Em cada país um tipo de Líder


O populismo, na política, e o paterna­lismo, nas empresas, são uma marca da cultura latino-americana. Para ser um profissional global, é preciso reco­nhecê-Ias e aprender a lidar com eles.

Revista Você S/A - por Eliza Tozzi

Um traço marcante da política brasileira é o populismo. De Ge­túlio Vargas a Lula, diversos líderes ca­íram na tentação de misturar carisma com demagogia, de tomar medidas que são boas para o eleitor, mas ruins para o país. No entanto, essa característica não é só brasileira. Em toda a história da América Latina podemos encontrar
líderes populares e populistas - Hugo Chávez, da Venezuela, éum exemplo recente. Juan Perón, na Argentina, um exemplo clássico. O que isso tem a ver com carreira global? Tudo. No mundo das empresas, o populismo assume outro nome: paternalismo. A forma de funcionamento é a mesma. O líder paternalista toma decisões que beneficiam a equipe, para conquistar lealdade, mesmo sabendo que essas medidas podem prejudicaras resulta­dos da companhia no futuro. Devido a uma maior profissionalização dos negócios, esse tipo de liderança tem hoje formas mais amenas, mas ainda se faz presente nas organizações bra­sileiras. Reconhecer essa característica é fundamental para um brasileiro que pretende fazer carreira global. A cada cultura que aparecer em seu caminho, inconscientemente, esse profissional poderá reagir de maneira diferente, mas sempre a partir de sua formação original, que tende a ser paternalista.

Esse raciocínio vale para quem vai trabalhar fora, para quem vai liderar equipes de estrangeiros e para quem tem chefes em outros países: Quem não compreende sua própria cultura e não pratica essa reflexão se arrisca a fazer leitura errada de um ambiente globalizado e pode acabar por não se integrar a uma cultura corporativa diferente. O professor Alfredo Behrens, da Fundação Instituto de Adminis­tração (FIA), de São Paulo, percebeu essa insatisfação entre seus alunos deMBA internacional: "Muitos me diziam que estavam frustrados com seus chefes estrangeiros".

Para entender o porquê desse de­sagrado e mapear o estilo de lide­rança preferido em cada cultura, o professor realizou uma pesquisa com 147 alunos, 73 brasileiros e 74 estrangeiros. A metodologia do es­tudo foi inusitada. O professor Alfre­do pediu para que os participantes assistissem a seis vídeos com os discursos de diferentes líderes de empresas nacionais e internacionais. Durante a sessão os alunos tiveram de listar adjetivos para definir cada gestor e associá-Ios com os seguintes animais: coruja, águia, leão, vaca, urubu e castor. O chefe preferido por 66% dos alunos estrangeiros e por 51% dos brasileiros foi o coruja: um tipo cujas caracte­rísticas são calma, confiança, profis­sionalismo e inteligência. "Esses são atributos básicos para uma liderança em qualquer parte do mundo", diz a coach executiva Ada Maria de Assis. O que surpreendeu o pesquisador foi constatar que 31% dos brasileiros, apesar de quererem um chefe coruja para si, acreditam que seus colegas se entenderiam melhor com um líder vaca, superprotetor e tipicamente paternalista. "É um traço cultural muito forte", diz Ada.

O alemão Frank Lies­ner, de 35 anos, que chegou ao país em 2008 para se tornar diretor financeiro para o Mercosul da Henkel, fabricante das colas Dure­poxi e Pritt, precisou se adaptar a esse estilo paternal de gestão. Acos­tumado com o jeito germânico de liderança, frio e assertivo, Frank teve de se ajustar às necessidades de sua equipe brasileira: "Tomei aulas de cultura local e aprendi que para enga­jar uma equipe eu precisava ser mais caloroso e protetor", diz o executivo. Essa adaptação vale também para os brasileiros que vão assumir posições de chefia lá fora - prática cada vez mais comum. "O Brasil já é referência internacional", diz o professor Sher­ban Leonardo Cretoiu, diretor de projetos de internacionalização na Fundação Dom Cabral (FDC). O Bra­sil influencia ainda mais a maneira de fazer negócios na América Latina, região na qual estão presentes 53% das transnacionais brasileiras, de acordo com Ranking da FDC.

Teoricamente, como a cultura pa­ternalista está presente em todos os países da região, a adaptação de profissionais brasileiros seria mais tranquila. No entanto, segundo outra pesquisa, ainda em fase de conclu­são, também de Alfredo Behrens, da FIA, apesar da proximidade geográ­fica, os brasileiros têm dificuldade de assumir posições de liderança em países latinos. "Os brasileiros são muito ignorantes sobre a his­tória e a geografia da região", diz o professor. Isso é fácil de consertar. O pesquisador dá a dica: "Ler literatura e estudar assuntos que fujam do seu cotidiano de trabalho". Quem vai morar no exterior deve evitar formar as famosas panelinhas com brasilei­ros. É a partir da convivência com os nativos que um profissional entende uma cultura. "Essa vivência é crucial para a gestão competente de pessoas e negócios", diz Lucas Copelli, diretor da consultoria Vallua. O argentino Sebastian Garay, de 38 anos, diretor de supply da fabricante de alimentos Mars Brasil, levou a lição a sério: ele formou um grupo de colegas brasi­leiros que o ajudaram a entender o tal jeitinho. "Aprendi como os brasi­leiros funcionam", diz.Tome cuidado ao mergulhar numa nova cultura. "O ideal é agregar conhecimentos sem abandonar a cultura natal", diz a coach Ada Maria de Assis.

• Liderança animal

O estilo de gestão de um chefe determina o nivel de felicidade de um profissional no trabalho. Conheça os tipos mais comuns e veja qual estilo os brasileiros preferem.

Existe uma relação e entre liderança e cultura nacional. Se você trabalha com um chefe nascido no mesmo país que você, exis­te uma série de códigos so­ciais que são compartilha­dos. Um líder de outro país, que tem uma cultura dife­rente, reage de forma di­versa da sua diante de de­terminadas situações. Um chefe brasileiro, por exemplo, tende a ser mais flexível com um problema de atraso do que um estrangeiro. Isso porque a pontualidade, não é uma coisa tão rigoro­sa por aqui. Já um estrangeiro pode ficar possesso com um atraso de 10 minutos. Uma pesquisa do professor Alfredo Behrens, da FIA, mostrou com que ti­po de chefe brasileiros e estrangeiros preferem traba­lhar. Os brasileiros, aponta o estudo, preferem o líder pa­temalista. Mas isso não é um defeito: significa apenas que eles tendem a ser mais produtivos sob esse estilo - e fique atento para se adaptar ao estilo de chefes gringos.

- Chefe águia

Estilo de liderança: Durão, exigente e perspi­caz. Frio, às vezes. Com senso de justiça apurado, e adepto da meritocracia. 
Prncipal característica: Grandiosidade. 
Conclusão: Imagem idealizada do grande líder, faz sucesso entre brasileiros. Na vida real, são raros. Associado a americanos.

- Chefe leão

Estilo de liderança: Líder severo, que exige respeito à hierarquia e precisa ter uma equipe focada. Cobra muito de seus subordinados e dá pouco em troca. 
Principal característica: Rigidez. 
Conclusão: Modelo que já fez sucesso, mas hoje é rejeitado tanto por brasilei­ros quanto por estrangeiros.

- Chefe castor

Estilo de liderança: Transparente, dócil, con­fiável e trabalhador. Mesmo assim, não inspira a equipe, que o considera previsível. 
Princial característica: Previsibilidade. 
Conclusão: Um grupo pequeno de executivos admira esse estilo. Mas a falta de carisma mina a popularidade desse tipo de líder.

- Chefe urubu

Estilo de liderança: E altamente individua­lista e só transmite des­confiança. Isso mantém os subordinados a quilô­metros de distância.
Prnicipal característica: Corrupção. 
Conclusão: Repudiado por estrangeiros, 5% dos brasileiros afirmam querer trabalhar com um urubu.

- Chefe vaca

Estilo de liderança: É o símbolo do paternalismo. Ser popular e manter-se no poder importa mais que os resultados em si.
Principal característica: Compaixão.
Conclusão: Faz sucesso entre os brasileiros e os latinos-maericanos. Mas é incompreendido pelos estrangeiros.

- Chefe coruja

Estilo de liderança: É equilibrado, seguro e admirado devido a sua inteligência apurada.
Principal característica: Sabedoria.
Conclusão: Tipo mais positivo, é comum lá fora. O brasileiro o respeita, mas desconfia que ele não fará tanto sucesso entre os seus conterâneos.

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