Emoção, a outra Inteligência


Mais de uma década depois do lançamento do best-seller do psicólogo americano Daniel Goleman, cientistas garantem que é possível medir o quociente emocional - conjunto de habilidades costuma ser útil para o convívio social.

Revista Scientific American - por Daisy Grewal e Peter Salovey

Ao longo da última década quase todas as pessoas ouviram, em algum momento, o termo "inteligência emocional". Apresentado como novo conceito, tornou-se tema de vários livros (e até best-seller) e de uma infinidade de discussões em programas de televisão e seminários em escolas e empresas. Apesar (ou talvez por causa) da grande proeminência que alcançou, o conceito atraiu inúmeras críticas no meio científico. Parte da controvérsia tem origem na divergência entre as definições popular e científica desse conjunto de habilidades. Além disso, não tem sido tarefa fácil quantificar inteligência emocional. Apesar dessas dificuldades, as pesquisas nessa área têm se mantido - e se mostrado promissoras como uma linha consistente de investigação. A novidade é que o quociente emocional (QE) pode ser, de fato, quantificado, e fazê-lo talvez nos ajude a compreender melhor o papel das emoções em nossa vida.

Mais de dez anos depois de uma capa da revista Time que perguntava, provocativamente, "Qual é o seu QE?" e do lançamento do best-seller escrito por Daniel Goleman (no Brasil foi publicado pela Objetiva e teve 360 mil exemplares vendidos, segundo a assessoria de imprensa da editora), parece sensato avaliar o que de fato a ciência sabe. Na história da psicologia moderna, o termo "inteligência emocional" expressa um estágio na evolução do pensamento humano e sinaliza uma importante expansão de novas teorias da inteligência. Um trabalho nessa área produziu um modelo de inteligência emocional denominado quadrifatorial que serve de guia para pesquisas empíricas.

  • Sentimentos irracionais

    Os filósofos discutem a relação entre pensamento e emoções há pelo menos dois milênios. Os estóicos da Grécia e Roma antigas acreditavam que a emoção podia ser demasiado imprevisível para ter alguma serventia para o pensamento racional. Em sua opinião, a expressão dos sentimentos estava fortemente associada à natureza feminina e, portanto, era representativa de aspectos frágeis e inferiores da humanidade. O estereótipo de mulheres como "mais emotivas" ainda persiste. Embora diversos movimentos românticos tenham valorizado a capacidade de reconhecer os sentimentos de si e dos outros, o ponto de vista estóico de que os sentimentos são sinal de fragilidade persistiu durante boa parte do século XX.

    Mas muitas noções foram derrubadas durante o rápido desenvolvimento da psicologia moderna nos últimos 100 anos. Ao prepararem o palco para uma nova maneira de pensar as emoções e o pensamento, os psicólogos articularam definições mais amplas de inteligência e também novas perspectivas sobre a relação entre sentimento e pensamento. Já a partir dos anos 30, o psicometrista Robert Thorndike mencionou a possibilidade de que as pessoas pudessem ter "inteligência social" - uma habilidade de perceber estados internos, motivações e comportamentos de si próprio e dos outros e de agir de acordo com essa percepção.

    Em 1934, o psicólogo David Wechsler, que desenvolveu dois testes de inteligência bastante utilizados atualmente, escreveu sobre os aspectos "não-intelectivos" que contribuem para a inteligência global. Na época em que foram feitas, as afirmações de Thorndike e de Wechsler, contudo, eram especulações. Mesmo que a inteligência social parecesse uma possibilidade bastante aceitável, Thorndike reconheceu que havia poucas evidências científicas dessa habilidade. Lee Cronbach, especialista em psicometria (campo da psicologia que se ocupa de mensurações), chegou a uma conclusão semelhante e, em 1960, declarou que, depois de meio século de especulações, a inteligência social continuava "indefinida e não-quantificada"

    Mas os anos 80 trouxeram uma nova onda de interesse pela ampliação da definição de inteligência. Em 1983, o professor Howard Gardner, da Universidade Harvard, tornou-se famoso da noite para o dia ao traçar em linhas gerais as sete formas de inteligência, no livro Estruturas da mente. Gardner propôs uma "inteligência intrapessoal" bem similar à atual conceituação de inteligência emocional. "A capacidade central em funcionamento à qual me refiro é aquela que dá à pessoa acesso a sua própria vida de sentimentos - uma gama de afetos ou emoções dela mesma; a habilidade de, instantaneamente, fazer discriminações entre sentimentos e, no final, classificá-los, urdi-los em códigos simbólicos e confiar neles como meio de compreender e guiar o próprio comportamento".

    Seria, então, a inteligência emocional simplesmente um novo nome da inteligência social e de outras inteligências já definidas? Sem dúvida, ela pode ser vista como um tipo de inteligência social, mas preferimos nos concentrar explicitamente no processamento de emoções e conhecimento sobre as informações relacionadas à emoção e sugerir que isso constitui uma forma própria de habilidade. A definição de inteligência social é bem ampla e, em parte por este motivo, as aptidões envolvidas permaneceram elusivas aos cientistas.

    Inteligência emocional é um conceito mais específico. Lidar com o que sentimos certamente tem importantes implicações para as relações sociais, mas as emo&cc cedil;ões também contribuem para outros aspectos da vida. Cada um de nós tem necessidade de definir prioridades, orientar-se positivamente para futuros empreendimentos e corrigir humores negativos antes que entremos numa espiral de ansiedade e depressão. O conceito de inteligência emocional isola um conjunto específico de aptidões embutidas nas habilidades que são geralmente abarcadas pela noção de inteligência social.

    Novas interpretações da relação entre pensamento e emoção fortaleceram a base científica do estudo da inteligência emocional. Utilizando uma simples tarefa de tomada de decisões, o neurologista Antonio R. Damásio e colegas da Universidade de Iowa oferecem evidências convincentes de que emoção e razão são essencialmente inseparáveis. Ao tomarem decisões, as pessoas frequentemente se concentram nos prós e contras lógicos das questões que enfrentam. Entretanto, Damásio mostrou que não levar em conta os sentimentos prejudica nossas decisões.

    No início dos anos 90, Damásio teve a colaboração de voluntários em um teste que se tornou famoso no meio científico: tratava-se de um jogo no qual a meta é obter o máximo possível de lucros sobre determinada quantia de dinheiro (de mentira). Os participantes foram instruídos a escolher 100 cartas, uma de cada vez, de quatro baralhos diferentes. O pesquisador organizou as lâminas de tal maneira que dois dos baralhos forneciam recompensas maiores (US$ 100 contra apenas US$ 50), mas também exigia o pagamento de multas de alto valor a intervalos imprevisíveis. Os jogadores que escolhessem os baralhos de maior ganho e maior risco perdiam o valor líquido de US$ 250 a cada dez cartas; aqueles que optassem pelos baralhos de US$ 50 ganhariam, líquido, US$ 250 a cada dezena de jogadas.

    Alguns dos participantes do estudo foram identificados como portadores de lesões no córtex pré-frontal ventromedial. Pacientes com este tipo de lesão cerebral têm função intelectual normal, mas são incapazes de usar a emoção na tomada de decisões. O outro grupo tinha cérebro intacto. Já que não havia nenhuma maneira de os jogadores calcularem com precisão quais baralhos eram mais arriscados, eles teriam de confiar nas próprias sensações para evitar perder dinheiro.

    A pesquisa de Damásio demonstrou que os pacientes com lesão cerebral não deram atenção a essas percepções - chamadas por ele de marcadores somáticos - e, consequentemente, perderam muito mais dinheiro que os voluntários saudáveis. Ou seja: disfunções cerebrais que afetam a emoção e a detecção de sentimentos podem comprometer significativamente a tomada de decisões. Damásio concluiu que "indivíduos fazem julgamentos não apenas com base na avaliação da gravidade dos desfechos, mas também e primordialmente, relevam a qualidade emocional das situações". O experimento demonstra que sentimentos e processos de reflexão estão intimamente conectados. Quaisquer que sejam as noções que tiramos das nossas heranças estóicas e cartesianas, a separação entre racionalidade e emoção não é necessariamente mais adaptativa e pode, em alguns casos, levar a consequências desastrosas.

    • A popularização do conceito, para o bem ou para o mal

    Em apenas alguns anos, o que começou como uma área obscura da psicologia floresceu e se transformou numa indústria multimilionária que comercializa livros, DVDs, seminários e programas de treinamento. Apesar da popularização focada na auto-ajuda e das distorções que o termo inteligência emocional (ou QE, como insistem alguns) tem sofrido, esse "recurso humano" parece ser bem mais que uma moda passageira. Muitas pessoas agora equiparam a inteligência emocional a quase tudo desejável na constituição de uma pessoa que não pode ser medida por um teste de QI, como caráter, motivação, confiança, flexibilidade, estabilidade mental e otimismo. As pesquisas mostram que aptidões emocionais podem contribuir para algumas dessas qualidades, mas a maioria delas vai muito além da inteligência emocional baseada em aptidão. Preferimos definir inteligência emocional como um conjunto específico de aptidões que podem ser usadas para fins pró ou anti-sociais. A habilidade de perceber com precisão como os outros estão se sentindo pode ser usada por um terapeuta para aferir como melhor ajudar os pacientes, enquanto um escroque poderia usá-la para manipular vítimas potenciais. Ser emocionalmente inteligente não torna uma pessoa necessariamente ética.

    • Dos testes de laboratório para a vida real

    Pesquisas sobre inteligência emocional foram colocadas em prática numa velocidade fora do comum. O motivo pode ser simples: os experimentos sugerem que pontuações nessa área estão associadas a várias aplicações importantes da vida real. Por exemplo, pode ajudar uma pessoa a ter bom relacionamento com colegas e figuras de autoridade no trabalho. O doutor em psicologia Paulo Nuno Lopes, professor da Universidade de Surrey no Reino Unido, dirigiu um estudo realizado em uma grande companhia de seguros, na qual os funcionários trabalhavam em equipe. Ele pediu a cada pessoa que avaliasse as reações emocionais dos colegas, considerando afirmações do tipo: "Esta pessoa lida com situações de grande tensão sem perder o controle" ou "ele/ela está ciente dos sentimentos dos outros".

    Todos que participaram do estudo também fizeram o MSCEIT. Embora a amostra de participantes tenha sido pequena, os funcionários que tiveram pontuações maiores no MSCEIT receberam avaliações mais positivas - tanto dos colegas quanto dos supervisores. Os participantes ressaltaram que essas pessoas ajudavam a criar uma atmosfera positiva no trabalho. Os supervisores avaliaram os funcionários emocionalmente inteligentes como mais sensíveis, sociáveis, tolerantes à tensão e com potencial de liderança.

    O psicólogo Marc Brackett, um dos diretores do Laboratório de Comportamento, Saúde e Emoções da Universidade Yale, também investigou como as pontuações no MSCEIT se relacionam com a qualidade das relações sociais entre universitários. Estudantes americanos completaram o MSCEIT juntamente com questionários que avaliam a qualidade de suas amizades e aptidões interpessoais. Foi pedido a eles que recrutassem dois amigos para avaliar a qualidade de sua amizade. Indivíduos com pontuações altas no controle de emoções foram avaliados pelos pares como pessoas mais afetuosas, capazes de oferecer apoio emocional sempre iar uma atmosfera positiva no trabalho. Os supervisores avaliaram os funcionários emocionalmente inteligentes como mais sensíveis, sociáveis, tolerantes à tensão e com potencial de liderança.

    O psicólogo Marc Brackett, um dos diretores do Laboratório de Comportamento, Saúde e Emoções da Universidade Yale, também investigou como as pontuações no MSCEIT se relacionam com a qualidade das relações sociais entre universitários. Estudantes americanos completaram o MSCEIT juntamente com questionários que avaliam a qualidade de suas amizades e aptidões interpessoais. Foi pedido a eles que recrutassem dois amigos para avaliar a qualidade de sua amizade. Indivíduos com pontuações altas no controle de emoções foram avaliados pelos pares como pessoas mais afetuosas, capazes de oferecer apoio emocional sempre que necessário.

    Em outro estudo recente de Nicole Lerner e Brackett, estudantes de Yale com pontuações mais altas em inteligência emocional foram avaliados mais positivamente por seus colegas de quarto; ou seja, seus companheiros tinham poucos conflitos com eles.

    A inteligência emocional também ajuda as pessoas a conduzir bem as relações com cônjuges e parceiros românticos. Recentemente, uma pesquisa coordenada por Brackett recrutou em Londres 180 jovens casais (com 25 anos, em média). Os casais completaram o MSCEIT e responderam a diversos questionários sobre aspectos do relacionamento entre os parceiros - como o quanto se sentiam íntimos do namorado(a) e o quanto estavam felizes com a relação. A felicidade foi correlacionada com pontuações altas dos dois parceiros e, nos casos em que um deles tinha uma pontuação alta e o outro, baixa, as avaliações de satisfação tenderam a cair na faixa intermediária.

  • As quatro ramificações

    No fim dos anos 70, psicólogos examinaram vários tópicos na interface do sentir e pensar, aparentemente sem relação entre si, o efeito da depressão na memória, a percepção de emoção nas expressões faciais, a importância funcional da regulação e a expressão de sentimentos. Inteligência emocional foi um dos conceitos que emergiram desse trabalho. Ele integra muitos dos resultados em um conjunto relacionado de capacidades que podem ser quantificadas e diferenciadas da personalidade e das aptidões sociais; na psicologia, pode ser definida como inteligência porque é um aspecto mensurável da habilidade do indivíduo de pensar de forma abstrata, aprender e se adaptar ao ambiente.

    Interessados em desenvolver uma teoria que organizasse as inúmeras tentativas de descobrir diferenças individuais nos processos relacionados à emoção, Salovey e Mayer propuseram um modelo de quatro ramificações para a inteligência emocional que enfatizou quatro aptidões relacionadas entre si: 1) perceber emoções com precisão; 2) usar as informações obtidas para facilitar o raciocínio; 3) compreender expressões emocionais não-verbais; 4) controlar emoções em si próprias e ajudar outras pessoas a fazê-lo. Esse modelo admite que os indivíduos diferem na maneira de utilizar cada uma dessas aptidões.

    O primeiro domínio da inteligência emocional, percepção das emoções, inclui habilidades envolvidas na identificação de sentimentos nas expressões faciais, nuances de voz, imagens e outros estímulos. Por exemplo: em geral, o indivíduo que sobressai na percepção de emoções vislumbra de imediato quando uma pessoa próxima está triste.

  • Ler rostos

    Poderíamos considerar esta aptidão como uma das mais básicas envolvidas na inteligência emocional, capaz de tomar possíveis todos os outros processamentos nesse campo. Além disso, "ler rostos" é um dos atributos que os seres humanos têm em comum em todas as culturas. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade da Califórnia em São Francisco, mostrou fotos de americanos expressando diferentes emoções a um grupo de papuásios isolados da Nova Guiné. Ele constatou que as pessoas reconheciam com razoável precisão quais emoções eram expressas nas fotografias, apesar de nunca terem conhecido um americano e terem sido criados numa cultura tão diferente.

    Mas a percepção de emoções realmente varia entre os indivíduos. Um estudo do psicólogo Seth D. Pollak, da Universidade de Wisconsin-Madison, em 2000, por exemplo, demonstrou que abuso físico poderia interferir na habilidade de crianças de perceber as expressões faciais. Um grupo de pesquisadores coordenado por Pollak convidou meninos e meninas, de 8 a 10 anos, vítimas e não-vítimas de abuso, para brincar com "jogos de computador". Foram mostrados a elas rostos modificados com recursos digitais que exibiam expressões que variavam de alegre a temerosa, de alegre a triste, de irritada a temerosa e de irritada a triste. Numa das sequências foi mostrada às crianças uma única foto e pedido que identificassem qual emoção expressava. Já que todos os rostos exprimiam graus variados de uma dada emoção, os investigadores puderam observar como as crianças percebiam diferentes expressões faciais. Vítimas de abuso se mostravam propensas a classificar um rosto como irritado quando este exibia apenas um ligeiro grau de irritação.

    Pollak também mediu a atividade cerebral dos pequenos voluntários enquanto eles realizavam a tarefa, utilizando eletrodos conectados ao couro cabeludo. As vítimas de abuso exibiram atividade cerebral mais intensa quando viam um rosto irritado. A pesquisa mostra que experiências de vida podem moldar drasticamente o reconhecimento de expressões faciais. Podemos especular que essa diferença na probabilidade de perceber irritação pode ter consequências importantes para as interações sociais e afetivas.

  • De bom humor

    A segunda ramificação da inteligência emocional, o uso das emoções, é a habilidade de empregar as informações emocionais para facilitar outras atividades cognitivas. Certos humores podem criar estados de espírito mais adequados a certos tipos de tarefas. Num experimento engenhoso feito nos anos 80, Alice Isen, da Universidade Cornell, descobriu que bom humor ajuda as pessoas a gerar soluções mais criativas para os problemas. Isen levou estudantes de graduação ao laboratório e induziu um humor positivo (com a exibição de trechos de comédia) ou um humor neutro (mostrando-lhes um trecho de um documentário sobre matemática).

    Depois de

    • Oratória

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