar, hoje com 28 anos, conta ter ouvido muitas críticas. "As pessoas achavam que eu não deveria abandonar a estabilidade do Exército por um mercado incerto, que oscila com as crises." Mas, como todas as pessoas que têm coragem para dar a virada, ele não deu ouvidos. "Não tenho nenhum arrependimento em relação à minha escolha. Claro que sinto saudades, mas o que eu queria mesmo era inovar." Vieira perce­beu que as apresentações em power point para grandes empresas eram um nicho de mercado na época. "O conhecimento da formulação de estratégias militares me ajudou a desenvolver os projetos na área de tecnologia", diz ele, dono da empresa Meu Estúdio, especializada em apresentações corporativas.

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